— Meu rapaz — disse Bran — talvez eu devesse dizer “seja bem-vindo de volta”, mas por que foi que você voltou?
— Fiquei sabendo dos Mantos-brancos, senhor — respondeu Perrin, simplesmente.
O Prefeito e a esposa trocaram olhares soturnos, e Bran continuou:
— Mais uma vez, por que foi que você voltou? Você não pode impedir nada, meu rapaz, nem mudar o que já aconteceu. É melhor ir embora. Se não tiver um cavalo, eu lhe dou um. Se tiver, monte nele e siga para o norte. Achei que os Mantos-brancos estivessem vigiando a Barca do Taren… foram eles que enfeitaram seu rosto?
— Não. Foi…
— Então não importa. Se passou por eles quando chegou, pode passar por eles de volta, na saída. O acampamento principal está lá para cima, em Colina da Vigília, mas as patrulhas podem aparecer em qualquer lugar. Vá logo, meu rapaz.
— Não se demore, Perrin — acrescentou a Senhora al’Vere, em um tom baixo, porém firme, naquela voz que em geral conseguia fazer com que os outros a obedecessem. — Nem mesmo uma hora. Vou preparar um embrulho para você levar. Pão fresco e queijo, um pouco de presunto e rosbife, uns picles. Você precisa ir, Perrin.
— Eu não posso. Vocês sabem que eles estão atrás de mim, ou não me mandariam embora. — Os dois não tinham tecido comentários a respeito de seus olhos, nem para perguntar se ele estava doente. A Senhora al’Vere quase não parecera surpresa. Eles sabiam. — Se eu me entregar, posso impedir algumas coisas. Posso ajudar minha família…
Ele deu um salto quando a porta se abriu com um baque e Faile adentrou, seguida de Bain e Chiad.
Mestre al’Vere passou a mão pela cabeça careca. Mesmo assimilando as roupas femininas das Aiel e obviamente julgando que as jovens eram como Gaul, não pareceu muito perplexo por serem mulheres. Sobretudo, parecia irritado com a invasão. Coceira se sentou para observar os estranhos, desconfiado. Perrin se perguntou se o gato também o considerava um estranho. E também como as três o haviam encontrado e onde estava Loial. Qualquer coisa para evitar a questão de como lidaria com Faile naquele momento.
A mulher lhe deu pouco tempo para ponderar, plantando-se diante de Perrin com as mãos na cintura. Estava fazendo aquele truque feminino de parecer mais alta só porque estava furiosa.
— Se entregar? Se entregar! Você estava planejando isso desde o início? Estava, não estava? Seu idiota! Seu cérebro congelou, Perrin Aybara. Já era mesmo só músculo e cabelo, mas agora não é nem isso. Se os Mantos-brancos estão mesmo atrás de você, vão enforcá-lo quando você se render. Mas por que estariam atrás de você?
— Porque eu matei Mantos-brancos. — Olhando para baixo, ele ignorou o arquejo da Senhora al’Vere. — Aquela noite em que eu conheci você, e duas vezes antes. Eles sabem disso, Faile, e acham que sou um Amigo das Trevas. — A mulher acabaria sabendo, mais cedo ou mais tarde. Depois de ter revelado isso, Perrin poderia ter explicado por que assassinara aqueles homens, se os dois estivessem sozinhos. Pelo menos dois Mantos-brancos, Geofram Bornhald e Jaret Byar, suspeitavam de sua ligação com os lobos. Nem de longe suspeitavam de tudo, mas aquele pouco já bastava para eles. Um homem que corria com os lobos só podia ser Amigo das Trevas. Talvez um, ou ambos, estivesse com os Mantos-brancos de Campo de Emond. — É isso o que acham.
— Você é tão Amigo das Trevas quanto eu — sussurrou Faile, com rispidez. — O sol é mais Amigo das Trevas do que nós.
— Não faz diferença, Faile. Eu tenho que fazer o que é preciso.
— Seu idiota cabeça-oca! Você não tem que fazer nada! Seu cérebro de ganso! Se tentar, eu mesma enforco você!
— Perrin — interveio a Senhora al’Vere, baixinho — será que pode nos apresentar a essa jovem que tem você em tão boa conta?
O rosto de Faile ficou completamente vermelho quando ela percebeu que estava ignorando o Senhor e a Senhora al’Vere, e a jovem começou uma série de mesuras elaboradas e pedidos desculpas com floreios. Bain e Chiad repetiram o gesto de Gaul, pedindo permissão para defender o teto da Senhora al’Vere e dando a ela uma pequena tigela de ouro com desenhos de folhagens e um pimenteiro de prata maior que os dois punhos de Perrin, com uma criatura exótica no topo, metade cavalo, metade peixe.
Bran al’Vere encarou, franziu o rosto, esfregou a cabeça e resmungou sozinho. Perrin captou a palavra “Aiel” mais de uma vez, em um tom incrédulo. O Prefeito continuava espiando pelas janelas. Não devia estar pensando em encontrar mais Aiel, pois ficara surpreso em saber que Gaul era um. Talvez estivesse preocupado com os Mantos-brancos.
Marin al’Vere, por outro lado, aceitou tudo sem problemas, tratando Faile, Bain e Chiad como quaisquer jovens viajantes que aparecessem na estalagem, comiserando-se delas pelo cansaço da viagem, elogiando Faile pelo vestido de montaria — que naquele dia era de seda azul-escuro — e dizendo às Aiel o quanto admirava a cor e o brilho de seus cabelos. Perrin suspeitou que Bain e Chiad não soubessem muito bem o que pensar da mulher, mas, em pouco tempo, com uma espécie de firmeza tranquila e maternal, a senhora al’Vere acomodou as três a uma mesa e trouxe toalhas molhadas para limparem a poeira da viagem das mãos e dos rostos enquanto bebericavam o chá servido em um grande bule rajado de vermelho de que ele se lembrava muito bem.
Poderia ter sido divertido ver aquelas mulheres ferozes — inclusive Faile — ávidas por assegurar à Senhora al’Vere que estavam mais do que confortáveis, perguntando se não havia nada que pudessem fazer para ajudar, dizendo que ela estava tendo trabalho demais. Todas mantinham os olhos arregalados, feito crianças, e, como crianças, eram incapazes de resistir à mulher mais velha. Teria sido divertido se a senhora al’Vere não tivesse incluído ele e Gaul na recepção, arrastando-os com a mesma firmeza até a mesa, insistindo para que limpassem as mãos e o rosto antes de tomar uma xícara de chá. Gaul exibia um sorriso malicioso. Os Aiel tinham um senso de humor estranho.
Por mais surpreendente que parecesse, a mulher não chegou a olhar o arco e o machado de Perrin e nem as armas dos Aiel. Era raro ver alguém com sequer um arco em Dois Rios, e ela sempre insistia para que esses objetos fossem postos de lado antes de qualquer um se sentar a uma de suas mesas. Sempre. Daquela vez, porém, simplesmente ignorara as armas.
Outra surpresa veio quando Bran empurrou uma caneca de prata com conhaque de maçã para perto de Perrin, não com o traguinho que os homens costumavam beber na estalagem, que mal chegava à junta do polegar, mas cheia até a metade. Antes de ele ir embora, o máximo que lhe ofereciam era cidra de maçã, quando não leite ou às vezes um vinho bem aguado. E apenas metade da caneca, junto com as refeições, ou uma inteira em dias de festa. Era gratificante ser reconhecido como adulto, mas ele apenas segurou a caneca. Já estava acostumado com vinho, mas era raro beber qualquer coisa mais forte.
— Perrin — disse o Prefeito, sentando-se em uma cadeira ao lado da esposa — ninguém acredita que você seja um Amigo das Trevas. Ninguém com juízo. Não há motivo para você se deixar ser enforcado.
Faile assentiu com vigor em concordância, mas Perrin a ignorou.
— Eu não vou mudar de ideia, Mestre al’Vere. Os Mantos-brancos estão atrás de mim e, se não conseguirem me pegar, podem acabar atacando o próximo Aybara que virem pela frente. Eles não precisam de muito para decidir que alguém é culpado. Não são pessoas agradáveis.
— Sabemos disso — retrucou a Senhora al’Vere, baixinho.
O marido encarou as mãos pousadas em cima da mesa.
— Perrin, sua família se foi.
— Se foi? Quer dizer que a fazenda já foi incendiada? — Perrin cerrou o punho na caneca de prata. — Eu esperava chegar a tempo. Acho que devia ter imaginado. Muito tempo se passou antes de eu ouvir as notícias. Talvez eu consiga ajudar meu pai e o tio Eward a reconstruírem o lugar. Com quem eles estão? Quero vê-los primeiro, ao menos.