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Ele tinha tentado. Solinda Sedai precisava entender. Ele tinha tentado. Alnora.

Alnora. O nome foi morrendo, e a dor no peito de Rand, aliviando. Não fazia sentido. Nenhum sentido. Como esse povo poderia ser Aiel?

As colunas piscavam em lampejos cegantes. O ar revolvia e turbilhonava.

Ao lado dele, Muradin mantinha a boca esticada, em um esforço para gritar. O Aiel agarrou o véu, agarrou o próprio rosto, deixando arranhões profundos e ensanguentados.

À frente.

Jonai correu pelas ruas vazias, tentando não olhar os prédios depredados e as árvores cora mortas. Todas mortas. O último dos compridos carros jo abandonados fora arrastado para longe. Os abalos secundários ainda agitavam o solo sob seus pés. Ele usava as roupas de trabalho, o cadin’sor, naturalmente, embora o trabalho que recebera não fosse nada para o qual tivesse sido treinado. Tinha sessenta e três anos, estava no auge da vida, ainda sem idade para cabelos brancos, mas se sentia um velho cansado.

Ninguém questionou seu ingresso no Salão dos Servos, não havia vivalma na enorme entrada colunada para fazer perguntas ou dar as boas-vindas. Muita gente se agitava do lado de dentro, os braços cheios de papéis ou caixas, os olhos ansiosos, mas ninguém sequer olhou para ele. Havia uma sensação de pânico nas pessoas, que aumentava de forma perceptível cada vez que o chão tremia. Angustiado, ele cruzou a antessala e subiu as escadas correndo. A lama sujou a pedra branca marmorizada. Ninguém podia perder tempo. Talvez ninguém se importasse.

Não havia necessidade de bater à porta que procurava. Não era nenhuma das grandes portas douradas que davam para um salão central, mas uma porta lisa e discreta. Mas ele entrou sem fazer barulho, e ficou feliz por ter feito isso. Havia meia dúzia de Aes Sedai ao redor da mesa comprida, e pareciam não perceber o tremor do edifício. Eram todas mulheres.

Ele sentiu um arrepio ao pensar se algum dia os homens poderiam participar de uma reunião como aquela. Quando viu o que havia na mesa, o arrepio transformou-se em tremor. Uma espada de cristal — talvez um objeto do Poder, talvez apenas um enfeite, não tinha como dizer — fixava o estandarte do Dragão de Lews Therin Fratricida, estirado feito uma toalha de mesa e espalhado no chão. Seu coração enrijeceu. O que aquilo estava fazendo ali? Por que não fora destruído, junto com a memória daquele homem amaldiçoado?

— De que adiantam suas Previsões — quase gritava Oselle — se não pode dizer quando? — Ela balançava os longos cabelos negros ao tremer de raiva. — O mundo depende disso! O futuro! A própria Roda!

Deindre, de olhos escuros, a encarou com uma calma mais corriqueira.

— Eu não sou o Criador. Só posso dizer o que Prevejo.

— Paz, irmãs. — Solinda era a mais calma de todas, o antigo vestido de estraite era uma névoa azul-clara. Os cabelos acobreados que caíam por sobre os quadris eram quase da cor dos dele. Seu avô servira a ela quando jovem, mas a mulher parecia mais moça do que ele, pois era Aes Sedai. — O tempo de disputas entre nós passou. Jaric e Haindar estarão aqui amanhã.

— O que significa que não podemos nos permitir cometer erros, Solinda.

— Temos que saber…

— Há alguma chance de…?

Jonai parou de escutar. Elas o veriam quando estivessem prontas. Não era o único no salão, além das Aes Sedai. Someshta estava encostado na parede perto da porta, uma forma gigantesca que parecia feita de vinhas e folhas. Mesmo sentado, a cabeça dele batia um pouco acima da de Jonai. Uma fissura seca, chamuscada de marrom e preto, corria pelo rosto do Nym e formava um sulco na grama verde de seus cabelos. Quando ele encarou Jonai, os olhos de avelã demonstraram preocupação.

O homem assentiu para ele, e o Nym tocou a fissura e franziu o cenho.

— Conheço você? — perguntou, baixinho.

— Sou seu amigo — respondeu Jonai, com tristeza. Não via Someshta havia anos, mas tinha ouvido falar. A maioria dos Nym estava morta, pelo que ouvira. — O senhor me carregou nos ombros quando eu era pequeno. Não se lembra?

— Cantoria — respondeu Someshta. — Havia cantoria? Tanta coisa já se foi. As Aes Sedai dizem que algumas retornarão. Você é um Filho do Dragão, não é?

Jonai estremeceu. Aquele nome já causara problemas, ainda mais porque não era verdadeiro. Mas quantos cidadãos agora acreditavam que os Aiel Da’shain um dia haviam servido apenas ao Dragão, nenhum outro Aes Sedai?

— Jonai?

Ele se virou ao ouvir a voz de Solinda e ajoelhou-se enquanto ela se aproximava. As outras ainda debatiam, porém em um tom mais baixo.

— Está tudo pronto, Jonai? — indagou a mulher.

— Tudo, Aes Sedai. Solinda Sedai… — Ele hesitou e respirou fundo. — Solinda Sedai, alguns de nós desejam permanecer. Ainda podemos servir.

— Você sabe o que aconteceu com os Aiel em Tzora? — Jonai assentiu, e a mulher deu um suspiro e estendeu o braço para afagar seus cabelos curtos, como se ele fosse uma criança. — É claro que sabe. Vocês Da’shain têm mais coragem do que… Dez mil Aiel de braços dados, cantando, tentando fazer um louco se lembrar de quem eram e de quem ele havia sido, tentando transformá-lo com seus corpos e uma canção. Jaric Mondoran os matou. Ele ficou ali parado, olhando, como se aquilo fosse um quebra-cabeças, matando todos, e os Aiel continuaram apertando as fileiras e cantando. Ouvi dizer que ele escutou o último Aiel por quase uma hora, antes de aniquilá-lo. Depois disso, Tzora ardeu em chamas, um fogaréu que consumiu pedra, metal e carne. Há uma folha de vidro onde um dia existiu a segunda maior cidade do mundo.

— Muita gente teve tempo de fugir, Aes Sedai. Os Da’shain ganharam tempo para fugir. Não temos medo.

Solinda apertou a mão nos cabelos no homem, cheia de pesar.

— Os cidadãos já fugiram para Paaren Disen, Jonai. Além do mais, os Da’shain ainda têm um papel a desempenhar, se pelo menos Deindre conseguisse ver o suficiente para dizer o que é. Pretendo salvar algo daqui, e esse algo é você.

— Como quiser — respondeu ele, relutante. — Vamos cuidar do que vocês nos confiaram até que voltem para buscar.

— É claro. As coisas que demos a vocês. — Ela sorriu para ele e abriu a mão, alisando os cabelos mais uma vez antes de entrelaçar os dedos na outra mão. — Vocês levarão as… coisas… para um lugar seguro, Jonai. Continuem andando, sempre andando, até encontrarem um local seguro, onde ninguém possa lhes fazer mal.

— Como quiser, Aes Sedai.

— E Coumin, Jonai? Ele está mais calmo?

A única alternativa era contar a ela. Preferia arrancar a própria língua.

— Meu pai está escondido em algum lugar da cidade. Ele tentou nos convencer a… resistir. Ele não escuta, Aes Sedai. Não escuta. Encontrou uma lança de choque em algum lugar e…

Jonai não conseguia continuar. Achou que a mulher fosse ficar irritada, mas os olhos dela se encheram de lágrimas.

— Mantenha o Pacto, Jonai. Se os Da’shain perderem todo o resto, garanta a continuidade do Caminho da Folha. Prometa isso.

— Claro, Aes Sedai — respondeu, chocado. O Pacto era os Aiel, e os Aiel eram o Pacto. Abandonar o Caminho seria abandonar sua essência. Coumin era uma aberração. O pai estava estranho desde que Jonai era criança, pelo que diziam, quase não era Aiel, embora ninguém soubesse por quê.

— Então vá, Jonai. Quero você longe de Paaren Disen até amanhã. E não se esqueça: continue andando. Proteja os Aiel.

Ele fez uma mesura onde estava, ajoelhado, mas Solinda já voltara para o debate.

— Podemos confiar em Kodam e seus companheiros, Solinda?

— Temos que confiar, Oselle. Eles são jovens e inexperientes, mas ainda não foram tocados pela mácula, e… não temos escolha.