Verin sorriu para ele com uma expressão meio sonolenta.
— Muito prazer — murmurou a Marrom. — Casa Chiendelna. Onde fica? Parece um nome das Terras da Fronteira.
— Nada tão grandioso — respondeu Luc, mais do que depressa, curvando-se em uma ínfima mesura cautelosa. — Sou de Murandy, na verdade. Uma casa menor, porém antiga.
Luc pareceu pouco à vontade em tirar os olhos da mulher durante o restante das apresentações.
Mas o homem mal olhou para Tomas. Devia saber que ele era o Guardião da “Senhora Mathwin”, mas descartou o homem sem titubear, com um desprezo tão claro quanto se houvesse sido declarado aos berros. Foi bem estranho. Por mais talento que Luc tivesse com a espada que levava, ninguém tinha habilidade o bastante para fazer pouco caso de um Guardião. Arrogância. O sujeito possuía a arrogância de dez homens. E provou isso pela forma como se comportou com Faile, pelo que Perrin viu.
O sorriso que Luc ofereceu a ela era sem dúvida mais do que confiante, era também amigável e íntimo. Na verdade, era amigável e íntimo demais. O lorde tomou a mão de Faile nas suas e fez uma mesura, encarando-a como se tentasse enxergar dentro de sua cabeça. Por um instante, Perrin achou que a namorada estivesse prestes a retribuir o gesto com arrogância, mas ela devolveu o olhar do lorde com as bochechas vermelhas, fingindo tranquilidade, e um leve meneio de cabeça.
— Eu também sou Caçadora da Trombeta, milorde — disse Faile, soando um tantinho ofegante. — Acha que vai encontrá-la por aqui?
Luc pareceu surpreso e soltou a mão da mulher.
— Pode ser, milady. Quem é que sabe onde a Trombeta pode estar? — Faile pareceu um pouco surpresa, talvez desapontada, com a súbita perda de interesse do homem.
Perrin manteve a expressão neutra. Se ela quisesse sorrir para Wil al’Seen e corar para lordes idiotas, que fosse. Podia se fazer de idiota o quanto quisesse e olhar abobada para qualquer homem que aparecesse. Então Luc queria saber onde estava a Trombeta de Valere? Estava escondida na Torre Branca, era lá que estava. Ficou tentado a revelar ao homem, só para fazê-lo ranger os dentes de frustração.
Se Luc ficara surpreso em descobrir quem eram os outros convidados na casa al’Seen, sua reação ao ser apresentado a Perrin foi, para dizer o mínimo, peculiar. O homem levou um susto ao olhar seu rosto, a expressão foi de puro choque. Entretanto, a não ser por um leve tremor no canto do olho, toda a surpresa desapareceu em um instante, mascarada por trás da soberba senhoril. O problema era que não fazia sentido. Não foram os olhos amarelos que surpreenderam Luc, Perrin tinha certeza. Era mais como se o sujeito o conhecesse e estivesse espantado em vê-lo ali, mas ele nunca vira aquele tal de Luc na vida. Mais do que isso, Perrin teria apostado que Luc estava com medo dele. Não fazia sentido.
— Foi o Lorde Luc quem sugeriu que os garotos ficassem nos telhados — comentou Jac. — Se algum Trolloc chegar perto, os rapazes vão dar o alerta.
— E quanto tempo esse alerta lhes dá? — perguntou Perrin, em um tom seco. Aquele era um exemplo dos conselhos do grande Lorde Luc? — Os Trollocs enxergam no escuro feito gatos. Já vão estar aqui dentro, chutando as portas, antes que seus garotos consigam soltar sequer um berro de aviso.
— Nós fazemos o possível — vociferou Flann. — Pare de ficar tentando nos meter medo. Tem crianças escutando. Pelo menos o Lorde Luc oferece sugestões úteis. Ele estava na minha casa na véspera da vinda dos Trollocs, cuidando para que todos estivessem posicionados da melhor maneira possível. Sangue e cinzas! Se não fosse por ele, os Trollocs teriam matado todos nós.
Luc não pareceu ouvir o elogio feito a ele. Observava Perrin com atenção enquanto remexia as manoplas, inquieto, enfiando-as por detrás da fivela do cinturão, ornada com a cabeça dourada de um lobo. Faile também o encarava, mas com uma leve carranca. Ele a ignorava.
— Achei que tinham sido os Mantos-brancos que salvaram vocês, Mestre Lewin. Achei que uma patrulha dos Mantos-brancos tivesse chegado bem na hora e expulsado os Trollocs.
— Bom, eles chegaram. — Flann passou a mão nos cabelos grisalhos. — Mas o Lorde Luc… Se os Mantos-brancos não tivessem chegado, nós poderíamos… Pelo menos ele não tenta nos meter medo — murmurou.
— Então ele não mete medo em vocês — disse Perrin. — Bem, os Trollocs me metem medo. E os Mantos-brancos afugentam os Trollocs para vocês. Quando conseguem.
— Quer dar crédito aos Mantos-brancos? — Luc cravou em Perrin um olhar frio, como se atacasse uma fraqueza. — Quem você acha que é responsável pelos rabiscos da Presa do Dragão nas portas das casas? Tudo bem, as mãos deles nunca seguraram o carvão, mas eles estão por trás disso. Invadem as casas dessa boa gente fazendo perguntas e exigindo respostas como se estivessem debaixo do próprio teto. Eu acho que essa gente é dona de si mesma, não cães que os Mantos-brancos podem pôr na linha. Deixe que eles patrulhem o campo, e acho até muito bom, mas vá encontrá-los no portão e informe de quem é a terra onde estão pisando. É isso o que eu acho. Se você quiser ser um cãozinho dos Mantos-brancos, vá em frente, mas não se ressinta dessa gente pela liberdade que têm.
Perrin retribuiu o olhar de Luc.
— Eu não nutro afeição pelos Mantos-brancos. Eles querem me enforcar, ou será que não ficou sabendo?
O homem alto piscou como se não tivesse ouvido falar naquilo, ou como se talvez tivesse esquecido, na ânsia de brilhar aos olhos do povo.
— Então o que você está propondo, exatamente?
Perrin deu as costas ao homem e foi postar-se diante da lareira. Não queria discutir com Luc. Era melhor que todos ouvissem. Toda aquela gente já estava encarando-o, mesmo. Diria o que estava pensando, e ponto final.
— Vocês precisam depender dos Mantos-brancos, precisam esperar que eles mantenham os Trollocs longe, torcer para que eles cheguem a tempo caso os Trollocs ataquem. Por quê? Porque cada homem está tentando proteger sua própria fazenda, se puder, ou, se não puder, quer ficar o mais perto dela possível. Vocês estão espalhados em vários grupinhos, feito cachinhos de uva esperando para serem colhidos. Enquanto for assim, enquanto vocês tiverem que rezar para os Mantos-brancos conseguirem impedir que os Trollocs pisoteiem todos até virarem vinho, vocês não têm escolha a não ser deixar que perguntem o que quiserem e exijam as respostas que quiserem. É por isso que vocês precisam ficar parados, só assistindo a gente inocente ser levada embora. Ou será que alguém aqui acha que Haral e Alsbet Luhhan são Amigos das Trevas? Natti Cauthon? Bodewhin e Eldrin?
Abell lançou ao salão um olhar que desafiava qualquer um a deixar entrever que sim, mas não era necessário. Até Adine Lewin estava prestando atenção em Perrin. Luc se dividia entre franzir o cenho para ele e examinar as reações das pessoas aglomeradas no salão.
— Eu sei que eles não deveriam ter prendido Natti, Alsbet e todos os outros — interveio Wit — mas isso já acabou. — Ele passou a mão pela cabeça careca e olhou preocupado para Abell. — Quer dizer, só falta fazer com que soltem todo mundo. Mas eles não prenderam mais ninguém, pelo menos não que eu saiba.
— Acha mesmo que isso significa que já acabou? — perguntou Perrin. — Acha mesmo que vão se satisfazer com os Cauthon e os Luhhan? Com duas fazendas incendiadas? Quem de vocês vai ser o próximo? Talvez sejam levados por dizer a coisa errada, ou apenas para servir de exemplo. Podiam ser Mantos-brancos jogando tochas nesta casa, em vez de Trollocs. Ou talvez qualquer noite dessas a Presa do Dragão apareça rabiscada na porta. Sempre tem gente que acredita nesse tipo de coisa. — Vários olhares se voltaram para Adine, que remexeu os pés e deu de ombros. — Mesmo que isso signifique apenas ter de baixar a cabeça para todos os Mantos-brancos que aparecerem, vocês querem mesmo viver assim? Querem que seus filhos vivam assim? Vocês estão à mercê dos Trollocs, à mercê dos Mantos-brancos e à mercê de qualquer um que guarde rancor. Enquanto um deles tiver controle sobre vocês, todos os três terão. Vocês estão escondidos no porão torcendo para que um cão raivoso os proteja de outro, torcendo para que os ratos não apareçam no meio da noite e ataquem.