Mat engasgou, e Egwene plantou as mãos na cintura, pronta para passar um sermão, mas Rand manteve a atenção em Melaine. Em vez de responder, a Sábia cravou os olhos nele e saiu da tenda.
Foi Bair quem falou.
— Todo mundo pensa que conhece a Profecia de Rhuidean, mas o que o povo sabe é o que as Sábias e os chefes de clã vêm contando por gerações. Não são mentiras, mas não é a verdade completa. A verdade pode destruir até o homem mais forte.
— Qual é a verdade completa? — insistiu Rand.
Ela olhou para Mat, depois disse:
— Neste caso, a verdade completa, a verdade que apenas as Sábias e os chefes dos clãs conheciam, é que você é a nossa ruína. Nossa ruína e nossa salvação. Sem você, ninguém do povo vai sobreviver à Última Batalha. Talvez nem chegue à Última Batalha. Essa é a profecia e a verdade. Com você… “Ele derramará o sangue daqueles que se denominam Aiel como água na areia e os destruirá como a ramos secos, mas o que restar do restante ele salvará, e eles viverão.” Uma profecia dura, mas esta nunca foi uma terra branda. — A mulher o encarou, sem hesitar. Uma terra dura, e uma mulher dura.
Ele se virou para o lado de novo e voltou a perscrutar o vale. Os outros haviam ido embora, exceto por Mat.
No meio da tarde ele enfim avistou uma silhueta subindo a montanha, escalando com cansaço e dificuldade. Aviendha. Mat tinha razão, a jovem estava nua como veio ao mundo. E também exibia efeitos do sol, Aiel ou não. Apenas o rosto e as mãos estavam escurecidos pelo sol, e o restante parecia bastante vermelho. Rand ficou contente em vê-la. A mulher não gostava dele, mas só porque achava que ele destratara Elayne. O mais simples dos motivos. Não pela profecia ou pela ruína, não pelos Dragões em seu braço ou porque ele era o Dragão Renascido. Por um motivo simples e humano. Rand quase ansiava por aqueles olhares frios e desafiadores.
Quando ela o viu, congelou, e não havia nada de frio em seus olhos azul-esverdeados. O olhar dela fez o sol parecer frio. Rand deveria ter sido transformado em cinzas ali mesmo onde estava.
— É… Rand? — murmurou Mat. — Acho que eu não viraria as costas para ela, se fosse você.
Um suspiro cansado escapou de seus lábios. Claro. Se ela tinha passado por aquelas colunas de vidro, sabia. Bair, Melaine, as outras — todas tiveram anos para se acostumar à ideia. Para Aviendha, era uma ferida nova e sem cicatriz. Não é de se admirar que ela agora me odeie.
As Sábias correram ao encontro de Aviendha e a levaram depressa para dentro de outra tenda. Quando Rand a viu outra vez, a mulher estava usando uma saia marrom pesada e uma blusa branca larga, com um xale passado nos braços. Não parecia muito feliz com as roupas. Aviendha notou que ele a observava, e a ira em seu rosto — pura fúria animal — foi suficiente para fazê-lo desviar os olhos.
As sombras começavam a se espichar na direção das montanhas mais distantes quando Moiraine apareceu, caindo e se reerguendo, cambaleante, enquanto subia a encosta. Estava tão queimada de sol quanto Aviendha. Rand ficou espantado em ver que a Aes Sedai também estava sem roupa. As mulheres eram loucas, essa era a verdade.
Lan saltou da saliência de pedra e correu até ela, então tomou-a nos braços e subiu a encosta depressa, talvez mais depressa do que descera, xingando e gritando pelas Sábias, uma após a outra. A cabeça de Moiraine pendia sobre o ombro do Guardião. As Sábias vieram pegá-la, e Melaine barrou a passagem de Lan quando ele tentou segui-las para dentro da tenda. O Guardião foi deixado do lado de fora, andando de um lado para outro, a mão em punho socando a palma da outra.
Rand virou-se de costas e encarou o teto baixo da tenda. Três dias poupados. Deveria estar contente por Moiraine e Aviendha terem voltado, mas o alívio que sentia era pelos três dias poupados. Tempo era tudo. Ele precisava poder escolher o próprio caminho. Talvez ainda pudesse.
— O que você vai fazer agora? — perguntou Mat.
— Uma coisa que acho que você vai gostar. Vou quebrar as regras.
— Estava querendo saber se você ia pegar alguma coisa para comer. Porque eu estou com fome.
Rand soltou uma risada, mesmo sem querer. Alguma coisa para comer? Não daria a mínima se nunca mais comesse na vida. Mat o encarou como se ele estivesse louco, e aquilo só o fez gargalhar mais alto. Não estava louco. Pela primeira vez, alguém aprenderia o que significava ele ser o Dragão Renascido. Ele infringiria as regras de uma forma que ninguém esperava.
35
Lições severas
O Coração da Pedra em Tel’aran’rhiod era como Egwene se lembrava no mundo reaclass="underline" imensas colunas de pedra vermelha polida que subiam e subiam até chegar a um teto distante, e, sob o grande domo central, Callandor cravada nas pedras claras do chão. Só que não havia gente. Os lampiões dourados não estavam acesos, mas havia uma espécie de luz, ao mesmo tempo forte e fraca, que parecia emanar de todos os lugares e de lugar nenhum. Em geral, os ambientes fechados em Tel’aran’rhiod eram assim.
O que ela não esperava encontrar era a mulher de pé, do outro lado da espada reluzente de cristal, e espiando as sombras pálidas por entre as colunas. Egwene ficou surpresa com a forma como ela estava vestida. Pés descalços e calças largas de seda amarela com brocados. Acima do cinturão amarelo, mais escuro, a mulher estava nua, exceto pelas correntes douradas que pendiam do pescoço. Pequeninas argolas de ouro decoravam as orelhas em fileiras cintilantes, e, o mais espantoso de tudo, outra argola perfurava o nariz, e uma fina corrente de medalhões enfileirados ia da argola do nariz até uma das da orelha esquerda.
— Elayne? — indagou Egwene, em um arquejo, envolvendo o corpo com o xale como se fosse ela que estivesse sem blusa. Estava vestida como uma Sábia, desta vez, mas sem motivo aparente.
A Filha-herdeira deu um salto, e, quando parou de frente para Egwene, estava usando um recatado vestido verde-claro de gola alta e bordada, com mangas compridas cujas pontas cobriam as mãos. Sem brincos. Sem argola no nariz.
— É assim que as mulheres do Povo do Mar se vestem a bordo — explicou, mais do que depressa, com um rubor intenso no rosto. — Eu queria saber como é, e aqui pareceu o melhor lugar para testar. Afinal de contas, não dava para fazer isso no navio.
— E como é? — perguntou Egwene, curiosa.
— Bem frio, para dizer a verdade. — Elayne olhou as colunas ao redor. — E parece que todo mundo está olhando para você, mesmo quando não tem ninguém em volta. — Ela de repente começou a rir. — Pobres Thom e Juilin. Eles ficam sem saber para onde olhar. Metade da tripulação é de mulheres.
Analisando as colunas, Egwene deu de ombros, incomodada. Parecia mesmo que as duas estavam sendo observadas. Decerto porque eram as únicas pessoas na Pedra. Ninguém que tivesse acesso a Tel’aran’rhiod esperaria ver alguém por ali.
— Thom? Thom Merrilin? E Juilin Sandar? Eles estão com você?
— Ah, Egwene, Rand mandou os dois. Rand e Lan. Bom, Moiraine mandou Thom, na verdade, mas Rand mandou Mestre Sandar. Para nos ajudar. Nynaeve está bastante tensa com isso, com essa história do Lan, mas é claro que não demonstra.
Egwene conteve um sorrisinho. Nynaeve, tensa? O rosto de Elayne estava radiante, e o vestido mudara outra vez para um com decote muito mais baixo. Aparentemente, acontecera sem que ela percebesse. O ter’angreal, o anel de pedra retorcido, ajudava a Filha-herdeira a encontrar o Mundo dos Sonhos com tanta facilidade quanto Egwene tinha para fazê-lo, mas não conferia controle. Isso tinha que ser aprendido. Pensamentos aleatórios — como o que ela gostaria de usar para Rand — ainda eram capazes de alterar a aparência de Elayne.