A reação dos outros Aiel não foi nada do que Rand antevira. Couladin o encarou de cima, ainda mais cheio de ódio do que antes, se é que era possível, depois saltou da saliência, subiu a encosta a passos pesados e desapareceu por entre as tendas Shaido. Os próprios Shaido começaram a se dispersar, encarando Rand com semblantes indecifráveis antes de retornar às tendas. Heirn e os guerreiros do ramo Jindo fizeram o mesmo, sem hesitar. Dentro de instantes, restava apenas Rhuarc, com o olhar perturbado. Lan foi até o chefe do clã. Pela expressão, o Guardião parecia não dar muita importância a ele. Rand não sabia muito bem o que estava esperando, mas sem dúvida era algo diferente daquilo.
— Que me queime! — resmungou Mat.
Ele pareceu enfim notar que estava com a bolsa d’água nas mãos. Arrancando a tampa, ergueu a bolsa de couro, deixando verter quase tanta água no rosto quanto para dentro da boca. Quando enfim baixou-a de volta, olhou outra vez as marcas nos braços de Rand e balançou a cabeça, repetindo “que me queime” enquanto empurrava a bolsa cheia d’água para o amigo.
Rand encarou os Aiel, consternado, mas ficou mais do que feliz em beber. Os primeiros goles fizeram a garganta doer, de tão seca que estava.
— O que aconteceu com vocês? — inquiriu Egwene. — Muradin atacou os dois?
— É proibido falar sobre o que acontece em Rhuidean — retorquiu Bair, em um tom ríspido.
— Não foi Muradin — respondeu Rand. — Onde está Moiraine? Achei que ela fosse ser a primeira a vir nos encontrar. — Ele esfregou o rosto. Flocos negros de sangue seco se soltaram em sua mão. — Pela primeira vez, não vou me importar se ela me Curar sem pedir permissão.
— Nem eu — concordou Mat, com a voz rouca. Ele cambaleou, se apoiou na lança e pressionou a testa com a base da palma. — Estou tonto.
Egwene fez uma careta.
— Acho que ela ainda está em Rhuidean. Mas, se vocês finalmente saíram, talvez ela chegue logo. Moiraine entrou logo depois de vocês. Aviendha também. Todos ficaram bastante tempo fora.
— Moiraine foi para Rhuidean? — perguntou Rand, incrédulo. — E Aviendha? Por que…? — De repente ele registrou o restante do que Egwene dissera. — Como assim, “bastante tempo”?
— Hoje é o sétimo dia — respondeu a jovem. — O sétimo dia desde que vocês desceram o vale.
Ele deixou a bolsa d’água cair. Seana a agarrou antes que mais do que um pouco do conteúdo, tão precioso no Deserto, escorresse pela encosta de pedra. Rand mal notou. Sete dias. Qualquer coisa poderia ter acontecido em sete dias. Eles podem estar se aproximando, podem ter descoberto o que planejo. Preciso seguir em frente. E logo. Preciso continuar na dianteira. Não cheguei tão longe para falhar.
Todos o encaravam, até Mat e Rhuarc, os rostos repletos de preocupação. E cautela. Não era de se admirar. Quem poderia dizer o que ele faria, ou se ainda estava são? Apenas a cara fechada de Lan não se alterou.
— Eu disse que era Aviendha, Rand. Nua como veio ao mundo. — A voz de Mat tinha um tom rouco e dolorido, e as pernas não pareciam muito firmes.
— Em quanto tempo será que Moiraine volta? — perguntou Rand.
Se a Aes Sedai saíra na mesma hora, deveria retornar em breve.
— Se ela não voltar até o décimo dia — respondeu Bair — não volta mais. Ninguém nunca voltou depois de dez dias.
Mais três dias, talvez. Mais três dias, e ele já perdera sete. Deixe que venham, agora. Não vou fracassar! Mal conteve o rosnado.
— Vocês conseguem canalizar. Uma de vocês, pelo menos. Vi como lidaram com Couladin. Podem Curar Mat?
Amys e Melaine trocaram olhares que ele só pôde classificar como pesarosos.
— Nós não seguimos esse caminho — respondeu Amys, pesarosamente. — Há Sábias que poderiam fazer o que você está pedindo, de certo modo, mas não estamos entre elas.
— Como assim? — perguntou ele, em um tom irritado. — Vocês canalizam como Aes Sedai. Por que não podem Curá-lo? Nem queriam que ele fosse para Rhuidean, para começo de conversa. Acham que podem deixá-lo morrer por causa disso?
— Eu vou sobreviver — argumentou Mat, mas seus olhos estavam contraídos de dor.
Egwene pôs a mão no braço de Rand.
— Nem todas as Aes Sedai conseguem Curar muito bem — explicou, com uma voz consoladora. — As melhores Curandeiras são todas da Ajah Amarela. Sheriam, a Mestra das Noviças, não consegue Curar nada mais sério que um hematoma ou um cortezinho. Não existem duas mulheres com os mesmos Talentos e habilidades.
O tom dela o irritou. Rand não era uma criancinha impertinente, para ser acalmado. Franziu o cenho para as Sábias. Se não podiam ou não queriam Curar, não importava. Mat e ele teriam de esperar Moiraine. Isso se a mulher já não tivesse sido morta por aquela bolha de mal, aquelas criaturas das cinzas. Àquela altura, já devia ter se dissipado, como acontecera com a de Tear. Aquelas coisas não a derrubariam. Moiraine poderia canalizar e passar. Ela sabe o que está fazendo, não precisa ficar descobrindo tudo aos poucos, feito eu. Mas então por que ainda não retornara? Por que fora, para começo de conversa, e por que ele não a vira? Que pergunta idiota. Centenas de pessoas podiam ter estado em Rhuidean sem serem vistas. Teria muitas perguntas e nenhuma resposta até ela retornar, suspeitava Rand. Se é que teria respostas depois.
— Existem ervas e pomadas — disse Seana. — Saia do sol, e vamos cuidar de seus ferimentos.
— Sair do sol — resmungou Rand. — Sim. — Ele estava sendo malcriado, mas não se importava. Por que Moiraine havia entrado em Rhuidean? Não confiava que ela pararia de empurrá-lo na direção que pensava ser a melhor, e que o Tenebroso o carregasse se tentasse discutir. Se ela estava na velha cidade, será que poderia ter afetado as visões dele? Tê-las alterado de alguma forma? Se a mulher sequer suspeitasse do que ele planejava…
Começou a caminhar em direção às tendas dos Jindo — era improvável que o pessoal de Couladin lhe oferecesse um canto para descansar — mas Amys o direcionou para a planície mais acima, onde ficavam as tendas das Sábias.
— Talvez eles ainda não se sintam muito confortáveis em ter você por perto — explicou.
Rhuarc, que se aproximava, assentiu em concordância.
Melaine olhou para Lan.
— Isso não é da sua conta, Aan’allein. Você e Rhuarc levem Matrim e…
— Não — interrompeu Rand. — Quero eles comigo. — Em parte porque desejava respostas do chefe do clã, e em parte por pura teimosia. As Sábias queriam mantê-lo em rédea curta, assim como Moiraine. Não estava disposto a tolerar aquilo. As mulheres se entreolharam, depois assentiram, como se aquiescessem a um pedido. Se pensavam que ele seria um bom menino porque ganhara um doce, estavam enganadas. — Pensei que você estaria com Moiraine — disse a Lan, ignorando as Sábias e seus acenos de cabeça.
Um lampejo de vergonha tomou a face do Guardião.
— As Sábias conseguiram esconder a partida dela até quase o pôr do sol — disse, rígido. — Então… me convenceram de que não adiantaria ir atrás. Disseram que, mesmo que eu fosse, não conseguiria encontrá-la até ela estar de volta. E que Moiraine já não precisaria de mim. Não tenho mais muita certeza se deveria ter dado ouvidos.
— Dado ouvidos! — Melaine bufou com desdém. Os braceletes de ouro e marfim chocalhavam enquanto ela ajustava o xale, irritada. — Não dá para pensar que um homem vá dizer algo sensato. Você muito provavelmente teria morrido, e acabaria por matá-la também.
— Melaine e eu tivemos de segurá-lo por metade da noite, até que ele escutasse — comentou Amys. Ela mantinha um sorrisinho ao mesmo tempo bem-humorado e azedo.