— É difícil ter certeza — acrescentou Verin — pois a menina só tem doze anos. Nenhuma delas tem nem de longe o potencial de Egwene ou de Nynaeve, mas ainda assim o número não é menos que impressionante. E pode ser que tenha mais duas ou três nos arredores de Colina da Vigília. Ainda não tivemos a oportunidade de examinar as garotas aqui, ou mais para o sul. A Barca do Taren foi uma decepção, devo dizer. Muitos cruzamentos de linhagens sanguíneas com o exterior, acho.
Perrin teve de admitir que fazia sentido. Mas aquilo não respondia todas as perguntas, nem sanava todas as dúvidas. Ele mudou de posição, esticando a perna. A ferida da lança em sua coxa ainda doía.
— Não entendo por que vocês estão escondidas. Tem Mantos-brancos prendendo gente inocente, e vocês ficam aqui, sentadas. Trollocs devastam Dois Rios de cima a baixo, pelo que parece, e vocês ficam aqui, sentadas. — Loial resmungou algo entre dentes, um murmúrio. Perrin pescou “irritar Aes Sedai” e “ninho de vespas”, mas continuou a martelar suas ideias. — Por que não estão fazendo nada? Vocês são Aes Sedai! Que me queime, por que não estão fazendo nada?
— Perrin! — sibilou Faile, contrariada, antes de abrir um sorriso escusatório para Verin e Alanna. — Por favor, perdoem Perrin. Moiraine Sedai o mimou muito. Ela é um pouco tranquila demais, eu acho, e o deixa fazer o que quer. Por favor, não se irritem com ele. Ele vai melhorar. — Ela cravou nele um olhar penetrante, indicando que o recado era tanto para ele quanto para as Aes Sedai, talvez até mais. Perrin devolveu o olhar de cara fechada. Faile não tinha o direito de interferir.
— Tranquila demais? — indagou Verin, piscando. — Moiraine? Nunca percebi.
Alanna fez um gesto para que Faile se calasse.
— Naturalmente, você não entende — retrucou a Aes Sedai, em um tom severo. — Não entende as restrições sob as quais trabalhamos. Os Três Juramentos não são apenas palavras. Eu trouxe dois Guardiões para este lugar. — As Verdes eram a única Ajah na qual uma mulher podia estabelecer elos com mais de um Guardião. Perrin já ouvira de umas poucas que tinham três ou quatro. — Os Filhos pegaram Owein cruzando um campo aberto. Senti todas as flechas que o acertaram, até ele morrer. Eu o senti morrer. Se estivesse lá, eu poderia ter defendido a nós dois com o Poder, mas não posso usar o Poder para vingança. Os Juramentos não permitem. Os Filhos são quase tão vis quanto homens conseguem ser vis. São quase Amigos das Trevas, mas não são exatamente Amigos das Trevas, e é por essa razão que estão protegidos do Poder, exceto em defesa própria. Por mais que a gente tente aumentar um pouco a verdade, não dá para aumentar demais.
— Quanto aos Trollocs — acrescentou Verin — destruímos alguns deles, e também dois Myrddraal, mas existem limites. Os Meios-homens conseguem sentir a canalização, de certo modo. Se conseguirmos atrair cem Trollocs para nós, há pouco que podemos fazer além de correr.
Perrin coçou a barba. Ele deveria ter esperado isso, deveria saber. Já tinha visto Moiraine enfrentar Trollocs, e fazia alguma ideia do que ela era capaz. Percebeu que estivera pensando em como Rand matara todos os Trollocs na Pedra, só que Rand era mais forte do que qualquer uma daquelas Aes Sedai, talvez até mais do que as duas juntas. Bem, com a ajuda delas ou não, ele ainda pretendia acabar com cada Trolloc em Dois Rios. Depois de resgatar a família de Mat e os Luhhan. Se pensasse no assunto com bastante cuidado, encontraria um jeito. A dor na coxa estava terrível.
— Você está ferido. — Alanna apoiou a caneca no chão, ajoelhou-se diante dele e tomou sua cabeça nas mãos. Um arrepio percorreu seu corpo. — Isso. Estou vendo. Você não conseguiu esse corte se barbeando, pelo que parece.
— Foram os Trollocs, Aes Sedai — respondeu Bain. — Quando saímos dos Caminhos, nas montanhas. — Chiad tocou seu braço, e Bain parou.
— Eu tranquei o Portal dos Caminhos — acrescentou Loial, mais do que depressa. — Ninguém vai usá-lo até que seja aberto do lado de cá.
— Imaginei que eles estivessem vindo por lá — murmurou Verin, meio que para si mesma. — Bem que Moiraine sugeriu que estivessem usando os Caminhos. Mais cedo ou mais tarde, isso vai nos trazer problemas de verdade.
Perrin se perguntou o que ela achava que a situação atual era.
— Os Caminhos — comentou Alanna, ainda segurando a cabeça dele. — Ta’veren! Jovens heróis! — Ela fez as palavras soarem ao mesmo tempo como uma aprovação e um xingamento.
— Eu não sou herói — retrucou Perrin, impassível. — Os Caminhos eram o meio mais rápido para chegar aqui. Só isso.
A irmã Verde prosseguiu, como se ele não tivesse dito nada.
— Eu nunca vou entender por que o Trono de Amyrlin deixou vocês três irem embora. Elaida está tendo ataques por causa dos três, e não é a única, só a mais veemente. Com os selos se enfraquecendo e a Última Batalha chegando, não precisamos de três ta’veren correndo à solta por aí. Eu teria amarrado uma corda em cada um e até mesmo estabelecido um elo, se fosse preciso. — Perrin tentou se afastar, mas ela apertou ainda mais as mãos e sorriu. — Ainda não abandonei os costumes a ponto de estabelecer um elo com um homem contra sua vontade. Ainda não. — Ele não sabia ao certo até que ponto aquilo era sério, pois não conseguia enxergar o sorriso dela. Alanna tocou o corte meio cicatrizado em seu rosto. — Já tem muito tempo que esse aqui foi feito. Até a Cura vai deixar cicatriz.
— Eu não preciso ficar bonito — murmurou em resposta. Só precisava ficar bem para fazer o que tinha de fazer.
Faile soltou uma risada alta.
— Quem foi que disse isso?
Foi uma surpresa vê-la trocando sorrisos com Alanna.
Perrin franziu o cenho e ficou se perguntando se as mulheres estavam caçoando dele, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, a Cura o atingiu como um raio congelante. Tudo o que pôde fazer foi arquejar. Os poucos instantes até Alanna soltá-lo pareceram intermináveis.
Quando recuperou o fôlego, a irmã Verde segurava a cabeça com cabelos de fogo de Bain, Verin cuidava de Gaul, e Chiad testava o braço esquerdo, girando-o para frente e para trás com uma expressão satisfeita.
Faile tomou o lugar de Alanna ao lado de Perrin e passou o dedo em seu rosto, ao longo da cicatriz abaixo do olho.
— Uma marquinha charmosa — disse ela, com um leve sorriso.
— O quê?
— Ah, só uma coisa que as mulheres domanesas fazem com maquiagem. Foi só um comentário.
Apesar do sorriso dela, ou talvez por causa dele, Perrin fechou a cara, desconfiado. Faile estava caçoando, mas ele não entendia bem como.
Ihvon chegou, sussurrou algo no ouvido de Alanna e desapareceu assim que ela sussurrou em resposta. O homem quase não fez barulho, mesmo no chão de madeira. Poucos instantes depois, o roçar de botas nos degraus anunciou novas chegadas.
Perrin se levantou de um salto quando Tam al’Thor e Abell Cauthon surgiram ao pé da porta, com os arcos nas mãos, as roupas amarrotadas e as barbas grisalhas e por fazer típicas de homens que andaram dormindo mal. Os dois tinham estado caçando; quatro coelhos pendiam do cinto de Tam e três do de Abel. Era óbvio que já esperavam encontrar as Aes Sedai e alguns visitantes, mas cravaram olhos estupefatos em Loial, que tinha a altura de uma pessoa e meia, além de orelhas peludas e um nariz enorme que quase parecia um focinho. Um lampejo de reconhecimento perpassou o rosto impassível e enrugado de Tam ao ver os Aiel.