— Vão embora! — gritou o homem. — Vão! Vocês não são Aiel! Estão perdidos! Perdidos! Não quero mais olhar para vocês! Sumam!
Sulwin e os outros saíram correndo, aos tropeços, para bem longe dele.
Seu coração pesava mais e mais à medida que ia inspecionando os carroções e mortos que jaziam em meio à confusão. Tantos mortos, tantos feridos gemendo enquanto eram tratados. Sulwin e seus perdidos estavam ocupados em descarregar os carroções. Os homens que portavam espadas haviam aberto os caixotes, até que perceberam que não havia ouro ou comida dentro. Comida era mais preciosa que ouro. Adan analisou o batente de pedra, as pilhas de estatuetas de pedra amontoadas, as figuras estranhas de cristal ao lado dos vasos com mudas de árvores de cora, sem utilidade alguma para Sulwin e os outros. Havia propósito para algum daqueles objetos? Era para isso que estavam sendo leais? Se era, então que fosse. Poderiam salvar alguns. Não havia como dizer quais deles as Aes Sedai consideravam mais importantes, mas poderiam salvar alguns.
Viu Maigran e Lewin puxando a saia da mãe. Estava feliz em ver Saralin viva para cuidar deles. Seu último filho, marido dela, pai das crianças, morrera naquela manhã, atingido pela primeira flecha. Poderiam salvar alguns. Ele salvaria os Aiel, não importava o custo.
Ele se ajoelhou e tomou Siedre nos braços.
— Ainda somos leais, Aes Sedai — sussurrou. — Por quanto tempo teremos que ser leais?
Então apoiou a cabeça entre os seios de sua esposa e chorou.
Lágrimas ardiam nos olhos de Rand. Em silêncio, apenas movendo os lábios, disse:
— Siedre.
O Caminho da Folha? Aquela não era uma crença Aiel. Ele não conseguia pensar direito. Mal conseguia pensar, na verdade. As luzes giravam cada vez mais depressa. A boca de Muradin, a seu lado, estava aberta em um uivo silencioso. O Aiel estava com os olhos arregalados, como se testemunhasse a morte de tudo. Juntos, os dois deram um passo à frente.
Jonai estava parado na beirada do despenhadeiro, olhando para oeste por sobre a água iluminada pelo sol. Comelle ficava a cem léguas naquela direção. Ficara. A cidade se estendia pelas montanhas que davam para o mar. Cem léguas a oeste, onde o mar agora corria. Se Alnora ainda estivesse viva, talvez fosse mais fácil suportar aquilo. Sem os sonhos dela, ele mal sabia aonde ir ou o que fazer. Sem ela, ele pouco se importava em viver. Sentia cada fio de cabelo grisalho ao se arrastar penosamente de volta aos carroções, que aguardavam a uma milha de distância. Menos carroções agora, e deteriorados. Menos gente, também, alguns poucos milhares, e antes havia dezenas. Mas ainda eram muitos, para os carroções que restavam. Ninguém mais cavalgava, exceto as crianças pequenas demais para caminhar.
Adan o encontrou no primeiro carroção. Era um jovem alto, de olhos azuis bastante cautelosos. Jonai sempre esperava ver Willim, quando se virava depressa. Mas Willim fora mandado embora, claro, anos antes, quando começou a canalizar, mesmo tentando se conter. Ainda havia muitos homens capazes de canalizar no mundo, e eles precisavam mandar embora os meninos que exibiam os sinais. Era preciso. Mas desejava ter os filhos de volta. Quando foi que que Esole morrera? Tão pequeno para jazer em uma cova cavada às pressas, corroído por uma doença que Aes Sedai nenhuma podia Curar.
— Os Ogier chegaram, pai — disse Adan, animado. Jonai suspeitou que o filho sempre tivesse achado que as histórias de Ogier eram apenas histórias. — Vieram do norte.
Adan o conduziu a um bando sujo e enlameado de não mais de cinquenta Ogiers, com rostos fundos, olhos tristes e orelhas peludas esmorecidas. Ele se acostumara com as feições tensas e exauridas e as roupas remendadas do próprio povo, mas ver o mesmo nos Ogier o deixara chocado. No entanto, tinha gente de quem cuidar e seu dever com as Aes Sedai. Quanto tempo fazia que não via uma Aes Sedai? Logo depois que Alnora morrera. Tarde demais para Alnora. A mulher havia Curado os doentes que ainda viviam, recolhido alguns dos sa’angreal e seguido seu caminho, dando uma risada amarga quando ele perguntou em que lugar poderiam ficar seguros. O vestido dela estava remendado e gasto na bainha. Jonai não soube dizer se a mulher estava lúcida. Ela afirmou que um dos Abandonados estava preso, mas apenas em parte, ou talvez na verdade nem estivesse. Ishamael ainda tocava o mundo, dissera a mulher. Só podia estar tão louca quanto os Aes Sedai homens restantes.
Voltou o pensamento outra vez aos Ogier, parados ali, com as pernas compridas bamboleando. Suas ideias vagavam demais, desde a morte de Alnora. Eles tinham pães e tigelas nas mãos. Jonai ficou chocado em sentir uma pontada de raiva por alguém ter compartilhado o parco estoque de comida. Quantas pessoas de seu povo daria para alimentar com o que cinquenta Ogier consumiam? Não. O certo era dividir. Dar, de graça. Cem pessoas? Duzentas?
— Vocês têm mudas de cora — disse um dos Ogier. Os dedos grossos percorreram delicadamente os trevos das duas plantas em vasos presos a um carroção.
— Alguns — respondeu Adan, com rudeza. — Elas morrem, mas o povo antigo corta novas antes de morrerem de vez. — Ele não tinha tempo para árvores. Tinha um povo para cuidar. — Como estão as coisas no norte?
— Ruins — respondeu uma mulher Ogier. — As Terras Praguejadas cresceram para o sul, e há Myrddraal e Trollocs.
— Pensei que estivessem todos mortos.
Então não deviam ir para o norte. Não podiam ir para lá. E o sul? O Mar de Jeren ficava dez dias a sul. Ou será que ainda ficava? Estava cansado. Tão cansado.
— Vocês vieram do leste? — perguntou outro Ogier. Ele limpou a tigela com uma ponta de pão e engoliu. — Como estão as coisas por lá?
— Ruins — respondeu Jonai. — Mas talvez não tanto para vocês. Dez, não, vinte dias atrás, umas pessoas pegaram um terço dos nossos cavalos antes de conseguirmos fugir. Tivemos que abandonar os carroções. — Aquilo o afligia. Carroções deixados para trás, junto com o que havia neles. As coisas que as Aes Sedai haviam entregado aos cuidados dos Aiel, abandonadas. E não era a primeira vez, o que só tornava tudo pior. — Quase todo mundo que conhecemos leva coisas, leva o que deseja. Mas talvez não ajam assim com os Ogier.
— Talvez — disse uma mulher Ogier, como se não acreditasse. Jonai também não sabia muito bem se acreditava, não havia lugar seguro. — Sabe onde fica algum dos pousos?
Jonai a encarou.
— Não. Não, não sei. Mas sem dúvida vocês vão conseguir encontrar.
— Já viajamos para tão longe, por tanto tempo — disse um Ogier, nos fundos do aglomerado.
— A terra já mudou tanto — acrescentou outro, em um ressoar lamentoso.
— Acho que precisamos encontrar um pouso logo, ou vamos morrer — completou a primeira Ogier. — Sinto uma… Saudade em meus ossos. Precisamos encontrar um pouso. Precisamos.
— Não posso ajudá-los — respondeu Jonai com tristeza.
Sentia um aperto no peito. A terra mudava tanto que já estava irreconhecível, a planície percorrida no ano anterior poderiam ser as montanhas de hoje. As Terras Praguejadas cresciam. Myrddraal e Trollocs ainda vivos. Gente roubando, gente com cara de animais, gente que não reconhecia Da’shain, que sequer os conhecia. Ele mal conseguia respirar. Os Ogier, perdidos. Os Aiel, perdidos. Tudo perdido. O aperto tornou-se dor, e ele caiu de joelhos e se encolheu, agarrando o peito. Um punho comprimia seu coração com força.
Adan ajoelhou-se ao lado dele, preocupado.
— Pai, o que houve? Qual é o problema? O que posso fazer?
Jonai conseguiu agarrar a gola puída do filho e puxou seu rosto para perto.
— Leve… o povo… para o sul. — Precisou se forçar a expelir as palavras, entre espasmos que pareciam rasgar o coração.
— Pai, é o senhor que…
— Escute! Escute! Leve-os… para o sul. Leve… os Aiel… para a segurança. Mantenha… o Pacto. Cuide… do que as Aes Sedai… nos deram… até… elas voltarem para buscar. O Caminho… da Folha. Você precisa…