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Cenn reproduziu a palavra “Ogier” sem fazer qualquer som, piscando várias vezes. Por um instante, pareceu que o homem se pronunciaria em defesa do trabalho que fizera, mas logo encarou Perrin e apertou os olhos.

— Ele! É ele! Estão atrás de você, sua cria de patife, fugindo com Aes Sedai e virando Amigo das Trevas. Foi naquela época que os Trollocs apareceram por aqui. Agora você está de volta, e eles também. Vai me dizer que é coincidência? Qual é o problema com os seus olhos? Está doente? Arrumou alguma doença e trouxe para cá, para matar todos nós? Como se os Trollocs não fossem o bastante! Os Filhos da Luz vão dar um jeito em você. Veja só se não vão.

Perrin sentiu Faile ficando tensa e mais do que depressa pôs uma das mãos em seu braço, ao perceber que a mulher estava puxando uma faca. O que ela pensava que estava fazendo? Cenn era um velho imbecil e irascível, mas não havia motivo para facas. Faile sacudiu a cabeça, exasperada, mas pelo menos deixou a situação se desenrolar.

— Já chega, Cenn — retrucou Marin, ríspida. — Guarde o que viu para si mesmo. Ou será que começou a correr para os Mantos-brancos com histórias, feito Hari e seu irmão, Darl? Tenho as minhas suspeitas sobre por que os Mantos-brancos vieram revirar os livros de Bran. Levaram seis com eles e passaram um sermão em Bran sobre blasfêmia debaixo do nosso próprio teto. Blasfêmia, é inacreditável! E tudo porque não concordaram com o que estava em um dos livros. Você tem sorte de eu não mandá-lo repor os que foram levados. Os Mantos-brancos cavoucaram a estalagem inteira feito doninhas. Estavam procurando mais textos blasfemantes, pelo que disseram, como se alguém fosse esconder um livro. Reviraram todos os colchões das camas e bagunçaram meus armários de lençóis. E tem é sorte de eu não arrastar você pela orelha para colocar tudo de volta no lugar.

Cenn se encolhia um pouco mais a cada frase da mulher, até dar a impressão de que tentava puxar os ombros ossudos por cima da cabeça.

— Eu não contei nada a eles, Marin — protestou. — Só porque um homem menciona… quer dizer, eu só disse… por acaso, só assim, de passagem… — Ele estremeceu, ainda evitando o olhar da mulher, mas recobrando um pouco dos modos de antes. — Pretendo levar isso ao Conselho, Marin. Estou falando desse aí. — Ele apontou um dedo torto para Perrin. — Enquanto ele estiver por aqui, estamos todos correndo perigo. Se os Filhos descobrirem que vocês estão dando abrigo a ele, podem culpar todos nós. Aí não vai bastar revirar armários.

— Isso é assunto do Círculo das Mulheres. — Marin ajeitou o xale em volta dos ombros e virou-se para encarar o telhador. O homem era um pouco mais alto do que ela, mas o súbito ar de grave formalidade deu vantagem à mulher. Ele tartamudeou, mas Marin atropelou suas tentativas de emitir alguma palavra. — É assunto do Círculo, Cenn Buie. Se pensa que não, ou se ousar pensar em me chamar de mentirosa, vá segurando essa sua língua. Se soprar qualquer palavra dos assuntos do Círculo das Mulheres, seja para quem for, incluindo o Conselho da Aldeia…

— O Círculo não tem o direito de interferir nos assuntos do Conselho! — gritou Cenn.

Marin não o deixou falar.

— … E veja lá se sua mulher não vai deixar você dormindo no celeiro. E comendo as sobras das vacas leiteiras. Acha que o Conselho tem prioridade sobre o Círculo? Vou mandar Daise Congar persuadir você do contrário, se é isso que está querendo.

Cenn se encolheu, e com razão. Se Daise Congar era a Sabedoria, a mulher provavelmente enfiaria misturas amargas pela goela dele todos os dias pelo próximo ano, e Cenn era franzino demais para impedi-la. Alsbet Luhhan era a única mulher em Campo de Emond maior que Daise, que tinha inclinação a ser perversa e um gênio difícil. Perrin não conseguia imaginá-la como Sabedoria. Nynaeve decerto teria um ataque quando descobrisse quem a substituíra. A mulher sempre acreditara que era a única que agia com bom senso.

— Não tem motivo para grosseria, Marin — murmurou Cenn, botando panos quentes. — Se quiser que eu fique quieto, eu fico. Mas, com ou sem Círculo das Mulheres, você está correndo o risco de que os Filhos destruam todos nós.

Marin apenas ergueu as sobrancelhas, e, depois de um instante, Cenn foi embora, ainda resmungando entre dentes.

— Muito bem — disse Faile, quando Cenn dobrou a curva da estalagem e desapareceu. — Acho que preciso fazer umas aulas com a senhora. Quando lido com Perrin, não tenho nem a metade do talento que a senhora tem com Mestre al’Vere e aquele sujeito.

Ela sorriu para Perrin, mostrando que estava brincando. Pelo menos, ele esperou que fosse isso.

— Você precisa saber quando levá-los na rédea curta — respondeu a mulher mais velha, absorta — e quando não há nada a fazer senão deixá-los livres. Deixar que façam o que querem quando a coisa não tem importância torna mais fácil controlá-los quando tem. — Ela franziu a testa na direção de Cenn, sem prestar muita atenção ao que estava dizendo, exceto talvez quando acrescentou: — E alguns deveriam ser amarrados a uma baia e largados por lá.

Perrin logo se meteu na conversa. Faile não estava precisando de conselhos desse tipo.

— A senhora acha que ele vai segurar a língua, Senhora al’Vere?

A mulher respondeu, hesitante:

— Acredito que sim. Cenn é meio irritante desde que nasceu, e a coisa só piora com a idade, mas ele não é como Hari Coplin e seu bando.

Ela não parecia ter certeza do que dissera.

— Seria melhor irmos logo — disse Perrin.

Ninguém discutiu.

O sol estava mais alto do que ele esperava, já passado da altura do meio-dia, o que significava que a maioria do povo já estaria em casa para comer. Os poucos ainda na rua, na maioria garotos cuidando de ovelhas ou vacas, estavam ocupados comendo o que haviam trazido em embrulhos de pano, muito absortos na própria comida e muito longe das trilhas das carroças para prestar atenção em quem estivesse passando. Ainda assim, Loial foi alvo de alguns olhares, apesar do capuz que escondia seu rosto. Mesmo em cima de Galope, Perrin batia abaixo do peito do Ogier, na imensa montaria. Para quem os via a distância, o grupo deveria parecer composto de um adulto com duas crianças, todos em cima de pôneis, conduzindo pôneis de carga, o que sem dúvida não era uma visão corriqueira, mas Perrin esperou que o povo pensasse que não passavam disso. O falatório atrairia atenção. Precisava evitá-la até libertar a Senhora Luhhan e os outros. Se pelo menos Cenn se mantivesse quieto. Perrin também manteve o capuz do manto levantado. Aquilo era mais uma coisa que poderia atrair falatório, mas não tanto quanto se alguém notasse sua barba e percebesse que ele não era uma criança. Pelo menos o dia não estava quente demais. Depois de Tear, o clima quase parecia de primavera, e não de verão.

Perrin não teve problemas para encontrar o carvalho rachado, as duas metades pendendo uma para cada lado feito uma enorme tesoura, com o lado de dentro preto e duro como ferro, e o chão limpo sob os enormes galhos que se espalhavam. Cruzar a aldeia era um caminho muito mais curto do que dar a volta, por isso a Senhora al’Vere já estava aguardando, remexendo o xale, um tantinho impaciente. Os Aiel também estavam lá, acocorados no chão adubado com folhas de carvalho velhas e cascas de noz mastigadas pelos esquilos. Gaul mantinha-se afastado das duas mulheres. As Donzelas e o Cão de Pedra se observavam quase com tanta atenção quanto olhavam a floresta ao redor. Perrin não teve dúvidas de que os Aiel tinham dado um jeito de chegar ali sem serem vistos. Desejou ter a mesma habilidade. Era capaz de avançar furtivamente nas florestas, mas para os Aiel parecia não fazer diferença se era floresta, campo ou cidade. Quando não queriam ser vistos, encontravam uma forma.