Выбрать главу

Havia atividade entre os cerca de cem carroções coloridos agrupados a menos de uma milha do cume da montanha. Homens e mulheres vestidos em tons ainda mais coloridos que os carroções examinavam cavalos e arreios, guardando as cargas que haviam passado semanas no chão do acampamento. Parecia que o Povo Errante pretendia fazer jus ao próprio nome, e provavelmente partir à primeira luz do dia.

— Farran! — O robusto centurião cravou os calcanhares no cavalo para se aproximar, e Bornhald inclinou a cabeça em direção à caravana Tuatha’an. — Informe ao Buscador que, se ele quiser mover seu povo, que sigam para o sul. — Seus mapas informavam que não havia como cruzar o Taren exceto por Barca do Taren, mas, assim que cruzou o rio, começou a perceber como os mapas eram velhos. Ninguém deixaria Dois Rios para levar seus homens a uma armadilha, não enquanto ele pudesse impedir. — E, Farran? Não há necessidade de botas ou punhos, está bem? Basta usar palavras. Este Raen tem ouvidos.

— O senhor é quem manda, Lorde Bornhald. — O centurião soou apenas um pouco desapontado.

Farran levou o punho com manoplas ao coração e seguiu em direção ao acampamento Tuatha’an. Não gostava da ordem, mas obedeceria. Por mais que desprezasse o Povo Errante, era um bom soldado.

A visão do próprio acampamento trouxe um instante de orgulho para Bornhald, as fileiras compridas e organizadas de tendas brancas em formato de triângulo, as fileiras de piquetes para os cavalos ordenadas com precisão. Mesmo ali, naquele canto do mundo abandonado pela Luz, os Filhos se cuidavam, sem jamais se permitir afrouxar a disciplina. Era mesmo um lugar abandonado pela Luz. Os Trollocs eram a prova. Se incendiavam fazendas, significava apenas que parte do povo ali era pura. Parte. O restante se curvava em mesuras, dizendo “sim, meu senhor”, “como quiser, meu senhor” e depois faziam, teimosamente, o que queriam assim que ele virava as costas. Além do mais, estavam escondendo uma Aes Sedai. No segundo dia que passaram ao sul do Taren, mataram um Guardião. O manto furta-cor era prova suficiente. Bornhald odiava Aes Sedai, mulheres mexendo com o Poder como se uma Ruptura do Mundo já não tivesse sido suficiente. Fariam tudo de novo, se ninguém as impedisse. O bom humor momentâneo evaporou feito neve na primavera.

Seus olhos buscaram a tenda onde os prisioneiros estavam sendo mantidos, de onde só saíam por um breve período diário para se exercitar, e um de cada vez. Ninguém tentaria fugir se tivesse que deixar os outros para trás. Não que fossem conseguir correr mais de doze passadas — havia um guarda em cada extremidade da tenda, e, a doze passadas para todas as direções, havia mais pelo menos vinte Filhos — mas Bornhald queria o mínimo de confusão possível. Confusão gera confusão. Se fosse preciso tratar os prisioneiros com brutalidade, talvez houvesse ressentimentos na aldeia a ponto de algo acabar precisando ser feito. Byar era um idiota. Ele — e outros, sobretudo Farran — queriam interrogar os prisioneiros. Bornhald não era um Questionador e nem gostava de usar os métodos deles. Não pretendia deixar Farran chegar perto daquelas garotas, mesmo que fossem Amigas das Trevas, como Ordeith alegava.

Amigas das Trevas ou não, Bornhald cada vez mais se dava conta de que só estava atrás de um Amigo das Trevas. Mais do que Trollocs e do que Aes Sedai, queria Perrin Aybara. Não conseguia dar crédito às histórias do homem correndo com os lobos que Byar contara, mas ele afirmara com toda clareza que Aybara atraíra o pai de Bornhald para uma armadilha dos Amigos das Trevas. Perrin levara Geofram Bornhald à morte em Ponta de Toman pelas mãos de Amigos das Trevas Seanchan e suas aliadas Aes Sedai. Talvez, se nenhum dos Luhhan abrisse o bico logo, deixaria Byar fazer o que quisesse com o ferreiro. O homem, ou a mulher, que teria de assistir, acabaria cedendo. Um deles revelaria como encontrar Perrin Aybara.

Quando ele desceu do cavalo diante da tenda, viu Byar, rígido e magricela, mais parecendo um espantalho, à sua espera. Bornhald lançou um olhar de desgosto na direção de um grupo muito menor de tendas, mais afastado do resto. O vento vinha daquela direção, e dava para sentir o cheiro do outro acampamento. Eles não cuidavam nem das fileiras de piquetes, nem de si mesmos.

— Ordeith voltou, ao que parece.

— Sim, milorde Bornhald. — Byar fez uma pausa, e Bornhald o encarou com um olhar questionador. — Relataram uma escaramuça com Trollocs ao sul. Dois mortos. Seis feridos, pelo que dizem.

— E quem foram os mortos? — perguntou Bornhald, baixinho.

— O Filho Joelin e o Filho Gomanes, milorde Bornhald. — A expressão encovada de Byar não se alterou.

Bem devagar, Bornhald removeu as manoplas com dorso de aço. Aqueles dois haviam sido enviados para acompanhar Ordeith, para ver o que ele fazia em suas incursões para o sul. Sempre cauteloso, ele não ergueu a voz.

— Meus cumprimentos ao Mestre Ordeith, Byar, e… não! Nada de cumprimentos. Diga a ele, nestas palavras, que quero ver seus ossos magros na minha frente agora mesmo. Diga isso, Byar, e traga-o aqui nem que tenha de prendê-lo junto com aquela gente nojenta que desgraça os Filhos. Vá.

Bornhald conteve a raiva até adentrar a tenda e baixar a aba, então varreu os mapas e o estojo de escrita de cima da mesa com um rosnado. Ordeith devia tomá-lo por um imbecil. Já duas vezes enviara homens para acompanhar o sujeito, e por duas vezes eles foram as únicas mortes em uma “escaramuça com Trollocs” que não deixara qualquer outro ferido como prova. Sempre ao sul. O homem estava obcecado com Campo de Emond. Ora, ele mesmo teria estabelecido acampamento por lá, não fosse por… Bem, não servia de nada pensar naquilo. Estava com os Luhhan. Eles lhe entregariam Perrin Aybara, de um jeito ou de outro. Colina da Vigília era um lugar muito melhor, caso precisasse seguir para Barca do Taren depressa. Os aspectos militares deviam ficar acima das motivações pessoais.

Pela milésima vez, Bornhald se perguntou por que o Senhor Capitão Comandante o enviara até ali. O povo não era diferente do que já vira em centenas de outros lugares. A diferença era que apenas o povo de Barca do Taren demonstrava entusiasmo em eliminar os Amigos das Trevas que caminhavam entre os moradores. Os outros ficavam olhando, teimosos e rabugentos, ao ver a Presa do Dragão rabiscada em uma porta. O povo de uma aldeia sempre sabia quem eram seus indesejáveis. Com um pouco de encorajamento, estavam sempre prontos a se purificar, e quaisquer Amigos das Trevas sem dúvida seriam varridos com os outros que o povo quisesse ver longe. Mas não ali. A marca preta de uma presa arranhada em uma porta poderia muito bem ser uma nova pintura, considerando o pouco efeito que causava. E os Trollocs. Será que Pedron Niall sabia que os Trollocs viriam, quando escreveu aquelas ordens? Como poderia saber? No entanto, se não sabia, por que enviara Filhos em número suficiente para conter uma pequena rebelião? E por que, sob a Luz, o Senhor Capitão Comandante dera a ele a responsabilidade de cuidar de um assassino louco?

A borda da tenda se abriu, e Ordeith adentrou. O fino casaco cinza tinha bordados em prata, mas estava bastante manchado. O pescoço franzino também estava sujo, esticando-se para fora da gola, o que o fazia parecer uma tartaruga.

— Boa noite para o senhor, milorde Bornhald. Uma noite excelente e esplêndida. — O sotaque de Lugard estava forte.

— O que houve com o Filho Joelin e o Filho Gomanes, Ordeith?

— Uma coisa terrível, milorde. Quando avançamos para os Trollocs, o Filho Gomanes bravamente… — Bornhald o acertou na cara com as manoplas. Cambaleante, o homem ossudo levou a mão ao lábio ferido, depois examinou o vermelho que escorria nos dedos. O sorriso em seu rosto já não era de zombaria. Era traiçoeiro. — Está se esquecendo de quem assinou minha comissão, fidalgote? Pedron Niall pode enforcar o senhor nas tripas da sua mãe a uma só palavra minha, e isso depois de esfolar os dois ainda vivos.