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Bran deu um suspiro profundo.

— Somos fazendeiros, gente simples. Lorde Luc fala de organizar homens para lutar contra os Trollocs, mas isso significa que deixaríamos nossas famílias desprotegidas enquanto partimos com ele, e ninguém gosta muito da ideia.

Perrin estava confuso. Quem era Lorde Luc? Ele perguntou, e a Senhora al’Vere respondeu:

— Ele chegou na mesma época que os Mantos-brancos. É um Caçador da Trombeta. Sabe a história da Grande Caçada? Lorde Luc acha que a Trombeta de Valere está em algum lugar das Montanhas da Névoa, acima de Dois Rios. Mas abandonou a caçada por conta dos nossos problemas. Lorde Luc é um grande cavalheiro, um homem muito refinado.

Alisando os cabelos, ela abriu um sorriso de aprovação. Bran a olhou de esguelha e soltou um grunhido azedo.

Caçadores da Trombeta. Trollocs. Mantos-brancos. Dois Rios nem parecia o mesmo lugar que ele deixara.

— Faile também é uma Caçadora da Trombeta. Você conhece esse Lorde Luc, Faile?

— Para mim, já chega — anunciou a jovem. Perrin franziu o cenho enquanto ela se levantava, dava a volta na mesa e se colocava ao lado dele. Faile agarrou sua cabeça e puxou o rosto dele contra sua barriga. — Sua mãe morreu — disse, baixinho. — Seu pai morreu. Suas irmãs morreram, e seu irmão também. Sua família está morta, e você não pode mudar isso. E vai poder fazer menos ainda se morrer também. Permita-se chorar a perda deles. Não guarde tudo aí dentro, só vai apodrecer.

Perrin a segurou pelos braços com a intenção de afastá-la, mas por alguma razão suas mãos se apertaram até que aqueles punhos agarrados a ela fossem as únicas coisas a sustentá-lo. Foi só naquele momento que percebeu que estava chorando, soluçando no vestido de Faile feito um bebê. O que ela pensaria dele? Abriu a boca para dizer que estava tudo bem, para se desculpar por ter sucumbido à tristeza, mas o que saiu foi:

— Não consegui chegar mais depressa. Não consegui… Eu… — Ele trincou os dentes para se calar.

— Eu sei — murmurou ela, afagando seus cabelos como se ele fosse uma criança. — Eu sei.

Perrin queria parar, mas quanto mais Faile sussurrava em compreensão, mais ele soluçava, como se aquelas mãos macias em seus cabelos estivessem arrancando as lágrimas de seus olhos.

30

Depois do carvalho

Com Faile segurando sua cabeça sob os seios, Perrin perdeu a noção de por quanto tempo chorou. Imagens de sua família perpassavam seus pensamentos; o pai sorrindo enquanto o ensinava a erguer um arco, a mãe cantando e enrolando lã, Adora e Deselle implicando com ele na primeira vez em que se barbeou, Paet arregalando os olhos para um menestrel no Dia do Sol, muito tempo atrás. Imagens de túmulos frios e solitários enfileirados. Ele chorou até esgotar as lágrimas. Quando enfim se afastou, os dois estavam sozinhos, exceto por Coceira, que se lambia em cima do barril de cerveja. Ficou feliz em ver que os outros não haviam permanecido para assistir à cena. Faile ter visto já era ruim o bastante. De certa forma, estava feliz por ela ter ficado. Só queria que ela não tivesse visto nem ouvido.

Faile segurou as mãos dele e sentou-se na cadeira ao lado. Era tão linda, com aqueles olhos levemente oblíquos, grandes e escuros, e as maçãs do rosto altas. Perrin não sabia como poderia se redimir depois da forma como a tratara naqueles últimos dias. Sem dúvida a mulher encontraria uma forma de fazê-lo pagar.

— Você desistiu da ideia de se entregar para os Mantos-brancos? — perguntou ela.

Sua voz não dava indícios de que acabara de assisti-lo chorar feito um bebê.

— Parece que não adiantaria de nada. Não importa o que eu faça, eles irão atrás dos pais de Rand e Mat. Minha família… — Ele soltou depressa as mãos dela, mas Faile sorriu, em vez de contrair o rosto. — Preciso libertar Mestre Luhhan e a mulher dele, se puder. E a mãe e as irmãs de Mat. Prometi a ele que cuidaria delas. E quero dar um jeito nos Trollocs. — Talvez aquele Lorde Luc tivesse algumas ideias. Pelo menos o Portal dos Caminhos estava bloqueado, nada mais viria dos Caminhos. E ele queria mesmo fazer algo em relação aos Trollocs. — Não imagino nada disso acontecendo se eu deixar que eles me enforquem.

— Fico feliz que você veja isso — respondeu a mulher, em um tom seco. — Mais alguma ideia idiota a respeito de me mandar embora?

— Não.

Ele se preparou para a briga, mas Faile apenas assentiu, como se aquela resposta fosse tudo o que desejasse e esperasse ouvir. Como se fosse uma besteira, nada por que valesse a pena discutir. Faile o faria pagar caro.

— Somos cinco, Perrin, seis se Loial estiver disposto a lutar. E, se conseguirmos encontrar Tam al’Thor e Abell Cauthon… Eles são tão bons no arco quanto você?

— Melhores — respondeu Perrin, e falava a verdade. — Muito melhores.

Ela assentiu de leve com a cabeça, um pouco descrente.

— Já somos oito. É um começo. Talvez outros se juntem a nós. E também tem o Lorde Luc. Ele deve querer assumir a liderança, mas, se não for um completo idiota, não tem problema. Só que nem todo mundo que fez o Juramento do Caçador é razoável. Conheci alguns que acham que sabem de tudo, além de serem teimosos feito mulas.

— Disso eu sei. — Faile lançou a ele um olhar penetrante, mas Perrin conseguiu manter a seriedade. — Sei que você conheceu alguns assim, foi o que quis dizer. Vi dois deles, uma vez, lembra?

— Ah, aqueles. Bom, vamos torcer para que Lorde Luc não seja um mentiroso que gosta de contar vantagem. — Os olhos de Faile assumiram um brilho determinado, e ela segurou firme a mão de Perrin. Não de um jeito incômodo, mas como se tentasse juntar as forças dos dois. — Você vai querer visitar a fazenda da sua família, a sua casa. E eu vou com você, se deixar.

— Quando eu puder, Faile. — Mas não agora. Não ainda. Se olhasse aqueles túmulos sob as macieiras agora… Era estranho. Sempre se achara muito forte, mas percebia que na verdade não era nem um pouco forte. Bem, já terminara de chorar feito um bebê. Já passava da hora de fazer alguma coisa. — Vamos por partes. Acho que, primeiro, precisamos encontrar Tam e Abell.

Mestre al’Vere enfiou a cabeça para dentro do salão e adentrou o aposento ao vê-los sentados, separados.

— Tem um Ogier na cozinha — disse a Perrin, com um olhar perplexo. — Um Ogier. Tomando chá. Mesmo a maior caneca parece… — Ele ergueu dois dedos como se segurasse um dedal. — Marin pode até conseguir fingir que todos os dias aparece um Aiel por aqui, mas quase desmaiou quando viu esse tal de Loial. Dei a ela uma dose dupla de conhaque, e Marin virou tudo como se fosse água. Quase tossiu até morrer, ela não tem hábito de beber nada além de vinho. Acho que teria tomado mais, se eu tivesse dado. — Ele apertou os lábios e fingiu interesse em um ponto inexistente no longo avental branco. — Está melhor agora, meu rapaz?

— Estou bem, sim, senhor — respondeu Perrin, mais do que depressa. — Mestre al’Vere, não podemos ficar aqui por mais muito tempo. Alguém pode contar aos Mantos-brancos que vocês me deram abrigo.

— Ah, não tem muita gente que faria uma coisa dessas. Nem todos os Coplin são assim. E dá para contar até com alguns dos Congar.

Mas ele não sugeriu que ficassem.

— Sabe onde consigo encontrar Mestre al’Thor e Mestre Cauthon?

— Eles ficam em algum lugar da Floresta do Oeste — respondeu Bran, com certa cautela. — É só o que eu sei com certeza. Estão sempre mudando de esconderijo. — Ele entrelaçou os dedos sobre a barriga volumosa e inclinou a cabeça grisalha para o lado. — Então vocês não vão embora? Bem. Eu disse a Marin que não iriam, mas ela não acreditou. Minha esposa acha que é melhor vocês irem… Acha que seria melhor para você… E, como a maioria das mulheres, Marin tem certeza de que você vai acabar fazendo o que ela quer, se pedir muitas vezes.