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Quando Aviendha desapareceu de vista, Egwene suspirou e virou-se de volta para as Sábias. Tinha seus próprios motivos para estar ali, e adiar as coisas não ajudaria em nada.

— Amys, em Tel’aran’rhiod você me disse que eu deveria vir até você para aprender. Aqui estou.

— Pressa — respondeu a mulher de cabelos brancos. — Tínhamos pressa porque Aviendha lutou por tanto tempo contra sua toh e porque temíamos que os Shaido pudessem pôr os véus, mesmo aqui, se não mandássemos Rand al’Thor a Rhuidean antes que pudessem pensar.

— Acredita que teriam tentado matá-lo? — perguntou Egwene. — Mas vocês mandaram gente para a Muralha do Dragão atrás dele. Aquele Que Vem Com a Aurora.

Bair mexeu no xale.

— Talvez ele seja. Veremos. Se ele viver.

— Ele tem os olhos da mãe — disse Amys — e muito de suas feições, além de alguns traços do pai, mas Couladin só vê nele as roupas e o cavalo. Os outros Shaido também teriam visto isso, e talvez até os Taardad. Estrangeiros não podem pisar neste solo, e agora há cinco de vocês. Não, quatro. Rand al’Thor não é estrangeiro, independente de onde tenha crescido. Mas já permitimos a entrada de um em Rhuidean, o que também é proibido. As mudanças vêm como avalanches, independentemente de nossa vontade.

— São necessárias — disse Bair, sem soar feliz. — O Padrão nos finca onde deseja.

— Vocês conheceram os pais de Rand? — perguntou Egwene, com cautela.

Fosse lá o que as mulheres dissessem, ela ainda via Tam e Kari al’Thor como pais de Rand.

— Essa história é dele — respondeu Amys — se ele quiser ouvir.

Pela firmeza de seus lábios, ficava claro que a mulher não diria outra palavra sobre o assunto.

— Venha — disse Bair. — Não há motivo para pressa, agora. Venha. Oferecemos água e sombra.

Os joelhos de Egwene quase cederam à menção de sombra. O lenço em sua testa, antes encharcado, estava quase seco. Sentia o topo da cabeça assando, e o restante do corpo estava quase lá. Moiraine parecia igualmente grata em acompanhar as Sábias até um dos pequenos grupos de tendas baixas e abertas nas laterais.

Um homem alto de sandálias e túnica branca com capuz tomou os cavalos delas pelas rédeas. As feições Aiel pareciam estranhas dentro do capuz fundo e macio, e ele mantinha os olhos baixos.

— Dê água para os animais — disse Bair, antes de se abaixar para entrar na tenda baixa e sem paredes, e o homem fez uma mesura por trás dela, tocando a própria testa.

Egwene hesitou em deixar o homem levar Bruma para longe. Ele parecia seguro, mas o que um Aiel sabia sobre cavalos? De todo modo, achava que o sujeito não poderia fazer mal aos animais, e o interior da tenda parecia muitíssimo mais escuro e agradável. E estava mesmo, além de oferecer um frescor delicioso em comparação com o lado de fora.

O teto da tenda formava uma ponta em torno de um buraco, mas mesmo ali quase não havia espaço para ficarem de pé. Como se para compensar as cores pardas que os Aiel vestiam, grandes almofadas vermelhas com borlas douradas jaziam espalhadas sobre tapetes coloridos, dispostos em camadas suficientes para acolchoar o chão duro que havia por baixo. Egwene e Moiraine imitaram as Sábias, afundando no tapete e apoiando o cotovelo em uma almofada. Dispuseram-se em um círculo, quase perto o bastante umas das outras para se tocarem.

Bair soou um pequeno gongo de latão, e duas jovens entraram com bandejas de prata, inclinando-se com movimentos graciosos, vestidas de branco, com capuzes na cabeça e olhando para baixo, assim como o homem que levara os cavalos. Ajoelhando-se no centro da tenda, uma delas serviu uma pequena caneca de prata com vinho para cada uma das mulheres reclinadas nas almofadas, enquanto a outra servia canecas maiores com água. As duas saíram sem dizer uma palavra, curvando-se em mesuras, deixando as bandejas e jarras reluzentes e cobertas de gotinhas de condensação.

— Eis água e sombra — disse Bair, erguendo a água — dadas de bom grado. Que não haja obstáculos entre nós. Todas são bem-vindas, assim como irmãs-primeiras são bem-vindas.

— Que não haja obstáculos — murmuraram Amys e as outras duas. Depois de um gole d’água, as mulheres Aiel se apresentaram formalmente: Bair, do ramo Haido dos Aiel Shaarad; Amys, do ramo dos Nove Vales dos Aiel Taardad; Melaine, do ramo Jhirad dos Aiel Goshien; e Seana, do ramo Penhasco Negro dos Aiel Nakai.

Egwene e Moiraine seguiram o ritual, embora Moiraine tenha apertado os lábios quando a jovem se intitulou Aes Sedai da Ajah Verde.

O clima na tenda se alterou visivelmente, como se a água e os nomes compartilhados tivessem derrubado uma muralha. Sorrisos das mulheres Aiel, um súbito alívio na tensão, e foi o fim das formalidades.

Egwene ficou mais grata pela água do que pelo vinho. A tenda podia estar mais fresca do que o lado de fora, mas só de respirar ela já ficava com a garganta seca. A um gesto de Amys, ela serviu uma segunda caneca com avidez.

As pessoas de branco tinham sido uma surpresa. Era bobagem, mas percebeu que pensava que, exceto pelas Sábias, os Aiel fossem todos como Rhuarc e Aviendha: guerreiros. Sem dúvida havia ferreiros, tecelões e outros artesãos, tinha de haver. Por que não serviçais? Só que Aviendha desdenhara dos serviçais da Pedra e evitara que eles fizessem tudo o que ela fosse capaz de fazer sozinha. Aquela gente de comportamento humilde não agia nem um pouco como Aiel. Ela não se lembrava de ter visto ninguém de branco nos dois acampamentos grandes.

— São só as Sábias que têm serviçais? — perguntou.

Melaine engasgou com o vinho.

— Serviçais? — perguntou, ofegante. — Elas são gai’shain, não serviçais — respondeu, como se isso explicasse tudo.

Moiraine franziu o cenho de leve por sobre a caneca de vinho.

— Gai’shain? Como se traduz isso? “Os que juraram paz na batalha”?

— São apenas gai’shain — disse Amys. Pareceu perceber que as outras não haviam compreendido. — Desculpem, mas vocês sabem do ji’e’toh?

— Honra e obrigação — respondeu Moiraine, prontamente. — Ou talvez honra e dever.

— Sim, são essas as palavras. Mas o significado. Vivemos pelo ji’e’toh, Aes Sedai.

— Não tente explicar tudo a elas, Amys — advertiu Bair. — Uma vez passei um mês inteiro tentando explicar o ji’e’toh a uma aguacenta, e no fim ela estava com mais dúvidas do que no início.

Amys assentiu.

— Vou falar o básico. Se quiser que eu explique, Moiraine.

Egwene preferia começar a falar de Sonhos e do treinamento, mas, para sua irritação, a Aes Sedai respondeu:

— Sim, por favor.

Com um aceno de cabeça para Moiraine, Amys começou:

— Vou seguir apenas a linha do gai’shain. Na dança das lanças, a maior ji, ou seja, honra, é recebida ao tocar um inimigo armado sem matá-lo ou machucá-lo.

— É a maior honra porque é muito difícil — explicou Seana, com os olhos cinza-azulados apertados em ironia — e por isso é muito raro de acontecer.

— A menor honra vem da morte — prosseguiu Amys. — Uma criança ou um tolo são capazes de matar. A meio caminho está a captura de um prisioneiro. Estou simplificando, veja bem. Há muitos graus. Os gai’shain são prisioneiros capturados, embora um guerreiro que tenha sido tocado pode às vezes exigir que seja levado como gai’shain para reduzir a honra de seu inimigo e sua própria perda.