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Tudo isso passava pela minha mente enquanto eu me criticava e tentava me consolar ao mesmo tempo, me perguntando como iria conseguir atravessar aquela tormenta. Foi como se a noite em que perdi o título de Mister Universo para Frank Zane, em 1968, estivesse se repetindo.

Maria me deu muito apoio. “Olhe aqui, o filme ficou bom”, disse ela. “Talvez não tenha sido o que a gente esperava, mas ficou bom, e você deveria se orgulhar disso. Agora vamos seguir em frente. Concentre-se no próximo projeto.” Fomos para nossa casa de veraneio em Sun Valley, Idaho, e lá brincamos com as crianças. “Não leve isso tão a sério”, aconselhou Maria. “Veja tudo o que temos. É nisto aqui que você deveria pensar, não naquele filme idiota. Essas coisas vêm e vão. Além do mais, dos 20 e tantos filmes que você já fez, pelo menos dois terços se tornaram sucessos, então você não tem nada do que reclamar.”

Mesmo assim, acho que ela também ficou decepcionada e com certeza se sentiu constrangida ao receber telefonemas de amigos. É isso que as pessoas fazem em Hollywood. Elas dizem “Puxa, sinto muito pelo fracasso de bilheteria”, mas na verdade estão tentando ver como você reage. Maria recebia ligações de amigos dizendo coisas do tipo: “Ai, meu Deus, eu li a matéria do LA Times. Nossa, que chato! Tem alguma coisa que a gente possa fazer?”

Todo mundo é assim. Faz parte da natureza humana ter empatia pelos problemas alheios. Se um dos filmes de Tom Arnold fosse um fracasso, eu ligaria para ele. Para Stallone também. Diria: “Que se foda o LA Times, que se fodam as revistas especializadas, são todos uns imbecis filhos da puta. Você é um ótimo ator, cheio de talento.” É isso que se faz. Ao mesmo tempo, no entanto, há sempre um lado seu que pensa: “O que será que ele vai dizer?” Então por que as pessoas não estavam ligando para mim e fazendo a mesma coisa?

Quando se fica constrangido como eu fiquei, a tendência é imaginar que o mundo inteiro está comentando o seu fracasso. Eu entrava em um restaurante e ouvia alguém dizer: “Oi, tudo bem? Vi que o filme novo estreou, que ótimo!” E eu pensava: “Ótimo? Seu filho da puta. Por acaso não leu o LA Times nem a Variety?” A realidade, porém, é que nem todo mundo lê esse jornal ou essa revista, nem assiste a todos os filmes que entram em cartaz. O pobre coitado decerto não tinha a menor ideia do que estava acontecendo e só estava querendo ser agradável.

ESSES PERCALÇOS NÃO ERAM NADA QUE OUTRO grande sucesso não fosse capaz de consertar. Antes de o verão terminar, eu já estava novamente diante das câmeras de Jim Cameron, galopando em um cavalo pelo centro de Washington em perseguição a um terrorista de moto. True Lies era uma comédia de ação de grandes proporções, com efeitos especiais mirabolantes que incluíam um tiroteio entre terroristas encurralados em um arranha-céu de Miami e eu a bordo de um jato Harrier, e uma explosão nuclear que aniquila uma das ilhotas de coral de Florida Keys. O filme tinha também relacionamentos engraçados e complexos, sobretudo entre mim e minha esposa, interpretada por Jamie Lee Curtis. Meu personagem, Harry Tasker, é um superespião na linha de James Bond cuja mulher, Helen, no início acha que ele vende computadores. Jamie Lee fez o papel tão bem que foi indicada ao Globo de Ouro de melhor atriz de comédia.

Eu havia tomado conhecimento desse projeto no ano anterior, quando Bobby Shriver me ligou para dizer que assistira a um filme francês que eu talvez quisesse refilmar para o público americano.

– O filme se chama La Totale! – disse ele. – É sobre um cara durão estilo 007 cuja mulher não sabe o que ele faz na vida. Às vezes ele aparece em casa todo arrebentado e tem que inventar mil desculpas. Prende criminosos internacionais, mas não consegue lidar com a filha adolescente que vive se metendo em problemas.

– Parece engraçado – falei.

– Sim, e tem comédia e ação. Dá para rir, mas também tem bastante suspense.

Então liguei para o agente do filme, pedi que ele me mandasse uma cópia e me apaixonei pela história. Mas Bobby tinha razão: o filme era parado demais para os padrões americanos e precisava de mais ação e energia. “Jim Cameron!”, pensei. “Ele estava planejando filmar Homem-aranha, mas o projeto acaba de afundar.” Então liguei para ele e falei: “Vamos fazer esse filme juntos da maneira que você sempre imagina as coisas: grandes.”

Logo fechamos um acordo com a Fox e Jim começou a escrever o roteiro. Todos os seus filmes têm personagens femininos marcantes, e ele transformou Helen Tasker de uma dona de casa comum na personagem que Jamie Lee Curtis viria a interpretar: inteligente, sexy, com sua própria vida secreta. À medida que o roteiro ia tomando forma, Jim me ligava para pedir minha opinião. Em determinado momento, passamos dois dias trancafiados num hotel em Las Vegas bolando a maneira como eu iria conversar com minha mulher, como iria confrontá-la caso desconfiasse de que ela estava tendo um caso extraconjugal, o que eu diria a um terrorista antes de matá-lo, como reagiria caso descobrisse que minha filha estava roubando um amigo meu. Nessas conversas, adaptávamos o ritmo dos diálogos a mim. O timing do projeto foi perfeito: poucas semanas depois da decepção de O último grande herói, entramos em pré-produção, e as filmagens começaram em 1o de setembro.

Maria e eu transformamos True Lies em uma aventura familiar. Ela estava grávida de oito meses quando as filmagens começaram e, ao anunciar a licença-maternidade no programa que comandava, First Person with Maria Shriver, disse aos espectadores: “Arnold vai estar aqui em Los Angeles quando eu der à luz. Depois disso a família inteira vai fazer as malas e vamos viajar com ele, para ver quanto tempo duro como esposa no set.”

Cameron concordou em passar três semanas filmando em Los Angeles até Patrick nascer. A produção então se transferiu para Washington, e poucos dias depois, conforme o planejado, Maria, Katherine, Christina, o bebê e a babá foram me encontrar.

Passamos um mês morando em Washington, e aquele foi um período muito feliz. Como sempre, Cameron preferia filmar à noite. Então eu trabalhava até amanhecer, chegava em casa e dormia, e à tarde acordava para brincar com as crianças. Na época, Katherine tinha 4 anos e Christina, 2 anos e meio. Além de fazer cosquinhas uns nos outros e correr para lá e para cá, a gente também costumava pintar, atividade que eu adorava quando criança. Ronda, minha assistente, era uma artista, e foi ela quem me incentivou a voltar a pintar. Eu vivia falando que queria retomar esse hobby, mas nunca tivera paciência para reunir todo o material necessário e tentar de verdade. Então, em um sábado de manhã, Maria apareceu em casa com um conjunto de tintas acrílicas e telas e falou:

– Vamos passar as três próximas horas pintando.

– Tudo bem – respondi.

Nós nos sentamos, eu peguei um livro de arte com um quadro de Matisse e comecei a copiá-lo: era um quarto com um tapete, um piano e um vaso de flores, com portas altas de vidro que se abriam para uma sacada com vista para o mar. Foi assim que me reaproximei da arte. Passei a desenhar castelos com caneta e tinta, e a pintar cartões de Natal e aniversário para Maria e as meninas. Minhas filhas e eu entramos em um delicioso ritmo de desenhos e brincadeiras, e usei lápis de cera para desenhar uma linda abóbora de Halloween para Patrick e um bolo de aniversário com velinhas para Maria.

Passamos os meses seguintes vivendo como ciganos. Acompanhamos a produção de True Lies até Miami, onde levei Maria e as meninas para andar de jet ski. Então o filme se mudou para Key West, depois para Rhode Island e, por fim, voltou à Costa Oeste. Quando se tratou de conciliar família e trabalho, consegui resultados muito melhores que o meu personagem. O set de Cameron era incrivelmente bem organizado e todos os dias havia a hora de trabalhar e a hora de se divertir. Mesmo assim, fazer True Lies foi um desafio, e não estou me referindo apenas às muitas horas que passei ensaiando tango obstinadamente para as cenas de dança. Cameron estava extrapolando os limites das cenas de ação e os efeitos especiais. Além de contar com 48 dublês, ele mandava os atores fazerem eles próprios várias das tomadas. Jamie Lee ficou pendurada em um helicóptero que a deixou em cima de um carro em movimento sobre a ponte que une as ilhotas de coral de Florida Keys. Eu tive que nadar no mar para fugir de um paredão de labaredas. Confiei que Cameron não fosse colocar nossas vidas em risco, mas essas cenas envolviam um perigo inerente e, se você errasse, ninguém seria capaz de protegê-lo completamente.