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Então inventei uma fala:

– Deite-se para que eu possa começar.

– Ótimo, ótimo! – exclamou ela. – O que acham, rapazes?

– Foi engraçado o jeito como ele explicou, e o sotaque italiano – respondeu o diretor.

– Não, o sotaque é alemão, mas para vocês é tudo igual – falei.

Eles riram.

– Está bem, o papel é seu – disseram.

Art Carney, Lucille e eu passamos uma semana ensaiando essa cena diariamente. Carney acabara de ganhar o Oscar de melhor ator por Harry, o amigo de Tonto. Era um ator muito engraçado, que acabamos descobrindo ter mais dificuldade ainda do que eu para decorar as falas. Por fim, na sexta-feira, eles me disseram:

– Na segunda, quando você voltar, vamos gravar ao vivo.

Eu me sentia pronto e falei que tudo bem.

Na segunda-feira, estava na sala de espera dos bastidores com alguns dos outros atores. Então alguém entrou e disse:

– Sua cena está pronta. – Fui conduzido por trás do estúdio até a porta pela qual deveria entrar. – Espere aqui. Quando a luz verde se acender, toque a campainha e comece a cena do mesmo jeito que ensaiamos.

Então fiquei ali esperando, segurando a mesa de massagem pela alça. Estava de short e tênis, e com um casaco que deveria tirar durante a cena para revelar uma camiseta sem manga e os músculos por baixo, bem aquecidos e untados com óleo.

A luz verde se acendeu e eu toquei a campainha. Quando Lucille abriu a porta, entrei no cenário e disse minha primeira fala:

– Meu nome é Rico.

De repente, ouvi risadas e aplausos.

Isso nós não tínhamos ensaiado. Eu não fazia a menor ideia de que “gravar ao vivo” naquele caso significava ser filmado por três câmeras em um estúdio com plateia. Nunca tinha ouvido essa expressão na vida – como eu, um fisiculturista que jamais tivera qualquer envolvimento com a TV, poderia saber disso? Nesse meio-tempo, Lucille, totalmente imbuída da personagem de Norma e parecendo hipnotizada por minhas pernas musculosas, deu uma boa risada e disse:

– Ah, s-sim... Entre, por favor... Ah, você já entrou. – E se apressou em fechar a porta atrás de mim.

Minha fala seguinte deveria ter sido: “Onde a senhora prefere, aqui mesmo ou no quarto?” Só que eu fiquei paralisado, segurando a mesa de massagem sob os refletores e ouvindo os aplausos e risos de mil pessoas tomarem conta do estúdio.

Lucille, que era uma profissional experiente, viu o que estava acontecendo e improvisou:

– Bom, não fique aí olhando para a parede! Você veio me fazer uma massagem... não foi?

Então eu me lembrei da fala e daí em diante a cena correu muito bem. A plateia aplaudiu o tempo todo.

Ela era tão boa que realmente me deu a impressão de estar fazendo perguntas que eu tinha de responder; não tive a sensação de estar atuando. Aquela era uma verdadeira aula – em vez de ser pago, era eu quem deveria pagar. Depois disso, Lucille passou vários anos acompanhando minha carreira como se fosse minha mãe de verdade. Apesar da reputação de durona, comigo ela era um doce. Sempre que um filme novo meu estreava, ela me escrevia cartas elogiosas. Esbarrei com ela várias vezes em eventos de celebridades, e ela sempre me dava um abraço e fazia a maior festa. “Eu assumo todo o crédito por este rapaz. Ele vai ser um grande astro”, dizia.

Lucille me deu conselhos sobre Hollywood. “Lembre-se: quando eles disserem ‘não’, você deve ouvir ‘sim’ e agir de acordo com isso. Se alguém lhe disser ‘Não podemos fazer esse filme’, dê-lhe um abraço e diga: ‘Obrigado por acreditar em mim.’”

TIVE QUE TOMAR CUIDADO PARA não deixar que minhas aventuras na televisão me distraíssem dos treinos. Em julho, Franco e eu passamos a malhar em intensidade máxima, duas vezes por dia, em preparação para as competições de outono. Eu iria defender meu título de Mister Olympia pelo quarto ano consecutivo, mas, sob alguns aspectos, aquela edição seria muito especial. Pela primeira vez, a disputa iria acontecer no Madison Square Garden, principal casa de shows de rock e eventos esportivos de Nova York. É verdade que ainda era o teatro chamado Felt Forum, com 4.500 lugares, e não a arena com capacidade para 21 mil espectadores. Ainda assim, era no Madison Square Garden que as pessoas tinham ido ver Muhammad Ali e Joe Frazier lutarem pela primeira vez, ou assistir a Wilt Chamberlain e Willis Reed jogarem. Era lá que se ia para ver Frank Sinatra e os Rolling Stones se apresentarem. Era lá que se realizavam os grandes torneios esportivos universitários.

O fisiculturismo, portanto, estava dando um grande passo. As pessoas tinham me visto na TV. O livro Pumping Iron estava prestes a ser lançado. E, graças ao trabalho incansável de George Butler, a edição de 1974 do campeonato Mister Olympia estava tendo uma divulgação jamais vista. Delfina Rattazzi, amiga de Charles Gaines, herdeira da fortuna da Fiat e mais tarde assistente de Jacqueline Kennedy Onassis na editora Viking, daria uma festa de lançamento do livro em seu apartamento após o evento. Ela havia convidado dezenas de pessoas glamorosas e importantes que antes teriam torcido o nariz para o fisiculturismo. Eu não sabia aonde aquilo tudo iria dar, mas tinha certeza de que queria estar na melhor forma possível.

Os jornalistas das revistas de Joe Weider se superaram para valorizar o evento, chamando-o de “Super Bowl do fisiculturismo”. O Madison Square Garden era “um Coliseu romano moderno”. Os concorrentes eram “gladiadores travando um combate vascular mortal”. O evento em si era “a maior guerra de músculos de 1974”, o “duelo de titãs”.

A empolgação dessa edição girava em torno do mais recente menino prodígio do fisiculturismo, Lou Ferrigno, um gigante de 1,96 metro e 120 quilos nascido no Brooklyn. Com apenas 22 anos, ele só melhorava com o passar do tempo. Vencera as disputas de Mister América e Mister Universo em 1973 e agora estava treinando para me arrancar o título de Mister Olympia. Lou estava sendo chamado de “o novo Arnold”. Dono de uma estrutura corporal sensacional, ombros largos, um abdômen inacreditável e um potencial fora do normal, ele não pensava em nada a não ser treinar e vencer. Para ser mais preciso, Lou treinava seis horas por dia, seis dias por semana – muito mais do que meu próprio corpo poderia suportar. Eu adorava ser campeão, porém o que mais tinha a provar depois de ganhar o Mister Olympia por quatro anos seguidos? Além disso, meus negócios estavam se expandindo e eu talvez tivesse dado o pontapé inicial em minha carreira no cinema. Enquanto treinávamos para a edição de Nova York, decidi que ela seria minha última competição.

Ferrigno vencera a disputa de Mister Internacional organizada por mim e por Franco em Los Angeles. Ele era imenso e simétrico; se eu fosse jurado, também o teria escolhido, embora sua definição ainda não fosse perfeita – assim como a minha quando eu chegara aos Estados Unidos – e suas poses precisassem ser mais bem ensaiadas. Se eu tivesse o corpo dele, poderia tê-lo esculpido em um mês para derrotar qualquer um – até a mim mesmo. Eu gostava de Lou, que era um cara simpático e discreto, de uma família carinhosa e trabalhadora. Tinha ficado parcialmente surdo quando criança e precisara superar muitas dificuldades desde então. Na época ganhava a vida como operário na indústria de chapas de metal e seu treinador era o pai, um tenente da polícia de Nova York que o fazia dar duro. Eu podia ver como o fisiculturismo deixava Lou orgulhoso. Além do corpo escultural, o esporte o tornava alguém. Agradava-me a ideia de um sujeito capaz de derrotar todos os obstáculos. Eu sabia o que ele devia pensar a meu respeito. Quando mais jovem, tinha sido meu fã, então me via da mesma forma que eu um dia vira Sergio Oliva: o campeão que acabaria tendo que derrotar.

Mas eu não achava que ele fosse estar pronto. Aquele não seria o seu ano. Assim, treinei com dedicação, mantive a discrição e não levei a sério quando as pessoas me diziam: “Arnold, é melhor você se cuidar. Se os jurados estiverem atrás de uma cara nova...” Ou então: “Weider acha você independente demais. Talvez ele esteja querendo uma nova estrela.”