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— Já tentamos entrar à noite três vezes — comentou Tam — mas eles vigiam todo o perímetro do acampamento com muita atenção. Da última vez, quase não conseguimos fugir.

Tentar aquilo seria como enfiar a cabeça em um formigueiro querendo evitar ser atacado. Perrin sentou-se na base de uma grande folha-de-couro, apoiando o arco nos joelhos.

— Quero pensar um pouco sobre isso. Mestre al’Thor, o senhor pode acomodar Wil e os rapazes? Não deixe que nenhum deles meta na cabeça a ideia de sair correndo para casa. Eles provavelmente iriam direto para a Estrada do Norte, sem nem pensar, e daí meia centena desses Mantos-brancos viriam até aqui para investigar. Se alguém tiver pensado em trazer comida, faça com que comam alguma coisa. Se tivermos que fugir, talvez seja preciso passar o resto da noite na sela.

Ele de repente percebeu que estava dando ordens, mas, quando tentou se desculpar, Tam abriu um sorriso e respondeu:

— Perrin, você assumiu a liderança lá na casa de Jac. Essa não é a primeira vez que sigo um homem mais jovem capaz de ver o que precisa ser feito.

— Você está indo bem, Perrin — completou Abell, antes que os dois homens mais velhos sumissem outra vez por entre as árvores.

Perplexo, Perrin coçou a barba. Ele tinha assumido a liderança? Agora, pensando bem, nem Tam, nem Abell haviam tomado qualquer decisão desde que o grupo deixara a fazenda dos al’Seen, apenas oferecido sugestões e deixado a escolha nas mãos dele. Além disso, nenhum dos dois o chamara de “rapaz” desde então.

— Interessante — comentou Verin, apanhando o caderninho.

Perrin desejou ter uma chance de ler o que ela escrevia ali.

— Vai me alertar outra vez sobre alguma tolice? — perguntou à Marrom.

Em vez de responder, Verin disse, em um tom meditativo:

— Vai ser ainda mais interessante ver o que você fará em seguida. Não posso dizer que está alterando as fundações do mundo, como Rand al’Thor, mas Dois Rios sem dúvida está se mexendo. Eu me pergunto se você tem alguma ideia de para onde está indo.

— Quero libertar os Luhhan e os Cauthon — respondeu ele, irritado. — Só isso! — Mas ainda tinha os Trollocs. Ele deixou a cabeça pender para trás, encostada no tronco da folha-de-couro, e fechou os olhos. — Só estou fazendo o que tenho que fazer. Dois Rios vai continuar onde sempre esteve.

— É claro — retrucou Verin.

Perrin a ouviu se afastar junto com Tomas, sandálias e botas fazendo o mesmo barulho suave no chão coberto de folhas do ano anterior. Abriu os olhos. Faile encarava as figuras se afastando, e não parecia muito satisfeita.

— Ela não vai deixar você em paz — resmungou.

A coroa de rubores-do-coração trançados que Perrin deixara sobre a sela pendia das mãos dela.

— Aes Sedai nunca deixam ninguém em paz — respondeu ele.

Faile o encarou com um olhar desafiador.

— Imagino que você esteja querendo resgatá-los hoje à noite.

Tinha de ser feito imediatamente. Porque ele andara passando o aviso adiante, e o povo sabia quem era o mensageiro. Talvez os Mantos-brancos não machucassem os prisioneiros. Talvez. Ele não confiava nem um pouco na misericórdia dos Filhos. Olhou para Gaul, que assentiu.

— Tam al’Thor e Abell Cauthon se movimentam bem para aguacentos, mas acho que esses Mantos-brancos são rígidos demais para enxergar qualquer coisa que se mova no escuro. Imagino que estejam esperando os inimigos surgirem em grande número, bem onde possam ser vistos.

Chiad voltou os olhos cinzentos e bem-humorados para o Aiel.

— Está querendo andar feito o vento, Cão de Pedra? Vai ser divertido ver um Cão de Pedra tentando se mover a passos leves. Quando minha irmã de lança e eu resgatarmos os prisioneiros, pensaremos em voltar para salvar você, se estiver velho demais para encontrar o caminho.

Bain tocou o braço de Chiad, que encarou a mulher de cabelos de fogo com surpresa. Depois de um instante, seu rosto ruborizou de leve. As duas voltaram os olhos para Faile, de cabeça erguida e braços cruzados, ainda observando Perrin.

Ele deu um longo suspiro. Se dissesse que não queria que a namorada fosse, era quase certo que Bain e Chiad também não iriam. Ainda estavam se esforçando para deixar claro que seguiam Faile, não ele. Talvez a própria Faile estivesse fazendo o mesmo. Talvez ele e Gaul pudessem resolver tudo sozinhos, mas não conseguia enxergar um jeito de fazê-la ficar, se ela não quisesse. Faile, sendo quem era, provavelmente o seguiria escondida.

— Você vai ficar perto de mim — disse Perrin, com firmeza. — Quero resgatar prisioneiros, não deixar outros para trás.

Com uma risada, ela desabou ao lado dele, aninhando o ombro sob seu braço.

— Ficar perto de você parece uma ótima ideia.

Faile encaixou a coroa de flores vermelhas na cabeça dele, e Bain deu uma risadinha.

Perrin revirou os olhos. Via a ponta da coisa pendurada na testa. Devia estar parecendo um idiota, mas deixou o troço ali.

O sol descia, lento como uma bolha no mel. Abell trouxe um pouco de pão e queijo — no fim das contas, mais da metade dos aspirantes a heróis havia trazido algo para comer — e eles comeram e esperaram. A noite veio, iluminada por uma lua já alta, mas encoberta pelas nuvens que corriam. Perrin esperou. As luzes se apagaram no acampamento dos Mantos-brancos e em Colina da Vigília, deixando um punhado de janelas acesas do outro lado do monte escuro. Ele reuniu Tam, Faile e os Aiel. Via todos os rostos muito bem. Verin estava perto o bastante para escutar. Abell e Tomas permaneceram com o outro grupo de Dois Rios, mantendo todos em silêncio.

Ele se sentia meio estranho dando ordens, por isso manteve a simplicidade. Tam deveria preparar todo o grupo para sair em cavalgada no instante em que Perrin retornasse com os prisioneiros. Os Mantos-brancos iriam atrás deles assim que descobrissem o que tinha acontecido, então precisavam de um lugar para se esconder. Tam conhecia um, uma casa de fazenda vazia nos limites da Floresta do Oeste.

— Tentem não matar ninguém, se conseguirem. — Perrin advertiu os Aiel. — Os Mantos-brancos já vão ficar bastante irritados por perderem os prisioneiros. Se também perderem homens, vão tacar fogo no sol.

Gaul e as Donzelas assentiram como se mal pudessem esperar. Que gente estranha. Os três desapareceram no meio da noite.

— Tome cuidado — disse Verin, baixinho, enquanto ele pendurava o arco nas costas. — Ta’veren não quer dizer imortal.

— Tomas poderia ajudar, você sabe.

— Acha que um a mais faria diferença? — perguntou ela, contemplativa. — Além do mais, eu preciso que ele faça outras coisas.

Balançando a cabeça, ele saiu do bosque. Passou a rastejar assim que se afastou dos arbustos, apoiado nos cotovelos e joelhos, quase colado ao chão. Faile, ao seu lado, o imitava. A grama e as flores silvestres tinham altura suficiente para cobri-los. Perrin ficou contente por ela não conseguir enxergar seu rosto. Estava desesperadamente apavorado. Não por si mesmo, mas se alguma coisa acontecesse a ela…

Como duas novas sombras formadas pelo luar, eles rastejaram pelo campo aberto, parando ao sinal de Perrin. Estavam a cerca de dez passadas de onde os guardas caminhavam para cima e para baixo, com os mantos reluzindo sob o brilho fraco da luz, bem perto da primeira fileira de tendas. Dois deles se encararam, quase na frente de Perrin, e pararam de repente.

— Tudo bem com a noite — anunciou um. — Que a Luz nos ilumine e proteja da Sombra.

— Tudo bem com a noite — repetiu o outro. — Que a Luz nos ilumine e proteja da Sombra.

Os dois se viraram e marcharam de volta, sem olhar para a esquerda nem para a direita.

Perrin deixou cada um dos homens caminhar cerca de doze passadas, depois tocou o ombro de Faile e se levantou, quase sem se permitir respirar. Também não ouvia muito da respiração dela. Quase nas pontas dos pés, os dois correram para o meio das tendas, agachando-se logo depois de passar pela primeira. Dentro delas, homens roncavam ou resmungavam durante o sono. Exceto por isso, o acampamento estava mergulhado em silêncio. O caminhar pesado das botas dos guardas era bem audível. O cheiro das fogueiras extintas pairava no ar, e também os odores de lona, cavalos e homens.