Sua família morava em uma grande fazenda a mais de um dia de viagem de Campo de Emond, quase na Floresta das Águas. Lá viviam o pai, a mãe, as irmãs e o irmãozinho caçula. Paetram estava com nove anos, sem dúvida protestando com mais vigor do que nunca ao ser chamado de “irmãozinho”. Deselle fizera doze anos e já devia estar uma mocinha, e Adora, com dezesseis, com certeza estava pronta para trançar os cabelos. Lá também viviam, junto com os filhos, o tio Eward, irmão de seu pai, e a tia Magde, ambos corpulentos e muito parecidos. A tia Neain, que visitava o túmulo de tio Carlin todas as manhãs, morava lá com os filhos. Também tinha a tia-avó Ealsin, que nunca se casara, de faro aguçado e olhar mais ainda, sempre descobrindo o que todos estavam aprontando em um raio de milhas. Quando era aprendiz de Mestre Luhhan, Perrin os via apenas nos dias de festa, já que a distância era grande demais para visitá-los com frequência, e sempre havia trabalho a fazer. Se os Mantos-brancos estivessem à caça dos Aybaras, seria fácil encontrá-los. Tinha que se preocupar com a família, não com esse Matador. Era o máximo que podia fazer. Proteger sua família e Faile. Isso vinha em primeiro lugar. Depois vinham a aldeia e os lobos, e, por último, o tal de Matador. Não tinha como um único homem dar conta de tudo.
A Floresta do Oeste crescia sobre um solo pedregoso entremeado por afloramentos cobertos de amoreiras silvestres, uma terra dura, de árvores robustas, com poucas fazendas ou trilhas. Quando menino, Perrin percorrera aquelas matas densas. Às vezes ia sozinho, outras, com Mat e Rand. Os três caçavam com arco ou funda, montavam armadilhas para coelhos ou apenas vagavam por simples prazer. Esquilos com rabos peludos guinchavam nas árvores, tordos-pintados chilreavam nos galhos, tordos-negros e codornas-de-costas-azuis cantavam de detrás dos arbustos à frente dos viajantes — tudo o fazia lembrar-se de casa. Até mesmo o cheiro da terra levantada pelos cascos dos cavalos era familiar.
Perrin poderia ter seguido direto até Campo de Emond, mas desviou um pouco mais para o norte, pela floresta, cruzando a faixa de terra larga e acidentada chamada Estrada da Pedreira só quando o sol descia em direção aos topos das árvores. Porque da “pedreira” ninguém em Dois Rios sabia. Na verdade nem parecia uma estrada, era só um trechinho mirrado que a pessoa nem notava que não tinha árvores, até avistar os sulcos formados pelos inúmeros carros e carroções. Às vezes surgiam resquícios de um antigo pavimento no chão. Talvez aquela estrada já tivesse conduzido a uma pedreira de Manetheren.
A fazenda que Perrin buscava não ficava longe da estrada, por detrás das fileiras de macieiras e pereiras já cheias de frutas. Sentiu o cheiro da fazenda antes de vê-la. Cheiro de carvão. Não era recente, mas um ano inteiro não seria o bastante para suavizar aquele odor.
Freou o cavalo na beirada das árvores e ficou ali parado, examinando a situação antes de se forçar a seguir até o que fora a fazenda al’Thor, puxando o cavalo de carga atrás do seu. Apenas o redil das ovelhas, com paredes de pedra, continuava de pé. O portão gradeado estava aberto e preso apenas a uma dobradiça. A chaminé, negra de fuligem, formava uma sombra torta nas vigas chamuscadas e caídas da casa. O celeiro e a estufa de cura de tabaco estavam reduzidos a cinzas. As ervas daninhas haviam tomado o campo de tabaco e a horta, que parecia ter sido pisoteada. Tudo o que não era chicória ou rabo-de-gato estava destruído e amarronzado.
Ele nem sequer pensou em encaixar uma flecha no arco. O incêndio ocorrera semanas antes, e a madeira queimada estava oleosa e fosca por conta das chuvas. A trepadeira-sufocante levava quase um mês para crescer até aquela altura e já tinha até envolvido o ancinho e o arado que jaziam ao lado do campo, tão enferrujados que dava para ver os pontos vermelhos por sob as folhas brancas estreitas.
Mas os Aiel vasculharam o lugar com cautela, de lanças prontas e olhos atentos, percorrendo o chão e cutucando as cinzas. Quando Bain emergiu das ruínas da casa, olhou para Perrin e balançou a cabeça. Pelo menos Tam al’Thor não morrera ali dentro.
Eles sabem. Eles sabem, Rand. Você devia ter vindo. Era quase impossível não fazer Galope sair correndo e seguir direto até a fazenda de sua família. Ou pelo menos tentar: até mesmo Galope cairia morto antes de conseguir cavalgar por tanto tempo. Talvez aquilo fosse obra de Trollocs. Se fosse, talvez sua família ainda estivesse na fazenda, trabalhando, em segurança. Respirou fundo, mas o cheiro de queimado obliterava qualquer outro odor.
Gaul parou ao lado dele.
— Seja lá quem tenha feito isso, já está bem longe. Mataram algumas ovelhas e afugentaram o resto. Alguém veio depois para reunir o bando e levá-lo para o norte. Dois homens, acho, mas as pegadas estão muito velhas para ter certeza.
— Temos alguma pista de quem foi?
Gaul balançou a cabeça. Poderiam ter sido Trollocs. Era estranho desejar uma coisa dessas. E tolo. Os Mantos-brancos sabiam o nome dele e parecia que também sabiam o de Rand. Eles sabem o meu nome. Perrin olhou para as cinzas da fazenda dos al’Thor e guiou Galope com as mãos tremendo nas rédeas.
Loial descera do cavalo ao chegar no limite do pomar, mas sua cabeça permanecia escondida entre galhos. Faile avançou em direção a Perrin, analisando o rosto do rapaz. Sua égua pisava com delicadeza.
— Isso aqui é…? Você conhece as pessoas que moravam aqui?
— Rand e o pai dele.
— Ah. Pensei que pudesse ser… — O alívio e a compaixão na voz dela eram suficientes para concluir a frase. — Sua família mora aqui por perto?
— Não — respondeu Perrin, com certa rudeza, e Faile se retraiu como se tivesse levado um tapa.
Mas a jovem continuou a observá-lo, à espera. O que ele precisava fazer para afastá-la? Se não conseguira até então, devia estar além do seu poder.
As sombras já se alongavam, o sol deitava nos topos das árvores. Ele deu meia-volta com Galope, dando as costas para ela com grosseria.
— Gaul, teremos que acampar aqui por perto, essa noite. Quero partir cedo, amanhã. — Ele olhou sorrateiro por cima do ombro. Faile ia de volta até Loial, sentada rígida na sela. — Em Campo de Emond, devem saber… — Onde estavam os Mantos-brancos, para que ele pudesse se entregar antes que machucassem sua família. Isso se estivesse tudo bem com sua família. Se a fazenda onde ele nascera já não estivesse igual à da família de Rand. Não. Tinha que ter chegado a tempo de impedir aquilo. — Devem saber como estão as coisas.
— Então sairemos cedo. — Gaul hesitou. — Você não vai conseguir afastá-la. Aquela ali é quase Far Dareis Mai, e, por mais que corra, é impossível fugir de uma Donzela que ama você.
— Pode deixar que eu cuido de Faile. — Ele suavizou a voz. Não era de Gaul que queria se livrar. — Partiremos bem cedo. Enquanto Faile ainda estiver dormindo.
Ambos os acampamentos sob as macieiras se aquietaram durante a noite. Várias vezes uma ou outra das Aiel se levantava e observava a pequena fogueira onde ele e Gaul estavam sentados, mas o piar de uma coruja e as pisadas dos cavalos eram os únicos sons nos arredores. Perrin não conseguiu dormir. Ainda faltava uma hora para clarear e a lua cheia ainda estava chegando ao horizonte quando ele e Gaul partiram. O Aiel avançava silencioso com as botas macias, e os cascos dos cavalos também faziam pouco barulho. Bain, ou talvez Chiad, os viu partir. Perrin não soube dizer quem era, mas a Aiel não acordou Faile, e ele ficou grato.
O sol já estava bastante alto quando saíram da Floresta do Oeste, ainda um pouco abaixo da aldeia, despontando por entre caminhos e trilhas de carroças, a maioria ladeada por cercas-vivas ou muros baixos de pedra bruta. A fumaça formava colunas suaves sobre as chaminés das casas de fazenda. Pelo cheiro, as donas de casa estavam preparando o café. Homens ponteavam os campos de tabaco e cevada, e meninos vigiavam os rebanhos de ovelhas de cara negra dispersos pelos pastos. Alguns notavam a passagem deles, mas Perrin manteve o passo de Galope ligeiro, na esperança de que ninguém se aproximasse o bastante para reconhecê-lo ou perceber a estranheza das roupas e das lanças de Gaul.