Выбрать главу

— Obrigado — disse Perrin, baixinho, e ela o encarou, surpresa.

Faile o fez se despir quase inteiro, deixando apenas as cuecas, para lavar as feridas e esfregá-las com o unguento que pegou nos alforjes. Perrin não conseguia ver o talho no próprio rosto, naturalmente, mas parecia pequeno e superficial, ainda que incômodo, por estar muito perto dos olhos. Mas o corte no lado esquerdo do corpo era mais comprido que sua mão, estendido ao longo de uma costela, e o buraco que a lança infligira em sua coxa direita estava bem profundo. Nesse, Faile precisou dar pontos com agulha e linha tiradas do conjunto de costura. Perrin aceitou os pontos com resignação — era ela quem se encolhia a cada agulhada. Enquanto trabalhava, a mulher resmungava, entre dentes, irritada, sobretudo ao esfregar o creme escuro e ardido na bochecha do rapaz. Era quase como se as feridas estivessem em seu corpo, e a culpa fosse dele, mas mesmo assim enrolou as ataduras nas costelas e na coxa com a mão gentil. Era um contraste impressionante, o toque suave e os resmungos furiosos. Muito confuso.

Enquanto ele vestia uma camisa limpa e uma calça reserva que pegara nos alforjes, Faile continuava passando o dedo pelo talho na lateral do casaco. Duas polegadas para a esquerda e ele não teria deixado aquela Ilha. Batendo os pés para ajeitá-los dentro das botas, Perrin esticou o braço para pegar o casaco — e Faile o atirou em cima dele.

— Nem pense que vou costurar isso para você. Já costurei tudo o que queria! Está me ouvindo, Perrin Aybara?

— Eu não pedi…

— Nem pense nisso! E chega! — A mulher saiu pisando firme para ajudar os Aiel a cuidarem uns dos outros e de Loial. Era um estranho grupo: o Ogier com as calças largas arriadas, Gaul e Chiad se olhando feito gatos estranhos, Faile passando o unguento e aplicando ataduras enquanto disparava olhares acusadores para ele. O que teria feito dessa vez?

Perrin balançou a cabeça. Gaul tinha razão, concluiu: era como tentar entender o sol.

Mesmo sabendo o que tinha de fazer, estava relutante, ainda mais depois do que acontecera nos Caminhos, com os Desvanecidos. Já vira um homem que se esquecera de que era humano. O mesmo poderia acontecer com ele. Idiota. Você só precisa aguentar mais uns dias. Só até encontrar os Mantos-brancos. E tinha que saber. Aqueles corvos.

Enviou as perguntas mentais pelo vale, em busca dos lobos. Sempre havia lobos onde não havia homens, e, se eles estivessem por perto, poderiam conversar. Os lobos evitavam os homens, ignorando-os o quanto fosse possível, mas odiavam os Trollocs, criaturas não naturais, e desprezavam os Myrddraal com um ódio profundo e incontrolável. Se houvesse criaturas da Sombra nas Montanhas da Névoa, os lobos poderiam avisá-lo.

Mas não encontrou lobos. Nenhum. Deveriam estar por aí, nessa selva inóspita. Via cervos pastando pelo vale. Talvez apenas não houvesse lobo por perto. Eles conseguiam conversar a certa distância, mas até uma milha já era longe demais. Talvez a distância limite fosse ainda menor nas montanhas. Talvez fosse isso.

Seu olhar varreu os picos cobertos de nuvens e pousou no extremo oposto do vale, de onde os corvos haviam saído. Talvez encontrasse lobos no dia seguinte. Não queria pensar nas alternativas.

28

Para a Torre de Ghenjei

Com a noite chegando, não restou escolha senão acampar na montanha próxima ao Portal dos Caminhos. Em dois grupos separados, por insistência de Faile.

— Chega — protestou Loial, em um rosnado insatisfeito. — Já saímos dos Caminhos, e mantive minha promessa. Agora, chega.

Faile assumiu uma de suas expressões teimosas, com o queixo erguido e as mãos na cintura.

— Deixa para lá, Loial — disse Perrin. — Eu posso acampar ali.

Loial olhou de soslaio para Faile, que se virara para as duas Aiel assim que ouviu Perrin concordar, depois balançou a cabeça enorme e fez menção de ir se juntar a Perrin e Gaul. Perrin o impediu com um gesto discreto, que torceu para que nenhuma das mulheres tivesse percebido.

Ele se afastou um tantinho, menos de vinte passadas. O Portal dos Caminhos estava trancado, mas ainda havia os corvos e mais o que quer que eles prenunciassem. Queria ficar por perto, para o caso de haver necessidade de intervir. Se Faile quisesse reclamar, que reclamasse. Estava tão firme em ignorar os protestos da mulher que ficou aborrecido quando ela não protestou.

Ignorando as pontadas na perna e na lateral do corpo, ele soltou a sela de Galope, descarregou o outro cavalo, prendeu os dois animais e deu um saco de ração com punhados de aveia e cevada a cada um. Não havia pastagem por ali, obviamente, mas o que havia ao redor… Ele amarrou a corda no arco, apoiou-o ao lado da aljava e soltou o machado do passante do cinto.

Gaul o ajudou a fazer uma fogueira, e, em silêncio, os dois comeram pão e queijo com tiras de carne e beberam água. O sol já deslizava por trás das montanhas, transformando os picos em silhuetas negras e avermelhando os cantos das nuvens. Sombras cobriam o vale, e o ar começava a esfriar.

Perrin limpou o farelo das mãos e puxou o manto de lã verde e quente de dentro dos alforjes. Talvez estivesse mais acostumado com o calor de Tear do que pensara. As mulheres não comiam em silêncio ao redor de sua fogueira oculta pelas sombras: dava para ouvir as gargalhadas, e os trechinhos de conversa que Perrin conseguia pescar deixavam suas orelhas quentes. Elas conversavam sobre tudo, não tinham papas na língua. Loial se afastara o máximo possível das três sem sair do alcance da luz e tentava mergulhar em um livro. As mulheres nem deviam perceber que estavam deixando o Ogier constrangido, deviam pensar que estavam falando baixinho, que Loial não estava ouvindo.

Resmungando sozinho, Perrin sentou-se outra vez diante do fogo, de frente para Gaul. O Aiel parecia não notar o frio.

— Você conhece alguma história engraçada?

— História engraçada? Não consigo pensar em nenhuma assim, de repente. — Gaul olhou de soslaio a outra fogueira, ouvindo as risadas. — Eu entenderia, se pudesse. Como o sol, lembra?

Perrin soltou uma gargalhada alta e respondeu, no mesmo tom:

— Sei. Mulheres! Há!

A diversão do outro acampamento pareceu esmorecer por um instante, depois avivou-se outra vez. Elas deviam ter aprendido a lição. Os outros também sabiam rir. Perrin encarou a fogueira com um olhar desanimado. Suas feridas doíam.

Depois de um instante, Gaul comentou:

— Isso aqui está começando a parecer mais com a Terra da Trindade do que com a maioria das terras aguacentas. Ainda tem bastante água e muitas árvores grandes demais, mas não é tão estranho quanto os lugares que vocês chamam de florestas.

O solo ali era pobre, era o local onde Manetheren morrera em meio às chamas, e as árvores muito esparsas tinham troncos grossos e atarracados deformados pelo vento. Nenhuma tinha mais de trinta passadas de altura. Perrin achava que era o lugar mais desolado que já tinha visto.

— Queria um dia conhecer sua Terra da Trindade, Gaul.

— Talvez você conheça, quando sairmos daqui.

— Talvez.

Não havia grandes chances, era óbvio. Nenhuma, na realidade. Ele poderia ter dito isso ao Aiel, mas não queria falar sobre o assunto, muito menos pensar nele.

— Era aqui que Manetheren ficava? Você tem sangue de Manetheren?

— Isso aqui era Manetheren — respondeu Perrin. — E sim, acho que tenho. — Era difícil acreditar que as pequenas aldeias e fazendas tranquilas de Dois Rios abrigavam o resquício do sangue de Manetheren, mas fora o que Moiraine dissera. Segundo ela, o sangue antigo corria forte em Dois Rios. — Mas isso faz muito tempo, Gaul. Somos fazendeiros e pastores, não uma grande nação. Não somos grandes guerreiros.

Gaul abriu um leve sorriso.