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As ruas em Campo de Emond deviam estar movimentadas àquela hora, então Perrin deu a volta a leste, passando longe da vila, das ruas de terra batida e dos telhados de palha aglomerados ao redor do Campo, onde a própria Fonte de Vinho manava do afloramento de uma pedra com força suficiente para derrubar um homem, dando origem ao rio de mesmo nome. A destruição que ele se lembrava de ter visto na Noite Invernal, no ano anterior, com casas incendiadas e telhados chamuscados, desaparecera: tudo fora reformado e reconstruído. Parecia até que os Trollocs nunca tinham passado por ali. Ele rezou para que ninguém tivesse que passar por aquilo outra vez. A Estalagem Fonte de Vinho ficava praticamente no ponto mais a leste de Campo de Emond, entre a Ponte das Carroças de madeira robusta, que cruzava o rio, e uma antiga fundação de pedra, um lugar gigantesco com um enorme carvalho crescendo no meio. Havia mesas dispostas sob os grandes galhos da árvore, onde o povo se sentava nas tardes amenas e assistia a partidas de boleada. Àquela hora da manhã, as mesas estavam vazias, naturalmente. Havia apenas algumas casas mais a leste. O primeiro andar da estalagem era todo de pedra, e o segundo andar era de paredes caiadas, dando para um telhado vermelho de onde despontavam várias chaminés. Era o único telhado de telhas em um raio de milhas.

Amarrando Galope e o cavalo de carga a um poste próximo à porta da cozinha, Perrin observou o estábulo de telhado de palha. Dava para ouvir homens trabalhando lá. Deviam ser Hu e Tad, limpando esterco das baias onde Mestre al’Vere guardava o grande grupo de Dhurran que alugava para puxar cargas pesadas. Também ouvia sons vindos do outro lado da estalagem, o burburinho de vozes no Campo, o grasnido dos gansos, o ranger de um carroção. Deixou a carga nos cavalos, seria uma parada ligeira. Acenou para que Gaul o seguisse e correu para dentro, carregando o arco, antes que os dois cavalariços aparecessem.

A cozinha estava vazia, com os dois fogões de ferro e todas as lareiras, exceto uma, apagados, embora o aroma de pão assado ainda pairasse no ar. Pão e torta de mel. A estalagem quase não recebia hóspedes, a não ser pelos mercadores que vinham de Baerlon para comprar lã e tabaco ou algum mascate que vinha a cada mês se a neve não impedisse o acesso à estrada. Também tinha o povo da aldeia, que chegava no fim do dia para tomar um trago e comer alguma coisa, mas eles decerto estavam trabalhando duro àquela hora. Porém, devia haver alguém lá, então Perrin avançou nas pontas dos pés pelo pequenino corredor que levava da cozinha até o salão e abriu uma fresta da porta para espiar lá dentro.

Já vira aquele salão quadrado mil vezes, com a lareira feita de seixos de rio ocupando metade da extensão, o lintel da altura do ombro de um homem, a caixa polida de tabaco e o estimado relógio de Mestre al’Vere apoiados na cornija. Mas, de alguma forma, tudo parecia menor. As cadeiras de espaldar alto diante da lareira abrigavam as reuniões do Conselho da Aldeia. Os livros de Brandelwyn al’Vere jaziam em uma prateleira oposta à lareira — Perrin já fora incapaz de imaginar que houvesse mais livros em um lugar só do que aquelas poucas dezenas de exemplares surrados — e os barris de cerveja e vinho estavam empilhados na outra parede. Coceira, o gato amarelo da estalagem, dormia esparramado sobre um deles, como de costume.

Exceto pelo próprio Bran al’Vere e sua esposa, Marin, que poliam a prata e o peltre da estalagem em uma das mesas, vestidos em aventais brancos e compridos, o salão estava vazio. Mestre al’Vere era um homem robusto e gorducho, com esparsos cabelos grisalhos cobrindo o topo da cabeça. A senhora al’Vere era magra e tinha porte de mãe; sua trança grossa e grisalha estava jogada por cima de um dos ombros. Ela exalava cheiro de assado e um aroma mais discreto de rosas. Perrin lembrava-se deles como pessoas sorridentes, mas os dois pareciam concentrados, e o Prefeito estava com a testa franzida de um jeito que com certeza nada tinha a ver com a taça de prata em suas mãos.

— Mestre al’Vere? — Ele empurrou a porta e entrou. — Senhora al’Vere. Sou eu, Perrin.

Eles se levantaram de um salto, derrubando as cadeiras e fazendo Coceira dar um pulo. A Senhora al’Vere cobriu a boca com a mão. Ela e o marido ficaram tão boquiabertos ao vê-lo quanto ao notar Gaul. Foi o bastante para Perrin trocar o arco de mão, constrangido. Ainda mais quando Bran correu até uma das janelas da frente — o homem se movia com uma leveza surpreendente para alguém de seu tamanho — e afastou as cortinas de verão para espiar, como se esperasse ver mais Aiel do lado de fora.

— Perrin — murmurou a Senhora al’Vere, incrédula. — É você mesmo. Quase não o reconheci, com essa barba, e esses… Seu rosto! Você se mach…? Egwene está com você?

Perrin tocou o corte meio cicatrizado na bochecha, constrangido, desejando ter se lavado ou pelo menos deixado o arco e o machado na cozinha. Não tinha pensado que eles poderiam ficara assustados com sua aparência.

— Não. Isso não tem nada a ver com ela. Egwene está em segurança. — Estaria mais se tivesse voltado para Tar Valon do que se tivesse permanecido em Tear com Rand, mas, de todo modo, estava em segurança. Imaginou que devia à mãe de Egwene algo mais do que aquela declaração seca. — Senhora al’Vere, Egwene está estudando para ser Aes Sedai. Nynaeve também.

— Eu sei — respondeu ela, baixinho, tocando o bolso do avental. — Ela me mandou três cartas de Tar Valon. Pelo que escreveu, enviou outras. E Nynaeve mandou pelo menos uma, mas só chegaram essas três de Egwene. Ela contou um pouco sobre o treinamento, que parece muito rígido, devo dizer.

— É o que ela quer fazer.

Três cartas? A culpa o fez encolher os ombros, constrangido. Não escrevera nenhuma carta desde os bilhetes que deixara para sua família e Mestre Luhhan na noite em que Moiraine o levou embora de Campo de Emond. Nenhuma.

— Parece que sim, mesmo não sendo o que imaginei para o futuro dela. Não é algo que eu possa contar para muita gente, não é? De todo modo, Egwene disse que fez amigas. Parecem ser boas meninas. Elayne e Min. Você as conhece?

— Sim, conheço. Acho que dá para dizer que são boas meninas.

Quanto Egwene dissera naquelas cartas? Não muito, evidentemente. A Senhora al’Vere que pensasse o que quisesse, ele não tinha a menor intenção de preocupá-la com coisas a respeito das quais ela nada poderia fazer. O passado ficara no passado. Egwene estava segura o bastante.

Percebendo de repente que Gaul estava parado ali, Perrin mais do que depressa fez as apresentações. Bran piscou quando ele disse que Gaul era Aiel e franziu o cenho para as lanças e o véu negro preso à shoufa, caído sobre o peito, mas sua esposa disse apenas:

— Mestre Gaul, seja bem-vindo a Campo de Emond e à Estalagem Fonte de Vinho.

— Que a senhora sempre encontre água e sombra, senhora do teto — respondeu Gaul educadamente. — Peço permissão para defender seu teto e seu forte.

A mulher hesitou por apenas um instante, antes de responder, como se estivesse muito acostumada àquele linguajar.

— É uma oferta muito cortês. Mas devo ser eu a decidir quando essa proteção é ou não necessária.

— Como quiser, senhora do teto. Sua honra é minha. — De dentro do casaco, Gaul tirou um saleiro de ouro, uma pequena tigela equilibrada nas costas de um leão esculpido com muita elegância, e o estendeu a ela. — Ofereço este pequeno presente para seu teto.

Marin al’Vere aceitou o objeto como faria com qualquer presente, quase sem demonstrar o choque. Perrin duvidou de que houvesse alguma peça similar àquela em toda Dois Rios, e decerto não em ouro. Havia pouquíssimas moedas de ouro em Dois Rios, quanto mais ornamentos. Torceu para que a mulher jamais descobrisse que aquilo tinha sido saqueado da Pedra de Tear. Ele podia apostar que o objeto vinha de lá.