– Então ele deveria realocar recursos de outros programas. É para as crianças que estamos fazendo isso.
– Se não há dinheiro, por que não procuramos instituições como a Associação Cristã de Moços ou alguma das academias da região para ver se elas podem ceder instrutores para ajudar?
– Ah! Quer dizer que as escolas usariam voluntários em vez de professores? Essa é boa. Quer saber, Arnold? Se você tivesse lido a Constituição do nosso estado, saberia que é ilegal preencher uma vaga de professor com um voluntário.
Eu estava batendo de frente com o tabu dos sindicatos de professores contra voluntários nas escolas. Presenciar esse tipo de atitude foi uma verdadeira revelação. Apesar do que eles diziam, a questão não eram as crianças, e sim abrir mais vagas para professores. É claro que eu entendia o papel dos sindicatos: brigar pela classe.
De todos os governadores, o que mais me impressionou foi Mario Cuomo. Nova York deve ter sido o 10o estado que visitei. Antes de conhecer Cuomo, eu na verdade não gostava muito dele, pelo modo como ele atacou Reagan no discurso inaugural da convenção do Partido Democrata em 1984: “Sr. Presidente”, dissera ele, “o senhor deveria saber que este país está mais para ‘conto de duas cidades’ do que para ‘radiante cidade no alto da colina’”, referindo-se ao modo como Reagan costumava aludir aos Estados Unidos. No entanto, quando o conheci e começamos a conversar sobre boa forma, ele se mostrou interessado e elogioso, dando-me conselhos valiosos. Disse, por exemplo: “Você precisa falar mais sobre a saúde das crianças, e precisa falar sobre custos. Isso é muito, muito, muito importante. Trate da crise catastrófica de saúde que a falta de exercícios vai acarretar e do custo que as crianças que não se exercitam vão gerar para o contribuinte.” Ele demonstrou grande apoio ao que eu já tinha feito. Pude ver por que Cuomo era tão querido em seu estado e por que era um grande líder.
Ele então falou com os jornalistas e preparou um grande discurso sobre como era incrível eu percorrer os Estados Unidos e usar meu próprio dinheiro para fazer tudo de forma voluntária. “Trabalho social é isso”, afirmou. Pensei: “Ele sabe que eu sou republicano e que represento um presidente republicano. Quanta classe e quanta generosidade se esforçar tanto assim...” Mais do que isso: na minha opinião, Cuomo tinha razão. Como ainda faltavam 40 estados para visitar, pude incorporar suas sugestões à minha mensagem.
Minha relação com o presidente Bush fora calorosa desde o nosso primeiro encontro, durante o governo Reagan. Fiquei honrado quando ele me convidou para assistir à sua posse e para apresentá-lo em alguns dos eventos paralelos – embora deva admitir que sempre me sentia pouco à vontade quando fazia isso. Havia muitas pessoas que talvez tivessem feito mais jus a essa honra. Lembro-me particularmente de uma comemoração do Dia de Martin Luther King, com muitos afro-americanos na plateia e diversos oradores afro-americanos. Se eu fosse um espectador e me visse lá em cima, teria pensado: “Por que é ele que vai apresentar o presidente?” Mas Bush era assim. Não ligava para nada disso. Se você tivesse talento e lhe fizesse um favor, ou se ele gostasse de você, passava a apoiá-lo, fizesse isso sentido ou não. Era um tipo diferente de homem, um amor de pessoa. Tanto ele quanto Barbara sempre se mostravam corteses e gentis. A cada coisa que eu fazia por eles, o presidente me mandava um agradecimento de próprio punho, ou então me dava um telefonema.
Depois que ele me escolheu para assumir o President’s Council, ficamos bem próximos. Sempre que estava em Washington, eu ia à Casa Branca visitá-lo. Nossa relação era assim, sem hora marcada. No início de seu mandato, o chefe de gabinete da Casa Branca era John Sununu, e também sempre fui bem recebido por ele. Sununu nunca disse “O chefe agora está ocupado, volte amanhã” ou coisas do tipo.
Tivemos a honra de ser convidados muitas vezes para ir a Camp David com o presidente e a primeira-dama. A Casa Branca pode ser muito claustrofóbica, e os dois adoravam dar uma fugida nos fins de semana, embora o presidente sempre levasse trabalho para fazer. Eu ia com eles no helicóptero ou os encontrava lá. Íamos juntos a restaurantes próximos e aos domingos assistíamos à missa. Naturalmente, o presidente Bush adorava atividades físicas e jogos.
Certa vez, um jornalista lhe perguntou:
– Sr. Presidente, Arnold lhe ensinou algum exercício?
Bush riu e respondeu:
– Ah, nós sempre nos exercitamos juntos quando ele está em Camp David. Ele me ensina musculação e eu lhe ensino paredebol.
– Paredebol? Voleibol, o senhor quer dizer?
– Não, não, paredebol mesmo.
– Que esporte é esse?
– Temos uma quadra coberta para jogar voleibol e regras especiais que permitem que a bola quique na parede. Arnold já jogou várias vezes, está ficando craque.
O presidente e eu jogávamos boliche, praticávamos lançamento de ferradura, nadávamos e fazíamos musculação juntos. Cheguei a praticar tiro esportivo com ele! (Quando é que o Serviço Secreto deixaria alguém andar armado na companhia do presidente?) Em um fim de semana de neve no início de 1991, justo quando Katherine estava aprendendo a andar, nós três fizemos uma visita aos Bush e fomos andar de tobogã. Infelizmente, eu não sabia muita coisa sobre tobogãs. Ao contrário dos trenós, que podem ser pilotados com os pés, tobogãs são planos e deslizam de forma diferente. O presidente e eu descemos a encosta depressa demais e trombamos com Barbara, que acabou quebrando a perna e foi parar no hospital. Até hoje tenho a foto que Bush me mandou depois. Na imagem, estamos nós dois em cima do tobogã, e a dedicatória diz: “Vire, caramba, vire!”
Após a invasão do Kuwait pelo Iraque, em agosto de 1990, Camp David passou a ser palco de reuniões sérias. Era muito estranho me dividir entre uma crise no mundo real e a ameaça imaginária ao futuro no set de O exterminador do futuro 2, em Los Angeles. O secretário da Defesa Dick Cheney e o general Colin Powell, chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, iam constantemente a Camp David para atualizar o presidente e, juntos, tomarem decisões. Quando o outono chegou, Bush já havia lançado a Operação Escudo do Deserto, com a concentração maciça de tropas da coalizão na fronteira saudita com o Iraque e o Kuwait. Dei minha pequena contribuição para o esforço militar após ler uma reportagem que dizia que os soldados americanos no deserto estavam praticando musculação com baldes cheios de areia. Naturalmente, os músculos de uma pessoa não se importam com o que é usado como peso, mas mesmo assim achei que poderíamos fazer bem mais pelos soldados. Lembrei-me de como costumava transportar halteres, anilhas e um banco de supino em meu tanque no exército austríaco. Assim, procurei o general Powell e perguntei o que ele achava de mandar equipamentos de musculação de verdade para o Oriente Médio. Ele adorou a ideia e, em poucos dias, comecei a pedir doações de fabricantes. Conseguimos reunir 40 toneladas de aparelhos de musculação, bancos de supino, pesos livres e outros equipamentos para a Operação Escudo do Deserto. Despachar o material por navio cargueiro teria levado muitas semanas, então Powell e Cheney decidiram arrumar um jeito de enviá-lo de Oklahoma junto com carregamentos de empresas privadas. Em duas semanas, as doações foram entregues às tropas e comecei a receber cartas e fotografias de agradecimento extraordinárias, contando como os homens se revezavam para treinar de modo a maximizar o acesso aos novos aparelhos.
Sempre tive apreço pelas Forças Armadas, já que fui beneficiado pelo sonho americano, cuja segurança é garantida por sua coragem e dedicação. Desde meus primeiros dias como campeão de fisiculturismo, fiz questão de visitar bases militares e navios de guerra em qualquer oportunidade. Quando comecei a fazer cinema, foi natural incluir as bases militares americanas nas minhas turnês de divulgação no exterior. Muitas vezes visitei também destacamentos de fuzileiros navais nas embaixadas americanas no Japão, na Alemanha, na Coreia do Sul, na Rússia e em muitos outros países. Não há escola de interpretação que ensine como entreter soldados, mas troquei umas ideias com outras celebridades como Jay Leno e bolei um esquete. Falava sobre meus filmes, fazia um pouco de comédia stand-up (quanto mais grosseiras as piadas, melhor), levava um filme novo para os soldados assistirem e às vezes distribuía charutos. O importante era animá-los – e agradecer a eles. Muito mais tarde, quando eu já era governador, as pessoas de Sacramento, capital da Califórnia, viviam me perguntando: “Por que o senhor gasta tanto tempo com as Forças Armadas? Por que luta para que os soldados possam estudar de graça? Por que conceder empréstimos estudantis a eles? Por que se esforçar tanto para que consigam emprego? Por que lutar a fim de acelerar a criação de casas de repouso para veteranos e para construir mais habitações destinadas a ex-combatentes do que qualquer outro governador na história do estado? Por que tanto esforço para dar visibilidade à síndrome do estresse pós-traumático e ajudar esses jovens na volta para casa?” A resposta era simples: os Estados Unidos não seriam a terra dos livres se não fossem também o lar dos bravos. Quando vemos o trabalho dos membros das Forças Armadas e os riscos que eles assumem, percebemos que devemos muito a eles.