Algo mais aconteceu também. Ele não pôde impedir Wil, o primo ou os Lewin de conversar com os jovens das fazendas. O grupo deles aumentou em treze, Torfinn e al’Dai, Ahan e Marwin, todos armados com arcos e cavalgando uma seleção heterogênea de pôneis e cavalos de arado, ávidos por resgatar os prisioneiros dos Mantos-brancos.
Claro que nem tudo correu tão tranquilamente. Wil e os outros da fazenda al’Seen consideraram uma injustiça que ele avisasse os recém-chegados sobre os Aiel, estragando a diversão que esperavam ter ao vê-los pular de susto. Para Perrin, eles ainda se assustaram o bastante, e o jeito com que os rapazes perscrutavam cada arbusto e cada grupo de árvores deixava claro que pensavam haver mais Aiel, não importava o que ele dissesse. A princípio, Wil tentou dar uma de lorde para cima dos Torfinn e dos outros, alegando que fora o primeiro a se juntar a Perrin — um dos primeiros, pelo menos, admitiu quando Ban e os Lewin cravaram os olhos nele — enquanto os outros haviam chegado depois.
Perrin deu um fim àquilo dividindo-os em dois grupos mais ou menos iguais e colocando Dannil e Ban no comando de cada um, embora no início também tivesse havido um pouco de resmungos a respeito. Os al’Dai achavam que os líderes deveriam ser escolhidos de acordo com a idade — Bili al’Dai era um ano mais velho que todos — enquanto outros indicavam Hu Marwin como o melhor rastreador e Jaim Torfinn como o melhor arqueiro. Além disso, Kenley Ahan já estivera na Colina da Vigília várias vezes, antes da vinda dos Mantos-brancos, e saberia circular pela aldeia. Eles pareciam pensar que tudo era uma brincadeira. A frase de Tell sobre oprimir a oposição foi repetida mais de uma vez.
Por fim, Perrin virou-se para eles com uma raiva fria, forçando todos a parar no prado entre dois bosques.
— Isso aqui não é um jogo, nem uma dança do Bel Tine. Vocês façam o que lhes for mandado, ou então voltem para casa. Eu não sei qual é a serventia de vocês, e não tenho intenção de acabar morto porque vocês acham que sabem o que estão fazendo. Agora façam uma fila e calem essas bocas. Estão parecendo o Círculo das Mulheres reunido dentro de um roupeiro.
Eles obedeceram, formando duas fileiras atrás de Ban e Dannil. Wil e Bili armaram caretas de insatisfação, mas guardaram para si quaisquer objeções que tivessem. Faile deu a Perrin um aceno de cabeça aprovativo, e Tomas também. Verin observou toda a cena com uma expressão plácida e indecifrável, decerto imaginando que estava assistindo a um ta’veren em ação. Perrin não viu necessidade de dizer à mulher que só tentara pensar no que teria dito um shienarano que ele conhecia, um soldado chamado Uno, embora sem dúvida Uno teria colocado a coisa em palavras mais duras.
Começaram a encontrar um número maior de fazendas à medida que se aproximavam de Colina da Vigília, cada vez menos distantes entre si, até aparecerem uma depois da outra, como era perto de Campo de Emond: uma miscelânea de gramados com cercas-vivas ou muros de pedra separados por alamedas, umas para pedestres, outras para carroças. Mesmo com as paradas nas quatro fazendas, ainda restava um pouco de luz do dia, então ainda havia homens trabalhando nos campos e garotos conduzindo ovelhas e gado dos pastos para dentro, para o pernoite. Ninguém deixava os animais do lado de fora, naqueles tempos.
Tam sugeriu que Perrin parasse de alertar as pessoas, e ele concordou, relutante. O povo rumaria de lá para Colina da Vigília, alertando os Mantos-brancos. Vinte e tantas pessoas cavalgando juntas por rotas secundárias atraíam olhares suficientes, embora a maioria parecesse muito ocupada para dar mais que uma olhadela. Mas aquilo teria de ser feito mais cedo ou mais tarde, e quanto mais cedo, melhor. Enquanto o povo permanecesse no campo, precisando da proteção dos Mantos-brancos, os Filhos teriam vantagem sobre Dois Rios, algo de que talvez não quisessem abrir mão.
Perrin manteve o olhar atento para qualquer sinal de patrulhas de Mantos-brancos, mas, exceto por uma nuvem de poeira na direção na Estrada do Norte, rumo ao sul, não viu vestígios dos Filhos. Depois de um tempo, Tam sugeriu que descessem dos cavalos e os guiassem andando. A pé haveria menos chances de serem vistos, pois as cercas-vivas e até mesmo os muros baixos de pedra formariam uma barreira.
Tam e Abell conheciam um bosque que dava uma boa visão do acampamento dos Mantos-brancos, um emaranhado de carvalhos, tupelos e folhas-de-couro que cobria três ou quatro hidas a pouco mais de uma milha ao sul e a oeste de Colina da Vigília, com vista para um trecho de campo aberto. Eles entraram no bosque pelo sul, apressados. Perrin torceu para que ninguém os tivesse visto entrando, não queria ninguém se perguntando por que não saíram e espalhando o que vira.
— Fiquem aqui — disse a Wil e aos outros rapazes, enquanto o grupo amarrava os cavalos às árvores. — Mantenham os arcos à mão e fiquem a postos para correr se ouvirem um grito. Mas só se mexam se me ouvirem gritar. E se alguém fizer qualquer barulho, vou esmurrar a cabeça do sujeito feito uma bigorna. A gente está aqui para observar, não para ficar esbarrando feito touros cegos e atrair os Mantos-brancos.
Os rapazes tocaram os arcos e assentiram, nervosos. Talvez começassem a se dar conta do que estavam fazendo. Os Filhos da Luz não seriam muito amáveis se encontrassem gente de Dois Rios circulando armada.
— Você já foi soldado? — perguntou Faile baixinho, intrigada. — Alguns dos… guardas do meu pai falam desse jeito.
— Eu sou um ferreiro. — Perrin riu. — Mas já ouvi soldados falando. Parece que funciona.
Até Wil e Bili observavam os arredores, preocupados, sem ousar se mexer.
Ele e Faile foram atrás de Tam e Abell, esgueirando-se de árvore em árvore até onde os Aiel estavam agachados, perto do limite mais ao norte do bosque. Verin também estava lá, assim como Tomas, naturalmente. A folhagem formava uma tela fina que era o bastante para escondê-los, mas sem impedir a observação.
O acampamento dos Mantos-brancos se estendia pelo sopé de Colina da Vigília feito uma verdadeira aldeia. Centenas de homens, alguns com armaduras, se moviam por entre fileiras compridas de tendas brancas, além de filas de cavalos, cada uma com cinco animais presos em estacas a leste e oeste. Cavalos sendo desselados e escovados indicavam o fim do dia das patrulhas, enquanto uma coluna dupla de talvez cem homens, limpos e arrumados, partia em direção à Floresta das Águas a passos vigorosos, segurando as lanças todas no mesmo ângulo. Guardas de mantos brancos marchavam para cima e para baixo, patrulhando os arredores do acampamento em pontos intervalados, com as lanças apoiadas nos ombros e os capacetes polidos reluzindo sob o sol poente.
Um estrondo chegou aos ouvidos de Perrin. Bem a oeste, vinte cavaleiros surgiram galopando, vindos dos lados de Campo de Emond, correndo em direção às tendas. Vinham da direção de onde Perrin e os outros haviam chegado. Se tivessem levado mais alguns minutos, sem dúvida teriam sido vistos. Uma trombeta soou, e homens começaram a se encaminhar para as fogueiras.
Um pouco adiante, de um dos lados, havia um acampamento bem menor, com as tendas desordenadas. Fosse lá quem vivesse ali, a maioria já fora embora. Apenas alguns cavalos, e espantando as moscas com os rabos, presos a uma corda curta amarrada em um piquete indicavam que houvera alguém por ali. Não Mantos-brancos. Os Filhos da Luz eram rígidos e ordenados demais para aquele acampamento.
Entre o bosque em que estavam e os dois acampamentos havia um grande trecho de grama e flores silvestres. Era muito provável que os fazendeiros locais usassem aquele trecho para pastagem. Mas não o faziam mais, já que a vegetação estava muito rasteira. Se os Mantos-brancos galopassem como aquela patrulha, poderiam cobrir o trecho em um minuto.
Abell chamou a atenção de Perrin para o acampamento maior.
— Está vendo aquela tenda perto do meio, com um homem montando guarda de cada lado? Está conseguindo ver? — Perrin assentiu. O sol baixo projetava sombras angulosas ao leste, mas ele enxergava bem. — É ali que estão Natti e as meninas. E os Luhhan. Já os vi entrando e saindo. Um de cada vez, e sempre com um guarda, até mesmo para ir à latrina.