— Isso se você viver para dizer alguma coisa, não é?
Ordeith soltou um rosnado, agachando-se feito um selvagem e espumando bolhas de saliva. Depois de um tempo se sacudiu, e, bem devagar, endireitou a postura.
— Precisamos trabalhar juntos. — O sotaque de Lugard desaparecera, substituído por um tom mais grandioso e autoritário. Bornhald preferia o sotaque de escárnio de Lugard do que aquele, levemente bajulador, com um desprezo quase velado. — A Sombra nos envolve por toda parte, neste lugar. Não apenas Trollocs e Myrddraal. Eles são o menor dos males. Três males foram gerados aqui, Amigos das Trevas criados para abalar o mundo, sua criação foi supervisionada pelo próprio Tenebroso por mil anos ou mais. Rand al’Thor. Mat Cauthon. Perrin Aybara. Você sabe os nomes deles. Neste lugar, há forças que vão perturbar o mundo. Criaturas da Sombra caminham pela noite, maculando os corações dos homens, corrompendo os sonhos. Flagele esta terra. Flagele-a, e eles virão. Rand al’Thor. Mat Cauthon. Perrin Aybara. — Sua voz pronunciou o último nome quase como uma carícia.
Bornhald soltou um suspiro entrecortado. Não sabia ao certo como Ordeith descobrira o que ele queria naquele lugar. Um dia, o homem simplesmente revelara que já sabia.
— Eu encobri o que você fez na fazenda dos Aybara…
— Flagele tudo. — Havia um toque de loucura naquela voz majestosa, e a testa de Ordeith pingava de suor. — Fustigue tudo, e os três virão.
Bornhald ergueu a voz.
— Eu encobri porque foi preciso. — Não tivera escolha. Se a verdade viesse à tona, teria de lidar com mais do que olhares emburrados. A última coisa de que precisava era uma rebelião declarada para se somar aos Trollocs. — Mas não vou perdoar a morte de Filhos. Está me ouvindo? O que você está fazendo, que precisa se esconder dos Filhos?
— O senhor duvida de que a Sombra vá fazer o que for preciso para me impedir?
— O quê?
— O senhor duvida? — Ordeith inclinou-se para a frente, com o olhar intenso. — O senhor viu os Homens Cinza.
Bornhald hesitou. Cinquenta Filhos à sua volta, no meio de Colina da Vigília, e ninguém percebera os dois com adagas. Ele olhara direto para eles e não os vira. Até Ordeith matá-los. O sujeitinho franzino ganhara bastante respeito dos homens com aquilo. Mais tarde, Bornhald cavou um buraco bem fundo para enterrar as adagas. Aquelas lâminas pareciam de aço, mas seu toque causticava como metal incandescente. A primeira leva de terra jogada por cima delas ardera com muitos chiados.
— Acha que estavam atrás de você?
— Ah, sim, milorde Bornhald. Estavam atrás de mim. Farão o que for preciso para me impedir. A própria Sombra quer me deter.
— Isso ainda não é desculpa para a matança de…
— Preciso fazer o que faço em segredo. — Foi um sussurro, quase um sibilo. — A Sombra consegue penetrar as mentes dos homens para me descobrir, consegue penetrar os pensamentos e sonhos dos homens. O senhor gostaria de morrer em um sonho? Pode acontecer.
— Você está… louco.
— O senhor me dê carta branca, e eu lhe entrego Perrin Aybara. É isso que requerem as ordens de Pedron Niall. Carta branca para mim, e coloco Perrin Aybara nas suas mãos.
Bornhald ficou em silêncio por um longo instante.
— Não quero olhar para a sua cara — disse, por fim. — Saia daqui.
Depois que Ordeith foi embora, Bornhald estremeceu. O que o Senhor Capitão Comandante estaria aprontando junto com aquele homem? Mas, se isso fosse trazer Aybara para suas mãos… Jogou as manoplas no chão e começou a vasculhar os próprios pertences. Guardara um frasco de conhaque em algum lugar.
O homem que se intitulava Ordeith, que às vezes até pensava em si mesmo como Ordeith, esgueirou-se furtivo pelas tendas dos Filhos da Luz, observando os homens de manto branco com um olhar cauteloso. Eram instrumentos úteis, instrumentos ignorantes, mas nada confiáveis. Sobretudo Bornhald, que teria de ser descartado se começasse a causar muitos problemas. Seria bem mais fácil de lidar com Byar. Mas não ainda. Havia outras questões mais importantes. Alguns dos soldados assentiam com um olhar respeitoso quando ele passava. Ordeith mostrava os dentes no que os homens pensavam ser um sorriso amistoso. Instrumentos imbecis.
Seus olhos, famintos, percorreram a tenda que abrigava os prisioneiros. Eles podiam esperar. Mais um pouquinho. Só mais um pouquinho. Eram apenas um aperitivo, de todo modo. Isca. Deveria ter se refreado na fazenda Aybara, mas Con Aybara tinha rido na cara dele, e Joslyn o chamara de idiota de mente suja por ter acusado o filho dela de ser Amigo das Trevas. Bom, eles tinham aprendido a lição, tinham gritado e queimado. Sem perceber, Ordeith soltou uma risadinha entre dentes. Aperitivos.
Podia sentir que um daqueles que odiava estava em algum ponto ao sul, seguindo na direção de Campo de Emond. Mas qual? Não importava. Rand al’Thor era o único importante de verdade. Saberia se fosse Rand al’Thor. Os boatos ainda não o haviam atraído, mas isso logo aconteceria. Ordeith sentiu um arrepio de desejo. Tinha de ser assim. Mais histórias teriam que atravessar os guardas de Bornhald em Barca do Taren, mais informes sobre a limpa em Dois Rios tinham que ser enviados, para que aquilo tudo chegasse aos ouvidos de Rand al’Thor e se fixasse em seu cérebro. Primeiro, al’Thor, depois, a Torre, pelo que haviam tirado dele. Tomaria de volta tudo o que era seu por direito.
Tudo estivera caminhando em um compasso perfeito, como um bom relógio, mesmo com os impedimentos de Bornhald. Até que aquele novo obstáculo viesse, trazendo seus Homens Cinza. Ordeith passou os dedos ossudos pelo cabelo ensebado. Por que não podia ao menos ter os próprios sonhos? Não era mais uma marionete manejada por Myrddraal e Abandonados, ou até pelo próprio Tenebroso. Agora, puxava as próprias cordas. Eles não tinham como impedi-lo, não tinham como matá-lo.
— Nada pode me matar — murmurou, com uma careta de desprezo. — Não a mim. Tenho sobrevivido desde as Guerras dos Trollocs.
Bem, parte dele tinha, mesmo. Soltou uma risada estridente, ouvindo a loucura naquele cacarejo, consciente dela, sem se importar.
Um jovem oficial Manto-branco franziu o cenho para ele. Dessa vez, os dentes arreganhados de Ordeith não estampavam sorriso algum, e o rapaz de face peluda recuou. Ordeith seguiu apressado, se esgueirando.
Moscas zuniam em volta das tendas, e olhos sombrios e cheios de suspeita desviaram dos seus. Os Mantos-brancos ali eram uns porcos. Mas as espadas eram afiadas, e a obediência, imediata e incondicional. Bornhald achava que aqueles homens ainda lhe pertenciam. Pedron Niall também acreditava nisso, acreditava que Ordeith era uma criatura que ele subjugara. Imbecis.
Balançando a lona da tenda, Ordeith entrou para examinar seu prisioneiro, estirado entre dois ganchos de parede grossos o suficiente para sustentar uma junta de carroças. A corrente de aço bom estremeceu quando ele conferiu os elos, mas tomara o cuidado de calcular quanto era necessário, depois dobrara a conta. Ainda bem que o fizera. Uma volta a menos, e aqueles robustos elos de aço teriam se rompido.
Com um suspiro, sentou-se na beirada da cama. Os lampiões já estavam acesas, mais de uma dúzia, sem deixar sombra em lugar algum. Do lado de dentro, a tenda estava iluminada como se fosse meio-dia.
— Pensou na minha proposta? Aceite, e sai daqui livre. Recuse e… bem, sei como machucar os da sua laia. Posso fazer você gritar em uma morte sem fim. Morte sem fim, gritos sem fim.
Um solavanco fez as correntes tilintarem. As estacas, cravadas firmemente no chão, rangeram.