Isaac Asimov
A Fundação e a Terra

À memória de Judy-Lynn del Rey (1943–1986), uma gigante de mente e espírito.

PARTE UM
GAIA

Capítulo 1
Começa a Busca

1

— Por que fiz isso? — perguntou Golan Trevize.

Não era uma pergunta nova. Desde sua chegada a Gaia, ele a fazia frequentemente a si mesmo. Às vezes, acordava de um sono profundo no frescor agradável da noite e encontrava a pergunta ressoando no fundo de sua mente, como um leve toque de tambor: Por que fiz isso? Por que fiz isso?

Agora, porém, pela primeira vez, estava fazendo a mesma pergunta a Dom, o patriarca de Gaia.

Dom podia sentir muito bem a tensão que estava por trás das palavras de Trevize, já que as emoções do conselheiro não tinham segredos para ele. Entretanto, manteve-se impassível. Gaia não devia, de forma alguma, intrometer-se nos pensamentos de Trevize, e a melhor forma de evitar a tentação era ignorar teimosamente o que ele sentia.

— Fez o quê, Trev? — perguntou.

Achava difícil usar mais de uma sílaba ao dirigir-se a uma pessoa. Trevize já estava quase se acostumando.

— A decisão que tomei — explicou Trevize. — Escolhendo Gaia como o futuro.

— Você tomou a decisão acertada — disse Dom, sentado, os olhos velhos e profundos encarando o homem da Fundação, que estava de pé.

— Isso é o que você pensa — disse Trevize, com impaciência.

— Eu/nós/Gaia sabemos que você está certo. É por isso que vale tanto para nós. Você tem a capacidade de tomar decisões corretas com base em dados incompletos, e você tomou uma decisão. Escolheu Gaia! Recusou tanto a anarquia de um Império Galáctico baseado na tecnologia da Primeira Fundação como a anarquia de um Império Galáctico baseado nos poderes mentais da Segunda Fundação. Você chegou à conclusão de que nenhum dos dois Impérios seria estável por muito tempo. Por isso, escolheu Gaia.

— Isso mesmo — concordou Trevize. — Exatamente! Escolhi Gaia, um superorganismo, um planeta inteiro com um único pensamento e uma única personalidade, de modo que foi preciso inventar o pronome “Eu/nós/Gaia” para expressar o inexprimível. — Começou a andar nervosamente de um lado para outro. — Um dia, Gaia se tornará a Galáxia, um supersuperorganismo que será composto por todos os planetas habitados da Via Láctea.

Trevize parou, voltou-se para Dom e disse, de forma quase agressiva:

— Sinto que estou certo e você sente também, mas você quer que a Galáxia se torne uma realidade, de modo que está satisfeito com a decisão. Por outro lado, há algo em mim que não quer que isso aconteça, e portanto não estou preparado para aceitar esta escolha com tanta facilidade. Quero saber por que tomei a decisão que tomei. Quero examinar de novo meus motivos até convencer-me de que são razoáveis. Para mim, não basta “sentir” que estou certo. Como posso ter certeza de que não cometi um erro? Que é que garante que tomei a decisão correta?

― Eu/nós/Gaia não sabemos por que você sempre chega à decisão mais acertada. Isto é importante, contanto que a decisão seja tomada?

― Você está falando em nome de todo o planeta, não está? Em nome da consciência comum de todas as gotas de orvalho, de todas as pedras, até mesmo do núcleo de metal fundido de Gaia?

— Sim, e o mesmo poderia fazer qualquer parte do planeta na qual a intensidade da consciência comum fosse suficientemente forte.

— Toda essa consciência comum está satisfeita em me usar como se eu fosse uma caixa preta? Enquanto a caixa preta estiver funcionando, não interessa o que existe em seu interior? Pois isso não me agrada. Não gosto de ser uma caixa preta. Quero saber o que há dentro de mim. Quero saber como e por que escolhi Gaia e a Galáxia para o futuro. Só assim ficarei em paz comigo mesmo.

— Por que encara sua própria decisão com tanta desconfiança?

Trevize deu um profundo suspiro e respondeu devagar, em tom incisivo:

— Por que não quero ser parte de um superorganismo. Não quero ser um apêndice insignificante, pronto para ser jogado fora assim que o superorganismo achar que não sou mais necessário.

Dom olhou pensativamente para Trevize.

— Então quer mudar a decisão, Trev? Ainda é tempo, você sabe.

— Gostaria de mudar a decisão, mas não posso fazer isso apenas porque ela não me agrada. Para fazer alguma coisa, tenho que saber se tomei ou não a decisão acertada. Não basta sentir que estou certo.

— Se você sente que está certo, então está certo.

Sempre aquela voz suave, controlada, que às vezes deixava Trevize ainda mais agitado, tamanho era o contraste com o torvelinho de suas próprias ideias.

Foi então que Trevize declarou, quase num sussurro, quebrando afinal o equilíbrio instável entre o sentir e o saber:

— Preciso encontrar a Terra.

— Porque tem algo a ver com a sua necessidade incontrolável de adquirir novos conhecimentos?

— Porque é outro problema que me preocupa muito e porque sinto que existe alguma relação entre as duas questões. Não sou uma caixa preta? Pois eu sinto que existe uma ligação. Isso não é suficiente para convencê-lo de que a ligação existe?

— Talvez — afirmou Dom, em tom impessoal.

— Mesmo que tenham se passado milhares de anos, vinte mil, talvez, desde que os povos da Galáxia mantiveram o último contato com a Terra, como é possível que tenhamos todos esquecido o nosso planeta de origem?

— Vinte mil anos é mais tempo do que você imagina. Os conheci-incnlos de que dispomos a respeito dos primórdios do Império são ex-iianamente escassos; existem muitas lendas que provavelmente não contêm nem um pingo de verdade, mas que continuamos repetindo, ou mesmo aceitando como verdadeiras, por falta de um substituto razoável. Pois a Terra é ainda mais antiga que o Império.

― É impossível que não tenha restado nenhum documento. Meu bom amigo, Pelorat, coleciona mitos e lendas a respeito da Terra; tudo o que consegue obter. É seu trabalho e, mais importante ainda, seu passa-tempo favorito. Pois esses mitos e lendas são tudo o que existe. Jamais en-controu um único registro, um único documento a respeito da Terra!

― Documentos de vinte mil anos atrás? As coisas apodrecem, se desfazem, são destruídas pelo abandono e pela guerra.

— Pelo menos, teria que haver registros dos registros; cópias, cópias das cópias e cópias das cópias das cópias; obras escritas há muito menos tempo que vinte milênios. Essas obras foram deliberadamente removidas. A Biblioteca Galáctica, em Trantor, devia ter muitos documentos a respeito da Terra. Eles chegam a ser mencionados em alguns registros históricos, mas não podem ser encontrados na Biblioteca. Simplesmente desapareceram.

— Não se esqueça de que Trantor foi saqueada há alguns séculos.

— Sim, mas a Biblioteca permaneceu intacta. Ela foi protegida pelos membros da Segunda Fundação. Foi a própria Segunda Fundação que descobriu recentemente que as obras que tratam da Terra estão faltando. Os documentos foram removidos de propósito, em época relativamente recente. Por quê? — Trevize parou de andar e olhou fixamente para Dom. — Se eu encontrar a Terra, descobrirei o que esconde...

— O que esconde?

— O que esconde ou o que nela foi escondido. Quando eu descobrir isso, tenho o pressentimento de que saberei por que escolhi Gaia e a Galáxia, mesmo sacrificando a nossa individualidade. Então poderei saber, e não apenas sentir, que tomei a decisão correta. Nesse caso — concluiu, com ar resignado — não haverá mais nada a fazer.

— Se você pensa que é assim — disse Dom — e se acha que deve sair à procura da Terra, é claro que vamos ajudá-lo no que for possível. Essa ajuda, no entanto, é limitada. Por exemplo: eu/nós/Gaia não sabemos como encontrar a Terra no meio dos milhões e milhões de planetas que constituem a Galáxia.

— Mesmo assim — insistiu Trevize — preciso procurá-la. Mesmo que as dimensões da Galáxia tornem a tarefa aparentemente impossível e mesmo que eu tenha de executá-la sozinho.

2

Trevize estava cercado pelo conforto de Gaia. A temperatura, como sempre, era agradável, e havia uma brisa fresca no ar. Nuvens brancas cruzavam o céu, interrompendo de vez em quando os raios do sol. Se a umidade caísse abaixo de um certo nível, certamente uma chuva providencial se encarregaria de corrigir a situação.

As árvores cresciam a intervalos regulares, como em um pomar, o que sem dúvida não ocorria apenas ali, mas em todo o planeta. A terra e o mar sustentavam animais e plantas em números apropriados e com a variedade adequada para manter o equilíbrio ecológico; o número de indivíduos de cada espécie só aumentava ou diminuía muito lentamente, e sem nunca se afastar muito do número ideal. O mesmo se aplicava aos seres humanos que povoavam o planeta.

De todos os objetos que estavam ao alcance da visão de Trevize, o único que destoava era a sua nave, a Estrela Distante.

Alguns componentes humanos de Gaia tinham se encarregado da limpeza e manutenção da nave, tarefa que haviam executado com muita eficiência. As reservas de comida e bebida tinham sido repostas, o mobiliário reparado ou substituído, as máquinas verificadas. O próprio Trevize se encarregara de testar o computador da nave.

Não havia necessidade de reabastecimento, já que se tratava de uma das poucas naves gravíticas da Fundação, que aproveitava a energia do campo gravitacional da Galáxia, campo esse suficiente para alimentar, sem nenhuma perda mensurável de intensidade, todas as naves que o Homem seria capaz de produzir em todos os milênios de sua exis-lência como espécie.

Há três meses, Trevize era um conselheiro de Terminus. Em ou-iiíis palavras, ele era um membro do Poder Legislativo da Fundação, em consequência, uma pessoa muito importante em toda a Galáxia.Há três meses? Para ele, era como se tivesse transcorrido no mínimo metade dos seus 32 anos de vida desde a época em que sua única preocupação era a validade ou não do grande Plano de Seldon, seu único objetivo saber se a rápida escalada da Fundação, de aldeia planetária a soberana da Galáxia, havia sido prevista ou não pelo fundador da psico-história.

Por outro lado, sob alguns aspectos, nada havia mudado. Ele ainda um conselheiro. Sua posição e privilégios continuavam intactos, a não ser pelo fato de que provavelmente jamais retornaria a Terminus para reclamá-los. Não se sentiria melhor no tumulto da Fundação do que na ordem artificial de Gaia. Não tinha mais lar; seria um solitário em qualquer ponto do Universo.

Cerrou os dentes e passou a mão com raiva pelos cabelos negros. Em vez de perder tempo se lamentando, era melhor sair à procura da Terra. Se sobrevivesse à busca, teria tempo para sentar-se e chorar, talvez com razões mais palpáveis.

O rosto assumiu expressão decidida e ele se pôs a recordar...

Três meses antes, ele e Janov Pelorat, aquele cientista competente, porém ingênuo, haviam partido de Terminus. Para Pelorat, a descoberta da Terra representaria o grande triunfo de sua carreira de arqueólogo. Trevize o havia acompanhado, usando a motivação do outro para esconder o que pensava ser seu próprio objetivo. Não haviam encontrado a Terra, mas haviam encontrado Gaia. Trevize fora então forçado a tomar a decisão que tanto o atormentava.

Agora era ele, Trevize, que havia mudado de ideia e estava prestes a sair em busca da Terra.

Quanto a Pelorat, ele também tinha encontrado algo inesperado, na forma da adorável Bliss, a jovem de olhos e cabelos negros que também era Gaia, tanto quanto Dom e todos os outros seres a-nimais, vegetais e minerais do planeta. Pelorat, com o ardor peculiar da meia-idade, se havia apaixonado por uma mulher muito mais moça que ele, e essa mulher, curiosamente, parecia satisfeita com a situação.

Era estranho... entretanto, Pelorat parecia radiante e Trevize pensou, filosoficamente, que cada um tem a sua forma de buscar a felicidade. Nisso consistia a individualidade... a individualidade que Trevize, ao optar por Gaia, havia permitido que fosse abolida (com o passar do tempo) em toda a Galáxia.

A aflição voltou. A decisão que havia tomado, que fora forçado a tomar, continuava a incomodá-lo, a persegui-lo sem...

— Golan!

A voz se intrometeu nos pensamentos de Trevize e ele olhou na direção do sol, com os olhos semicerrados.

― Ah, Janov — disse, com um entusiasmo um pouco exagerado, como que para disfarçar os pensamentos sombrios que lhe corroíam as entranhas. Prosseguiu, em tom jovial: — Estou vendo que conseguiu desgrudar-se de Bliss.

Pelorat assentiu. A brisa suave agitava-lhe os cabelos brancos e sedosos. O rosto não havia perdido o ar solene.

— Na verdade, velho amigo, foi Bliss que sugeriu que eu o procurasse a respeito de... a respeito do que vim discutir com você. Não que eu não estivesse querendo falar com você, é claro. Só que, ao que parece, ela pensa bem mais depressa do que eu.

Trevize sorriu.

— Tudo bem, Janov. Suponho que você veio para se despedir.

— Hum... não, não é bem isso. Na verdade, talvez seja o contrário. Golan, quando partimos de Terminus, meu único objetivo era encontrar a Terra. Dediquei praticamente toda a minha vida adulta a essa tarefa.

― E vou levá-la adiante, Janov. Agora, a tarefa é minha.

— Nem por isso deixou de ser minha, meu amigo.

— Mas... — Trevize levantou os braços, incluindo com um gesto todo o mundo que os cercava.

Pelorat declarou, em tom incisivo:

— Quero ir com você! Trevize estava atônito.

— Não pode estar falando sério, Janov! Agora você tem Gaia!

— Um dia voltarei a Gaia, mas não posso deixar você partir sozinho!

— Claro que pode! Sei tomar conta de mim mesmo!

— Não se ofenda, Golan, mas seus conhecimentos são insuficientes. Quem conhece os mitos e lendas sou eu. Você precisa de mim!

— E Bliss? Vai deixá-la aqui? Não acredito... Pelorat enrubesceu.

— Não é exatamente o que eu quero, amigo, mas ela disse... Trevize fez uma careta.

— Será que está tentando se livrar de você? Bliss me prometeu...

— Não, você não entendeu. Escute-me, por favor, Golan. Você tem essa mania de tirar conclusões antes de ouvir a história completa. É a sua especialidade, eu sei, e talvez eu tenha uma certa dificuldade para me expressar de forma concisa, mas...

— Pois então — disse Trevize, em tom carinhoso — explique-me exatamente, da forma que quiser, quais são as intenções de Bliss. Prometo ser paciente.

— Obrigado. Já que está disposto a ser paciente, posso ir direto ao ponto. Bliss quer ir conosco.

Bliss quer ir também? — exclamou Trevize. — Não, não perdi a calma. Estou perfeitamente calmo. Diga-me uma coisa, Janov, por que Bliss quer ir conosco? Estou perguntando a você com toda da calma.

— Isso ela não explicou. Disse que quer falar com você.

— Então por que não está aqui?

— Acho... eu disse que acho que Bliss pensa que você não gosta (folia, Golan, e por isso hesita em aproximar-se. Já fiz o possível, amigo, para convencê-la de que tudo não passa de um mal-entendido. É Inconcebível que alguém possa não gostar de Bliss. Mesmo assim, preferiu que eu falasse primeiro com você. Posso dizer a ela que está dis-posto a recebê-la, Golan?

— Claro que sim... quando ela quiser.

— Vai ser razoável com ela? Bliss me pareceu muito ansiosa. Disse-me que era muito importante que ela fosse conosco.

— Ela não explicou por quê, explicou?

— Não, mas se acha que deve ir, esta deve ser a opinião de Gaia.

— Em outras palavras, não posso recusar, não é, Janov?

— É, acho que não, Golan.

3

Pela primeira vez em sua breve estada em Gaia, Trevize entrou na casa de Bliss, que no momento também servia de abrigo para Pelorat.

Trevize olhou em torno. Em Gaia, as casas eram muito simples. Como praticamente não havia tempestades, as temperaturas eram moderadas, até mesmo as placas tectônicas escorregavam suavemente umas sob as outras quando tinham que escorregar, não havia necessidade de construir habitações particularmente resistentes ou que fossem capazes de manter um ambiente confortável dentro de um clima hostil. Era como se o planeta inteiro fosse uma casa, construída para abrigar seus habitantes.

A casa que Bliss possuía dentro dessa casa planetária era pequena, as janelas com campos de força em lugar de vidraças, a mobília esparsa e graciosamente utilitária. Havia imagens holográficas nas paredes; uma delas, um retrato de Pelorat com um ar encabulado. Os lábios de Trevize tremeram, mas ele conseguiu conter o riso enquanto fingia ajeitar o cinto.

Bliss observou-o. A jovem não estava sorrindo, como de costume. Tinha um ar muito sério, os olhos negros bem abertos, os longos cabelos sobre os ombros como uma suave ondulação. Apenas os lábios carnudos, com um toque de vermelho, emprestavam um pouco de cor ao rosto pálido.

— Obrigada pela visita, Trev.

— Janov me disse que precisava muito falar comigo, Blisseno-biarella.

— Entendi — observou a moça, com um leve sorriso. — Se me chamar de Bliss, como todo mundo, tentarei dizer seu nome completo, Trevize.

Bliss gaguejou quase imperceptivelmente ao pronunciar a segunda sílaba. Trevize levantou a mão direita.

— Parece-me um acordo justo. Sei que os gaianos estão acostumados a usar apenas as primeiras sílabas dos nomes próprios em suas conversas mentais, de modo que não ficarei ofendido se você me chamar de Trev de vez em quando. Mesmo assim, eu me sentirei mais à vontade se você me chamar de Trevize sempre que se lembrar. Em troca, chamarei você de Bliss.

Trevize estudou-a, como fazia sempre que se encontravam. Como indivíduo, era uma jovem de vinte e poucos anos. Como parte de Gaia, porém, tinha milhares de anos de idade. Isso não lhe afetava a aparência, mas às vezes fazia diferença no modo como falava e na atmosfera que inevitavelmente a cercava.

Bliss falou:

— Vou direto ao ponto. Você me disse que pretendia procurar o planeta Terra...

— Eu disse a Dom — protestou Trevize, disposto a não ceder a Gaia sem uma perpétua insistência em seu ponto de vista.

— Sim, mas ao falar a Dom, estava falando a Gaia e a todas as partes de Gaia, como eu, por exemplo.

— Você me ouviu enquanto eu estava falando?

— Não, porque não estava prestando atenção, mas mais tarde, se quisesse, poderia me lembrar de tudo o que você disse. Por favor, aceite este fato e deixe-me continuar. Você me disse que pretendia procurar o planeta Terra e insistiu em que se tratava de uma missão muito importante para o futuro da Galáxia. Não vejo como a localização da Terra pode ser importante, mas você tem o dom de sempre acertar em seus palpites, de modo que eu/nós/Gaia temos que aceitar essa opinião. Se a missão é essencial para sua decisão com relação a Gaia, é de importância crucial para Gaia e portanto Gaia deve ir com você, quando mais não seja para protegê-lo.

— Quando você diz que Gaia deve ir comigo, está querendo dizer que você deve ir comigo. Certo?

— Eu sou Gaia — disse Bliss, laconicamente.

— Você e todos os outros seres deste planeta. Por que, então, tem que ser você? Por que não escolher outra parte qualquer de Gaia para comigo?

— Porque Pel quer ir com você, e se ele for com você, não ficará satisfeito com nenhuma outra parte de Gaia.

Pelorat, que estava sentado numa cadeira em outro canto da sala (virado de costas, observou Trevize, para o seu próprio retrato holográfico pendurado na parede), declarou com firmeza:

— É verdade, Golan. Bliss é a minha parte de Gaia.

Bliss sorriu subitamente.

— Quando Pel fala desse jeito, sinto uma emoção diferente...

— Vamos pensar — disse Trevize, colocando as mãos trançadas sobre a cabeça e inclinando a cadeira para trás. As pernas finas da cadeira rangeram ameaçadoramente. O rapaz chegou à conclusão de que a cadeira não era suficientemente forte para aquele tipo de brincadeira e tornou a pousá-la nas quatro pernas. — Você continuará a ser parte de Gaia, mesmo depois que deixar o planeta?

— Não necessariamente. Posso isolar-me, por exemplo, se estiver correndo perigo, para que o perigo não atinja Gaia. Entretanto, só farei isso em caso de emergência. A maior parte do tempo, continuarei a ser Gaia.

— Mesmo se viajarmos no hiperespaço?

— Mesmo assim, embora isso torne as coisas um pouco mais difíceis.

— Preferia que não fosse assim.

— Por quê?

Trevize torceu o nariz, como se estivesse sentindo um odor desagradável.

— Porque isso significa que tudo o que você vir e ouvir em minha nave será visto e ouvido por Gaia.

— Eu sou Gaia; logo, tudo o que vejo, ouço e sinto é visto, ouvido e sentido por Gaia.

— Exatamente. Aquela parede também vê, ouve e sente. Bliss olhou para a parede que o rapaz estava mostrando e deu de ombros.

— Sim, aquela parede também. Ela possui uma consciência minúscula, ou seja, sua compreensão é extremamente limitada, mas suponho que sofra algumas modificações subatômicas em resposta ao que estamos dizendo agora, por exemplo, modificações essas que lhe permitirão desempenhar melhor o seu papel em Gaia para o bem do todo.

— E se eu quiser ficar sozinho? Se eu não quiser que a parede saiba o que estou fazendo?

Bliss pareceu impacientar-se e Pelorat interrompeu bruscamente:

— Você sabe, Golan, eu não queria interferir, já que evidentemente ignoro quase tudo a respeito de Gaia. Entretanto, graças à minha convivência com Bliss, acho que aprendi algumas coisas. Quando você está andando em uma rua movimentada de Terminus, os seus sentidos estão expostos aos mais variados estímulos. Mais tarde, talvez se lembre de alguma coisa que viu ou ouviu. Se o seu cérebro for estimulado corretamente, pode ser até que se lembre de tudo o que viu. A maioria das vezes, porém, você simplesmente não está interessado. Você não presta atenção. Você esquece. Com Gaia, deve ser a mesma coisa. Mesmo que Gaia tenha conhecimento de tudo o que você está fazendo, isso não quer dizer que Gaia se importe. Estou certo, Bliss querida?

— Nunca pensei nesses termos, Pel, mas acho que tem uma certa razão. Entretanto, esse isolamento a que Trev... quero dizer, esse isolamento a que Trevize se referiu não faz sentido para nós. Na verdade, eu/nós/Gaia achamos a ideia profundamente desagradável. Não querer participar... não querer ser ouvido... não querer ser visto... não querer compartilhar seus sentimentos... — Bliss sacudiu a cabeça, — Eu disse que podemos nos separar de Gaia em caso de emergência, mas como alguém poderia preferir viver assim, mesmo que fosse por uma hora?

— Eu prefiro — declarou Trevize. — É por isso que tenho de encontrar a Terra... para descobrir por que, apesar disso, fiz a escolha que fiz, optando por um destino terrível para toda a Humanidade.

— Não é um destino terrível, mas não adianta discutirmos isso agora. Quero ir com você, não como espiã, mas como amiga. Gaia estará com você, não para espioná-lo, mas para ajudá-lo.

Trevize retrucou, muito sério:

— Gaia poderia me ajudar mostrando-me onde fica a Terra. Bliss sacudiu a cabeça lentamente:

— Gaia não sabe onde fica a Terra. Dom já lhe disse isso.

— Não posso acreditar. Afinal, vocês devem ter registros. Por que não me permitem examiná-los? Mesmo que Gaia esteja falando a verdade quando afirma que não conhece a localização da Terra, talvez eu tenha melhor sorte com os documentos disponíveis. Conheço muita coisa sobre a Galáxia. Pode ser que encontre pistas importantes, pistas que Gaia tenha deixado passar.

— Que documentos são esses de que você está falando, Trevize?

— Registros de qualquer tipo. Livros, filmes, gravações, hologramas, artefatos, qualquer coisa. Desde que cheguei aqui, não vi nada que pudesse considerar como registro... E você, Janov?

— Nem eu — respondeu Pelorat, com certa hesitação. — Mas também não estava procurando.

— Pois eu, sim — disse Trevize. — E não encontrei nada. Nada! Só posso concluir que eles estão escondidos. Por quê? Você pode me explicar por quê?

O rosto bonito de Bliss assumiu uma expressão intrigada.

— Por que não perguntou isso antes? Eu/nós/Gaia não escondemos nada, somos incapazes de mentir. Um Isolado, isto é, um indivíduo separado do todo, pode dizer mentiras. Ele é limitado e sente medo porque é limitado. Gaia, entretanto, é um organismo planetário de imensa capacidade mental e não tem medo de nada. Gaia não tem necessidade de mentir, de falsificar ou omitir os fatos.

Trevize sorriu ironicamente.

— Então por que tiveram tanto cuidado para impedir que eu visse os registros? Dê-me uma explicação que faça sentido!

— É muito simples — disse a moça, abrindo os braços. — Não temos nenhum registro.

4

Pelorat foi o primeiro a se recuperar da surpresa.

— Minha querida — disse, em tom carinhoso —, é difícil de acreditar. Toda civilização que se preza tem algum tipo de registro.

— Claro que sim — concordou Bliss. — O que eu estava querendo dizer é que não temos nenhum registro do tipo que Trev... do tipo que Trevize está procurando. Eu/nós/Gaia não temos livros, revistas, filmes, gravações, bancos de dados computadorizados, nada disso. Nem esculturas. Foi isso que eu quis dizer. Já que não temos nenhum registro desse tipo, é natural que Trevize não tenha conseguido encontrá-los.

Trevize perguntou:

— Então o que é que vocês têm para substituir os registros convencionais?

Bliss respondeu pronunciando bem as palavras, como se estivesse falando com uma criança:

— Eu/nós/Gaia temos uma memória. Eu me lembro.

— Do que é que você se lembra? — quis saber Trevize.

— De tudo.

— Você se lembra de tudo o que aconteceu neste planeta?

— Exatamente.

— Por quanto tempo? Qual a extensão da sua memória?

— Praticamente ilimitada.

— Você se lembra de todos os fatos históricos, biográficos, geográficos, científicos?

— De tudo.

— E tudo nessa cabecinha... — observou Trevize, apontando ironicamente para a têmpora direita de Bliss.

— Não — protestou a moça. — As memórias de Gaia não são limitadas pela capacidade de meu cérebro. Procure entender... — Por um momento, seu rosto assumiu uma expressão formal e mesmo um pouquinho sisuda, quando ela deixou de ser apenas Bliss para tornar-se um aglomerado de indivíduos. — … houve um tempo, antes do começo da história — prosseguiu a moça —, em que os seres humanos eram tão primitivos que, embora pudessem se lembrar dos acontecimentos, não sabiam falar. A linguagem falada foi inventada e serviu para expressar memórias e transferi-las de pessoa para pessoa. Mais tarde, foi inventada a linguagem escrita, que tornou possível registrar memórias e transferi-las de geração para geração. Todo o progresso tecnológico que se seguiu foi no sentido de aumentar a capacidade de armazenar e transferir memórias e tornar mais fácil o acesso às memórias armazenadas. Entretanto, quando os indivíduos se uniram para formar Gaia, toda essa tecnologia de repente ficou obsoleta. Pudemos voltar à memória, a forma mais antiga de armazenar informações, na qual todas as outras se baseiam. Está entendendo?

Trevize replicou:

— Está querendo me dizer que o conjunto de todos os cérebros de Gaia é capaz de se lembrar de muito mais fatos do que qualquer um dos cérebros isoladamente?

— Isso mesmo.

— Mas se os registros de Gaia estão espalhados por todo o plane-ta, o que adianta isso para você, como uma pequena parte de Gaia?

— Adianta muito. Qualquer coisa que eu precise saber está guardada no cérebro de alguém, ou, mais provavelmente, no cérebro de muitas pessoas. Se se tratar de um conhecimento básico, como o significado da palavra “cadeira”, certamente estará no cérebro de todos os habitantes do planeta. Mesmo que se trate de um conhecimento mais especializado, que esteja guardado apenas em uma pequena parte da mente de Gaia, posso recuperá-lo facilmente, embora possa levar um pouquinho mais de tempo do que se a memória estivesse mais difundida. Escute, Trevize, se você quer saber alguma coisa que não está na sua memória, consulta um livro ou o banco de dados de um computador. No meu caso, eu consulto a mente de Gaia.

Trevize perguntou:

— Como você faz para evitar que todas essas informações peneirem ao mesmo tempo no seu cérebro, fazendo-o explodir?

— Você podia dispensar o sarcasmo, Trevize. Pelorat interveio:

— Vamos, Golan, pare de implicar com a moça.

Trevize olhou de um para o outro e fez um esforço visível para acalmar-se.

— Desculpe. Estou sentindo o peso de uma responsabilidade que não pedi e da qual não sei como me livrar. Talvez por isso possa parecer implicante, mesmo quando não é essa a minha intenção. Bliss, estou realmente curioso. Como é que você faz para absorver os conhecimentos de outros habitantes do planeta sem exceder a capacidade do seu próprio cérebro?

— Não sei, Trevize — respondeu a moça —, assim como você não sabe direito como o seu cérebro funciona. Você sabe qual é a distância do seu planeta à estrela mais próxima, mas este conhecimento não está presente o tempo todo na sua consciência. Você guarda o número em algum lugar e pode recuperá-lo sempre que desejar. Se passar muito tempo sem usar o número, talvez venha a esquecê-lo, mas nesse caso poderá consultar um banco de dados. Considere a mente de Gaia como um imenso banco de dados que eu posso consultar à vontade, sem necessidade de guardar em minha própria memória as informações que utilizei. Depois de fazer uso de um dado, simplesmente deixo que abandone a minha memória. Na verdade, é como se eu o guardasse de volta no lugar de onde veio.

— Quantos habitantes tem Gaia, Bliss? Quantos seres humanos?

— Cerca de um bilhão. Quer saber o número exato? Trevize deu um sorriso amarelo.

— Sei que você é capaz de me fornecer o número exato, mas me contento com uma aproximação.

— Na verdade — afirmou Bliss —, a população é estável e oscila ligeiramente em torno de um número um pouquinho maior que um bilhão. Para saber qual o desvio em relação à média neste exato momento, eu teria que expandir minha consciência até... até os limites do planeta. É difícil explicar para alguém que não passou pela experiência.

— Parece-me, entretanto, que um bilhão de cérebros humanos ... entre eles, certamente, muitos cérebros infantis... não são suficientes para armazenar todos os conhecimentos acumulados por uma sociedade complexa.

— Acontece que em Gaia não há apenas seres humanos, Trev.

— Está me dizendo que os animais irracionais também participam da memória de Gaia?

— Os cérebros dos animais irracionais têm capacidade muito menor que a dos cérebros humanos, e boa parte do espaço disponível em todos os cérebros, humanos ou não, é usada para guardar memórias pessoais, que são úteis apenas para o indivíduo que as abriga. Mesmo assim, é possível armazenar grande quantidade de informações coleti-vas nos cérebros dos animais, como também nos tecidos vegetais e nas estruturas minerais do planeta.

— Nas estruturas minerais? Quer dizer nas pedras?

— E também nos oceanos e na atmosfera. Afinal, tudo isso também é Gaia.

— Que tipo de informação esses seres inanimados podem guardar? Muita coisa. A densidade de informação é pequena, mas o volume é tão grande que a maior parte da memória de Gaia está guardada nas pedras. O tempo de acesso, porém, é um pouco maior do que o caso das informações armazenadas em cérebros humanos. Por essa as pedras são usadas como uma espécie de arquivo morto... nelas guardamos dados de que necessitamos apenas raramente.

— Que acontece quando morre alguém em cujo cérebro estão guardadas informações importantes?

— Os dados não são perdidos. Quando o cérebro começa a se desorganizar, logo após a morte, as memórias são distribuídas por outros membros de Gaia. Quando novos cérebros aparecem nas crianças e começam se desenvolver, eles acumulam não apenas memórias pessoais mas também conhecimentos coletivos. O que vocês chamam de educação ocorre automaticamente comigo/conosco/com Gaia. Pelorat interveio:

— Francamente, Golan, acho que essa ideia de planeta vivo é mavilhosa!

Trevize olhou de esguelha para o companheiro.

— Sinto não compartilhar do seu entusiasmo, Janov. Este planeta, por maior e mais variado que seja, na realidade representa um único cérebro. Um! Cada novo cérebro que se forma é absorvido por Gaia. Onde está a oportunidade para que haja oposição, para que haja opiniões contrárias? Quando a gente pensa na história da humanidade, , a gente pensa naquele indivíduo excepcional, cujos pontos de vista foram censurados pela sociedade mas que no final conseguiu vencer e mudar o mundo. Que oportunidade haveria em Gaia para os grandes rebeldes da História?

— Você está enganado — disse Bliss. — Nem todas as partes de Gaia têm necessariamente a mesma opinião.

— As divergências não podem ser muito grandes — insistiu Trevize. — Um organismo repleto de contradições não funcionaria adequadamente. Se ainda existe progresso em Gaia, deve ser muito, muito lento. Temos o direito de impor o mesmo sistema a toda a Galáxia? A toda a Humanidade?

Bliss interveio, sem demonstrar qualquer emoção:

— Agora está duvidando de sua própria decisão? Mudou de ideia agora considera Gaia como um futuro indesejável para a Humanidade?

Trevize cerrou os lábios e hesitou. Depois disse, devagar:

— Gostaria de ter convicção suficiente para voltar atrás, mas não é esse o caso. Tive algum motivo, ainda que inconsciente, para tomar a decisão que tomei. Até descobrir qual foi esse motivo, não estarei em condições de manter a decisão ou modificá-la. Por isso, é melhor voltarmos à questão da Terra.

— Onde você acha que encontrará o motivo que o levou a optar por Gaia, não é mesmo, Trevize?

— É isso mesmo. Acontece que, de acordo com Dom, Gaia não conhece a localização da Terra. Você concorda com ele, suponho.

— É claro que concordo com ele. Também sou Gaia, lembra-se?

— Vocês estão escondendo alguma coisa de mim? Conscientemente, quero dizer.

— Claro que não. Mesmo que Gaia pudesse mentir, não mentiria para você. Afinal, dependemos das suas conclusões, e portanto desejamos que elas sejam corretas. Para isso, é necessário que se baseiem em fatos reais.

— Nesse caso — disse Trevize —, vamos tentar fazer uso da sua memória global. Diga-me há quanto tempo ocorreu, o fato mais antigo de que você se lembra.

Houve uma leve hesitação. Bliss olhou para Trevize com os olhos vazios, como se estivesse em transe. Depois, declarou:

— Quinze mil anos.

— Por que hesitou?

— Levei algum tempo para conseguir a resposta. As memórias muito antigas estão quase todas guardadas na base das montanhas, em lugar de difícil acesso.

— Quinze mil anos, não é? Foi nessa época que Gaia foi colonizada?

— Não, pelo que sabemos o planeta foi colonizado há mais ou menos dezoito mil anos.

— Então não sabem exatamente? Por que você... por que Gaia não se lembra?

— Porque naquela época o planeta ainda não estava suficientemente evoluído para que a memória fosse compartilhada por todos os seres — explicou Bliss.

— Antes de vocês inventarem a memória coletiva devia haver registros em Gaia, Bliss. Registros no sentido normal da palavra... livros, gravações, filmes, etc.

— É provável que sim, mas certamente não sobreviveriam tanto tempo.

— Poderiam ter sido copiados, ou melhor ainda, transferidos para a memória global, depois que ela surgiu.

Bliss franziu a testa. Levou algum tempo para falar de novo.

— Não consigo encontrar nenhum sinal desses registros a que você se refere.

— Por quê?

— Não sei, Trevize. Talvez não fossem muito importantes. É possível que na época em que os registros começaram a se deteriorar Gaia os tenha considerado ultrapassados e não se dera ao trabalho de incorporá-los à memória global.

— Você não tem certeza. Está fazendo suposições, mas não tem certeza. Gaia não sabe o que aconteceu.

Bliss baixou os olhos.

— Só pode ser isso.

— Só? Eu não sou parte de Gaia e portanto não tenho que acreditar nas suposições de Gaia. Eis um bom exemplo das vantagens do isolamento. Eu, um Isolado, sou capaz de imaginar uma explicação alternativa.

— Qual é a sua explicação?

— Bliss, de uma coisa eu tenho certeza: nenhuma civilização avançada é capaz de destruir seus antigos registros. Ao invés de considerá-los arcaicos e desnecessários, a tendência é no sentido de tratá-los com reverência exagerada e fazer tudo para preservá-los. Se os registros da fase que precedeu a memória global de Gaia foram destruídos, essa destruição certamente não foi voluntária.

— Qual é então a sua explicação?

— Na Biblioteca de Trantor, todas as referências à Terra foram destruídas por alguém ou por alguma força que não tinha nada a ver com os membros da Segunda Fundação. Não acha possível que em Gaia, também, todas as referências à Terra tenham sido removidas por alguém de fora?

— Como sabe que os antigos registros continham alguma coisa sobre a Terra?

-- Você mesma disse há pouco que Gaia foi colonizada há cerca de dezoito mil anos atrás. Isto nos coloca em uma época anterior ao estabelecimento do Império Galáctico, no período em que a Galáxia estava sendo colonizada pelos habitantes da Terra. Se não acredita em mim, pergunte a Pelorat.

Pelorat, um pouco surpreso por ter sido chamado a testemunhar, pigarreou e disse, voltando-se para Bliss:

— Assim dizem as lendas, minha cara. Levo essas lendas a sério e acredito, como Golan Trevize, que a espécie humana tenha se originado em um único planeta, o planeta que chamamos de Terra. Assim, os primeiros colonos eram todos da Terra.

— Assim sendo — disse Trevize —, se Gaia foi fundada nos primórdios das viagens hiperespaciais, é provável que tenha sido colonizada por terráqueos, ou pelo menos por nativos de um planeta recentemente colonizado pelos terráqueos. Nesse caso, é evidente que os registros da colonização de Gaia e dos primeiros milênios em que o planeta foi habitado teriam que conter referências à Terra e aos terráqueos. Acontece que esses registros desapareceram. Alguém parece estar ativamente empenhado em destruir todas as referências à Terra existentes na Galáxia. Se isso é verdade, deve haver uma razão muito forte.

Bliss protestou, indignada:

— Tudo isso não passa de conjecturas, Trevize. Você não tem nenhuma prova!

— É Gaia que insiste em que possuo o talento especial de chegar a conclusões corretas com base em provas insuficientes. Assim, quando eu chego a uma conclusão, não me diga que faltam as provas!

Bliss ficou calada. Trevize prosseguiu:

— Você agora entende por que eu tenho que encontrar a Terra. Pretendo partir assim que o Estrela Distante estiver pronto. Vocês dois ainda querem ir comigo?

— Queremos — disseram Bliss e Pelorat ao mesmo tempo.

Capítulo 2
Viajando para Comporellon

5

Estava chuviscando. Trevize olhou para o céu cinzento. Usava um guarda-chuva que repelia as gotas, arremessando-as para longe em todas as direções. Pelorat, que não dispunha de uma proteção semelhante, rnantinha-se a uma distância prudente.

— Não vejo razão para você se molhar, Janov — disse Trevize.

— A chuva não me incomoda, amigo — disse Pelorat, com o ar solene de sempre. — É uma chuva fraca e morna. Não está ventando. Além disso, como diz o velho provérbio, “Quando estiver em Anacreon, faça como os anacreonitas”.

Apontou para alguns gaianos que se haviam reunido em torno do Estrela Distante e os observavam em silêncio. Estavam bem espalhados, como se fossem árvores em um bosque, e nenhum deles usava guarda-chuva.

— Tenho a impressão de que eles não se incomodam de se molhar porque o resto de Gaia está ficando molhado — disse Trevize. — As árvores, a grama, a terra — tudo está molhado, e tudo é parte de Gaia, como os gaianos.

— Acho que faz sentido — disse Pelorat. — Daqui a pouco o sol vai sair e secar tudo num instante. As roupas não vão encolher, não está fazendo frio e como este planeta não tem micro-organismos patogênicos, ninguém vai pegar resfriado, gripe ou pneumonia. Então qual o problema de tomar um pouco de chuva?

Trevize podia compreender perfeitamente a lógica do argumento, mas não queria dar o braço a torcer.

— Mesmo assim, não precisava chover justo na hora em que estamos de partida. Afinal, a chuva neste planeta é voluntária. Gaia não choveria se não quisesse. É como se estivesse querendo mostrar que não tem nenhuma consideração conosco.

— Talvez Gaia esteja chorando de tristeza porque vamos embora — disse Pelorat.

— Pode ser, mas eu não — disse Trevize.

— Na verdade — prosseguiu Pelorat —, provavelmente o solo nesta região esteja precisando de umidade, e essa necessidade é mais importante que o seu desejo de ver o sol brilhar.

Trevize sorriu.

— Você gosta mesmo deste planeta, não é? Quero dizer, mesmo sem pensar em Bliss.

— Gosto, sim — afirmou Pelorat, em tom quase desafiador. — Sempre levei uma vida simples e ordeira, e acho que me daria muito bem aqui, onde o mundo inteiro trabalha para manter a vida simples e ordeira. Afinal, Golan, quando construímos uma casa, ou mesmo essa espaçonave que aí está, tentamos criar um abrigo perfeito. Procuramos equipar esse abrigo com tudo o que achamos que poderá ser necessário. Instalamos controles de temperatura, atmosfera, iluminação e tudo mais, de modo a podermos tornar o ambiente o mais confortável possível. Gaia é uma extensão desse desejo de conforto e segurança: um planeta inteiro zelando por seus habitantes. Que há de errado nisso?

— O que há de errado nisso — disse Trevize — é que a minha casa e a minha nave foram construídas para atender a minhas necessidades. Eu não preciso me adaptar a elas. Se eu fosse parte de Gaia, então, por melhor que o planeta me atendesse, eu não deixaria de me aborrecer com o fato de que também estaria sendo obrigado a atendê-lo.

Pelorat franziu a testa.

— Na verdade, toda sociedade molda a população de acordo com seus próprios valores. Surgem novos costumes, novas leis, que se encarregam de manter todos os membros dentro de determinados padrões de comportamento.

— Nas sociedades que eu conheço, os indivíduos podem se rebelar. Sempre existem os excêntricos, os criminosos...

— Você aprova os excêntricos e criminosos?

— Por que não? Eu e você somos excêntricos. Certamente não somos exemplos típicos dos habitantes de Terminus. Quanto aos criminosos, isso é uma questão de definição. Além disso, se os criminosos são o preço que temos que pagar para termos rebeldes, hereges e gênios, estou disposto a pagar o preço. Eu exijo que o preço seja pago.

— Os criminosos são o único pagamento possível? Não podemos ter gênios sem termos criminosos?

— Não podemos ter gênios e santos sem termos pessoas que fujam bastante da norma geral, e não vejo como os desvios em relação à norma possam ser apenas para o lado positivo. Tem que haver certa simetria. De qualquer forma, quero um motivo melhor para a minha decisão de fazer de Gaia um modelo para o futuro da Humanidade do que o fato de que é uma versão planetária de uma casa confortável.

— Meu amigo, não estava de forma alguma tentando convencê-lo a conformar-se com a sua decisão. Estava apenas fazendo um comen...

Interrompeu o que estava dizendo. Bliss aproximava-se a passos largos, o cabelo molhado, o vestido colado ao corpo, realçando os quadris generosos.

— Desculpe o atraso — disse a moça, um pouquinho ofegante. — Minha conversa com Dom levou mais tempo do que eu havia previsto.

— Não sei por quê — disse Trevize. — Afinal, você sabe tudo o que ele sabe.

— Às vezes não interpretamos os fatos da mesma forma. Afinal, não somos idênticos. Escute aqui — disse, com um traço de impaciência na voz —, você tem duas mãos. Ambas são parte de você e parecem idênticas, a não ser pelo fato de uma ser a imagem espelhada da outra. Mesmo assim, você não as usa da mesma forma, usa? Existem algumas coisas que você faz com a mão direita, outras que faz com a mão esquerda. Diferenças de interpretação, em última análise.

— Ela está certa — disse Pelorat, com visível satisfação. Trevize assentiu.

— É uma excelente analogia. Agora podemos subir a bordo? Está chovendo.

— Sim, sim. A nave está pronta para a viagem.

A moça olhou para Trevize e acrescentou, curiosa:

— Você está seco. Está se protegendo da chuva?

— Isso mesmo — disse Trevize. — Não quero me molhar.

— Não acha agradável sentir o corpo molhado de vez em quando? - Acho, sim. Mas quem escolhe a hora sou eu, e não a chuva. Bliss deu de ombros.

Como quiser. Nossa bagagem já está a bordo. Vamos?

Os três caminharam em direção ao Estrela Distante. A chuva tinha quase parado, mas a grama estava bastante molhada. Trevize andava com cuidado, quase nas pontas dos pés, mas Bliss, que havia tirado as sandálias, pisava na grama com os pés descalços, praticamente sem levantá-los do chão.

— É uma sensação deliciosa — disse, ao surpreender o olhar do rapaz.

— Bom para você — disse Trevize, distraidamente. Depois acrescentou, com um toque de irritação: — O que é que esses gaianos estão fazendo em volta da nave?

Bliss explicou:

— Estão registrando este acontecimento, que Gaia considera muito importante. Você tem um grande valor para nós, Trevize. Suponhamos que esta viagem o fizesse mudar de ideia e decidir a favor de uma das Fundações. Nesse caso, a Galáxia jamais seria nossa. Pior ainda, seria o fim de Gaia.

— Então eu tenho o poder de vida e morte sobre Gaia, sobre todo este planeta.

— É a nossa opinião.

Trevize parou de repente e tirou o guarda-chuva da cabeça. O tempo estava melhorando; trechos de céu azul começavam a aparecer por entre as nuvens.

— Acontece que no momento minha decisão é favorável a vocês. Se me matassem agora, tudo estaria resolvido.

— Golan! — exclamou Pelorat, chocado. — Como pode dizer uma coisa dessas?

— Típico de um Isolado — disse Bliss, calmamente. — Precisa compreender, Trevize, que não estamos interessados em você como pessoa, e nem mesmo no seu voto, mas na verdade a respeito do assunto. Você é importante para nós apenas na medida em que nos conduz à verdade, seu voto é importante apenas como indicação da verdade. É isso o que queremos de você; se o matássemos para impedir que mude o seu voto, estaríamos apenas escondendo a verdade de nós mesmos.

— Se eu disser a vocês que a verdade está contra Gaia, concordarão alegremente em morrer?

— Eu não diria alegremente, mas estamos preparados para aceitar a verdade, seja ela qual for.

Trevize sacudiu a cabeça.

— Se alguém quisesse me convencer de que Gaia é um horror e realmente merece desaparecer, bastaria me dizer alguma coisa parecida. — Voltando os olhos para os gaianos que os observavam (e, presumivelmente, escutavam) com toda a paciência, perguntou a Bliss: — Por que estão espalhados assim? Por que Gaia precisa de tanta gente? Se um deles observa nossa partida, a informação não é compartilhada com todos os outros seres do planeta? Não pode ser armazenada em um milhão de lugares diferentes, se Gaia assim desejar?

— Estão observando a cena de ângulos diferentes — explicou Bliss. — Além disso, cada um está armazenando as informações em um cérebro ligeiramente diferente. Quando todas as observações forem combinadas, Gaia terá uma compreensão muito melhor do que aconteceu do que qualquer um desses indivíduos, ou mesmo todos eles isoladamente.

— Em outras palavras, o todo é maior que a soma das partes.

— Exatamente. Você está começando a compreender a razão básica para a existência de Gaia. Você, como organismo vivo, é constituído por cerca de cinquenta trilhões de células, mas você, como ser humano, é muitíssimo mais importante que a importância combinada de cinquenta trilhões de células. Certamente concorda com isso.

— Concordo — disse Trevize.

O rapaz começou a subir a escada da nave e voltou-se para olhar para o planeta. A chuva havia emprestado um novo frescor à atmosfera. O que viu era um mundo verde, fértil, tranquilo e pacífico; um jardim de serenidade no meio de uma Galáxia cada vez mais velha, cansada e confusa.

... e Trevize rezou para que nunca mais tornasse a ver Gaia.

6

Quando a escotilha se fechou, Trevize sentiu como se estivesse se libertando não exatamente de um pesadelo, mas de alguma coisa tão anormal que só agora se sentia livre para respirar à vontade.

O rapaz sabia perfeitamente que um dos elementos daquela anormalidade ainda estava com eles na pessoa de Bliss. Enquanto Bliss estivesse ali, Gaia também estaria. Entretanto, Trevize também estava convencido de que a presença da moça era essencial. Era a caixa preta de novo em ação. Esperava sinceramente que sua confiança na caixa preta não se tornasse excessiva.

Olhou para o interior da nave com visível agrado. Era sua desde que a prefeito Harla Branno, da Fundação, o havia obrigado a deixar Terminus e tornar-se uma espécie de para-raios, atraindo o fogo daqueles que Branno considerava inimigos da Fundação. Aquela missão estava cumprida, mas a nave ainda era sua e Trevize não estava disposto a devolvê-la.

A nave era sua há apenas alguns meses, mas Trevize já a considerava como um lar; a lembrança do antigo lar, no planeta Terminus. se tornava cada vez mais distante.

Terminus! O eixo excêntrico da Fundação, destinado, segundo o Plano de Seldon, a tornar-se um segundo Império, ainda maior que o primeiro, em menos de cinco séculos. Só que ele, Trevize, havia mudado o curso da história. Por decisão própria, estava reduzindo a Fundação a nada e tornando possível o aparecimento de uma nova sociedade, uma nova forma de vida, uma revolução só comparável ao aparecimento dos seres multicelulares.

Agora, estava iniciando uma viagem na qual procuraria provar a si mesmo que havia tomado a decisão correta.

Trevize percebeu que estava divagando e sacudiu a cabeça, irritado. Correu à sala de controle e verificou que o computador ainda estava lá.

O computador estava brilhando; tudo estava brilhando. Os gaianos haviam feito uma limpeza cuidadosa. Os botões que apertou, quase ao acaso, funcionavam perfeitamente. O sistema de ventilação era tão silencioso que teve que colocar a mão sobre as saídas de ar para certificar-se de que estava funcionando.

O círculo de luz do computador era um convite irresistível. Trevize tocou-o e a luz se espalhou para cobrir todo o tampo da escrivaninha. Podia ver claramente o perfil de duas mãos: direita e esquerda. Respirou fundo e deu-se conta de que havia prendido involuntariamente a respiração. Os gaianos desconheciam a tecnologia da Fundação e poderiam facilmente ter danificado o computador ao limpar a escrivaninha. Até o momento, tudo parecia em ordem. As mãos ainda estavam lá.

O verdadeiro teste, porém, seria colocar as mãos sobre a mesa. Trevize hesitou por um momento. Se houvesse algum defeito, saberia na mesma hora. E daí? Que fazer? Para consertar o computador, teria que voltar a Terminus, e se o fizesse, a prefeito Branno jamais o deixaria sair de novo do planeta. Por outro lado, sem o computador...

Sentiu o coração bater mais forte. Não adiantava adiar o inevitável.

Colocou as mãos sobre as silhuetas em cima da mesa. Imediatamente, teve a sensação de que um outro par de mãos segurava as suas. Seus sentidos se ampliaram e pôde ver Gaia em todas as direções, verde e úmido, os gaianos do lado de fora ainda observando a nave. Quando “olhou” para cima, viu um céu nublado. A um comando mental, as nuvens desapareceram e ele estava olhando para o céu azul, no meio do qual se destacava o sol de Gaia.

Outro comando mental e o céu ficou escuro e coalhado de estrelas.

Mais um comando. Trevize agora estava observando a Galáxia, como uma roda achatada. Testou a imagem computadorizada, alterando sua orientação, modificando a velocidade e o sentido aparente de passagem do tempo, fazendo as estrelas girarem primeiro em um sentido e depois no sentido oposto. Localizou o sol de Sayshell, a maior estrela nas proximidades de Gaia; depois, o sol de Terminus; depois, o sol de Trantor. Viajou de estrela em estrela no mapa da Galáxia que habitava as entranhas do computador.

Retirou as mãos e deixou o mundo real envolvê-lo novamente. Só então se deu conta de que tinha estado de pé o tempo todo, o corpo meio curvado sobre a escrivaninha. Os músculos estavam rígidos; teve que esticar as costas antes de sentar-se.

Olhou para o computador, aliviado. Funcionava perfeitamente. Estava mais dócil que nunca e o que sentia por ele só poderia ser classificado como amor. Afinal, enquanto se davam as mãos, um era parte do outro. Através do computador, sua vontade dirigia, controlava, sentia e era parte de um ser muito mais poderoso. Ele e o computador deviam sentir, em pequena escala (pensou de repente o rapaz, com um sobressalto), como Gaia se sentia, só que em escala muito maior.

Sacudiu a cabeça. Não! No caso do computador, ele, Trevize, tinha controle absoluto. O computador se limitava a obedecer.

Levantou-se e dirigiu-se para a cozinha. A despensa estava bem abastecida com todos os tipos de alimentos. Trevize já havia verificado que sua coleção particular de livros gravados estava intacta, e tinha razoável certeza... não, tinha certeza absoluta de que os gaianos não haviam mexido na biblioteca de Pelorat, caso contrário o outro àquela altura já teria posto a boca no mundo.

Pelorat! Aquilo o fez lembrar-se de uma coisa. Entrou no camarote de Pelorat.

— Há espaço para Bliss aqui, Janov?

— Oh, sim! Não se preocupe!

— Podemos transformar a sala de estar em quarto de dormir para ela.

Bliss olhou para ele, surpresa. — Não preciso de um quarto só para mim. Posso perfeitamente ficar aqui com Pel. Suponho, porém, que não se incomodará se eu usar outros aposentos, como o ginásio, por exemplo.

— Claro que não. Pode usar todos os aposentos da nave, com exceção do meu camarote.

— Muito obrigada. Naturalmente, você também evitará entrar no nosso camarote.

— Naturalmente — concordou Trevize, contrafeito. Olhou para baixo e percebeu que estava com o pé dentro do quarto. Recuou um passo e advertiu, muito sério: — Este não é um quarto de lua de mel, Bliss.

— Pelo contrário, suas dimensões reduzidas o qualificam como tal, como depois que Gaia o ampliou em cerca de cinquenta por cento.

Trevize fez força para não rir.

— Vocês têm que ser compreensivos.

— E somos — disse Pelorat, visivelmente contrafeito com o rumo que a conversa estava tomando. — Por outro lado, meu amigo, gostaria que nos deixasse cuidar de nossa vida.

— Sinto muito, mas não é possível — disse Trevize devagar. — Quero que fique bem claro que esta nave não é um hotel de lua de mel. Façam o que quiserem entre vocês dois, mas não podem esperar privacidade. Está me entendendo, Bliss?

— Este quarto tem uma porta — disse Bliss — e tenho certeza de que não vai nos incomodar quando ela estiver trancada... a menos, naturalmente, que se trate de uma emergência.

— Claro que não vou perturbá-los. A questão não é essa. Os aposentos desta nave não dispõem de isolamento acústico.

— O que você está tentando dizer — disse Bliss — é que poderá ouvir todas as nossas conversas e todos os barulhos que fizermos quando estivermos fazendo amor.

— Sim, é exatamente isso que eu estava tentando dizer. Levando este fato em consideração, acho que terão forçosamente que limitar suas atividades. Sinto muito, mas não há outro jeito.

Pelorat pigarreou e explicou, meio sem graça:

— Na verdade, Golan, este é um problema que já tivemos que enfrentar. Você deve compreender que as sensações que Bliss experimenta quando está comigo são compartilhadas com todos os seres de Gaia.

— Já tinha pensado nisso, Janov. Preferi não tocar no assunto... imaginando que talvez a ideia não tivesse ocorrido a você.

— Pois estava enganado — disse Pelorat.

Bliss interveio:

— Não fique tão chocado, Trevize. Em um dado momento, milhares de seres humanos em Gaia estão fazendo amor; milhares estão comendo, bebendo ou envolvidos em outras atividades agradáveis. Isto dá origem a uma aura global de prazer que Gaia pode sentir; que todas as partes de Gaia podem sentir. Os animais inferiores, as plantas e os minerais têm prazeres progressivamente mais fracos, mas que também contribuem para uma alegria difusa que Gaia é capaz de desfrutar em todas as suas partes e que não existe em nenhum outro planeta.

— No lugar de onde vim — disse Trevize — temos nossos prazeres particulares, que podemos compartilhar ou não, de acordo com a nossa vontade.

— Se pudesse sentir o que sentimos, veria como são superficiais os prazeres de vocês, Isolados, quando comparados com os nossos.

— Como pode saber o que eu sinto?

— Mesmo sem saber o que você sente, parece razoável supor que os prazeres em um mundo em que as sensações são compartilhadas sejam muito mais intensos que os prazeres em um mundo de Isolados.

— Talvez, mas mesmo que os meus prazeres sejam superficiais, prefiro guardar minhas alegrias e tristezas para mim mesmo e satisfazer-me com elas, e ser eu mesmo em vez de tornar-me irmão de sangue de uma maldita pedra!

— Não está sendo lógico — advertiu Bliss. — Tenho certeza de que sente estima pelos minerais que fazem parte dos seus ossos e dentes e detestaria que fossem danificados, embora não tenham mais consciência do que uma pedra do mesmo tamanho.

— Isso é verdade — admitiu Trevize, com relutância. — Mas vamos voltar ao assunto que estávamos discutindo. Não me incomodo se Gaia inteiro compartilha dos seus prazeres, Bliss. O que sei é que eu não quero compartilhar. Vamos passar muito tempo em um ambiente confinado e não quero ser forçado a participar das atividades de vocês, mesmo que de forma indireta.

Pelorat interveio:

— Estamos discutindo à toa, meu amigo. Não temos nenhuma intenção de violar a sua intimidade. Bliss e eu seremos discretos, não é, Bliss?

— Como você quiser, Pel.

— Afinal de contas — prosseguiu Pelorat —, devemos passar mais tempo em terra do que a bordo, e após desembarcarmos em um planeta, estaremos livres para...

— Não me interessa o que vocês pretendem fazer em terra — interrompeu Trevize. — Aqui, porém, quem manda sou eu.

— De acordo — disse Pelorat.

— Esclarecido esse ponto, vamos decolar.

— Um momento — protestou Pelorat, segurando Trevize pela manga. — Decolar para onde? Você não sabe onde fica a Terra, nem eu, nem Bliss. Nem o seu computador. Você já me disse que os bancos de memória do computador não contêm nenhuma informação a respeito da Terra. O que pretende fazer, então? Não podemos simplesmente sair navegando por aí ao acaso, meu amigo.

Trevize sorriu para o amigo. Pela primeira vez desde que havia caído sob o poder de Gaia, sentia-se senhor do seu próprio destino.

— Posso lhe assegurar que não pretendo vagar sem rumo, Janov. Sei perfeitamente para onde vamos.

7

Pelorat entrou na sala de comando depois de esperar alguns momentos sem que a leve batida que havia dado na porta fosse respondida. Encontrou Trevize com os olhos cravados em uma tela cheia de estrelas.

— Golan...

Trevize levantou os olhos.

— Janov! Sente-se. Onde está Bliss?

— Dormindo. Ei! Estou vendo que estamos no espaço!

— Isso mesmo.

Trevize não estranhou a surpresa do amigo. Nas novas naves gravíticas, era simplesmente impossível sentir a decolagem. Não havia efeitos inerciais, nem ruído, nem vibração.

Possuindo a capacidade de isolar-se em maior ou menor grau dos campos gravitacionais externos, o Estrela Distante levantava voo da superfície de um planeta como se estivesse flutuando em um oceano cósmico. Durante a operação, as forças gravitacionais dentro da nave permaneciam inalteradas.

Enquanto a nave permanecia no interior da atmosfera, movia-se devagar, ou seja, o ruído e a vibração do choque das moléculas de ar contra o casco praticamente não podiam ser sentidos pelos ocupantes. Fora da atmosfera, a nave podia atingir velocidades extremamente altas sem incomodar os passageiros.

Era o melhor que a tecnologia tinha a oferecer em matéria de conforto; Trevize era incapaz de imaginar algo melhor, a não ser, talvez, se a humanidade descobrisse um meio de deslocar-se no hiperespaço sem precisar de naves e sem ter que se preocupar com campos gravitacionais próximos. No momento, por exemplo, o Estrela Distante teria que viajar vários dias pelo espaço normal, afastando-se do sol de Gaia, antes que o campo gravitacional fosse bastante fraco para executarem o Salto com segurança.

— Golan, meu caro amigo — disse Pelorat. — Posso falar com você um instante? Ou está muito ocupado?

— Não estou nada ocupado. Depois que forneço as instruções, o computador cuida de tudo. Às vezes parece até que ele adivinha as instruções e as executa antes que eu tenha tempo de terminá-las.

Passou a mão afetuosamente pela superfície da escrivaninha. Pelorat disse:

— Ficamos muito amigos, Golan, no pouco tempo em que nos conhecemos. Custo a acreditar que tenha sido há tão pouco tempo. Tanta coisa aconteceu... Quando penso na minha vida, ocorre-me a ideia estranha de que mais da metade das coisas realmente importantes aconteceu nos últimos meses. Pelo menos, é essa a minha impressão. É quase como se...

Trevize interrompeu-o com um gesto.

— Janov, acho que você está divagando. Começou dizendo que tínhamos ficado muito amigos em pouco tempo. Tem razão. A propósito: você e Bliss se conhecem há menos tempo e ficaram ainda mais amigos.

— Isso é diferente! — protestou Pelorat, embaraçado.

— É claro — prosseguiu Trevize. — Entretanto, o que podemos concluir de nossa amizade recente mas profunda?

— Que se ainda somos amigos, temos que discutir a questão de Bliss, que, como você mesmo disse, tornou-se uma pessoa extremamente importante para mim.

— Entendo. O que há para discutir?

— Sei que você não gosta de Bliss, mas, quando mais não seja em atenção a mim, gostaria que...

Trevize interrompeu-o:

— Um momento, Janov. Não morro de amores por Bliss, mas também não tenho raiva da moça. Na verdade, considero-a bastante atraente, e, mesmo que não fosse assim, tenderia a encará-la com simpatia por causa de você. É de Gaia que eu não gosto.

— Mas Bliss é Gaia.

— Eu sei, Janov. Isso complica as coisas. Enquanto penso em Bliss como pessoa, não há nenhum problema. Quando penso nela como Gaia, tudo muda de figura.

— Está sendo injusto com Gaia, Golan. Preste atenção, amigo, vou lhe confessar uma coisa. Quando eu e Bliss temos relações, ela às vezes me deixa penetrar na sua mente por um minuto e pouco. Não pode ser por mais tempo porque ela acha que estou velho demais para me adaptar. Não, não ria, Golan, você também está velho demais para isso. Se um Isolado como eu ou você ficasse por mais que alguns momentos em contato com Gaia, nosso cérebro seria afetado. Se o tempo excedesse cinco minutos, os danos seriam irreversíveis. Ah, se você pudesse experimentar, Golan...

— O quê? Danos irreversíveis no meu cérebro? Não, obrigado!

— Golan, você está se fazendo de desentendido! Estou querendo dizer aquele breve instante de união com Gaia. Não sabe o que está perdendo. É indescritível! Bliss diz que é uma sensação agradável... é como dizer que beber o primeiro gole d’água quando se está morrendo de sede é uma sensação agradável! Não dá para explicar. Você sente todos os prazeres que um bilhão de pessoas experimentam separadamente. Não é um prazer contínuo; se fosse, em pouco tempo você ficaria entorpecido. Não, ele vibra... oscila... tem um estranho ritmo pulsante que toma conta de você. É um prazer maior... não, maior não... é um prazer melhor do que jamais você conseguirá sentir isoladamente. Quando ela interrompe o contato, sinto vontade de chorar...

Trevize sacudiu a cabeça.

— Você hoje está muito eloquente, meu caro amigo, mas parece que está descrevendo os efeitos da pseudo-endorfina ou outra dessas drogas que proporcionam alguns momentos de prazer, mas a longo prazo podem levar à loucura e à morte. Não senhor! Não estou disposto a trocar a minha individualidade por um prazer passageiro.

— Não perdi a minha individualidade, Golan.

— Mas por quanto tempo vai conservá-la, Janov? Você vai suplicar por mais e mais da droga até que, finalmente, seu cérebro será destruído. Janov, não permita que Bliss faça isso com você! Talvez seja melhor eu falar com ela...

— Não! Não quero! Golan, você não prima pelo tato e eu detestaria ver Bliss magoada. Posso assegurar-lhe que ela se preocupa comigo e seria incapaz de permitir que eu sofresse algum tipo de dano, físico ou mental, em consequência do nosso relacionamento. Acredite em mim!

— Pois então vou falar com você. Janov, você precisa parar. Há 52 anos que desfruta dos prazeres simples de um ser humano normal.

Não se deixe fascinar por um vício novo e excitante. Terá que pagar o preço, se não agora, em um futuro não muito distante.

— Você não entende, Golan — disse Pelorat em voz baixa, olhando para o bico do sapato. — Vamos encarar as coisas desta forma: se você fosse um ser unicelular...

— Sei aonde quer chegar, Janov. Esqueça. Bliss e eu já discutimos essa analogia.

— Sim, mas raciocine comigo. Imagine uma raça de organismos unicelulares dotados de consciência; suponha que eles se vejam diante da possibilidade de se unirem para formar um organismo multicelular. Não acha que esses seres unicelulares relutariam em abrir mão da individualidade, hesitariam em sacrificar a vontade própria em prol da personalidade de um organismo que englobaria a todos? Como estariam errados! Será que uma célula isolada poderia sequer compreender a maravilha que é um cérebro humano?

Trevize sacudiu a cabeça com veemência.

— Não, Janov, é uma falsa analogia. Os seres unicelulares não têm consciência e são incapazes de pensar... ou, se o fazem, é de forma tão rudimentar que não precisamos levar esse fato em consideração. Se esses objetos se combinam e perdem a individualidade, estão na verdade perdendo uma coisa que nunca possuíram. Por outro lado, um ser humano tem consciência, um ser humano é capaz de pensar. Por isso, ele tem muito a perder renunciando à individualidade e a sua analogia não funciona.

Os dois ficaram calados por um momento. O silêncio era quase opressivo. Afinal, Pelorat perguntou, tentando mudar o rumo da conversa:

— Por que está olhando tanto para o visor?

— Força do hábito — explicou Trevize, com um sorriso. — O computador me assegura que nenhuma nave de Gaia nos seguiu e que não há nenhuma esquadra de Sayshell chegando para receber-nõs. Mesmo assim, não tiro os olhos da tela e sinto-me tranquilo ao constatar que está vazia, mesmo sabendo que os sensores do computador são centenas de vezes mais aguçados e mais penetrantes que meus olhos. Além do mais, o computador é capaz de detectar certas mudanças sutis nas propriedades do espaço, mudanças que meus sentidos são totalmente incapazes de detectar. Ainda assim, não consigo desgrudar os olhos da tela.

— Golan, se ainda somos amigos......

— Prometo a você que não farei nada que possa magoar Bliss. Pelo menos, nada que eu possa evitar.

— Estou falando de outra coisa. Você manteve nosso destino em segredo, como se não confiasse mais em mim. Para onde vamos? Você acha que já sabe onde fica a Terra?

Trevize olhou para o outro com uma expressão de surpresa.

— Desculpe. Acho que fui injusto com você, escondendo-lhe minhas intenções.

— Sim, mas por quê?

— Boa pergunta. Imagino, meu caro amigo, se não seria por causa de Bliss.

— Bliss? Está querendo dizer que não confia em Bliss? É absurdo!

— Não é isso. De que adiantaria desconfiar de Bliss? Acho que ela seria capaz de arrancar qualquer informação de dentro da minha cabeça, se quisesse. Não, meus motivos são mais infantis. Tenho a sensação de que você só tem olhos para Bliss, de que nem se lembra mais de que eu existo.

— Isso não é verdade, Golan.

— Eu sei, mas estou tentando analisar meus próprios sentimentos. Há pouco você manifestou dúvidas a respeito da nossa amizade. Pensando bem, acho que tenho sentido os mesmos temores. Até agora não havia admitido para mim mesmo, mas sinto ciúmes de Bliss. Talvez tenha procurado “vingar-me” ocultando coisas de você. Que infantilidade, não?

— Golan!

— Eu disse que era infantilidade, não disse? Quem não é infantil uma vez ou outra? O que importa é que nós somos amigos. Vamos dar o assunto por encerrado e falar de coisas mais agradáveis. Nosso destino é Comporellon.

— Comporellon?

— Você deve se lembrar do meu amigo, o traidor Munn Li Compor. Nós três nos encontramos em Sayshell.

De repente, uma luz apareceu nos olhos de Pelorat.

— Ah, agora me lembro! Comporellon era o planeta onde nasceram os ancestrais desse seu amigo.

— Onde ele disse que nasceram. Tenho razões de sobra para não confiar em Compor. Entretanto, Comporellon é um planeta conhecido e, segundo Compor, seus habitantes sabem muita coisa a respeito da Terra. Pois então vamos até lá investigar. Pode não dar em nada, mas é a única pista que temos.

Pelorat não parecia convencido.

— Meu amigo, tem certeza de que é uma boa ideia?

— Não tenho certeza de nada. Estou apenas seguindo um palpite, na falta de coisa melhor.

— Sim, mas se está disposto a acreditar nas informações de Compor, talvez seja melhor levar em conta tudo o que ele disse. Lembro-me de que ele afirmou, com toda a segurança, que a Terra era um planeta morto, que sua superfície estava radioativa... Nesse caso, nossa viagem a Comporellon será perda de tempo.

8

Os três estavam almoçando na sala de jantar, que havia ficado literalmente lotada.

— Está uma delícia! — exclamou Pelorat, satisfeito. — É parte dos suprimentos originais que trouxemos de Terminus?

— Não é não — respondeu Trevize. — Os suprimentos originais já acabaram há muito tempo. Esta comida foi comprada em Sayshell, antes de viajarmos para Gaia. Exótica, não é? Parece peixe, mas é cro-cante. E essa verdura? Quando comprei, pensei que fosse repolho, mas tem um gosto totalmente diferente.

Bliss permanecia calada, remexendo a comida no prato.

— Querida, você precisa comer — disse Pelorat, carinhosamente.

— Eu sei, Pel, e estou comendo.

Trevize interveio, com um toque de impaciência que não conseguiu disfarçar:

— Também temos comida de Gaia, Bliss.

— Eu sei, mas prefiro não consumi-la agora. Não sabemos quanto tempo vamos ficar no espaço e mais cedo ou mais tarde terei que me acostumar com a comida dos Isolados.

— Isso é tão ruim? Será que Gaia só deve comer Gaia? Bliss suspirou.

— Na verdade, temos um ditado que diz: “Quando Gaia come Gaia, ninguém sai ganhando nem perdendo”. Tudo não passa de uma mudança de forma. Tudo o que como quando estou em Gaia também é Gaia e continua a ser Gaia depois de ser metabolizado e tornar-se parte de mim. Ao comer, proporciono ao alimento a oportunidade de atingir um nível mais elevado de consciência, embora, naturalmente, parte desse alimento seja transformada em refugo e portanto seja relegada a níveis inferiores de consciência.

A jovem colocou um pedaço de comida na boca, mastigou vigorosamente, engoliu e disse:

— Em Gaia, tudo circula. As plantas crescem e são comidas por animais. Os animais comem e são comidos. Os organismos que morrem servem de alimento para os fungos e bactérias... sem em nenhum momento deixarem de ser Gaia. Nessa vasta circulação de consciência, da qual todos os seres, até mesmo os inorgânicos, necessariamente participam, todos têm ocasião de atingir, periodicamente, níveis elevados de consciência.

— O mesmo se poderia dizer de qualquer planeta — protestou Trevize. — Cada átomo de meu corpo tem uma longa história, durante a qual pode ter sido parte de muitos seres vivos, incluindo seres humanos, e durante a qual também pode ter passado longos períodos como parte do mar, ou em um pedaço de carvão, ou em uma pedra, ou como parte da atmosfera...

— Em Gaia, porém — disse Bliss —, todos os átomos fazem parte de uma consciência planetária. Esta é a grande diferença entre o meu planeta e o de vocês.

— O que acontece, então, com essas verduras de Sayshell que você está comendo? — quis saber Trevize. — Será que também se tornam parte de Gaia?

— Sim, mas muito devagar. E os refugos que elimino deixam aos poucos de fazer parte de Gaia. Afinal, tudo o que sai do meu corpo perde contato com Gaia, pois apenas os seres com alto nível de consciência, como eu, podem se manter unidos a Gaia através do hiperespaço. É esse contato hiperespacial que faz com que os alimentos de outros planetas se tornem parte de Gaia quando são assimilados pelo meu organismo.

— E a comida de Gaia em nossa despensa? Deixará também aos poucos de ser Gaia? Nesse caso, é melhor comê-la já.

— Não se preocupe com isso. A comida que trouxemos de Gaia foi tratada de modo a continuar a ser Gaia por um longo tempo.

— Que acontecerá se nós comermos a comida de Gaia? — perguntou Pelorat. — Ou por outra: o que aconteceu quando comemos a comida de vocês quando estávamos em Gaia? Será que estamos nos transformando lentamente em Gaia?

Bliss sacudiu a cabeça e seu rosto assumiu uma expressão triste.

— Não, o que vocês comeram foi perdido para nós. Pelo menos, a parte que foi metabolizada e incorporada ao organismo de vocês. Os rejeitos continuaram a ser Gaia ou aos poucos voltaram a ser Gaia, mas, em consequência da sua visita, Gaia perdeu muitos átomos.

— Por que isso? — quis saber Trevize.

— Porque vocês não resistiriam à conversão, mesmo que parcial. Eram nossos hóspedes, trazidos ao nosso planeta praticamente contra a vontade, de modo que nos sentíamos na obrigação de protegê-los, mesmo à custa de perdermos alguns fragmentos de Gaia. Foi uma decisão consciente, embora penosa.

— Sentimos muito — disse Trevize. — Tem certeza de que a comida de outros planetas, ou pelo menos algum tipo de comida de outros planetas, não pode fazer mal a você!

— Tenho — afimou Bliss. — O que é comestível para vocês é comestível para mim. A única diferença é que além de metabolizar o alimento, tenho também que transformá-lo em Gaia. Isso representa uma barreira psicológica que me tira o gosto pela comida e me faz comer devagar, mas acho que acabarei por me acostumar.

— E as infecções? — perguntou Pelorat, assustado. — Bliss, não sei como não pensei nisso antes! Em qualquer planeta em que pousarmos haverá micro-organismos contra os quais você não terá nenhuma defesa! Qualquer infecção banal poderá matá-la! Trevize, temos que voltar.

— Não se preocupe, Pel querido — disse Bliss, sorrindo. — Os micro-organismos também se transformam em Gaia quando são ingeridos junto com o alimento ou entram no meu corpo de outra forma qualquer. Se se trata de organismos patogênicos, a conversão é acelerada, e depois que passam a ser Gaia, tornam-se inofensivos.

A refeição chegou ao fim e Pelorat bebeu o último gole do seu coquetel de frutas.

— Meus amigos — disse, lambendo os lábios —, acho que está na hora de mudarmos de assunto. Parece que minha única missão a bordo é mudar o assunto das conversas. Por quê?

— Porque eu e Bliss temos a mania de discutir interminavelmente — respondeu Trevize, muito sério. — Cabe a você, Janov, proteger a nossa sanidade. Qual o assunto que deseja propor?

— Dei uma olhada nos livros e descobri que todo o setor de Comporellon é rico em lendas antigas. Ao que parece, a região foi colonizada há muito tempo, durante o primeiro milênio das viagens hiperespaciais. As lendas falam de um fundador chamado Benbally, embora não revelem sua origem. Dizem que o nome original de Comporellon era Mundo de Benbally.

— Que há de verdade nisso, na sua opinião?

— Deve haver um fundo de verdade, mas. não sei até que ponto podemos acreditar nas lendas.

— Nunca ouvi falar de um personagem histórico chamado Benbally. E você?

— Eu também não, mas você sabe que quando o Império entrou em declínio a história pré-imperial passou a ser censurada. Nos últimos e turbulentos séculos do Império, os imperadores fizeram tudo para sufocar o patriotismo local, que consideravam, e com razão, uma influência desintegradora. Assim, em quase todos os setores da Galáxia, os dados históricos de que dispomos começam nos dias em que a influência de Trantor começou a fazer-se sentir e o setor em questão aliou-se ao Império ou foi anexado a ele.

— Não acho que seja tão fácil apagar a história — disse Trevize.

— E não é, mas um governo poderoso e decidido pode enfraquecê-la consideravelmente. Nesse caso, as tradições verbais deixam de ser apoiadas por documentos confiáveis e passam à categoria de simples lendas. Inevitavelmente, essas lendas estão cheias de exageros e retratam o setor como muito mais antigo e importante do que realmente foi. Além disso, por mais tola que seja uma lenda, por mais impossíveis que sejam os fatos relatados, a população local faz questão de acreditar nela por uma questão de patriotismo. Posso lhe mostrar lendas de todos os cantos da Galáxia segundo as quais os primeiros colonizadores eram oriundos da própria Terra, embora nem sempre o planeta original receba esse nome.

— Quais os outros nomes que aparecem nas lendas?

— São nomes os mais diversos. Alguns chamam o planeta de Único, outros de Velho. Outros ainda se referem ao Mundo Enluarado, o que, de acordo com algumas fontes, se deve ao fato de que a Terra possuía um grande satélite.

— Pare, Janov! — exclamou Trevize, com um sorriso. — Se for citar todas as suas fontes, você não acabará nunca. Então essas lendas estão em toda parte?

— Oh, sim, meu caro amigo. Em toda parte! Basta examinar algumas delas para perceber que o Homem tem o costume de começar com uma semente de verdade e cobri-la com camada sobre camada de mentiras agradáveis... como as pérolas que as ostras de Rhampora formam em torno de um grão de areia. Encontrei esta metáfora no livro do famoso historiador...

— Pare de novo, Janov! Diga-me, existe alguma diferença entre as lendas de Comporellon e as outras lendas?

— Oh! — Pelorat levou algum tempo para compreender a pergunta. — Diferença? Bem, eles afirmam que a Terra fica relativamente perto, o que não é comum. Na maioria das lendas que falam da Terra, ou de um planeta semelhante, não é mencionada nenhuma localização específica... é como se estivesse muito distante ou em uma terra de sonho.

— Sim, como havia gente em Sayshell que acreditava que Gaia estivesse localizado no hiperespaço.

Bliss riu.

Trevize voltou-se para ela.

— É verdade! Foi o que nos disseram!

— Não estou duvidando de você. Mesmo assim, não deixa de ser engraçado. Na verdade, este mito é muito conveniente para nós. No momento, só queremos que nos deixem em paz. Se as pessoas acreditam que estamos no hiperespaço, não têm motivo para sair à nossa procura.

— O mesmo se aplica à Terra — disse Trevize, secamente. — As pessoas não têm motivo para sair em busca da Terra se acham que ela não existe, fica muito longe ou está totalmente radioativa.

— Acontece — objetou Pelorat — que os comporelianos afirmam que a Terra não fica longe do seu planeta.

— Sim, mas pensam que ficou radioativa. De uma forma ou de outra, as lendas sempre mostram a Terra como um planeta inatingível.

— Acho que tem razão. Trevize prosseguiu:

— Muitos habitantes de Sayshell acreditavam que Gaia não estava muito distante; alguns chegaram a identificar corretamente a estrela; no entanto, nenhum tinha esperança de visitar Gaia. Os comporelianos podem insistir em que a Terra está radioativa e deserta, mas pode haver alguém capaz de nos indicar o seu sol. Nesse caso, tentaremos desembarcar na Terra, da mesma forma como desembarcamos em Gaia.

— Gaia estava disposto a recebê-los, Trevize — disse Bliss. — Vocês estavam totalmente indefesos, mas não corriam nenhum perigo, porque nossas intenções eram pacíficas. E se a Terra também for poderosa, mas não tão bem intencionada? O que pretende fazer?

— Seja como for, tentarei o desembarque e aceitarei as consequências. Entretanto, esta é uma decisão pessoal. Depois que eu localizar a Terra, vocês poderão continuar comigo ou não. Posso deixá-los no planeta mais próximo da Fundação, ou levá-los de volta para Gaia, e viajar para a Terra sozinho.

— Nem fale nisso, meu amigo! — exclamou Pelorat, indignado. — Jamais pensaria em abandoná-lo!

— Nem eu abandonaria Pel — afirmou Bliss, passando a mão no rosto de Pelorat.

— Está bem. Está quase na hora do Salto para Comporellon. De lá, se tudo correr bem, poderemos ir direto para a Terra.

PARTE DOIS
COMPORELLON

Capítulo 3
Na Estação Espacial

9

Bliss entrou no quarto e perguntou:

— Trevize lhe contou que vamos dar o Salto no hiperespaço a qualquer momento?

Pelorat, que estava lendo, levantou a cabeça e disse:

— Há poucos momentos ele chegou aí na porta e anunciou: “Falta menos de meia hora!”

— A ideia não me agrada, Pel. Não gosto do Salto. Acho a sensação muito desagradável.

Pelorat pareceu levemente surpreso.

— Nunca havia pensado em você como astronauta, Bliss querida.

— Não tenho muita prática, e não estou falando apenas como Bliss. A experiência de Gaia em relação a viagens espaciais é bastante limitada. Por minha/nossa própria natureza, eu/nós/Gaia não mantemos relações comerciais ou diplomáticas com outros planetas. Mesmo assim, precisamos de alguém para guarnecer as estações espaciais...

— Como aquela em que tivemos a felicidade de nos conhecer.

— Isso mesmo, Pel — disse Bliss, em tom afetuoso. — Ou para visitar Sayshell e outros setores do espaço, por várias razões... e geralmente incógnitos. Incógnitos ou não, o fato é que temos que executar o Salto, e, naturalmente, quando uma parte de Gaia executa o Salto, Gaia inteiro sente.

— Sinto muito — disse Pel.

— Podia ser pior. Como a maior parte de Gaia não está executando o Salto, o efeito é bastante diluído. Entretanto, tenho a impressão de que sinto mais o Salto do que o resto de Gaia. Como vivo dizendo para Trevize, embora tudo o que existe em Gaia seja Gaia, as diferentes partes não são idênticas. Temos nossas diferenças e meu organismo, por alguma razão, é particularmente sensível ao Salto.

— Espere! — exclamou Pelorat, lembrando-se subitamente. — Trevize me explicou uma vez. A sensação é muito pior nas naves comuns. Nessas naves, o campo gravitacional da Galáxia desaparece quando a nave entra no hiperespaço e torna a aparecer quando ela volta ao espaço normal. É a variação súbita do campo gravitacional que produz uma sensação desagradável. Por outro lado, o Estrela Distante é uma nave gravítica. Está isolado do campo gravitacional. Assim, você não vai sentir nada, nem no início nem no final do Salto. Posso assegurar-lhe, Bliss, por experiência própria.

— É uma ótima notícia, Pel. Gostaria de ter discutido o assunto há mais tempo. Dessa forma, teria poupado a mim mesma muitas horas de preocupação.

— Existem outras vantagens — disse Pelorat, sentindo-se muito orgulhoso em seu novo papel de astronauta experiente. — As naves comuns têm que se afastar das massas grandes, como as estrelas, antes de poderem executar um Salto. Em parte, isto se deve ao fato de que quanto mais próxima estiver uma estrela, mais intenso será o campo gravitacional e mais pronunciadas as sensações do Salto. Além disso, quanto mais intenso o campo gravitacional, mais complicadas as equações que devem ser resolvidas para executar o Salto com precisão.

”Nas naves gravíticas, por outro lado, praticamente não existe a sensação do Salto. A nave dispõe de um computador muito mais avançado que o das naves comuns, que é capaz de determinar os parâmetros do Salto com extrema rapidez, por mais complexas que sejam as equações envolvidas. O resultado é que, ao invés de ter que viajar durante várias semanas no espaço comum para chegar a uma distância segura para o Salto, o Estrela Distante precisa viajar apenas dois ou três dias. Além disso, como a nave não está sujeita ao campo gravitacional, não sofre os efeitos da inércia... Confesso que esta parte eu não entendo, mas foi o que Trevize me contou... e portanto pode acelerar muito mais depressa que uma nave comum.

— Tudo isso é muito bom, Pel — disse Bliss. — Trev deve ser muito inteligente, para saber pilotar uma nave tão sofisticada.

Pelorat fez uma careta.

— Por favor, Bliss. Diga “Trevize”.

— Eu digo, eu digo. Quando ele não está, às vezes eu me distraio.

— Procure prestar mais atenção. Sabe que ele detesta ser chamado pela primeira sílaba do nome.

— Não é só isso o que ele detesta. Pel, Trevize não gosta de mim nem um pouquinho.

— Está enganada — disse Pelorat, ansioso. — Já conversei com ele a respeito. Não, não faça essa cara. Usei de toda a minha diplomacia, Bliss. Ele me garantiu que não tem nada contra você. O que acontece é que Golan não confia em Gaia e tem medo de se arrepender da decisão que tomou, escolhendo Gaia como o futuro da humanidade. Temos que dar tempo ao tempo. Aos poucos, ele aprenderá a conhecer as virtudes de Gaia.

— Espero que sim, mas não é só isso. Diga ele o que disser, Pel... e não se esqueça de que é seu amigo e fará tudo para não magoá-lo..., a verdade é que Trevize me detesta.

— Não, Bliss, não acredito.

— Só porque você me ama, não quer dizer que todos tenham que gostar de mim. Deixe-me explicar. Trev, isto é, Trevize acha que eu sou um robô.

O rosto habitualmente impassível de Pelorat assumiu uma expressão de profundo espanto. Ele exclamou:

— É inconcebível que Golan confunda você com um ser humano artificial!

— Por quê? Gaia foi colonizado com a ajuda de robôs. É um fato histórico.

— Os robôs talvez tenham ajudado, mas foram pessoas que colonizaram Gaia; gente da Terra. É essa a opinião de Golan. Já discutimos várias vezes o assunto.

— Como eu já disse a vocês dois, não há nada na memória de Gaia a respeito da Terra. Por outro lado, existe uma recordação vaga dos robôs, mesmo após três mil anos, trabalhando para completar a transformação de Gaia em um mundo habitável. Naquela época, também estávamos começando a formar a consciência planetária de Gaia. Isso levou muito tempo, Pel, e talvez seja a razão pela qual muita coisa desapareceu da nossa memória. Não é preciso que nossa história tenha sido deliberadamente mutilada, como Trevize parece pensar...

— Sim, Bliss — disse Pelorat, com impaciência —, e os robôs?

— Quando terminamos a construção de Gaia, os robôs foram embora. Não queríamos que os robôs fossem absorvidos por Gaia, pois estávamos convencidos, e ainda estamos, de que a presença de robôs é prejudicial às sociedades humanas, quer seus membros sejam Isolados, quer façam parte de um único organismo, como em Gaia. Não sei como chegamos a essa conclusão, mas é possível que ela tenha se baseado em acontecimentos tão antigos que escapam à memória de Gaia.

— Se você mesma está dizendo que os robôs foram embora...

— E se alguns ficaram? E se eu for um deles... nesse caso, poderia ter quinze mil anos de idade! É disso que Trevize suspeita.

Pelorat sacudiu a cabeça devagar.

— Trevize está errado.

— Como pode ter certeza?

— Bliss, você não é um robô!

— Como é que você sabe?

— Eu sei! Você não tem nada de artificial!

— Imagine que eu seja uma máquina tão bem-feita, sob todos os | aspectos, que seja impossível distinguir-me de um ser humano. Nesse caso, você não poderia enganar-se?

— Não acho que seja possível construir uma máquina tão perfeita.

— E se fosse possível, apesar de tudo?

— Não consigo acreditar.

— Vamos então considerar apenas uma situação hipotética. Se eu fosse um robô, como você se sentiria?

— Ora, eu... eu...

— Para ir direto ao ponto: como você se sentiria se soubesse que estava fazendo amor com um robô?

Pelorat estalou os dedos.

— Você sabe, existem muitas lendas a respeito de mulheres que se apaixonam por homens artificiais e vice-versa. Sempre achei que se tratava de mero simbolismo; nunca imaginei que pudessem ser tomadas ao pé da letra. Naturalmente, Golan e eu nunca tínhamos ouvido a palavra “robô” até pousarmos em Sayshell, mas agora, pensando no assunto, ocorreu-me que esses homens e mulheres artificiais devem ter sido robôs. Aparentemente, esses robôs realmente existiram no passado remoto. As lendas terão que ser reavaliadas...

Pelorat parou de falar e ficou com uma expressão pensativa. Bliss esperou um instante e depois bateu palmas com força. Pelorat deu um pulo.

— Pel, querido! Você está sendo evasivo. O que perguntei foi: como se sentiria se soubesse que estava fazendo amor com um robô?

Pelorat olhou para ela, pouco à vontade.

— Um robô realmente perfeito? Um robô que fosse impossível de distinguir de um ser humano?

― Isso mesmo. Na minha opinião, um robô que não pode ser distinguido de um ser humano é um ser humano. Se você fosse um robô assim, não deixaria de considerá-la como humana.

― É o que eu queria que você dissesse, Pel. Pelorat esperou um pouco e depois disse:

― Já que você ouviu o que queria, Bliss, não vai me assegurar que é um ser humano comum e que não precisamos mais lidar com atuações hipotéticas?

― Não. Não vou fazer isso. Você definiu o ser humano como um ser que tem todas as propriedades de um ser humano. Se reconhece que eu tenho todas essas propriedades, não temos mais o que discutir. Temos uma definição prática, e isso é o que importa. Afinal de con-tas, como vou saber que você não é um robô tão perfeito que não pode ser distinguido de um ser humano?

— Eu posso lhe dizer que não sou.

— Ah, mas se você fosse um robô fabricado para imitar um ser humano, poderia ser programado para me dizer que era humano, programado até mesmo para acreditar que era humano. Não, Pel, a única definição possível é a definição prática!

Bliss colocou os braços em volta do pescoço de Pelorat e beijou-o na boca. O beijo foi ficando mais apaixonado e prolongou-se até que Pelorat conseguiu dizer, com voz abafada:

— Prometemos a Trevize que não iríamos transformar esta nave em um hotel de lua de mel.

— Pel querido, não é hora de pensar em promessas!

— Sinto muito, amor. Sei que isso deve irritar você, mas nunca me deixo levar pela emoção. É um hábito arraigado e que deve incomodar bastante as outras pessoas. Nunca vivi com uma mulher que não se queixasse, vez por outra, dessa minha maneira de ser. Minha primeira esposa... não, não seria de bom gosto falar no assunto...

— Talvez não seja, mas não me incomodo. Eu também já vivi com outros homens.

— Oh! — exclamou Pelorat, chocado. Depois, vendo o sorriso nos lábios de Bliss, emendou: — Quero dizer, claro que já viveu. Nunca tive pretensões de ser o primeiro... seja como for, minha primeira mulher não gostava...

— Pois eu gosto. Acho o seu jeito de ser muito atraente.

— Você diz isso só para me agradar, mas acaba de me ocorrer outra coisa. Robô ou humana, isso não importa. Estamos de acordo. Entretanto, eu sou um Isolado. Não sou parte de Gaia. Quando fazemos amor, você está experimentando emoções fora de Gaia, que não podem ser tão intensas quanto as que você experimentaria se fosse Gaia amando Gaia.

— Seu amor me dá prazer, Pel. É tudo o que me importa.

— Mas não é só você que decide. Você é parte de um todo. E se Gaia considerar seu amor por mim uma perversão?

— Se fosse esse o caso, eu saberia, porque sou Gaia. Se sinto prazer quando estou com você, Gaia também sente. Quando fazemos amor, Gaia inteiro participa do nosso ato, em maior ou menor grau. Quando eu digo que amo você, isso quer dizer que Gaia inteiro ama você. Você parece confuso...

— Para um Isolado, Bliss, é difícil entender essas coisas.

— Talvez uma analogia o ajude a compreender. Quando você assobia uma música, o seu corpo inteiro, você como um organismo único, sente vontade de assobiar, mas a tarefa específica de assobiar é executada pelos lábios, língua e pulmões. O dedão do seu pé direito não faz nada.

— Pode bater no chão, acompanhando o ritmo.

— Isso não está ligado diretamente ao ato de assobiar. Bater com o pé no chão não é a ação em si, mas uma resposta à ação. Da mesma forma, as outras partes de Gaia podem reagir às minhas emoções e eu posso reagir às emoções de outras partes de Gaia.

— Acho que seria bobagem eu me sentir envergonhado.

— Bobagem completa.

— Mas não posso evitar um estranho senso de responsabilidade. Quanto tento fazer você feliz, na verdade estou tentando fazer felizes todos os seres de Gaia.

— Até o último átomo, Pel querido. E com muito sucesso. Você contribui para aquela sensação geral de prazer que eu deixei você sentir por alguns instantes. Suponho que sua contribuição seja pequena demais para ser medida com facilidade, mas o simples fato de saber que ela está lá deveria aumentar o seu prazer.

— Gostaria de ter certeza de que Golan está suficientemente ocupado com as manobras no hiperespaço para permanecer por um bom tempo na sala do piloto.

— Quer ir para a cama comigo?

— Quero, sim.

— Então pegue uma folha de papel, escreva “Favor não perturbar”, pendure do lado de fora da porta, e se ele quiser entrar, problema dele.

Pelorat seguiu o conselho, e foi durante os momentos agradáveis que se seguiram que o Estrela Distante executou o Salto. Nenhum dos dois teve noção do momento exato em que o Salto ocorreu; isso seria difícil, mesmo que estivessem prestando atenção.

10

Fazia apenas alguns meses que Pelorat havia conhecido Trevize e deixado Terminus pela primeira vez. Até então, por mais de meio século, ele havia permanecido na superfície do seu planeta natal.

Em poucos meses, pensou Pelorat, havia se transformado em um veterano do espaço. Já tinha visto três planetas do espaço: Terminus, Sayshell e Gaia. Agora, na tela do computador, estava vendo um quarto: Comporellon.

Pela quarta vez, estava um pouco desapontado. Sempre havia tido a impressão de que observar do espaço um planeta habitável significaria observar continentes cercados por oceanos; ou, no caso de mundos mais secos, lagos cercados por massas de terra.

Puro engano.

Se um mundo era habitável, além de uma hidrosfera tinha que ter uma atmosfera. Ora, havendo ar e água, tinha que haver nuvens; havendo nuvens, a superfície não podia ser totalmente visível. Assim, mais uma vez, Pelorat via diante de si um círculo esbranquiçado com ocasionais manchas azuis e castanhas.

Pensou consigo mesmo se seria possível reconhecer um planeta se uma vista de uma distância de, digamos, trezentos mil quilômetros, fosse projetada em uma tela. Como distinguir uma nuvem de outra?

Bliss olhou para Pelorat com ar preocupado.

— Que foi, Pel? Você parece triste.

— Descobri que, vistos do espaço, todos os planetas são iguais. Trevize interveio:

— E daí, Janov? Poderia dizer o mesmo de qualquer litoral de Terminus, quando visto no horizonte, a menos que você saiba o que está procurando: um certo pico de montanha ou uma ilhota com uma forma característica.

— Não é a mesma coisa — protestou Janov, aborrecido: — O que há para procurar em uma massa de nuvens?

— Observe com atenção, Janov. Se acompanhar a forma das nuvens, verá que tendem a formar desenhos simétricos em torno de um centro, localizado perto de um dos pólos.

― Qual deles? — perguntou Bliss, interessada. — Como, em relação a nós, o planeta está girando no sentido dos ponteiros do relógio, estamos olhando, por definição, para o pólo sul, Como o centro das nuvens parece estar a uns quinze graus do terminal, ou círculo de iluminação do planeta, e o eixo do planeta tem uma inclinação de 21 graus em relação à perpendicular ao plano de revolução, estamos no meio da primavera ou no meio do verão, dependendo de se o pólo está se afastando ou se aproximando do terminador. O computador poderia calcular a órbita em questão de segundos. A capital fica no hemisfério Norte, de modo que lá deve ser outono ou inverno.

Pelorat fez uma careta.

— Você é capaz de concluir tudo isso só de olhar para as nuvens?

— Não apenas isso — prosseguiu Trevize —, mas se você observar a região polar, não verá nenhuma abertura nas nuvens, como em outras partes do planeta. Na verdade, as aberturas estão lá, mas debaixo delas há gelo. É uma questão de falta de contraste.

— Ah! Já devia imaginar que os pólos estivessem cobertos de gelo — observou Pelorat.

— Nos planetas habitáveis, pelo menos, isso é a regra — explicou Trevize. — Nos planetas estéreis pode não haver água, ou podemos encontrar certos sinais indicando que as nuvens não são nuvens de água, ou que o gelo não é gelo de água. No planeta que estamos observando, esses sinais estão ausentes; o que vemos são nuvens comuns e gelo comum.

”Outra coisa que se pode notar é o tamanho da região sem aberturas aparentes nas nuvens, que é maior que a média para planetas do mesmo porte. Além disso, a luz refletida pelas nuvens é levemente alaranjada, o que significa que o sol de Comporellon é bem mais frio que o sol de Terminus. Embora Comporellon fique mais perto do sol que Terminus, isso não é suficiente para compensar a menor temperatura do seu sol. Em consequência, Comporellon é um planeta bastante frio para um mundo habitável.

— Você lê um planeta como quem lê um livro! — exclamou Pelorat, com admiração.

— Não se deixe impressionar — disse Trevize, com um sorriso. — O computador me forneceu todos os dados relevantes a respeito de Comporellon, incluindo o fato de que a temperatura na superfície é relativamente baixa. É fácil deduzir o que já se sabe. Na verdade, o planeta está à beira de uma era glacial e estaria passando por uma, se a configuração dos continentes fosse mais favorável para essa situação.

Bliss fez um muxoxo.

— Não gosto de planetas frios.

― Trouxemos agasalhos suficientes — disse Trevize.

— Não faz diferença. Os seres humanos não nasceram para viver em climas frios. Não temos grossas camadas de pelos ou penas, nem uma camada subcutânea de gordura. Se um mundo é frio, isso revela certa falta de consideração para com suas partes humanas.

— O clima de Gaia é ameno? — perguntou Trevize.

— Em sua maior parte, sim. Existem algumas regiões frias para plantas e animais adaptados ao frio, e algumas regiões quentes para plantas e animais adaptados ao calor, mas quase todo o planeta possui um clima nem muito frio nem muito quente, o que constitui o ambiente mais agradável para muitas espécies, inclusive o homem, naturalmente.

— O homem, naturalmente. Todas as partes de Gaia são iguais, mas algumas, como os seres humanos, são mais iguais que outras...

— Não seja sarcástico — disse Bliss, com um traço de irritação na voz. — O nível e intensidade da consciência são importantes. Um ser humano é uma parte mais útil de Gaia que uma pedra com o mesmo peso, e as propriedades e funções de Gaia como um todo são necessariamente programadas de modo a atender às necessidades dos seres humanos... não tanto, porém, quanto nos mundos dos Isolados. Além disso, existem ocasiões em que as atenções de Gaia se voltam para outros seres. Assim, por exemplo, de tempos em tempos Gaia precisa se preocupar com o seu interior. Não podemos nos dar ao luxo de permitir uma erupção vulcânica desnecessária, não é mesmo?

— Não — concordou Trevize. — Uma erupção desnecessária seria uma lástima.

— Você não aprova os nossos métodos, não é mesmo?

— Escute — disse Trevize. — Temos mundos que são mais frios que a média e mundos que são mais quentes; mundos cobertos de florestas e mundos que não passam de vastas savanas. Não existem dois mundos iguais, e cada um deles é capaz de sustentar milhares de espécies vivas. Estou acostumado ao clima relativamente ameno de Terminus... na verdade, já interferimos muito com o clima do planeta, quase tanto como em Gaia... mas gosto, pelo menos de vez em quando, de experimentar algo diferente. O que nós temos, Bliss, que Gaia não tem, é variedade. Se Gaia ocupar a Galáxia, será que todos os mundos da Galáxia terão o mesmo clima? A monotonia seria insuportável.

— Se a variedade for desejável, a variedade será mantida — declarou Bliss, muito séria.

— Como cortesia do comitê central? — retrucou Trevize. — Apenas o indispensável para que ninguém morra de tédio? Prefiro deixar por conta da natureza!

— Mas vocês não deixaram por conta da natureza! Todos os planetas habitáveis da Galáxia foram modificados. Cada um deles foi descoberto em um estado natural que não era o mais confortável para os seres humanos e cada um deles foi alterado para se tornar o mais próximo possível do planeta ideal. Se este mundo aqui é frio, estou certa de que é porque os habitantes não conseguiram aquecê-lo mais sem incorrerem em despesas excessivas. Mesmo assim, as regiões habitadas certamente dispõem de aquecimento. Assim, pense um pouco antes de falar a respeito das virtudes da natureza!

— Suponho que esteja falando em nome de Gaia — disse Trevize.

— Sempre falo em nome de Gaia. Eu sou Gaia.

— Se Gaia está tão certo da sua superioridade, porque pediu que eu decidisse? Por que não resolveu tudo sem mim?

Bliss fez uma pausa, como que para colocar os pensamentos em ordem. Depois, explicou:

— Porque não é prudente confiar demais em nós mesmos. É mais fácil enxergar nossas virtudes que nossos defeitos. Estamos ansiosos para fazer o que é certo; não o que nos parece certo, mas o que é certo, objetivamente, se é que existe uma certeza objetiva. Você parece ser o mais próximo da certeza objetiva que conseguimos encontrar; por isso, deixamo-nos guiar por você.

— Tão objetivamente certo — disse Trevize tristemente — que não consigo compreender minha própria decisão e saio à procura de uma justificativa para ela.

— Você vai encontrá-la — disse Bliss.

— Espero que sim.

— Na verdade, meu amigo — interveio Pelorat —, parece-me que a discussão foi vencida brilhantemente por Bliss. Por que não reconhece o fato de que os argumentos dela justificam sua decisão de entregar a Gaia o futuro da humanidade?

— Porque eu não conhecia esses argumentos quando tomei a decisão! — exclamou Trevize asperamente. — Não sabia quase nada a respeito de Gaia. Alguma coisa mais me influenciou, pelo menos inconscientemente, alguma coisa que não depende dos detalhes a respeito de Gaia, mas deve ser algo mais fundamental. É isso que preciso descobrir.

— Não fique zangado, Golan — disse Pelorat.

— Não estou zangado, estou apenas tenso. Não é fácil ser o responsável pelo destino da Galáxia.

— Compreendo o que sente, Trevize — disse Bliss —, e sinto que tenhamos sido obrigados a colocá-lo nesta situação. Quando é que vamos pousar em Comporellon?

— Daqui a três dias — disse Trevize — e só depois que pararmos em uma das estações espaciais que orbitam o planeta.

— É apenas uma formalidade, não é? — perguntou Pelorat.

— Nem tanto. Vamos ter que pedir permissão para pousar em Comporellon. A permissão pode ser concedida ou negada...

— Como pode ser negada ? — exclamou Pelorat, com indignação. — Com que direito recusariam um visto de entrada a cidadãos da Fundação? Comporellon não faz parte da Fundação?

— Sim e não. A situação é um pouco confusa e não sei exatamente qual a interpretação atual dos governantes do planeta. É possível que nos neguem permissão para pousar, mas não é provável.

— Sim, mas se isso acontecer, o que faremos?

— Ainda não sei — disse Trevize. — Vamos esperar e ver o que acontece antes de pensarmos em planos alternativos.

11

JÁ estavam tão perto de Comporellon que o planeta podia ser visto como um disco, mesmo sem a ajuda do telescópio. Era preciso o telescópio, porém, para enxergar as estações espaciais. Ficavam mais distantes do planeta do que quase todos os outros objetos em órbita e eram muito bem iluminadas.

Como o Estrela Distante estava viajando na direção do pólo Sul do planeta, metade do globo estava iluminado. As estações espaciais do lado da sombra eram visíveis como pontos luminosos. Formavam um arco em torno do planeta. Havia seis estações (certamente haveria mais seis na parte iluminada), igualmente espaçadas e girando em torno do planeta com a mesma velocidade.

Pelorat parecia impressionado com o espetáculo. Perguntou a Trevize:

— Existem outras luzes mais próximas do planeta. Sabe o que são?

— Não conheço muita coisa a respeito de Comporellon, de modo que é difícil de dizer. Algumas podem ser fábricas orbitais, outras laboratórios, observatórios ou mesmo cidades. Alguns planetas preferem manter todos os objetos em órbita, com exceção das estações espaciais, sem iluminação externa. É o que acontece em Terminus, por exemplo. Pode ver que Comporellon é mais liberal, pelo menos sob esse aspecto.

— Em que estação vamos parar, Golan?

— Depende deles. Mandei uma mensagem pedindo permissão para pousar em Comporellon e estou aguardando instruções. Tudo depende do número de naves que estão na fila. Se houver várias naves esperando em cada estação, teremos que ser muito pacientes!

— Até hoje, eu só havia viajado duas vezes pelo hiperespaço — observou Bliss. — Das duas vezes, não fui mais longe que Sayshell. É a primeira vez que me afasto tanto de Gaia!

Trevize olhou para ela.

— O que quer dizer com isso? Você não é Gaia?

O rosto de Bliss revelou uma leve irritação, mas logo a moça deu um risinho quase envergonhado.

— Tenho que admitir que desta vez você me pegou, Trevize. A palavra “Gaia” tem dois significados diferentes. Pode ser usada para designar um certo planeta, um ser inanimado de forma quase esférica que gira no espaço. Pode também se referir a um ser vivo do qual esse planeta é parte. Na verdade, deveríamos usar palavras diferentes para essas duas entidades, mas nós, gaianos, sempre sabemos a qual dos dois “Gaias” estamos nos referindo. Por outro lado, para vocês, Isolados, essa ambiguidade pode ser motivo de confusão.

— Pois então — disse Trevize —, admitindo que você está a milhares de anos-luz do planeta Gaia, você ainda é parte do organismo Gaia?

— Sim, ainda sou parte do organismo Gaia.

— Sem nenhuma atenuação devido à distância?

— Sem nenhuma atenuação. Já lhe disse que minha ligação com o planeta através do hiperespaço constitui uma complicação adicional, mas continuo a ser Gaia.

— Já lhe ocorreu que Gaia possa vir a tornar-se uma espécie de kraken, o monstro marinho das lendas escandinavas, com tentáculos estendendo-se por toda a Galáxia? Basta colocarem uns poucos gaianos em cada um dos mundos habitados e terão a Galáxia nas mãos. Ei, aposto que é exatamente isso que estão fazendo! Claro, deve haver alguns gaianos em Terminus... e outros em Trantor! Onde mais?

Bliss parecia pouco à vontade.

— Já disse que não vou mentir para você, Trevize, mas também não sou obrigada a revelar toda a verdade. Existem algumas coisas que você não precisa saber, entre elas a localização e identidade de todas as partes de Gaia.

— Não tenho o direito de saber o motivo para a existência desses tentáculos, Bliss, mesmo que não saiba onde estão?

— Não, Gaia acha que não.

— Entretanto, nada me impede de especular. Em minha opinião, vocês trabalham como guardiães da Galáxia.

— Estamos ansiosos para termos uma Galáxia estável e segura; uma Galáxia próspera e pacífica. O Plano de Seldon, pelo menos na forma como foi proposto originalmente por Hari Seldon, tinha por objetivo final o surgimento do Segundo Império Galáctico, um império mais justo e estável que o primeiro. O Plano, que tem sido constantemente modificado e aperfeiçoado pela Segunda Fundação, parece estar funcionando bem até agora.

— Acontece que Gaia não deseja um Segundo Império Galáctico, não é mesmo? Vocês querem uma Galáxia viva!

— Não foi essa a sua decisão? Se tivesse optado pela Primeira ou pela Segunda Fundação, estaríamos trabalhando pela formação do Segundo Império Galáctico!

— Que mal haveria em...

O alarma do computador começou a tocar.

— Agora tenho que ir — disse Trevize. — O computador está me chamando. Deve estar recebendo instruções de Comporellon. Mais tarde continuamos a conversa.

Entrou na sala de comando, colocou as mãos no tampo da escrivaninha e descobriu que o computador já havia recebido as coordenadas da estação espacial onde deveriam atracar.

Trevize confirmou o recebimento da mensagem e sentou-se para pensar.

O Plano de Seldon! Há muito tempo que não pensava nele. O Primeiro Império Galáctico havia entrado em decadência e durante quinhentos anos a Fundação tinha crescido, primeiro em competição com o próprio Império, depois sobre as suas ruínas... tudo de acordo com o Plano.

Tinha havido a interrupção da Mula, que, por algum tempo, ameaçara reduzir o plano a farelo, mas a Fundação conseguira derrotá-lo, provavelmente com o auxílio da misteriosa Segunda Fundação e possivelmente com a ajuda do ainda mais misterioso Gaia.

Agora, o plano estava ameaçado por algo ainda mais sério que a Mula. Em vez de um novo Império, estava para surgir uma entidade nunca vista... uma Galáxia Viva. Ele próprio havia concordado com essa guinada. Por quê? Haveria alguma falha no Plano? Algum erro básico?

Por um momento, pareceu a Trevize que existia mesmo uma falha, que ele sabia qual era, que havia levado esse fato em conta ao tomar sua decisão; entretanto, a impressão desapareceu como havia surgido, deixando-o mais confuso que nunca.

Talvez não passasse de ilusão. Afinal, não conhecia nada a respeito do Plano, a não ser as premissas básicas, que se baseavam na ciência da psico-história. Ignorava tanto os pormenores quanto as equações matemáticas que Seldon havia empregado.

Fechou os olhos e tentou pensar...

Não surgiu nenhuma ideia nova.

Quem sabe com o auxílio do computador? Colocou as mãos sobre a mesa e sentiu as mãos do computador apertando as suas. Fechou os olhos e pensou de novo... . Nada.

12

O COMPORELIANO que subiu a bordo tinha nas mãos uma carteira holográfica que exibia com notável fidelidade a face gorducha, coberta por uma barba rala, e o identificava como A. Kendray.

Era um homem baixinho, de corpo tão roliço quanto o rosto. Tinha um jeito amável e descontraído, e olhou em torno com visível admiração.

— Como conseguiram chegar tão depressa? Só os esperávamos daqui a duas horas!

— Esta nave é um modelo novo — explicou Trevize, em tom polido mas impessoal.

Kendray não devia ser tão inocente quanto aparentava. Entrou na sala de comando e foi logo perguntando:

— Gravítica?

Trevize viu que não adiantava negar o óbvio. Respondeu simplesmente:

— Isso mesmo.

— Muito interessante. Já tinha ouvido falar, mas é a primeira vez que vejo pessoalmente. Motores no casco?

— Motores no casco.

Os olhos de Kendray se voltaram para o computador.

— Os circuitos do computador também?

— Também. Pelo menos, foi o que me disseram.

— Está bem. Vou precisar da documentação da nave: número do motor, local de fabricação, código de registro, etc, etc. Deve estar tudo no computador. Aposto que ele pode me fornecer todos os dados em meio segundo.

Na verdade, o computador levou pouco mais que isso. Kendray olhou em torno.

— Vocês três são as únicas pessoas a bordo?

— Isso mesmo — respondeu Trevize.

— Animais vivos? Plantas? Alguém doente?

— Não, não e não — respondeu Trevize, secamente.

— Hum! — fez Kendray, tomando notas. — Poderia colocar sua mão aqui? Simples rotina. A mão direita, por favor.

Trevize olhou para o aparelho sem nenhuma simpatia. Seu uso estava ficando cada vez mais difundido, e ao mesmo tempo o instrumento estava ficando cada vez mais sofisticado. Era quase possível avaliar o grau de desenvolvimento de um planeta pelo modelo de microdetector utilizado nas estações espaciais. No momento, havia poucos planetas, mesmo entre os mais atrasados, que não estivessem usando algum tipo de microdetector. Tudo havia começado nos últimos anos do Império, quando os diferentes mundos, ao se libertarem do governo central, começaram a se preocupar com as doenças e microorganismos oriundos de outros planetas.

— O que é isso? — perguntou Bliss, em voz baixa, esticando o pescoço para examinar o aparelho, primeiro de um lado, depois do outro.

— Acho que é chamado de microdetector — respondeu Pelorat.

— Não tem nada de especial — acrescentou Trevize. — É apenas um instrumento que verifica automaticamente se você está abrigando em seu corpo algum micro-organismo capaz de transmitir doenças.

— Ele também classifica os micro-organismos que encontra — disse Kendray, com orgulho. — Foi fabricado aqui mesmo em Comporellon... Se não se importa, ainda preciso da sua mão direita.

Trevize introduziu a mão direita no aparelho e uma série de pequenas marcas vermelhas se deslocou no mostrador. Kendray apertou um botão e obteve uma cópia colorida das indicações do instrumento.

— Assine aqui, por favor — disse para Trevize. Trevize assinou.

— Como está minha saúde? — perguntou. — Acha que vou escapar?

— Não sou médico — respondeu Kendray —, de modo que não posso entrar em pormenores. O que sei é que o aparelho não mostrou nenhuma das marcas que fariam com que seu visto de entrada fosse recusado ou você fosse colocado de quarentena. Isso é tudo o que me interessa.

— Sorte a minha — disse Trevize, secamente, sacudindo a mão para livrar-se da leve comichão que a máquina havia deixado.

— Agora o senhor — disse Kendray para Pelorat.

Pelorat introduziu a mão com ar desconfiado e depois assinou o papel.

— E a senhora?

Momentos depois, Kendray estava olhando do aparelho para Bliss e de Bliss para o aparelho.

— Nunca vi nada parecido! Nenhum germe!

— Que bom! — exclamou Bliss, com um sorriso insinuante.

— Uma saúde invejável... — Kendray olhou para o primeiro registro e disse: — Sua identificação, Sr. Trevize.

Trevize mostrou a carteira de identidade. Kendray examinou-a e pareceu surpreso.

— Conselheiro de Terminus?

— Isso mesmo.

— Alto funcionário da Fundação?

— Exatamente. Escute, estamos com um pouco de pressa...

— É o comandante da nave?

— Sou.

— Finalidade da visita?

— Estou aqui em missão confidencial e isso é tudo o que posso lhe revelar. Compreende?

— Sim senhor. Quanto tempo pretende ficar em Comporellon?

— Não sei. Mais ou menos uma semana.

— Muito bem. E o outro cavalheiro?

— Ele é o dr. Janov Pelorat. Respondo por ele. É um famoso cientista em Terminus e veio para cá na qualidade de meu assistente.

— Entendo, senhor, mas preciso ver a carteira de identidade dele. Regulamentos são regulamentos. Espero que compreenda, senhor.

Pelorat mostrou a carteira. Kendray voltou-se para Bliss.

— E a senhora? Trevize interveio:

— Não precisa incomodá-la. Respondo por ela, também.

— Sim senhor. Basta que me mostre a carteira de identidade.

— Sinto muito, mas não tenho nenhum documento — disse Bliss.

— O que foi que a senhora disse?

— Minha amiga esqueceu os documentos em casa — disse Trevize. — Essas coisas acontecem, o senhor sabe. Mas não tem importância. Assumo total responsabilidade.

— Infelizmente, não posso permitir isso — afirmou Kendray. — A responsabilidade é minha. Não se preocupe; não deve ser difícil conseguir cópias dos documentos da jovem. Ela é de Terminus, não é?

— Não, ela não é de Terminus.

— De algum outro planeta da Fundação?

— Também não.

Kendray olhou desconfiado para Bliss e depois para Trevize.

— Nesse caso, a coisa fica mais complicada, senhor conselheiro. Pode levar mais tempo do que eu imaginava. Senhorita Bliss, vou precisar do nome do seu planeta natal e do planeta do qual é cidadã. Só vai poder desembarcar em Comporellon depois que as cópias dos documentos chegarem.

— Um momento, sr. Kendray — disse Trevize. — Não vejo nenhuma razão para a demora. Sou um alto funcionário da Fundação I estou aqui em uma missão de extrema importância. Não posso ser retido por uma questão burocrática insignificante.

— Não tenho escolha, conselheiro. Se dependesse de mim, já estariam lá embaixo, mas existe um regulamento e sou obrigado a cumpri-lo. Naturalmente, algum membro do governo de Comporellon deve es-lar à sua espera. Diga-me quem é e entrarei em contato com ele. Se ele autorizar, a moça será liberada imediatamente.

Trevize hesitou por um momento.

— Isso não seria político, Sr. Kendray. Posso falar com o seu superior imediato?

— Claro que sim, mas no momento ele está muito ocupado.

— Tenho certeza de que me receberá assim que souber que trabalho para a Fundação...

— Aqui entre nós, conselheiro, isso só servirá para piorar as coisas. Como o senhor deve saber, não fazemos parte diretamente da Fundação; Comporellon é um dos Planetas Associados. Os dirigentes fazem questão de mostrar que não somos títeres da Fundação, mas um mundo livre e independente. Meu superior será elogiado se ele negar um favor a um representante da Fundação.

Trevize fez uma careta.

— E você?

Kendray sacudiu a cabeça.

— Não tenho ambições políticas. Para mim, um elogio não significa nada. Por outro lado, detestaria perder o emprego por causa de uma bobagem.

— Sabe que, na minha posição, posso fazer muita coisa por você.

― Desculpe o atrevimento, senhor, mas acho que não pode. Não sei como dizer isso, senhor... mas é melhor que não me ofereça nada de valor. As autoridades não veem com bons olhos os funcionários que aceitam ofertas desse tipo...

— Não estava pensando em suborná-lo. Estava pensando em interceder por você, porque quando o prefeito de Terminus souber que prejudicou minha missão com sua teimosia...

— Conselheiro, estarei perfeitamente seguro enquanto cumprir o regulamento à risca. Se os membros do presidium de Comporellon ficarem em má situação com o seu prefeito, problema deles. Por outro lado, o senhor e seu amigo estão liberados. Se deixarem a srta. Bliss na estação espacial, nós nos encarregaremos de mandá-la para a superfície assim que os papéis chegarem. Se, por alguma razão, for impossível conseguir os documentos, nós a enviaremos para o planeta de origem em uma nave comercial. Nesse caso, porém, algum dos senhores terá que pagar a passagem.

Trevize observou como Pelorat havia reagido às palavras do funcionário e disse:

— Sr. Kendray, podemos conversar em particular na sala de comando?

— Está bem, mas não posso ficar muito mais tempo a bordo.

— Não vai demorar — disse Trevize.

Na sala de comando, Trevize fechou a porta de forma teatral e disse, em voz baixa:

— Já estive em muitos planetas, sr. Kendray, mas nunca vi nenhum lugar que aplicasse as leis de imigração de maneira mais obstinada, especialmente em se tratando de membros da Fundação em missão oficial...

— Mas a mocinha não é da Fundação!

— Mesmo assim.

— Conselheiro, essas coisas passam por fases. Tivemos alguns escândalos e no momento as coisas estão apertadas. Se voltar no ano que vem, talvez não haja nenhum problema, mas no momento não posso fazer nada.

— Tente, sr. Kendray — disse Trevize, em tom melífluo. — Vou apelar para os seus sentimentos, de homem para homem. Pelorat e eu estamos nesta missão há muito tempo. Eu e ele. Só nós dois. Somos bons amigos, mas falta alguma coisa, se é que me entende. Pois Pelorat conheceu aquela moça. Não preciso explicar o que aconteceu, mas resolvemos trazê-la conosco. Ela se tornou importante para nossa sanidade mental.

”O problema é que Pelorat tem uma esposa em Terminus. Eu sou livre, você entende, mas Pelorat, não. E ele chegou a uma idade em que os homens ficam... como direi?... em que os homens ficam obcecados por mulheres mais jovens. Não quer largar Bliss de jeito nenhum. Ao mesmo tempo, se a presença de Bliss for conhecida oficialmente, o velho Pelorat vai comer o pão que o diabo amassou quando voltar a Terminus.

”Ninguém será prejudicado, entende? Bliss não tem nada a ver com a nossa missão. Qual a necessidade de mencioná-la? Não pode registrar apenas o meu nome e o do dr. Pelorat? Éramos os únicos a bordo quando nossa nave partiu de Terminus. Para que mencionar a moça? Afinal de contas, ela está absolutamente livre de doenças. Você pôde constatar isso pessoalmente!

Kendray franziu a testa.

— Conselheiro, compreendo sua situação e, acredite, gostaria de ajudá-lo. Se pensa que é divertido ficar de serviço nesta estação meses a fio, está muito enganado. E aqui em cima só trabalham homens... — Sacudiu a cabeça. — Além disso, sou casado, de modo que entendo a enrascada em que o seu amigo se meteu... mas escute, mesmo que eu deixe vocês passarem, assim que descobrirem que a... que a amiguinha de vocês não tem documentos, ela vai para a cadeia, eu perco o emprego e o senhor e seu amigo vão ter muito o que explicar para as autoridades de Comporellon e de Terminus!

— Sr. Kendray, tem que confiar em mim. Assim que pousarmos em Comporellon, tudo estará bem. As pessoas que estão à minha espera são muito influentes. Se for necessário, o que acho muito pouco provável, assumirei total responsabilidade pelo que aconteceu aqui. Além do mais, recomendarei a sua promoção...

Kendray hesitou por um momento e depois disse:

— Está bem. Vou deixar a moça passar, mas fique sabendo de uma coisa: a partir deste momento, estarei planejando uma forma de livrar a cara se alguma coisa der errado. E não moverei um dedo para ajudar vocês. Acontece que eu sei como as coisas funcionam em Comporellon, vocês não sabem e este não é um lugar fácil para as pessoas que saem da linha.

— Muito obrigado, sr. Kendray — disse Trevize. — Não haverá nenhum problema. Pode ficar tranquilo.

Capítulo 4
Em Comporellon

13

Começaram a descida. A estação espacial havia ficado para trás, reduzida a um ponto luminoso. Em poucas horas, estariam atravessando a camada de nuvens.

Uma nave gravítica não precisava descer em espiral para frear, mas também não podia mergulhar depressa demais em direção à superfície. O fato de poder neutralizar a força gravitacional não a tornava imune à resistência do ar. A nave podia descer em linha reta, mas se não tomasse cuidado com a velocidade, arderia em chamas.

— Para onde estamos indo? — perguntou Pelorat, parecendo confuso. — Daqui de cima, tudo parece igual, meu amigo.

— Para mim também — disse Trevize. — Acontece que dispomos de um mapa holográfico oficial de Comporellon, com todos os continentes e oceanos... e também com as divisões políticas. O mapa está na memória do computador, que se encarregará de todo o trabalho. Depois de determinar a nossa posição no mapa, nos guiará direta-mente para a capital.

— Não acha arriscado irmos para a capital? Se o ambiente aqui é hostil à Federação, como aquele sujeito insinuou, na capital será ainda pior...

— Por outro lado, a capital deve ser o centro intelectual do planeta e portanto o melhor lugar para conseguirmos a informação que buscamos. Mesmo que eles não gostem da Fundação, duvido que telham coragem de expressar este sentimento abertamente. Bliss saiu do lavatório ajeitando a roupa e disse:

— Estava pensando... nesta nave todos os excrementos são reciclados?

— Não temos escolha — disse Trevize. — Quanto tempo você acha que duraria nosso suprimento de água se não reciclássemos a urina? Como acha que conseguimos nutrientes para as plantas que cultivamos a bordo? Espero que isso não estrague o seu apetite, minha eficiente Bliss.

— Por que estragaria? De onde você supõe que vem a água e a comida em Gaia, neste planeta em que estamos ou em Terminus?

— Em Gaia, os excrementos estão vivos, não estão?

— Vivos, não. Conscientes. Naturalmente, seu nível de consciência é extremamente baixo quando comparado com o nosso.

Trevize fez uma careta de desagrado, mas não insistiu no assunto. Disse:

— Vou para a sala de comando fazer companhia ao computador. Não que ele precise de mim...

— Podemos ir juntos? — perguntou Pelorat. — Ainda não me acostumei à ideia de que ele é capaz de cuidar da nave sem a nossa ajuda; de reconhecer outras naves, de evitar tempestades, de... de?

— Pois é bom ir se acostumando — disse Trevize, com um largo sorriso. — Estamos muito mais seguros com o computador nos controles do que se eu assumisse o comando... mas claro, claro, venham. Vão achar interessante.

Estavam sobrevoando o lado iluminado do planeta porque, explicou Trevize, naquele lado o computador podia identificar mais facilmente os acidentes geográficos, comparando-os com os do mapa que estava armazenado na sua memória.

— Isso é evidente — disse Pelorat.

— Nem tanto. O computador também “enxerga” no infravermelho, e portanto poderia também reconhecer os acidentes da face escura. Ocorre, porém, que as ondas infravermelhas têm comprimento maior que as de luz visível e por isso não permitem uma resolução tão boa. Em outras palavras, o computador “vê” um pouco melhor no lado claro. E sempre que posso, gosto de tornar as coisas fáceis para ele...

— E se a capital estiver no lado escuro?

— Depois que o computador descobrir nossa localização no lado iluminado, poderá levar-nos direto para a capital, mesmo que ela este ja do outro lado do planeta. Além disso, muito antes de chegarn ao nosso destino, estaremos recebendo transmissões de microondas q| nos guiarão para o espaçoporto mais conveniente. Assim, não há razão para nos preocuparmos.

— Tem certeza? — perguntou Bliss. — Estou chegando sem ne-nhuma identificação e impedida, por razões óbvias, de revelar mini origem. Que vou fazer, se pedirem meus documentos?

— Isso não vai acontecer — disse Trevize. — Todos vão pensar que seus documentos já foram examinados na estação espacial.

— Mas e se pedirem?

— Nesse caso, enfrentaremos o problema quando ele surgir. Não vamos nos preocupar com hipóteses remotas.

— Se deixarmos para resolver o problema quando ele surgir, po-dera ser tarde demais.

— Estou contando com a minha presença de espírito.

— Por falar em presença de espírito, como fez para convencer aquele homem da estação espacial?

Trevize olhou para Bliss e deixou os lábios se expandirem devagar em um sorriso que o deixou parecido com um moleque levado.

— Usei a cabeça, ora! Pelorat insistiu:

— Conte para nós, vamos!

— Custei para achar uma forma de sensibilizar o cara. Tentei intimidá-lo e nada. Suborno, nem pensar. Apelei para a lógica, para lealdade à Fundação. Nada estava dando certo, de modo que use um recurso extremo. Disse para ele você estava traindo sua esposa Pelorat.

— Minha esposa! Meu amigo, no momento eu nem estou casado.

— Eu sei disso, mas ele, não. Bliss interrompeu:

— “Esposa” deve ser o nome que vocês dão à companheira legal habitual de um homem.

— É um pouco mais que isso, Bliss — disse Trevize. — Esposa é a companheira legal, aquela que tem direitos jurídicos reconhecidos.

— Bliss, eu não tenho uma esposa — disse Pelorat, nervoso. — Já tive no passado, mas faz muito tempo... se você quisesse passar pe-las formalidades...

— Pel, Pel — disse Bliss, com um gesto de desdém —, por que eu faria uma coisa dessas? Tenho muitos companheiros que estão mais próximos de mim do que o seu braço direito do braço esquerdo. Só os Isolados se sentem alienados a ponto de terem que usar convenções artificiais como um pálido substituto para o verdadeiro companheirismo!

— Mas eu sou um Isolado, Bliss querida.

— Com o tempo, você será menos Isolado, Pel. Nunca chegará a fazer parte de Gaia, provavelmente, mas pelo menos terá muitos companheiros.

— Só quero você, Bliss.

— Isso é porque ainda não sabe de nada. Você vai ver! Durante toda a conversa, Trevize estava tentando se concentrar na tela, com uma expressão de tolerância no rosto. Tinham chegado à camada de nuvens e por um momento a tela ficou toda branca.

Hora de mudar para os detectores de microondas, pensou, ao mesmo tempo em que o computador começava a mostrar na tela os ecos de radar. As nuvens desapareceram e a superfície de Comporellon apareceu em cores falsas, os limites entre terrenos de diferente composição, um pouco difusos e trêmulos.

— É assim que vai ficar daqui para a frente? — perguntou Bliss, surpresa.

— Só até atravessarmos as nuvens. Depois, tudo volta à ser como antes.

Enquanto Trevize falava, a nave saiu das nuvens e a visibilidade voltou ao normal.

— Entendo — disse Bliss. — O que não entendo é que diferença pode fazer para o funcionário da estação espacial o fato de Pel estar (ruindo a esposa.

— O que eu disse para aquele tal de Kendray foi que se não deixasse você passar, a notícia a respeito da sua presença a bordo poderia chegar a Terminus e consequentemente à esposa de Pelorat. Isso, por sua vez, colocaria Pelorat em sérias dificuldades. Não expliquei que tipo de dificuldades, mas procurei dar a impressão de que seria algo bem desagradável. Existe uma espécie de solidariedade masculina — prosseguiu Trevize, com um sorriso — que faz com que um homem jamais revele as aventuras sexuais de outro homem. Talvez o raciocínio por trás disso seja de que quem ajuda hoje pode precisar de ajuda amanhã. Suponho que exista uma solidariedade semelhante entre as mulheres — prosseguiu, em tom um pouco mais sério —, embora, não sendo mulher, nunca tenha tido a oportunidade de observá-la de perto.

Bliss parecia horrorizada.

— Está brincando comigo? — perguntou.

— Não, estou falando sério — disse Trevize. — Não digo que o tal do Kendray tenha deixado você passar só para evitar que a esposa de Janov ficasse zangada com ele. Não, a solidariedade masculina deve ter sido apenas o pequeno reforço que faltava aos meus outros argumentos.

— Mas isso é incrível! São os regulamentos que mantêm a sociedade coesa e funcionando. Acha correto desrespeitar os regulamentos por razões fúteis?

— Ora, os próprios regulamentos às vezes são ridículos! — exclamou Trevize, tomando a defensiva. — Poucos mundos dão muita importância à passagem de estrangeiros por seu território, especialmente em períodos de paz e prosperidade, como o que estamos atravessando agora, graças à Fundação. Comporellon, por algum motivo, não segue a regra... provavelmente por causa de uma questão obscura de política interna. Por que devemos ser nós os prejudicados?

— Isso não vem ao caso. Se obedecermos apenas às leis que consideramos justas e razoáveis, nenhuma lei sobreviverá muito tempo, porque não existe nenhuma lei que alguém não considere injusta e pouco razoável. Assim, o que começa como uma pequena esperteza acaba sempre em anarquia e desastre, até mesmo para o esperto, já que ele também não consegue sobreviver ao colapso da sociedade.

— As sociedades não são tão frágeis assim. Você está falando como Gaia, e Gaia não pode compreender o que é uma associação de indivíduos livres. Muitas leis que eram justas e razoáveis quando foram criadas deixam de acompanhar a evolução da sociedade e continuam em vigor apenas por causa de inércia. Nesse caso, não é apenas desculpável, é eticamente correto desrespeitar essas leis como forma de anunciar o fato de que se tornaram inúteis, ou pior ainda, nocivas à sociedade.

— Nesse caso, até o ladrão e o assassino poderiam argumentar que estão sendo úteis à humanidade!

— Você está exagerando. No superorganismo de Gaia, existe um consenso automático quanto às regras a serem seguidas, de modo que não ocorre a ninguém a ideia de violá-las. É como se Gaia estivesse fossilizado. É claro que existe um elemento de desordem na associação livre, mas é o preço que temos que pagar pela capacidade de introduzir novidades e mudanças. No conjunto, não acho que seja um preço muito alto.

O tom de voz de Bliss ficou ligeiramente mais agudo.

— Você está muito enganado se pensa que Gaia estagnou. Nossos planos, nossos costumes, nossas leis estão sendo constantemente reexaminados. Não persistem por pura inércia. Gaia aprende através da experiência e da lógica e muda sempre que considera isso necessário.

— Ainda que seja verdade, o aprendizado deve ser lento e as mu-ilnças raras, porque em Gaia não existe nada além de Gaia. Aqui, como em todos os planetas livres, mesmo quando quase todos concordam, existem sempre uns poucos que discordam. Em alguns casos, esses poucos podem estar certos, e se eles forem muito espertos, muito persis-lentes e estiverem muito certos, conseguirão vencer a maioria e serão considerados como heróis pelas gerações futuras... como Hari Seldon, que aperfeiçoou a psico-história, desafiou com suas ideias o gigantesco Império Galáctico... e ganhou!

— Não sei como pode dizer que ele ganhou, Trevize. O Segundo Império planejado por Seldon jamais se tornará uma realidade. Em seu lugar, surgirá a Galáxia Viva.

— Tem certeza? — perguntou Trevize, de cara feia.

— A decisão foi sua, e por mais que discuta comigo a favor dos Isolados e da liberdade de que dispõem para cometer crimes e fazer tolices, existe alguma coisa nos recônditos da sua mente que o obrigou I concordar comigo/conosco/com Gaia quando tomou a sua decisão.

— O que está presente nos recônditos de minha mente — disse Trevize, num tom ainda mais desanimado — é exatamente o que estou procurando. A começar por aqui — acrescentou, apontando para a tela, onde uma grande cidade se esparramava até o horizonte, um aglomerado de construções baixas com um ou outro edifício mais alto, cercado por campos de cor castanha cobertos por uma fina camada de gelo.

Pelorat sacudiu a cabeça.

— Que pena! Pretendia apreciar a descida, mas fiquei distraído ouvindo a discussão de vocês...

— Não tem importância, Janov — disse Trevize. — A vista será a mesma quando partirmos. Se você fizer Bliss ficar quieta, prometo que não direi uma palavra.

Pouco depois, o Estrela Distante se aproximava do espaçoporto da cidade, guiado por uma transmissão de microondas.

14

Kendray estava de cara amarrada quando voltou à estação espacial e observou o Estrela Distante desaparecer ao longe. Seu humor não melhorou até o final do expediente.

Estava se preparando para começar a última refeição do dia quando um dos colegas, um sujeito grandalhão, de olhos vivos, cabelos claros e lisos e sobrancelhas tão louras que eram quase invisíveis, sentou-se na cadeira ao lado.

— Que foi que houve, Ken? — perguntou o outro. Kendray fez uma careta e respondeu:

— Aquela última nave era gravítica, Gatis.

— Aquela nave esquisita, com radioatividade zero?

— Era por isso que não tinha radioatividade. Não precisa de combustível. É gravítica.

Gatis assentiu.

— Aquela que nos pediram para ficar de olho, certo?

— Certo.

— E foi cair nas suas mãos. Sortudo!

— Nem tanto. Havia uma mulher a bordo. Sem documentos. E; eu a deixei passar.

— O quê? Escute, não me diga mais nada. Não quero saber. Nem mais uma palavra. Você pode ser meu amigo, mas não vai me fazer de cúmplice!

— Não estou preocupado com isso. Não muito. Afinal, eu tinha que mandar a nave lá para baixo. Eles querem aquela nave... eles querem qualquer nave gravítica que aparecer. Você sabe disso.

— Claro, mas pelo menos podia ter detido a mulher.

— Não me deu vontade. Ela não é casada. Eles a trouxeram apenas para... para usá-la.

— Quantos homens a bordo?

— Dois.

— E eles a apanharam só para... para isso? Devem ser de Terminus.

— Isso mesmo.

— Esse pessoal de Terminus é fogo!

— Nem me diga.

— O pior é que sempre se dão bem!

— Um deles era casado e não queria que a mulher soubesse. Se eu prendesse a moça aqui, a mulher dele ia ficar sabendo.

— Ela não está em Terminus?

— Mesmo assim.

— Bem feito para o cara se a mulher dele descobrisse.

— Pode ser... mas eu não quis ser o responsável.

— Vai pegar muito mal para você quando descobrirem. Querer livrar a cara de um desconhecido não é desculpa.

Você teria detido a moça? — Acho que sim.

— Não, acho que não. O governo quer aquela nave. Se eu não deixasse a moça passar, os homens poderiam mudar de ideia e ir para outro planeta.

— Será que vão acreditar em você?

— Acho que sim. Sabe, a mulher é de fechar o comércio. Imagine uma mulher daquelas disposta a viajar com dois homens. São uns felizardos!

— Acho que a sua patroa não ia gostar de saber que você pensa assim.

— Quem vai contar para ela? Você? — perguntou Kendray, em tom desafiador.

— Calma, calma! Você sabe que não! — O ar de indignação de Gatis desapareceu rapidamente e ele disse: — O que você fez não vai adiantar nada para aqueles sujeitos...

— Eu sei.

— O pessoal lá de baixo logo vai descobrir a respeito da moça e mesmo que não pegue nada para você, com eles vai ser diferente!

— Eu sei, e tenho pena deles. Mesmo a presença da mulher não vai ser nada em comparação com os problemas que a nave vaii trazer para eles. O capitão fez alguns comentários...

Kendray interrompeu o que estava dizendo e Gatis perguntou, curioso:

— Que comentários?

— Deixe para lá. É assunto confidencial.

— Não vou repetir para ninguém.

— Nem eu. Mas estou com pena desses dois sujeitos de Terminus!

15

Quem Já experimentou a monotonia do espaço sabe que o único momento emocionante nas viagens espaciais é a hora de pousar em um planeta desconhecido. A superfície se desloca velozmente para trás enquanto você observa manchas de água e de terra, figuras e linhas geométricas que podem representar campos e estradas. De repente, você reconhece o verde das plantas, o cinzento do concreto, o castanho do solo nu, o branco da neve. O mais interessante, porém, são as regiões habitadas; cidades que em cada planeta têm uma geometria característica, uma arquitetura própria.

Em uma nave comum, haveria ainda a sensação de pousar e taxiar na pista. Com o Estrela Distante era diferente. Ele começou a frear, o computador mantendo um equilíbrio delicado entre a força da gravidade e a resistência da atmosfera, até ficar parado acima do espaço-porto. O vento, que soprava em rajadas, havia introduzido uma complicação adicional. Quando o sistema gravítico do Estrela Distante era ajustado para neutralizar parcialmente a força da gravidade, a nave não só perdia peso mas também perdia massa, tornando-se portanto muito mais vulnerável ao vento. Assim, tinha sido necessário aumentar a gravidade e usar jatos auxiliares não só para frear a nave como também para compensar a cada instante a força do vento. Sem um computador extremamente rápido, esse tipo de manobra seria impraticável.

A nave foi descendo lentamente, com pequenos movimentos laterais inevitáveis para lá e para cá, até imobilizar-se no centro do quadrado que marcava a posição que o pessoal de terra lhe havia destinado no espaçoporto.

Quando o Estrela Distante pousou, o céu azul-claro estava coalhado de nuvens brancas. Mesmo na superfície, o vento continuava forte e, embora não constituísse mais um perigo, provocou um arrepio em Trevize. Ele percebeu imediatamente que as roupas de que dispunham eram totalmente inadequadas para o clima de Comporellon.

Pelorat, por outro lado, olhou em torno com admiração e respirou profundamente, saboreando o ar gelado nos pulmões. Chegou a desabotoar o casaco para expor o peito ao vento. Sabia que em pouco tempo tornaria a abotoar o casaco, mas no momento queria sentir a existência de uma atmosfera, o que era impossível a bordo do Estrela Distante.

Bliss apertou o casaco contra o corpo e, com as mãos enluvadas, puxou o gorro para cobrir as orelhas. Seu rosto tinha uma expressão aflita; parecia a ponto de chorar. Murmurou:

— Este mundo é mau. Ele nos odeia!

— Não diga isso, Bliss querida — protestou Pelorat. — Tenho certeza de que os nativos gostam deste mundo e de que o mundo... o mundo gosta deles, como você diria. Assim que entrarmos em algum lugar aquecido você vai se sentir melhor.

Abriu uma aba do casaco e ofereceu-a a Bliss, que se aninhou contra o seu peito.

Trevize fez o possível para ignorar o frio. Recebeu um cartão magnetizado de um funcionário do espaçoporto e verificou, com o auxílio do computador de bolso, se continha todos os dados necessários: número da vaga, nome da nave, número de série do motor e assim por diante. Examinou mais uma vez a nave para ter certeza de que estava bem trancada e depois fez o maior seguro contra roubo que a legislação do planeta permitia (uma providência inútil, na verdade, pois o Estrela Distante deveria ser invulnerável à tecnologia dos comporelianos e, se não fosse, sua perda seria irreparável).

Trevize encontrou o ponto de táxi no lugar esperado. (Muitas instalações nos espaçoportos eram padronizadas quanto à localização, aparência e modo de usar. Tinham que ser, dada a natureza multiplanetária da clientela.). Chamou um táxi, digitando o destino simplesmente como cidade”.

Um táxi deslizou em direção a eles apoiado em esquis diamagnéticos, tremendo com a vibração do motor nada silencioso. Era pintado de cinza escuro e tinha o símbolo de táxi pintado em branco nas portas traseiras. O motorista usava um paletó preto e um gorro branco de pele.

— Parece que as cores nacionais são preto e branco — observou Pelorat.

— Talvez na cidade seja menos monótono — disse Trevize.

O motorista falou através de um pequeno microfone, talvez para evitar abrir a janela:

— Vão para a cidade?

Falava o dialeto galáctico com um sotaque cantado relativamente fácil de entender... o que era sempre um alívio num mundo desconhecido.

— Vamos — respondeu Trevize.

A porta traseira se abriu. Bliss entrou, seguida por Pelorat e depois por Trevize. A porta se fechou e sentiram um bafo de ar quente. Bliss esfregou as mãos e deixou escapar um suspiro de alívio. O táxi começou a andar e o motorista perguntou:

— A nave em que vocês chegaram é gravítica, não é?

— Considerando a forma como pousamos, você ainda tem dúvidas? — disse Trevize, secamente.

— Então é de Terminus? — quis saber o motorista.

— Conhece outro planeta capaz de fabricar uma nave gravítica? O motorista pareceu pensar um pouco enquanto o táxi ganhava velocidade. Então disse:

— Você sempre responde a uma pergunta com outra pergunta? Trevize não pôde resistir.

— Por que não?

— Nesse caso, que diria se eu perguntasse se o seu nome é Golan Trevize?

— Eu diria: Por que está perguntando?

O táxi parou bruscamente e o motorista disse:

— Pura curiosidade! Vou perguntar de novo: Seu nome é Golan Trevize?

— O que é que você tem com isso?

— Meu amigo — disse o motorista —, não vamos sair daqui enquanto não me responder. E se não responder logo, vou desligar o aquecimento do compartimento de passageiros e continuar esperando. Seu nome é Golan Trevize, conselheiro de Terminus? Se disser que não, terá que me mostrar sua carteira de identidade.

— Sim, sou Golan Trevize, e como conselheiro da Fundação, espero ser tratado com todo o respeito que minha posição exige. Se se esquecer disso, poderá se ver em maus lençóis, camarada. E agora?

— Agora posso continuar um pouco mais tranquilo. — O táxi começou a se mover novamente. — Escolho meus passageiros com cuidado — prosseguiu o motorista — e só estava esperando dois homens. A mulher foi uma surpresa e fiquei com medo de ter cometido um engano. Agora que sei que estava certo, posso deixar por sua conta explicar a mulher quando chegar ao seu destino.

— Não sei qual é o meu destino.

— Pois eu sei. Você vai para o Ministério dos Transportes.

— Não é para lá que eu quero ir!

— Isso não faz a mínima diferença, conselheiro. Se eu fosse um motorista de táxi, levaria você para onde me mandasse ir. Como não sou, levo você para onde eu quero ir.

— Espere aí — disse Pelorat, inclinando-se para a frente. — Você parece um motorista de táxi. Está até dirigindo um táxi!

— Qualquer um pode dirigir um táxi. Além disso, nem todo carro que parece um táxi tem que ser um táxi.

— Deixe de brincadeiras! — exclamou Trevize. — Quem é você e o que está fazendo? Lembre-se de que terá que prestar contas à Fundação por seus atos!

— Eu, não — disse o motorista. — Meu superiores, talvez. Sou agente da Polícia de Segurança de Comporellon. Tenho ordens para tratá-lo com cortesia, mas terá que ir para onde eu o levar. E não vá tentar nenhuma gracinha, porque estou armado e minhas ordens são para defender-me se for atacado.

16

Depois que o veículo atingiu a velocidade de cruzeiro, passou a mover-se com absoluta suavidade. Trevize ficou muito quieto, tentando pensar. Mesmo sem olhar para Pelorat, tinha certeza de que o outro tinha uma expressão interrogativa no rosto, como quem diz “O que vamos lazer agora?”.

Uma rápida olhadela assegurou-o de que Bliss estava tranquila, aparentemente despreocupada. E por que não? Afinal, tinha um mundo inteiro dentro de si. Gaia inteiro, apesar da distância que a separava do planeta. No caso de uma emergência real, a jovem podia contar com recursos quase ilimitados. O que havia acontecido?

Era evidente que o funcionário da estação espacial, obedecendo ao regulamento, havia enviado uma comunicação a respeito da nave (omitindo Bliss) e essa comunicação havia atraído a atenção das autoridades, especialmente do Ministério dos Transportes. Por quê?

As relações entre Comporellon e a Fundação eram amistosas e ele próprio era um representante graduado da Fundação...

Acontece que tinha dito ao funcionário da estação espacial... Ken-dray, o funcionário se chamava Kendray... que tinha negócios importantes a tratar com o governo de Comporellon. Naturalmente, era apenas uma tentativa de intimidar o homem. Entretanto, Kendray devia ter comunicado o fato aos superiores, o que certamente despertaria um interesse incomum.

Como não havia previsto isso? Onde estava sua famosa intuição? Gaia dizia que ele era uma espécie de caixa preta, sempre pronto a fornecer a resposta correta. Seria essa realmente a opinião de Gaia? Estaria sendo traído por um excesso de confiança causado por uma superstição estúpida?

O homem que não podia errar... como pudera acreditar em tamanha tolice? Quantos erros já não havia cometido na vida? Por acaso era capaz de prever ao menos o tempo que iria fazer no dia seguinte? Claro que não!

Então era apenas nas grandes decisões que não podia errar? Como ter certeza?

Esqueça! Afinal, o simples fato de haver afirmado que estava no planeta em missão importante... não, as palavras exatas tinham sido “missão confidencial”...

Pois então, o simples fato de haver afirmado que estava ali a ser-viço da Fundação, em missão confidencial, bastava para atrair a aten-ção do governo local. Sim, mas até saberem exatamente do que se tratava, teriam que agir com muito tato. Seriam cerimoniosos e o tra-tariam como alto dignitário de um planeta aliado. Jamais pensariam em raptá-lo ou recorrer a ameaças. No entanto, era exatamente isso que haviam feito. Por quê?

O que os fazia se sentirem tão fortes e seguros para tratarem uni conselheiro de Terminus de forma tão humilhante?

Poderia ser a Terra? A mesma força que mantinha escondido com tanta eficácia o planeta de origem do Homem, a ponto de desafiar os grandes mentalistas da Segunda Fundação, estaria agora trabalhando para evitar que ele, Trevize, continuasse a procurar a Terra? Seria a Terra onisciente? Onipotente?

Trevize sacudiu a cabeça. Estava ficando paranoico. Começaria a culpar a Terra por tudo o que acontecesse? Passaria a considerar ca- j da contratempo, cada volta do caminho, cada imprevisto como o resultado de maquinações secretas da Terra? No momento em que pensasse assim, estaria derrotado.

Nesse instante, a desaceleração do veículo o trouxe de volta à realidade.

Deu-se conta de que não havia observado, nem mesmo por um instante, a cidade que estavam atravessando. Olhou em torno. Os edifícios eram baixos, mas se tratava de um planeta muito frio... boa parte das construções devia ser subterrânea.

Como no espaçoporto, não viu nenhuma cor além do preto e do branco.

De raro em raro, passava um pedestre vestido com roupas grossas e caminhando a passos rápidos. Como os edifícios, quase todas as pessoas deviam estar debaixo da terra.

O táxi tinha parado diante de um edifício baixo que ocupava uma área considerável e ficava no meio de uma depressão. De onde estavam, Trevize não podia ver o andar térreo. Passaram-se alguns momentos e nada aconteceu. O motorista também estava imóvel, o gorro branco quase encostando no teto do veículo.

Trevize imaginou por um instante como o motorista conseguia entrar e sair do táxi sem tirar o chapéu e depois disse, no tom de irritação controlada que se esperaria de uma alta autoridade que não está sendo tratada com a devida atenção:

— Então, motorista, o que vai acontecer agora?

A versão comporeliana de campo de força que separava o motorista dos passageiros era relativamente sofisticada. As ondas sonoras podiam atravessá-la com facilidade... embora Trevize pudesse apostar que seria invulnerável a objetos sólidos.

— Alguém vem buscá-lo. Não deve demorar.

Nesse exato momento, três cabeças apareceram, surgindo lenta-mente da depressão onde estava o edifício. Atrás delas vieram os cor-pos. Era evidente que os recém-chegados estavam usando algum tipo de escada rolante, que a depressão escondia de Trevize.

Quando os três se aproximaram, a porta traseira do táxi se abriu e uma lufada de ar frio invadiu o veículo.

Trevize saltou, depois de abotoar o casaco até em cima. Os outros dois o seguiram, Bliss com visível relutância.

Os três comporelianos não passavam de vultos informes. Usavam roupas muito folgadas, provavelmente com aquecimento elétrico. Trevize olhou-os com desdém. Em Terminus não havia necessidade de roupas aquecidas. A única vez em que pedira emprestado um casaco elétrico havia sido quando estava passando o inverno em Anacreon, um plane-in vizinho. Não tinha gostado da experiência. O traje se aquecia devagar e quando percebia que estava ficando quente demais, já estava munido em bicas.

Quando os comporelianos chegaram mais perto, Trevize observou, com indignação, que estavam armados. Não pareciam preocupados em esconder o fato. Pelo contrário; os três usavam coldres do lado de fora do casaco.

Um dos comporelianos se dirigiu para Trevize.

— Com licença, conselheiro — disse, rispidamente, ao mesmo tempo em que desabotoava o casaco do outro.

Apalpou o corpo de Trevize com movimentos rápidos e precisos. Examinou os bolsos do casaco. Quando Trevize se recobrou da surpresa, já tinha sido totalmente revistado.

Pelorat, de cara amarrada, estava passando por uma humilhação semelhante nas mãos de um segundo comporeliano.

O terceiro aproximou-se de Bliss, que não esperou até ser tocada. Ela, pelo menos, parecia conhecer as intenções dos desconhecidos, pois tirou o casaco e ficou ali parada, no vento gélido, usando apenas uma roupa leve.

— Pode ver que não estou armada — disse para o comporeliano, em um tom mais gelado que a temperatura que estava fazendo.

Realmente não tinha onde esconder uma arma. O comporeliano sacudiu o casaco, como se apenas pelo peso pudesse saber se continha uma arma (talvez pudesse) e recuou.

Bliss tornou a vestir o casaco e Trevize não pôde deixar de senti certa admiração pelo que a moça havia feito. Sabia que ela detestava o frio e no entanto havia ficado ali, vestida apenas com uma blusa fina e calças compridas, sem demonstrar o menor desconforto. (Então pen sou que talvez, em uma emergência, Bliss pudesse receber calor do res to de Gaia.)

Um dos comporelianos fez um gesto para que Trevize, Pelorat e Bliss o seguissem. Os outros dois comporelianos ficaram mais para trás. Os dois ou três pedestres que estavam na rua não demonstraram nenhum interesse pelo que estava acontecendo. Ou já estavam acostu-mados ou, o que era mais provável, tudo o que tinham em mente era chegar o mais depressa possível a um lugar abrigado do vento e do frio.

Trevize percebeu que os comporelianos tinham subido por uma rampa móvel. Agora estavam descendo, todos os seis, e passaram por um sistema de portas duplas quase tão complicado quanto o de uma espaçonave. O objetivo, sem dúvida, era não deixar o calor escapar.

De repente, estavam no interior de um grande edifício.

Capítulo 5
A Luta pela Nave

17

A primeira impressão de Trevize foi a de que estava participando de um hiperdrama... mais especificamente, de uma novela histórica passada no tempo do Império. Havia um cenário em particular, com poucas variações (talvez só existisse mesmo um cenário, usado por todos os produtores de hiperdramas), que representava a gigantesca cidade-planeta de Trantor no seu apogeu.

Ali estavam as praças espaçosas, o formigueiro de pedestres, os pequenos veículos correndo nas pistas reservadas para eles.

Trevize olhou para cima, quase esperando ver os aerotáxis entrando em túneis bem iluminados, mas pelo menos aquilo estava ausente. Na verdade, quando a surpresa inicial passou, Trevize se deu conta de que a escala da cena que estava presenciando era muito menor do que se estivesse na antiga Trantor. Afinal, era apenas um edifício e não parte de um complexo que se estendia por milhares de quilômetros em qualquer direção.

As cores também eram diferentes. Nos hiperdramas, Trantor era sempre representado em cores incrivelmente berrantes, e os trajes, de tão espalhafatosos, chegavam a ser ridículos. Todas essas cores e babados tinham um significado simbólico, pois serviam para mostrar a decadência do Império e particularmente de Trantor.

Nesse caso, porém, Comporellon não devia ter nada de decadente, pois o uso das cores só servia para confirmar as suspeitas de Pelorat.

As paredes eram todas pintadas em tons de cinza; os tetos eram brancos; as roupas da população, uma mistura de preto, cinzento e branco. De vez em quando aparecia uma roupa toda preta; ainda mais raramente, uma roupa toda cinzenta. Trevize não conseguiu ver ne-nhuma roupa toda branca. Os padrões, entretanto, eram todos diferentes, como se as pessoas, impedidas de variar nas cores, procurassem outras formas de manifestar sua individualidade.

O rosto dos transeuntes era impassível. As mulheres usavam o cabelo bem curto; o cabelo dos homens era mais comprido, mas puxado para trás para formar um coque. Quando se cruzavam, ninguém olhava para ninguém. Todo mundo parecia ocupado, como se tivesse um objetivo estreito em mente e não sobrasse tempo para mais nada. Homens e mulheres se vestiam da mesma forma; a diferença estava apenas no comprimento do cabelo, no volume dos seios e na largura dos quadris.

Os três foram conduzidos para um elevador que desceu cinco andares. Saíram do elevador e foram levados até uma porta onde estava escrito, com pequenas letras brancas em fundo cinza: “Mitza Lizalor, MinTrans”.

O comporeliano que ia à frente encostou o dedo no letreiro, que, depois de um momento, começou a brilhar. A porta se abriu e eles entraram.

Era uma sala grande e estava quase vazia. A falta de mobília talvez servisse para demonstrar, através do uso imoderado de espaço, a importância do ocupante.

Havia dois guardas do outro lado da sala, imóveis, os olhos fixos naqueles que entravam. O centro do aposento era ocupado por uma grande escrivaninha. Sentada atrás da escrivaninha estava uma mulher corpulenta, de olhos escuros e feições regulares. Duas mãos fortes e capazes, com dedos longos e quadrados, repousavam sobre a mesa.

O MinTrans (Ministro dos Transportes, concluiu Trevize) usava um traje cinza-escuro no qual se destacavam duas grandes faixas brancas, que se cruzavam no peito. Trevize notou que embora o corte do vestido disfarçasse a saliência dos seios, as faixas atraíam a atenção para eles.

O ministro era indubitavelmente uma mulher. Mesmo ignorando os seios, bastava observar os cabelos curtos e as feições delicadas, embora sem nenhuma maquilagem. A voz também era feminina, um rico contralto. Ela disse:

— Boa tarde. Não é todo dia que temos a honra de receber dois homens de Terminus... e uma mulher de origem desconhecida. — Os olhos passearam de um para outro e afinal se detiveram em Trevize, que estava de pé, muito sério, em rígida posição de sentido. — Além de tudo, um dos homens é membro do Conselho.

― Do Conselho da Fundação — completou Trevize, tentando parecer o mais arrogante possível. — Conselheiro Golan Trevize, em missão especial.

— Em missão especial? — repetiu a ministro, interessada.

— Em missão especial — reafirmou Trevize. — Por que, então, estamos sendo tratados como bandidos? Por que fomos sequestrados por guardas armados e trazidos para cá como prisioneiros? O Conselho da Fundação não vai ficar nada satisfeito quando souber disso.

— A propósito — interveio Bliss, sua voz parecendo um pouquinho esganiçada em comparação com a da mulher mais velha —, por quanto tempo vamos ter que continuar de pé?

A ministro olhou friamente para Bliss por alguns instantes e depois levantou o braço, dizendo:

— Três cadeiras! Já!

Uma porta se abriu e três homens, vestidos de acordo com a moda sombria de Comporellon, entraram carregando três cadeiras. Os vigilantes se sentaram.

— Pronto — disse a ministro. — Estão bem, agora? — acrescentou, com um sorriso gelado.

Trevize teve vontade de responder que não. As cadeiras não tinham estofamento e o assento e o espaldar eram retos, sem fazer concessões à forma do corpo.

— Por que estamos aqui? — perguntou.

A ministro consultou alguns papéis que estavam sobre a mesa.

— Pretendo explicar assim que estiver bem certa dos fatos. Sua nave é o Estrela Distante, de Terminus. Esta informação está correta, conselheiro?

— Sim.

A ministro levantou os olhos.

— Usei o seu título, conselheiro. Poderia daqui em diante, por cortesia, usar o meu?

— Senhora Ministro será suficiente? Ou existe um título honorífico associado ao cargo?

— Não há título honorífico algum, nem precisa ser tão prolixo. “Ministro” será suficiente, ou “Senhora”, se preferir.

— Então minha resposta é: Sim, ministro.

— O capitão da nave é Golan Trevize, cidadão da Fundação e membro do Conselho de Terminus... na verdade, um dos conselheiros mais jovens. E o senhor é Trevize. Estas informações estão corretas, conselheiro?

— Sim, ministro. E como cidadão da Fundação, eu...

— Ainda não terminei, conselheiro. Mais tarde terá oportunidade de apresentar suas objeções. Em sua companhia está Janov Pelorat, cientista, historiador e cidadão da Fundação. É o senhor, não é, dr. Pelorat?

Pelorat não conseguiu evitar um sobressalto quando a ministro voltou para ele os olhos penetrantes. Ele disse:

― Sim, sou eu, minha queri... — Interrompeu o que estava dizendo e começou de novo: — Sim, sou eu, ministro.

A ministro trançou os dedos.

— No relatório que me foi enviado não há qualquer menção de uma mulher. Essa mulher faz parte da tripulação da nave?

— Sim, ministro — respondeu Trevize.

— Então interrogarei a mulher pessoalmente. Como se chama?

— Todos me chamam de Bliss — disse Bliss, sentada muito ereta e pronunciando as palavras com cuidado —, embora meu nome completo seja bem maior, senhora. Quer saber o nome completo?

— Bliss será suficiente, por enquanto. Bliss, você é cidadã da Fundação?

— Não senhora.

―- De que planeta você é cidadã, Bliss?

— Não tenho nenhum documento de cidadania, senhora.

— Nenhum documento, Bliss? — A ministro fez uma rápida anotação e prosseguiu: — O que estava fazendo a bordo da nave?

— Sou uma passageira, senhora.

— O conselheiro Trevize ou o dr. Pelorat pediram para ver sua identidade antes de você embarcar, Bliss?

— Não senhora.

— Avisou a eles que não tinha documentos, Bliss?

— Não senhora.

— Qual era a sua função a bordo, Bliss?

— Era apenas uma passageira — respondeu Bliss.

— Por que está pressionando a moça? — interrompeu Trevize. — Qual foi o crime que ela cometeu?

Os olhos da ministro Lizalor se voltaram para Trevize.

— O senhor é um estrangeiro, conselheiro, e não conhece nossas leis. Mesmo assim, está sujeito a elas assim que desembarca em nosso planeta. O senhor não traz as leis do seu mundo com o senhor. Esta é uma regra universal do Direito Galáctico.

— De acordo, ministro. Mesmo assim, continuo sem saber qual foi a lei que ela infringiu.

— É uma regra geral na Galáxia, conselheiro, que um visitante de um mundo fora dos domínios do planeta que está visitando deve ter em seu poder um documento de identidade. Muitos planetas fazem vista grossa ao regulamento, seja porque estão interessados em atrair mais turistas, seja porque não dão muita importância à lei e à ordem. Aqui em Comporellon é diferente. Fazemos questão de cumprir a lei. A moça desembarcou aqui sem documentos e portanto infringiu a nossa lei.

— Ela não tinha escolha — disse Trevize. — Eu estava pilotando a nave e decidi pousar em Comporellon. Ela teve que acompanhar-nos. Que mais poderia fazer, ministro? Pedir para ser ejetada no espaço?

— Isso significa que o senhor também infringiu a lei.

— Sou forçado a discordar, ministro. Não sou um estrangeiro aqui; sou um cidadão da Fundação, um dos Planetas Associados, como Comporellon. De acordo com os tratados em vigor, posso me locomover livremente neste planeta.

— Certamente, conselheiro, contanto que disponha de papéis que provem que realmente é um cidadão da Fundação.

— Trago esses papéis comigo, ministro.

— Entretanto, mesmo como cidadão da Fundação, infringiu a lei trazendo com o senhor uma pessoa sem documentos.

Trevize hesitou. O guarda da fronteira, Kendray, tinha dado com a língua nos dentes; não havia sentido em protegê-lo.

— Não fomos detidos na estação espacial e considerei o fato como permissão implícita para trazer a moça comigo, ministro.

— É verdade que não foram detidos, conselheiro. É verdade que a presença da mulher foi ignorada pelas autoridades de imigração. Desconfio, no entanto, de que os funcionários da estação espacial acharam, e com muita razão, que era mais importante assegurar que a nave pousasse no planeta do que se preocuparem com uma jovem sem documentos. Não vou negar que eles tenham quebrado o regulamento, e o assunto terá que ser examinado oportunamente, mas estou certa de que a conclusão será de que a infração foi justificada. Aplicamos a lei com rigor, conselheiro, mas também sabemos usar a lógica.

— Então vou apelar para a sua lógica, ministro — disse Trevize, aproveitando a deixa. — Se na verdade não recebeu nenhuma informação das autoridades de imigração a respeito de Bliss, não tinha meios de saber que estávamos infringindo alguma lei no momento em que pousamos no planeta. No entanto, é evidente que deu ordens para que fôssemos presos assim que desembarcássemos, o que realmente aconteceu. Por que agiu assim, já que não tinha razões para pensar que havíamos cometido algum crime? A ministro sorriu.

— Compreendo sua perplexidade, conselheiro. Gostaria de assegurar-lhe de que o fato de ter em sua companhia uma jovem sem documentos não tem nada a ver com a sua detenção. Estamos agindo em nome da Fundação, como um dos Planetas Associados.

Trevize olhou para ela, atônito.

— Isso é impossível, ministro! É ainda pior. É ridículo! A ministro riu.

— Acho curioso que considere pior uma coisa ser ridícula do que ser impossível, conselheiro. Talvez tenha razão. Infelizmente para o senhor, porém, o que acabei de dizer não é nem impossível nem ridículo. Por que seria?

— Porque sou um representante do governo da Fundação, em missão especial, e é inconcebível que a Fundação tenha motivos para mandar me prender, ou mesmo que tenha autoridade para isso, já que gozo de imunidade parlamentar.

— Conselheiro, o senhor omitiu meu título, mas parece estar muito nervoso, de modo que vou perdoá-lo. Não, a Fundação não me mandou prendê-lo. Entretanto, fui obrigada a detê-lo para poder cumprir a tarefa que a Fundação me confiou, conselheiro.

— Que tarefa, ministro?

— Apossar-me da sua nave, conselheiro, e devolvê-la à Fundação!

— O quê?

— O senhor omitiu meu título pela segunda vez, conselheiro. Gostaria que esta falta não se repetisse. Por acaso a nave lhe pertence? Foi projetada pelo senhor, construída pelo senhor, paga pelo senhor?

— Claro que não, ministro. Foi cedida a mim pelo governo da Fundação.

— Então, o governo da Fundação tem todo o direito de pedi-la de volta, conselheiro. Trata-se de uma nave muito valiosa, não?

Trevize não respondeu. A ministro prosseguiu:

— É uma nave gravítica, conselheiro. A Fundação tem poucas naves desse tipo. Provavelmente se arrependeram de haver confiado uma dessas naves ao senhor. Talvez os convença a deixá-lo continuar a missão em uma outra nave, mais modesta. De qualquer forma, vamos ter que apreender a nave em que o senhor chegou.

— Não, ministro, não posso entregar minha nave. Não acredito que a Fundação tenha pedido isso à senhora.

A ministro sorriu.

— Não apenas a mim, conselheiro. Não apenas a Comporellon. Temos razões para acreditar que o pedido foi enviado a todos os planetas com os quais a Fundação mantém relações diplomáticas. O que me leva à conclusão de que a Fundação não conhece o seu itinerário e está vivamente empenhada em localizar o senhor. O que me leva a concluir ainda que o senhor não pode ter vindo a Comporellon em missão oficial, caso em que as medidas tomadas pela Fundação não teriam razão de ser. Em outras palavras, conselheiro, o senhor está mentindo.

Trevize disse, com certa dificuldade:

— Ministro, gostaria de ver uma cópia da carta que recebeu do governo da Fundação. Acho que, como acusado, tenho direito a isso.

— Sim, tem todo o direito, se chegar a ser processado. Aqui em Comporellon, procuramos sempre agir de acordo com o regulamento e posso lhe assegurar que os seus direitos legais serão respeitados. Por outro lado, seria muito melhor e mais simples se pudéssemos chegar a um acordo sem a publicidade e a demora de um processo penal. Estou certa de que não interessa à Fundação que toda a Galáxia fique sabendo que está atrás de um conselheiro fujão! Isso colocaria a Fundação no ridículo, o que, em suas próprias palavras, é pior que o impossível.

Trevize ficou calado.

A ministro fez uma pausa e depois prosseguiu, imperturbável:

— Conselheiro, vamos acabar ficando com a sua nave, seja por um acordo informal, seja através da justiça. A penalidade por trazer para cá um passageiro sem documentos vai depender do caminho que o senhor escolher. Se exigir que o caso seja levado aos tribunais, tanto o senhor quanto a passageira serão certamente condenados a longas penas de prisão. Caso, porém, decida entrar em acordo, estamos dispostos a mandar a sua passageira, em nave comercial, para o planeta que ela escolher. O senhor e seu amigo terão liberdade para acompanhá-la. Se a Fundação concordar, poderemos também emprestar-lhe uma nave das nossas, contanto, naturalmente, que a Fundação se comprometa a devolvê-la. Por outro lado, se, por algum motivo, o senhor não quiser retornar à Fundação, estou autorizada a oferecer-lhe asilo político e, eventualmente, cidadania comporeliana. Como pode ver, tem tudo a ganhar se entrar em acordo conosco e tudo a perder se insistir em seus direitos legais.

— Ministro, agora a senhora exagerou — disse Trevize. — Prometeu-me o que não pode cumprir. Não pode me manter aqui se a Fundação exige que eu seja devolvido.

— Conselheiro, jamais prometo o que não posso cumprir. A Fundação requisitou apenas a nave; no pedido não há nenhuma referência aos ocupantes.

Trevize olhou rapidamente para Bliss e disse:

— Ministro, gostaria de consultar o dr. Pelorat e a srta. Bliss a respeito do assunto.

— Não há problema, conselheiro. Tem quinze minutos.

— Em particular, ministro.

— Serão levados para uma sala e, quinze minutos depois, trazidos de volta para cá. Não haverá nenhuma tentativa de monitorar a conversa; dou-lhe minha palavra. Entretanto, serão vigiados o tempo todo, de modo que seria tolice tentarem escapar.

— Compreendemos, ministro.

— Quando voltarem, estou certa de que concordarão em me entregar voluntariamente a nave. Se deixarem que a justiça siga o seu cur-so, será pior para todos os interessados. Até mais tarde, conselheiro — Até mais tarde, ministro — disse Trevize, procurando esconder a raiva que sentia, já que expressá-la não lhe traria benefício algum.

18

Era uma sala pequena, mas bem iluminada. No interior havia um sofá e duas cadeiras. O silêncio era quebrado pelo ruído macio do equipamento de ventilação. No conjunto, um aposento muito mais acolhedor que o escritório enorme e impessoal do ministro dos Transportes.

Um guarda os havia levado até lá, um homem alto e sisudo, com uma pistola na cintura. Quando entraram na sala, permaneceu do lado de fora e disse com voz grave:

— Vocês têm quinze minutos.

Um instante depois, a porta se fechou com ...

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