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É possível observar os tabaqueiros fabricarem o charuto: primeiro o miolo, feito com uma qualidade específica de tabaco; depois a folha que prende o recheio, chamada de capote, que tem uma qualidade distinta; e por fim a folha externa, a capa, que não pode ter absolutamente nenhum veio. Se você vir um charuto com grossos veios na capa, significa que ele é de qualidade inferior, ou então alguém não prestou atenção ao fabricá-lo. Um charuto desses pode ser comprado por oito dólares e é agradável de fumar, mas não é um belo exemplar como os Davidoff, Montecristo ou Cohiba. Observei os tabaqueiros colocando as anilhas dos charutos. Assim como em qualquer produto, é importante que a marca seja a mais atraente possível. Para os apreciadores, a anilha aumenta muito a graça do charuto – sobretudo se tiver um aspecto estrangeiro, cubano, chamativo, latino e exuberante, cheio de vermelhos e amarelos, e às vezes com uma linda figura feminina desenhada.

Os charutos cubanos são de fato tão bons quanto dizem. Há muitos falsos cubanos por aí, mas, se você for um conhecedor, saberá distinguir as imitações dos artigos genuínos em segundos, pois um verdadeiro cubano tem um cheiro forte que lembra adubo. Sei que parece estranho, mas o cheiro é esse mesmo. Ao fumar o sabor é delicioso, mas quando você abre a caixa e sente o aroma... Quem não entende nada de charutos não vai gostar.

COM BILL CLINTON NA CASA BRANCA, meu nome já não tinha mais tanto valor em Washington. Antes mesmo da posse, Donna Shalala, nova secretária de Saúde e Serviços Humanos, pediu que eu renunciasse ao cargo de tsar da boa forma. “Você fez campanha para Bush, e não podemos tê-lo como chefe do President’s Council.” Isso foi tudo o que ela disse. Além disso, quando começamos a filmar True Lies e pedimos ao novo secretário do Interior, Bruce Babbit, uma autorização para atravessar a cavalo o espelho d’água do Monumento a Washington, ele negou na hora, muito embora outros filmes já tivessem usado o local.

Maria não ficou nem um pouco espantada. “Bem-vindo ao mundo da política. É assim mesmo”, comentou. É claro que ela ficou chateada por eu ter que abrir mão do cargo. Eu era bom no que fazia e adorava aquilo. Por outro lado, embora gostasse de George Bush como pessoa, ela mal podia esperar para Clinton assumir a presidência. No fundo, não sei muito bem como seus sentimentos se equilibravam. Talvez tenha havido um certo quê de revanche, uma vez que eu passara muito tempo aproveitando o fato de os republicanos estarem no poder e dizendo a ela que Ronald Reagan isso, George Bush aquilo, e como os conservadores iriam dar um jeito no país. Ela mal podia esperar pela mudança.

Eu aprendera tanta coisa como tsar da boa forma que sabia exatamente em que desejava me concentrar agora. Três anos de viagens pelos Estados Unidos haviam me deixado cada vez mais preocupado com uma questão importante relacionada às crianças: depois da escola e durante as férias, várias delas ficavam à toa, sem nada para fazer, e muitas vezes sem nenhum adulto por perto para tomar conta. Em todos os estados que visitei, os alunos eram liberados da escola às três da tarde. Metade ia embora com os pais ou voltava para casa de ônibus escolar, mas o restante ficava zanzando pelas ruas.

Quando comecei a me interessar pelo assunto, fiz amizade com Danny Hernandez, ex-fuzileiro naval que administrava o Hollenbeck Youth Center, um centro para jovens situado em um bairro pobre e infestado de gangues de rua em Los Angeles. Na experiência de Danny, as férias de verão eram sempre a época mais difícil para as crianças, pois a falta do que fazer as tornava mais suscetíveis a se envolver com crimes, drogas, bebidas alcoólicas e gangues. Assim, no intuito de criar propósito e significado para os meses do verão, ele havia criado em 1991 os Inner-City Games – mais ou menos nos moldes das Olimpíadas. De junho a agosto, crianças de escolas diferentes treinavam várias modalidades esportivas e no último dia de férias participavam de competições.

Danny me levou para visitar o centro, fruto de uma colaboração pouco comum na década de 1970 entre empresários locais e o Departamento de Polícia de Los Angeles. Havia quadras de basquete, uma sala de musculação e aulas de educação física, além de uma sala de computação e de um espaço para as crianças fazerem os deveres de casa. Como o centro estava localizado na zona leste da cidade, que era ocupada majoritariamente por imigrantes latinos, havia também um lindo ringue de boxe, esporte que é um elemento importante de sua cultura. O objetivo, Danny me explicou, era oferecer uma programação para as crianças se ocuparem e dar uma segunda chance às mais problemáticas. Em vez de mandarem-nas para o tribunal, muitas vezes as delegacias de polícia de Hollenbeck e de outros bairros da zona leste as encaminhavam para o centro juvenil. Diziam: “Não fique na rua, vá malhar depois da escola, faça seu dever de casa lá. Eles têm computadores, uma academia, um ringue de boxe. É uma boa ideia você ir para lá.”

Os distúrbios raciais de Los Angeles, na primavera de 1992, trouxeram dolorosamente à tona a necessidade de manter os jovens longe de encrencas. O estopim da violência foi a absolvição dos policiais de Los Angeles acusados de espancar Rodney King, um motorista afro-americano que dirigia em alta velocidade e avançou um sinal vermelho. Um vídeo gravado por uma testemunha no local mostrava que a polícia o havia agredido com violência, apesar de ele ter se entregado. Áreas de Los Angeles foram incendiadas, dezenas de pessoas morreram e foram registradas rebeliões em outras cidades também. Durante os tumultos, o Hollenbeck funcionou como um porto seguro. Gravei um vídeo musical chamado “Fiquem frios” (“Chill” é o título original em inglês) com Arsenio Hall, ator e apresentador de tevê, pedindo às pessoas que se acalmassem.

Então Danny e eu intensificamos os esforços para expandir os Inner-City Games, a fim de incluir mais escolas e mais crianças e estendendo o programa para que ele funcionasse o ano inteiro. Quando True Lies chegou aos cinemas e conquistou o primeiro lugar das bilheterias de filmes de ação em 1994, os Inner-City estavam realmente se popularizando. Nós já conseguíramos alcançar milhares de crianças, das quais 5 mil competiam nas finais, durante nove dias, na Universidade do Sul da Califórnia. Passamos a ir além do esporte e começamos a oferecer atividades artísticas e concursos de redação, programas de teatro, competições de dança e até mesmo programas para jovens empreendedores. Atlanta lançara sua própria versão dos jogos e havia planos para edições em Orlando, Miami, Chicago e em mais cinco cidades.

Trabalhar com aquelas crianças me ensinou muita coisa sobre mim mesmo. Até então, eu me considerava o garoto-propaganda do sonho americano. Chegara aos Estados Unidos praticamente sem dinheiro, mas dei duro, mantive o foco em meu objetivo e consegui alcançá-lo. Aquela era mesmo a terra das oportunidades, pensei. Se um rapaz como eu tinha conseguido, qualquer um seria capaz. Só que não era bem assim.

Ao visitar as escolas, vi que não bastava crescer como cidadão americano. Nos bairros pobres das grandes cidades, as crianças sequer se atreviam a sonhar. A mensagem que recebiam era: “Nem adianta se dar a esse trabalho. Você nunca vai conseguir. Você nasceu para perder.”

Tentei pensar no que eu tinha e aquelas crianças não. Também vinha de uma família pobre. No entanto, sempre tive gana de conquistar meus objetivos, e meus pais me incentivaram e me ensinaram a ter disciplina. Tive uma educação sólida em escola pública. Depois do colégio, fazia aulas de esporte com treinadores e parceiros de treino que serviram de modelos de comportamento para mim. Tive mentores que me disseram “Você vai conseguir, Arnold”, e que me fizeram acreditar nisso. Eles passaram o tempo todo do meu lado, me apoiaram e me fizeram crescer.