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A Senhora al’Vere insistiu para que percorressem o restante do caminho a pé, alegando que era muito cheio de vegetação para cavalgar. Perrin não concordou, mas desceu da montaria mesmo assim. Sem dúvida não seria confortável conduzir o pessoal a cavalo estando a pé. De qualquer modo, sua cabeça estava nos vários planos. Precisava dar uma olhada no acampamento dos Mantos-brancos na Colina da Vigília antes de decidir como resgataria a Senhora Luhhan e os outros. E onde Tam e Abell estariam escondidos? Nem Bran e nem a Senhora al’Vere tinham dito. Talvez não soubessem. Se Tam e Abell ainda não tinham libertado os prisioneiros, era porque não era tarefa fácil. Mas precisava dar um jeito de fazer isso. Depois poderia voltar a atenção aos Trollocs.

Fazia anos que ninguém da aldeia seguia por aquelas bandas, e a trilha desaparecera, mas as árvores altas mantinham a vegetação rasteira. Os Aiel deslizavam furtivos perto dos outros, cedendo à insistência da Senhora al’Vere de que todos permanecessem juntos. Loial murmurava em aprovação ao ver os grandes carvalhos ou abetos e folhas-de-couro especialmente altas. Volta e meia ouviam o cantarolar de um tordo ou um pisco-de-peito-ruivo no alto das árvores, e Perrin chegou a sentir o cheiro de uma raposa que os observava passar.

De súbito, sentiu um odor humano que não estava ali instantes antes e ouviu um fraco farfalhar. Os Aiel ficaram tensos e se agacharam, com as lanças a postos. Perrin levou a mão à aljava.

— Fiquem calmos — disse a Senhora al’Vere, com urgência, fazendo gestos para que as armas fossem baixadas. — Por favor, fiquem calmos.

De repente, surgiram dois homens diante do grupo. Um alto, moreno e magro à esquerda, outro baixo, troncudo e grisalho à direita. Os dois traziam arcos com flechas encaixadas, prontos para erguer e atirar, as aljavas de contrapeso para as espadas na cintura. Ambos usavam mantos que pareciam esvanecer nas folhagens ao redor.

— Guardiões! — exclamou Perrin. — Por que não contou que havia Aes Sedai por aqui, Senhora al’Vere? Mestre al’Vere também não as mencionou. Por quê?

— Porque ele não sabe — respondeu a mulher, apressada. — Não menti quando disse que esse era um assunto do Círculo das Mulheres. — Ela voltou a atenção aos dois Guardiões, que ainda não haviam relaxado a postura. — Tomas, Ihvon, vocês me conhecem. Baixem esses arcos. Sabem que eu não traria aqui alguém que quisesse fazer mal.

— Um Ogier — disse o homem grisalho — três Aiel, um homem de olhos amarelos, sem dúvida o que os Mantos-brancos estão procurando, e uma jovem feroz com uma faca. — Perrin olhou para Faile, que portava uma faca pronta para atirar, mas dessa vez ele concordava. Aqueles homens podiam ser Guardiões, mas ainda não davam sinais de que iriam baixar os arcos, e os rostos poderiam ter sido esculpidos em bigornas. Os Aiel se mostravam prontos para começar a dançar as lanças, sem nem esperar para subir os véus. — Um grupo estranho, Senhora al’Vere — prosseguiu o Guardião mais velho. — Vejamos. Ihvon?

O homem mais magro assentiu e desapareceu na vegetação baixa. Perrin mal ouviu o sujeito caminhar. Os Guardiões se deslocavam silenciosos como a própria morte, quando queriam.

— O que a senhora quer dizer com “assunto do Círculo das Mulheres”? Sei que os Mantos-brancos causariam problemas se soubessem sobre as Aes Sedai, por isso a senhora não disse nada a Hari Coplin, mas por que guardar segredo do Prefeito? E de nós?

— Porque foi o combinado — respondeu a Senhora al’Vere, irritada. A irritação parecia dirigida igualmente a Perrin e ao Guardião que ainda os vigiava (não havia palavra melhor para descrever o que o homem fazia) e um pouco ainda sobrava para as Aes Sedai. — Eles estavam em Colina da Vigília quando os Mantos-brancos chegaram. Ninguém por lá sabia quem eram, exceto o Círculo local, que os mandou até aqui, para serem escondidos por nós. De todos, Perrin. A melhor forma de manter um segredo é revelá-lo a poucos. Que a Luz me proteja, conheço duas mulheres que deixaram de compartilhar a cama com os maridos por medo de falarem durante o sono. Concordamos em manter isso em segredo.

— E por que mudou de opinião? — perguntou o Guardião de cabelos grisalhos, com a voz severa.

— Por razões que considero boas e suficientes, Tomas. — Pela forma como Marin mexeu no xale, Perrin suspeitou que a mulher esperasse que o Círculo e as Aes Sedai também pensassem assim. Corria à boca pequena que o Círculo conseguia ser ainda mais severo com suas integrantes do que com o restante da aldeia. — Que lugar melhor para esconder você, Perrin, do que com as Aes Sedai? Está claro que você não tem medo delas, não depois de ter saído daqui com uma. E… Bem, você logo vai descobrir. Só precisa confiar em mim.

— Existem Aes Sedai e Aes Sedai — retrucou Perrin.

Mas as que ele considerava piores, as da Ajah Vermelha, não formavam elos com Guardiões. A Ajah Vermelha não gostava muito de homens. Esse Tomas tinha olhos escuros e resolutos. O grupo poderia atacá-lo ou simplesmente ir embora, mas o Guardião sem dúvida cravaria uma flecha no primeiro que fizesse algo que ele desaprovasse, e Perrin apostava que o homem tinha mais flechas à mão para encaixar no arco sem dificuldade. Os Aiel pareciam pensar o mesmo: estavam prontos para agir, mas também davam a impressão de que poderiam permanecer parados ali até o sol congelar. Perrin deu um tapinha no ombro de Faile.

— Vai ficar tudo bem.

— É claro que vai — respondeu a mulher, com um sorriso. Ela guardara a faca. — Se a Senhora al’Vere diz, confio nela.

Perrin torceu para que Faile tivesse razão. Não confiava em tanta gente quanto antes. E muito menos nas Aes Sedai. Talvez nem mesmo em Marin al’Vere. Mas quem sabe essas Aes Sedai não o ajudariam a derrotar os Trollocs? Confiaria em qualquer um que fizesse isso. Mas até onde poderia confiar naquelas mulheres que lidavam com o Poder? Elas tinham suas próprias razões para fazer o que faziam. Dois Rios era a casa dele, mas, para elas, podia ser apenas uma pedra no tabuleiro. Mas Faile e Marin al’Vere pareciam confiar, e os Aiel aguardavam. Ele não parecia ter muitas opções.

31

Garantias

Ihvon retornou em poucos minutos.

— Pode seguir em frente, Senhora al’Vere — foi tudo o que disse antes de desaparecer outra vez com Tomas nos arbustos, sem fazer farfalhar sequer uma folha.

— Eles são muito bons — murmurou Gaul, ainda olhando em volta, desconfiado.

— Até uma criança poderia se esconder aí — disse Chiad, batendo em um ramo de frutinhas vermelhas. Mesmo assim, a mulher observava a vegetação rasteira com a mesma atenção de Gaul.

Nenhum dos Aiel parecia ansioso para prosseguir. Não estavam exatamente relutantes, e com certeza não se sentiam amedrontados, mas não pareciam ansiosos. Perrin esperava um dia descobrir o que os Aiel sentiam em relação às Aes Sedai. Um dia. Ele próprio não se sentia particularmente entusiasmado, naquele momento.

— Vamos lá encontrar essas suas Aes Sedai — falou para a Senhora al’Vere, em um tom áspero.

O antigo hospital estava ainda mais destruído do que ele se lembrava, um único andar torto feito um bêbado, com metade dos quartos a céu aberto e um tupelo-negro de quarenta pés despontando de dentro de um deles. A floresta era densa em volta das ruínas. Uma grossa rede de trepadeiras e arbustos espinhentos serpenteava pelas paredes, cobrindo de verde o que restava do sapê do teto, e Perrin considerou que talvez fosse aquilo que sustentasse a construção. Mas a porta da frente estava intacta. Dava para sentir cheiro de cavalos e um aroma suave de feijões e presunto, mas, estranhamente, não havia odor de lenha queimada.