Os Aiel ainda se viravam para encarar o Portal dos Caminhos, espalhados pela encosta com as flechas encaixadas nos arcos, em meio a arbustos baixos e árvores atrofiadas, pinheiros, abetos e folhas-de-couro deformados pelo vento. Faile se levantava de onde rolara da sela de Andorinha, a égua negra apertando-a com o focinho. Sair de um Portal dos Caminhos era no mínimo tão ruim quanto entrar, ela teve sorte de não quebrar o pescoço, e a égua também. O imenso cavalo de Loial e os animais de carga tremiam como se tivessem levado um murro na cara. Perrin abriu a boca, e Faile cravou os olhos nele, desafiando-o a fazer qualquer comentário que fosse, muito menos um solidário. Ele fez uma careta irônica e, sabiamente, permaneceu em silêncio.
De repente, Loial foi expelido com violência do Portal dos Caminhos, saltando de um espelho fosco e prateado com o próprio reflexo avultando-se por trás, e rolou pelo chão. Quase na cola dele surgiram dois Trollocs — um com chifres e focinhos de carneiro, outro com bico de águia e cristas emplumada, mas, antes que mais da metade de seus corpos aparecesse do outro lado, a superfície reluzente transformou-se em negro profundo, borbulhante e intumescido, agarrando-se a eles.
Vozes sussurraram na cabeça de Perrin, mil vozes insanas balbuciando em seu crânio. Sangue amargo. Tão amargo. Beba o sangue e quebre o osso. Quebre o osso e sugue o tutano. Tutano amargo, gritos doces. Melodia de gritos. Cante os gritos. Almas diminutas. Almas pungentes. Devore todas. Dor tão doce. E continuava, e continuava.
Ganindo e uivando, os Trollocs tentavam golpear o negrume que ebulia à sua volta, arranhando-o para tentar se libertar enquanto eram sugados com mais e mais força, até que restou apenas uma mão peluda, agarrando o nada em frenesi, depois apenas a escuridão saliente, perscrutadora. Bem lentamente, os portões surgiram, deslizando juntos, espremendo a escuridão de volta para dentro. As vozes na cabeça de Perrin enfim cessaram. Loial correu à frente, bem depressa e pôs não um, mas dois trevos entre as ervas-pinheirinhas e vinhas. O Portal dos Caminhos tornou-se pedra outra vez, um trecho de muro de pedra com entalhes intrincados, isolado em meio a uma montanha com árvores esparsas. Entre as ervas-pinheirinhas e vinhas havia não uma, mas duas folhas de Avendesora. Loial recolocara o trevo de dentro do lado de fora.
O Ogier soltou um suspiro profundo de alívio.
— É o melhor que consigo fazer. Agora só pode ser aberto por este lado. — Lançou a Perrin um olhar ao mesmo tempo ansioso e firme. — Eu poderia ter trancado a porta para sempre se não tivesse recolocado as folhas, mas não vou estragar um Portal dos Caminhos, Perrin. Nós cultivamos e cuidamos dos Caminhos. Talvez eles um dia possam ser purificados. Não posso arruinar um Portal dos Caminhos.
— Está bom assim — respondeu Perrin.
Será que os Trollocs estavam indo para aquele Portal dos Caminhos, ou fora apenas obra do acaso? De todo modo, estava bom daquele jeito.
— Isso foi…? — começou Faile, insegura, depois parou para engolir em seco.
Até os Aiel pareciam abalados, para variar.
— Machin Shin — respondeu Loial. — O Vento Negro. Uma criatura da Sombra, ou uma coisa criada pela própria mácula dos Caminhos… ninguém sabe. Sinto pena dos Trollocs. Mesmo sendo o que são.
Perrin não sabia ao certo se sentia pena, nem mesmo com uma morte dessas. Já vira o que Trollocs deixavam para trás quando punham as mãos em humanos. Trollocs comiam qualquer coisa, desde que fosse carne, e às vezes gostavam de dilacerar a carne ainda viva. Não se permitiria sentir pena deles.
Os cascos de Galope trituraram a terra arenosa quando Perrin o virou para ver onde estavam.
Montanhas cobertas por nuvens se erguiam ao redor. Eram as nuvens sempre presentes que lhe conferiam o nome — Montanhas da Névoa. O ar era frio àquela altitude, mesmo no verão, sobretudo se comparado a Tear. O sol de fim de tarde já se assentava nos cumes a oeste, cintilando nos córregos que desciam para o rio que corria no fundo do extenso vale abaixo. O Manetherendrelle tinha esse nome depois que deixava as montanhas e descia para bem longe, a oeste e sul, mas Perrin crescera chamando o intervalo que corria pela divisa sul de sua cidade de Rio Branco — um trecho de corredeiras intransponíveis e águas revoltas e espumosas. O Manetherendrelle. Águas da Casa da Montanha.
Tanto onde as pedras nuas surgiam no vale abaixo quanto nas encostas circundantes, o rio reluzia feito cristal. Já existira uma cidade, ali, cobrindo vale e montanhas. Manetheren, cidade de torres sublimes e fontes exuberantes, capital da grande nação de mesmo nome, talvez a mais bela do mundo, segundo as antigas histórias Ogier. Agora não restava um resquício sequer, exceto pelo Portal dos Caminhos quase indestrutível, situado no bosque Ogier. O lugar fora queimado até virar terra árida mais de dois mil anos antes, enquanto as Guerras dos Trollocs ainda devastavam tudo, destruído pelo Poder Único após a morte de seu último rei, Aemon al Caar al Thorin, que pereceu em sua última batalha sangrenta contra a Sombra. Campo de Aemon fora o nome que os homens deram ao lugar, onde agora fica a aldeia chamada Campo de Emond.
Perrin estremeceu. Aquilo fora há muito tempo. Os Trollocs haviam voltado apenas uma vez desde então, em uma Noite Invernal mais de um ano antes, na véspera da noite em que ele, Rand e Mat foram obrigados a fugir com Moiraine escuridão adentro. Agora parecia ter acontecido havia muito tempo. Não poderia acontecer outra vez, com o Portal dos Caminhos trancado. É com Mantos-brancos que tenho que me preocupar, não com Trollocs.
Um par de gaviões de asas brancas sobrevoaram o extremo oposto do vale. Os olhos de Perrin quase não perceberam o traço de uma flecha subindo. Um dos gaviões rodopiou e caiu, e o rapaz franziu o cenho. Por que alguém daria uma flechada em um gavião, ali nas montanhas? Em uma fazenda, se o bicho estivesse atrás das galinhas ou dos gansos, tudo bem; mas ali? Por que haveria alguém por ali? O povo de Dois Rios evitava as montanhas.
O segundo gavião desceu em uma arremetida de asas brancas como a neve em direção ao ponto onde o companheiro caíra, mas logo subiu de volta, desesperado. Uma nuvem negra de corvos irrompeu das árvores, uma multidão ensandecida rodeando a ave, e, quando se acalmaram outra vez, o gavião havia desaparecido.
Perrin forçou-se a respirar. Já tinha visto corvos e outros pássaros atacarem um gavião que chegara perto demais de seus ninhos, mas não podia acreditar que dessa vez fosse só isso. As aves tinham surgido de onde viera a flecha. Corvos. A Sombra usava animais como espiões, às vezes. Em geral, ratos e outros que se alimentavam de morte. Sobretudo corvos. Tinha lembranças vívidas de fugir de fileiras de corvos que o caçavam como se tivessem inteligência.
— O que está olhando? — perguntou Faile, protegendo os olhos com as mãos para espiar pelo vale. — Aquilo eram pássaros?
— Só pássaros — respondeu.
Talvez fossem apenas pássaros. Não posso assustar todo mundo até ter certeza. Não com todos ainda abalados por causa do Machin Shin.
Percebeu que ainda segurava o machado ensanguentado, escorregadio com o sangue negro do Myrddraal. Os dedos encontraram sangue seco na bochecha, endurecendo na barba rente. Quando desceu do cavalo, sentiu dor na perna e no lado direito do corpo. Encontrou uma camisa nos alforjes e limpou o machado antes que o sangue do Desvanecido causticasse o metal. Em um instante descobriria se havia algo a temer nas montanhas. Se fosse algo além de homens, os lobos saberiam.
Faile começou a desabotoar o casaco dele.
— O que você está fazendo? — perguntou Perrin.
— Cuidando de suas feridas — respondeu a mulher, de um jeito brusco. — Não deixarei que sangre até a morte na minha frente. Isso seria bem típico de você, morrer e me deixar o trabalho de enterrá-lo. Não tem um pingo de consideração. Fique parado.