— Ora, Mestre al’Vere — respondeu Faile, em um tom doce — eu, por exemplo, sempre vi os homens como criaturas razoáveis que só precisam que lhes mostrem o caminho certo uma única vez.
O Prefeito brindou a moça com um sorriso bem-humorado.
— Então vai convencer Perrin a ir embora? Marin tem razão, é o melhor a fazer, se ele quiser evitar a forca. A única razão para ficar é que às vezes um homem é incapaz de correr. Não é mesmo? Bem, você com certeza sabe o que é melhor. — Ele ignorou o olhar azedo da moça. — Venha comigo, rapaz. Vamos dar as boas novas a Marin. Prepare-se para a luta e mantenha-se firme em seus propósitos, pois ela não vai desistir fácil.
Na cozinha, Loial e os Aiel estavam sentados no chão de pernas cruzadas. Não havia na estalagem cadeira em que o Ogier coubesse, e ele estava sentado com um braço apoiado na mesa da cozinha. Mesmo naquela posição, era alto o bastante para encarar Marin al’Vere de frente. Bran exagerara no tamanho da caneca nas mãos de Loial, mas, ao olhar mais atentamente, Perrin reparou que era uma tigela de sopa esmaltada em branco.
A Senhora al’Vere ainda estava se esforçando para fingir que Aiel e Ogier eram visitantes habituais, correndo de um lado a outro com uma bandeja de pão, queijo e picles, certificando-se de que todos estavam comendo, mas seus olhos se arregalavam cada vez que pousavam em Loial, embora o Ogier tentasse deixá-la confortável fazendo elogios à comida. As orelhas peludas se remexiam nervosas toda vez que a mulher o encarava, e Marin dava um pulinho a cada vez que isso acontecia, então balançava a cabeça, e a grossa trança grisalha se sacudia vigorosamente. Em algumas horas, um acabaria nocauteando o outro com tantas sacudidelas.
Ao ver Perrin, Loial soltou um suspiro grave e profundo de alívio e pousou a caneca — a tigela — de chá sobre a mesa. No entanto, no instante seguinte, seu enorme rosto pareceu murchar de tristeza.
— Lamento muito a sua perda, Perrin. E compartilho da sua dor. A Senhora al’Vere… — as orelhas se remexiam como doidas, mesmo sem ele olhar para a mulher, e Marin levou outro susto — … estava me contando que você vai embora, agora que não tem mais nada que o prenda aqui. Se quiser, posso cantar para as macieiras antes de irmos.
Bran e Marin trocaram olhares surpresos, e o Prefeito até limpou a orelha com o dedo.
— Obrigado, Loial. Ficarei muito grato, e podemos fazer isso, quando houver tempo. Mas tenho trabalho a fazer antes de ir. — A Senhora al’Vere pousou a bandeja na mesa com um estalido e o encarou, mas ele prosseguiu, explicando seus planos: encontrar Tam e Abell e resgatar os prisioneiros dos Mantos-brancos. Não mencionou os Trollocs, mas também, seus planos para eles ainda eram vagos. Talvez não tão vagos. Não pretendia ir embora enquanto ainda houvesse um Trolloc ou Myrddraal vivo em Dois Rios. Enganchou os dedos no cinto para evitar alisar o machado. — Não vai ser fácil — concluiu. — Apreciarei muito sua companhia, mas vou entender se você quiser ir embora. Essa luta não é sua, e você já passou por problemas demais ficando perto do povo de Campo de Emond. E não vai dar para escrever muito do seu livro, por aqui.
— Aqui ou lá, acho que a luta é a mesma — respondeu Loial. — O livro pode esperar. Talvez eu escreva um capítulo sobre você.
— Eu disse que o acompanharia — respondeu Gaul, mesmo sem ser perguntado — e não estava pensando em ficar apenas até a jornada parecer mais difícil. Tenho uma dívida de sangue com você.
Bain e Chiad encararam Faile com uma expressão indagativa e, quando ela assentiu, as duas expressaram sua decisão de ficar.
— Tolos e teimosos — resmungou a Senhora al’Vere — todos vocês. É muito provável que acabem enforcados, isso se viverem para tanto. Sabem disso, não sabem? — Quando o grupo apenas a encarou, ela desamarrou o avental e passou-o por cima da cabeça. — Bem, se forem burros o bastante para ficar, acho melhor mostrar a vocês onde se esconder.
O marido a olhou com surpresa diante da rendição repentina, mas se recuperou depressa.
— Pensei no antigo hospital, Marin. Ninguém mais vai lá, e acho que o teto ainda está quase todo inteiro.
Desde que Perrin era garotinho, o lugar que chamavam de novo hospital, para onde eram levadas as pessoas que pegavam alguma doença contagiosa, ficava a leste da aldeia, para além do moinho do Mestre Thane. O antigo, na Floresta do Oeste, fora quase todo destruído em um vendaval. Perrin se lembrava do lugar meio tomado por trepadeiras e arbustos espinhentos, com pássaros empoleirados no que restara do sapê do telhado e uma toca de texugo debaixo da escada dos fundos. Daria um bom esconderijo.
A Senhora al’Vere lançou a Bran um olhar penetrante, parecendo surpresa por ele ter pensado nisso.
— Acho que pode funcionar, sim. Pelo menos por esta noite. Vou levá-los para lá.
— Não precisa, Marin. Posso conduzi-los sem problemas, se Perrin não se lembrar do caminho.
— Às vezes você se esquece de que é o Prefeito, Bran. Você chama a atenção, o povo sempre quer saber para onde você está indo e o que está fazendo. Por que não fica aqui, e, se alguém aparecer, dá conta de mandá-los embora achando que tudo está nos conformes? Tem cozido de carneiro na panela e uma sopa de lentilha que é só aquecer. Mas não mencione o hospital a ninguém, Bran. É melhor que ninguém nem se lembre de que ele existe.
— Eu não sou idiota, Marin — retrucou o homem, rígido.
— Eu sei que não, meu bem. — Ela afagou o rosto do marido, mas o olhar terno se endureceu ao desviar de Bran para o restante do grupo. — Como vocês dão trabalho — murmurou antes de começar a dar as instruções.
Eles viajariam em grupos menores, para não chamar atenção. Marin cruzaria a aldeia sozinha e os encontraria na floresta, do outro lado. Os Aiel garantiram que conseguiriam encontrar o carvalho fendido por um raio que ela descrevera e deslizaram, sorrateiros, pela porta dos fundos. Perrin conhecia o carvalho, uma árvore imensa a uma milha dos limites da aldeia, uma árvore que parecia ter sido cortada ao meio por um machado, mas que de alguma forma continuava viva e até dando flores. Tinha certeza de que conseguiria seguir direto até o hospital sem maiores problemas, mas a Senhora al’Vere insistiu para que todos fossem ao ponto de encontro.
— Se sair vagando por aí sozinho, Perrin, sabe a Luz com o que pode topar. — Ela olhou para Loial, de pé, com os cabelos desgrenhados roçando as vigas do teto, e suspirou. — Queria que pudéssemos fazer algo em relação à sua altura, Mestre Loial. Sei que está quente, mas o senhor se importaria de usar seu manto com o capuz levantado? Mesmo hoje em dia, a maioria se convence rápido de que não viu alguma coisa, se não for o esperado. Mas, se alguém vir o rosto do senhor… Não que o senhor não seja bonito, disso não tenho dúvidas, mas o senhor nunca passaria por gente de Dois Rios.
O sorriso de Loial ia de orelha a orelha.
— O dia não está nem um pouco quente para um manto, Senhora al’Vere.
Agarrando um xale leve de tricô com franjados azuis, Marin acompanhou Perrin, Faile e Loial até o estábulo para vê-los partir, e, por um instante, pareceu que todos os seus esforços em manter segredo haviam ido por água abaixo. Cenn Buie, que parecia feito de velhas raízes retorcidas, examinava os cavalos com olhos apertados. Dava atenção especial ao enorme cavalo de Loial, tão grande quanto os Dhurran de Bran. Cenn coçou a cabeça, encarando a imensa sela do cavalão.
Seus olhos se arregalaram quando viram Loial, e ele ficou boquiaberto.
— Tr-Tr-Trolloc! — conseguiu enfim dizer.
— Não seja um velho tolo, Cenn Buie — retorquiu Marin, com firmeza, dando um passo para o lado para chamar a atenção do telhador para si. Perrin manteve a cabeça baixa, analisando o arco, e não se moveu. — Eu ficaria parada diante da minha própria porta se fosse um Trolloc? — Ela deu uma fungada desdenhosa. — Mestre Loial é um Ogier, como você saberia se não fosse um bestalhão intratável que prefere ficar reclamando por aí em vez de ver o que está bem diante do próprio nariz. Ele está de passagem, e não tem tempo para ser incomodado por gente da sua espécie. Retorne aos seus afazeres e deixe nossos hóspedes em paz. Você sabe muito bem que Corin Ayellin está há meses atrás de você por conta do trabalho porco que fez no telhado dela.