Jac trocou olhares preocupados com Flann e Wit, depois com os outros homens no salão, então respondeu, sem pressa:
— Se acha que estamos fazendo algo errado, o que é que sugere, então?
Perrin não esperava a pergunta — tinha certeza de que todos ficariam irritados — mas logo começou a explicar sua ideia.
— Reúnam o povo. Recolham as ovelhas, vacas, galinhas e tudo o mais. Juntem tudo e levem para um local seguro. Vão para Campo de Emond. Ou para Colina da Vigília, já que é mais perto, embora lá vocês vão ficar bem sob a mira dos Mantos-brancos. Enquanto houver vinte pessoas aqui e cinquenta lá, vocês serão presa para os Trollocs. Se centenas se juntarem, terão uma chance. E isso sem ter que abaixar a cabeça para os Mantos-brancos. — Aquilo gerou a explosão que ele esperava.
— Abandonar minha fazenda? — gritou Flann, por cima de Wit, que dizia:
— Você está louco!
As palavras se atropelavam, vindas deles, de seus irmãos e primos.
— Ir para Campo de Emond? Aqui já estou longe demais para sequer conferir os campos todos os dias!
— As ervas daninhas vão tomar tudo!
— Já nem sei como vai ser a colheita, do jeito que está!
— … se a chuva vier…!
— … tentar reconstruir…!
— … tabaco vai apodrecer…!
— … ter que abandonar a tosquia…!
O baque do punho de Perrin socando o lintel da lareira silenciou a algazarra.
— Eu não vi nenhum campo destruído, nem queimado, nem sequer uma casa ou celeiro que tenha sido incendiado com gente dentro. É de gente que os Trollocs vêm atrás. E daí se eles incendiarem tudo? Vocês podem plantar uma nova safra. Pedra, argamassa e madeira podem ser reconstruídos. E isso, dá para reconstruir?
Ele apontou para o bebê de Laila, que apertou a criança contra o peito, cravando os olhos em Perrin como se ele é que fosse uma ameaça para seu filho. No entanto, os olhares que ela lançou ao marido e a Flann eram de terror. Um burburinho desconfortável se ergueu.
— Ir embora — murmurou Jac, balançando a cabeça. — Não sei, não, Perrin.
— A escolha é de vocês, Mestre al’Seen. A terra ainda vai estar aqui quando vocês voltarem. Os Trollocs não têm como levá-la embora. Mas será que dá para dizer o mesmo em relação às famílias de vocês?
O burburinho elevou-se a uma algazarra. Inúmeras mulheres confrontavam os maridos, a maioria com uma ou duas crianças a tiracolo. Nenhum dos homens parecia discutir.
— Um plano interessante — comentou Luc, analisando Perrin. Pela expressão do homem, não havia como dizer se ele aprovava. — Ficarei observando o desenrolar dos acontecimentos. Agora, Mestre al’Seen, preciso ir andando. Só passei para ver como vocês estavam. — Jac e Elisa o levaram até a porta, mas os outros estavam muito ocupados com os próprios debates para prestar atenção.
Luc foi embora com uma expressão irritada, e Perrin teve a sensação de que as partidas do homem em geral eram tão grandiosas quanto as chegadas.
Jac foi da porta direto até Perrin.
— Esse seu plano é muito audacioso. Devo admitir que não me entusiasmei muito com a ideia de abandonar minha fazenda, mas o que você disse faz sentido. Só não sei o que os Filhos vão pensar disso. Para mim, eles parecem muito desconfiados. Se nos reunirmos, eles podem pensar que estamos todos tramando alguma coisa contra eles.
— Deixe que pensem — retrucou Perrin. — Uma aldeia cheia de gente pode seguir o conselho de Luc e mandá-los ir cuidar de seus assuntos em outro lugar. Ou é melhor ficarem vulneráveis só para garantir a boa-vontade dos Mantos-brancos, como já fazem?
— Não. Não, eu concordo. Você me convenceu. E a todo mundo, pelo que vejo.
E parecia mesmo verdade. O burburinho das discussões estava se aquietando, mas apenas porque todos pareciam estar entrando em acordo. Até Adine já gritava com as filhas, dando ordens para arrumar as coisas imediatamente. Ela até deu a Perrin um aceno de cabeça rabugento e aprovativo.
— Quando pretendem ir? — perguntou Perrin a Jac.
— Assim que todos conseguirem se aprontar. Podemos chegar à casa de Jon Gaelin, na Estrada do Norte, antes de anoitecer. Vou contar a Jon o que você disse, e também a todos de Campo de Emond. Melhor lá que em Colina da Vigília. Se quisermos sair do controle dos Mantos-brancos, assim como dos Trollocs, é melhor ficarmos longe das vistas deles. — Jac passou um dedo pela franja curta. — Perrin, eu não acredito que os Filhos fariam algum mal a Natti Cauthon, às meninas e aos Luhhan, mas fico preocupado. Se eles realmente pensarem que estamos tramando, quem é que sabe o que pode acontecer?
— Pretendo libertar todos eles assim que puder, Mestre al’Seen. Aliás, pretendo o mesmo para todos os outros que os Mantos-brancos levarem presos.
— Um plano audacioso — repetiu Jac. — Bom, é melhor eu fazer esse povo andar, se quiser chegar à casa de Jon antes de anoitecer. Vá com a Luz, Perrin.
— Um plano muito audacioso — concordou Verin, aproximando-se enquanto Mestre al’Seen saía apressado, dando ordens para que puxassem os carroções e embalassem tudo o que pudessem carregar.
A Marrom analisou Perrin com interesse, inclinando a cabeça para o lado, mas não parecia menos interessada do que Faile, a seu lado. A mulher o olhava como se nunca o tivesse visto.
— Não sei por que todo mundo fica repetindo isso — respondeu ele. — A respeito do plano, quer dizer. Aquele Luc estava falando um monte de bobagens. Desafiar Mantos-brancos no portão. Garotos no telhado vigiando Trollocs. Portas abertas para a desgraça. A única coisa que fiz foi chamar a atenção para isso. Eles deviam ter feito o que sugeri desde o início. Aquele homem… — Ele se refreou para não dizer que Luc o irritava. Não na frente de Faile: ela poderia ter a impressão errada.
— É claro — concordou Verin, serena. — Eu não tive oportunidade de ver isso em funcionamento, antes. Ou talvez tenha tido, mas na hora não sabia.
— Do que você está falando? Ver o que em funcionamento?
— Perrin, quando chegamos aqui, as pessoas estavam prontas para se agarrarem a este lugar a qualquer custo. Você os encheu de bom senso e determinação, mas acha que o mesmo teria acontecido se partisse de mim, Tam ou Abell? De todos nós, você é o que mais compreende como o povo de Dois Rios sabe ser teimoso. Você alterou o curso que os acontecimentos teriam seguido em Dois Rios sem sua presença. Com umas poucas palavras proferidas em um tom… irritado? Ta’veren realmente arrastam as vidas dos outros para dentro do próprio padrão. É fascinante. Espero ter oportunidade de observar Rand.
— Seja lá o que for — murmurou Perrin — é para o bem. Quanto mais gente reunida em um lugar só, maior a segurança.
— É claro. Rand está com a espada, imagino?
Perrin franziu o cenho, mas não havia motivo para não contar a ela. Verin sabia a respeito de Rand, e sabia o que Tear devia significar.
— Está.
— Tome cuidado com Alanna, Perrin.
— O quê? — As mudanças rápidas de assunto da Aes Sedai estavam começando a confundi-lo, sobretudo quando ela resolvia mandá-lo fazer algo que ele já havia pensado fazer, mas planejava manter em segredo. — Por quê?
O rosto de Verin não se alterou, mas seus olhos escuros de súbito assumiram um brilho aguçado, como os de um pássaro.
— Há muitos… esquemas na Torre Branca. Nem todos são malignos, nem de longe, mas às vezes é difícil saber até já ser tarde demais. E mesmo o mais benevolente com frequência permite o rompimento de alguns fios na trama, ou descarta alguns fios de junco na hora de fazer a cesta. Um ta’veren é um junco útil a um grande número de possíveis planos. — Tão de repente quanto começara a dar conselhos, Verin passou a olhar meio confusa para o tumulto à volta, mais à vontade com um livro ou com seus próprios pensamentos do que no mundo real. — Ah, minha nossa. Mestre al’Seen não perde tempo, não é mesmo? Vou lá ver se ele pode ceder alguém para pegar nossos cavalos.