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— Então faremos o que for preciso. A espada deve esperar. Someshta, temos uma tarefa para o último dos Nym, se você puder cuidar disso. Já pedimos bastante a você, mas agora precisamos pedir mais.

Jonai retirou-se com uma mesura formal enquanto o Nym se levantava, a cabeça roçando no teto. Já imersas nos próprios planos, as Aes Sedai não olharam para ele, que lhes dispensou a última honraria mesmo assim. Achava que não as veria nunca mais.

Ele saiu correndo do Salão dos Servos e seguiu até a cidade, onde a grande multidão aguardava. Milhares de carroções estendiam-se em dez fileiras, por mais de duas léguas, carroções abarrotados de comida e barris de água, carroções carregados com os caixotes que as Aes Sedai haviam confiado aos Aiel — angreal, sa’angreal e ter’angreal, todas as coisas que tinham de ser mantidas longe das mãos dos homens, que enlouqueciam quando manejavam o Poder Único. Antes havia outras formas de carregá-los: carros jo, saltadores, moscardos e imensas asas sho. Agora, tinham de se contentar com carroções e cavalos reunidos a muito custo. Havia gente entre os carroções. Estavam em número suficiente para encher uma cidade, mas talvez fossem todos os Aiel vivos que restavam no mundo.

Cem vieram ao seu encontro, homens e mulheres, representantes que exigiam saber se as Aes Sedai haviam concedido permissão para que alguns ficassem.

— Não — disse. Alguns franziram o rosto, relutantes, e ele acrescentou: — Temos que obedecer. Somos Aiel Da’shain e obedecemos os Aes Sedai.

Eles se dispersaram lentamente de volta para os carroções, e Jonai pensou ter ouvido alguém mencionar o nome de Coumin, mas não podia deixar que aquilo o atormentasse. Correu até o próprio carroção, na dianteira de uma das fileiras centrais. Os cavalos estavam nervosos com os tremores intervalados do chão.

Os filhos já estavam sentados — Willim, de quinze, com as rédeas, e Adan, de dez, ao lado dele, ambos com sorrisos escancarados de nervosismo e empolgação. A pequena Esole brincava com uma boneca em cima da lona que cobria os pertences da família — e o mais importante, a carga das Aes Sedai. Não havia espaço para ninguém além dos jovens e dos muito velhos. Havia uma dúzia de mudas de cora com raízes em potes de barro, acomodados atrás do assento do carroção, para serem plantados quando encontrassem um local seguro. Uma coisa tola de levar, talvez, mas cada carroção continha potes com as mudas. Era algo de um tempo havia muito acabado, símbolo de um tempo melhor por vir. O povo precisava de esperança e de símbolos.

Alnora aguardava ao lado dos animais, os cabelos negros e brilhosos caindo por sobre os ombros, fazendo com que Jonai se lembrasse da primeira vez que a vira, quando menina. Mas no momento havia rugas de preocupação em volta dos olhos da esposa.

Tentou abrir um sorriso, escondendo a preocupação no próprio coração.

— Tudo vai ficar bem, esposa do meu coração. — Ela não respondeu, e Jonai acrescentou: — Você sonhou?

— Há algum tempo que não acontece — murmurou a mulher. — Tudo vai ficar bem, tudo vai ficar bem, e toda sorte de coisas vai ficar bem. — Com um sorriso trêmulo, ela tocou seu rosto. — Com você, eu sei que vai ser assim, marido do meu coração.

Jonai acenou por cima da cabeça, e o sinal ondulou pelas fileiras. Lentamente, os carroções começaram a se movimentar, e os Aiel começaram a deixar Paaren Disen.

Rand balançou a cabeça. Era demais. Lembranças juntas, amontoadas. O ar parecia repleto de relâmpagos difusos. O vento levantava a poeira e a transformava em redemoinhos dançantes. Muradin tinha sulcos profundos na face. Agora, suas unhas penetravam os olhos. À frente.

Coumin ajoelhou-se na beira do chão arado vestindo as roupas de trabalho — um casaco liso cinza-amarronzado, calças e botas macias de cadarço. Estava ao lado de outros vestidos como ele, rodeando o campo, dez homens dos Aiel Da’shain a dois braços de distância um do outro e um Ogier formavam um círculo. Dava para ver o campo seguinte, com pessoas dispostas da mesma forma, à frente dos soldados com lanças de choque largadas em cima dos carros jo blindados. Um moscardo zunia, patrulhando acima, uma vespa de metal mortífera com dois homens dentro. Ele tinha dezesseis anos, e as mulheres haviam decidido que sua voz enfim estava grave o suficiente para que participasse das canções de semeadura.

Os soldados o deixavam fascinado, humanos e Ogier — talvez fosse o mesmo fascínio exercido por uma cobra venenosa multicolorida. Eles matavam. O avô de seu pai, Charn, alegava que nos tempos de outrora não havia soldados, mas Coumin não acreditava. Se não havia soldados, quem impedia os Cavaleiros da Noite e os Trollocs de matarem todo mundo? É claro que Charn dizia que naquela época também não havia Myrddraals ou Trollocs. Nenhum Abandonado, nenhum Forjado das Sombras. Muitas histórias que ele contava eram de uma época antes dos soldados, dos Cavaleiros da Noite e dos Trollocs, quando dizia que o Senhor do Túmulo estava preso bem longe e ninguém sabia seu nome ou conhecia a palavra “guerra”. Coumin não conseguia imaginar um mundo desses, a guerra já era antiga quando nascera.

Ele gostava das histórias de Charn, mesmo sem acreditar nelas, mas algumas rendiam ao velho umas broncas e caras feias. Como quando alegou ter servido a um dos Abandonados. Não qualquer Abandonado, mas Lanfear em pessoa. E também disse que servira a Ishamael. Se Charn precisava inventar histórias, Coumin preferia que dissesse que serviu ao próprio Lews Therin, o grande líder. Decerto todos perguntariam por que não estava servindo ao Dragão agora, mas isso já melhoraria as coisas. Coumin não gostava da forma como os cidadãos encaravam Charn, quando ele dizia que Lanfear nem sempre fora má.

Um burburinho no extremo do campo revelou que o Nym se aproximava. A grande figura, de cabeça, ombros e peito mais altos que qualquer Ogier, pisou no chão cheio de sementes, e Coumin não precisou olhar para saber que ele deixava pegadas cheias de brotos. Era Someshta, rodeado por nuvens de borboletas brancas, amarelas e azuis. Murmúrios entusiasmados surgiram entre os cidadãos e os donos dos campos, ali reunidos para assistir. Cada campo teria seu próprio Nym.

Coumin se perguntou se poderia falar com Someshta sobre as histórias de Charn. Tinha conversado uma vez com o Nym, e Someshta já tinha idade para saber se Charn dizia ou não a verdade — os Nym eram mais velhos que todos. Alguns diziam que eles não morriam, pelo menos não enquanto as plantas continuavam crescendo. Mas aquela não era hora de pensar em questionar um Nym.

O Ogier começou, como era apropriado, ficando de pé para cantar, os sons graves ressoavam feito o ribombar da terra. Os Aiel se levantaram, e vozes masculinas se elevaram na própria canção, e mesmo os mais graves eram um tom mais agudo que o do Ogier. Ainda assim, as canções se entrelaçaram, e Someshta trançou as tramas em sua dança, deslizando pelo campo em passos impetuosos, os braços abertos, as borboletas voejando ao redor, pousando nos dedos espalmados.

Coumin conseguia ouvir as canções de semeadura nos outros campos, as mulheres batendo palmas para encorajar os homens, no ritmo da batida de uma nova vida, mas aquele conhecimento estava longe dele. A música o arrebatou, e Coumin quase sentiu que era a ele, não aos sons que emitia, que Someshta urdia sob o solo e ao redor das árvores. Já não eram sementes. Brotos de zemai cobriam o campo, maiores onde o pé do Nym pisara. Praga nenhuma tocaria aquelas plantas, inseto algum. Depois de cantadas, elas cresceriam até o dobro da altura de um homem e encheriam os celeiros. Fora para isso que ele nascera, para aquela e as outras canções de semeadura. Não lamentava o fato de os Aes Sedai o terem recusado aos dez anos de idade, alegando que ele não tinha o poder. Seria maravilhoso se tornar Aes Sedai, mas sem dúvida não mais incrível do que aquele momento.