— Mas o que é isso? — perguntou Siuan, bruscamente, fechando a caixa de madeira preta com um estalido. Ela pôs-se de pé no mesmo instante e caminhou até a escrivaninha, pisando firme. Primeiro Moiraine, agora isso! — Se é sobre questões tairenas, Elaida, eu esperava mais de você do que ficar metendo outras nisso. E entrar aqui como se estivesse na cozinha da sua mãe! Peça desculpas e saia, antes que eu faça você desejar voltar a ser uma noviça ignorante!
A ira gélida da mulher deveria ter posto todas as outras para correr, mas, embora algumas remexessem os pés, meio incomodadas, ninguém fez menção de sair. A pequena Danelle, inclusive, deu um sorrisinho malicioso. Tranquilamente, Elaida estendeu a mão e puxou a estola listrada dos ombros de Siuan.
— Você não vai mais precisar disso aqui. Você nunca foi digna dela, Siuan.
O choque petrificou a língua de Siuan. Aquilo era loucura. Era impossível. Furiosa, ela se abriu para saidar… e sofreu o segundo choque. Havia uma barreira entre ela e a Fonte Verdadeira, feito uma parede espessa de vidro. Ela encarou Elaida, incrédula.
Como se fosse um deboche, o brilho de saidar surgiu em Elaida. Ela permaneceu impotente enquanto a irmã Vermelha urdia fluxos de Ar ao seu redor, dos ombros à cintura, esmagando seus braços na lateral do corpo. Ela mal conseguia respirar.
— Vocês estão loucas! — gritou. — Todas! Vou arrancar o couro de vocês por isso! Me soltem! — Ninguém respondeu; as mulheres praticamente a ignoravam.
Alviarin revirou os papéis na mesa, rapidamente, porém sem pressa. Joline, Danelle e outras começaram a derrubar os livros nos suportes e chacoalhá-los para ver se alguma coisa caía de dentro. A irmã Branca soltou um pequeno chiado de irritação por não encontrar o que procurava na mesa, então abriu a caixa de madeira preta. No mesmo instante a caixa irrompeu em chamas.
Alviarin pulou para trás, gritando e sacudindo a mão, já com bolhas se formando.
— Protegida — resmungou, com mais raiva do que Siuan jamais vira uma Branca demonstrar. — Tão fraco que eu só senti tarde demais. — Nada restava da caixa e seu conteúdo além de um monte de cinza sobre um quadrado chamuscado na mesa.
O rosto de Elaida não exibia frustração.
— Eu prometo a você, Siuan, que vai me contar cada palavra do que foi queimado, para quem era dirigida e com que objetivo.
— Vocês só podem estar possuídas pelo Dragão! — vociferou Siuan. — Vou arrancar o seu couro por isso, Elaida. O de todas vocês! Vocês terão sorte se o Salão da Torre não votar pelo estancamento de todas!
O sorrisinho de Elaida não lhe alcançava os olhos.
— O Salão se reuniu não faz nem uma hora, com quórum de Votantes dentro da lei, e por votação unânime, conforme requerido, você não é mais Amyrlin. Está feito, e viemos aqui para executar a decisão.
O estômago de Siuan congelou, e uma vozinha em sua mente ganiu: O que é que elas sabem? Luz, quanto será que elas sabem? Idiota! Mulher cega, idiota! Ela manteve a expressão serena, no entanto. Não era a primeira vez que se via encurralada. Uma menina de quinze anos munida apenas de uma faca de peixe, arrastada para um beco por quatro grosseirões de olhos duros e barrigas cheias de vinho — aquela havia sido uma situação muito mais difícil de escapar. Foi o que disse a si mesma.
— De acordo com a lei? — questionou, com desprezo. — Um quórum mínimo, cheio das suas amigas e das que você consegue influenciar ou intimidar. — O fato de Elaida ter convencido um pequeno número de Votantes que fosse já era suficiente para lhe secar a garganta, mas ela não deixaria isso transparecer. — Quando o Salão inteiro se reunir, com todas as Votantes, você vai perceber o seu erro. Tarde demais! Nunca houve uma rebelião dentro da Torre; daqui a mil anos elas vão usar o seu destino para ensinar às noviças o que acontece com as dissidentes. — Expressões de dúvida se formaram em alguns rostos; parecia que Elaida não conduzia suas conspiradoras com o pulso tão firme quanto imaginava. — Está na hora de você parar de tentar furar o casco e começar a baldear a água. Não é tarde demais nem para você, Elaida.
Elaida aguardou com uma frieza contida até a outra terminar. Então um tapa forte acertou o rosto de Siuan; ela cambaleou, e pontinhos pretos e prateados lhe embaçaram a visão.
— Você está acabada — declarou Elaida. — Você achou que eu… que nós iríamos permitir que destruísse a Torre? Levem essa mulher!
Siuan tropeçou quando duas Vermelhas a empurraram. Mal conseguindo equilibrar-se, ela cravou os olhos nas duas, mas seguiu na direção que mandaram. Com quem teria de falar a respeito daquilo? Fosse lá que acusações as mulheres tivessem feito, seria capaz de refutá-las, em seu dado momento. Até as acusações que envolviam Rand; não era possível envolvê-la em algo mais que rumores, e ela havia jogado o Grande Jogo por muito tempo para ser derrubada por rumores. A não ser que elas estivessem com Min; Min poderia transformar os rumores em verdades. Ela rangeu os dentes. Que a minha alma queime, vou jogar esse bando aos peixes!
Na antessala, ela tropeçou de novo, mas dessa vez não foi por conta de um empurrão. Guardava certa esperança de que Leane estivesse fora de seu posto, mas a Curadora estava parada na mesma posição que Siuan, com os braços rígidos ao lado do corpo, a boca se mexendo sem som, furiosa, envolta em uma mordaça de Ar. Ela decerto sentira Leane sendo presa e nem percebera; na Torre sempre havia mulheres canalizando.
No entanto, não foi a visão de Leane que a fez tropeçar, mas o homem alto, magro e grisalho caído no chão com uma faca cravada nas costas. Alric fora seu Guardião durante quase vinte anos, e jamais reclamara por terem que permanecer na Torre, jamais resmungara quando o trabalho de Guardião da Amyrlin o faria ficar a léguas de distância dela, algo que nenhum Gaidin apreciava.
Ela pigarreou para limpar a garganta, porém sua voz ainda saiu rouca:
— Vou mandar arrancar seu couro e estirar no sol por isso, Elaida. Eu juro!
— Pense no seu próprio couro, Siuan — retrucou Elaida, aproximando-se para encará-la. — Tem mais coisa nessa história do que foi revelado até agora. Eu sei disso. E você vai me contar tudinho, até o fim. Até… o… fim. — A calma súbita em sua voz era mais aterradora do que todos os olhares severos. — Eu prometo, Siuan. Levem a mulher para baixo!
Agarrada a rolos de seda azul, Min adentrou o Portão Norte perto do meio-dia, com um sorrisinho já pronto para os guardas com a Chama de Tar Valon no peitoral, além do floreio nas saias verdes, como Elmindreda fazia. Inclusive, já começara o floreio antes de perceber que não havia guardas. A pesada porta com correias de ferro do posto de guarda, em formato de estrela, estava aberta; o posto em si parecia vazio. Era impossível. Nunca um portão de entrada para os muros da Torre ficava desguarnecido. A meio caminho da imensa coluna branca da Torre propriamente dita, uma cortina de fumaça se erguia das árvores. Parecia próxima dos alojamentos dos jovens que treinavam com os Guardiões. Talvez o fogo tivesse atraído os guardas.
Ainda um pouco incomodada, ela começou a descer a trilha sem pavimento da parte arborizada dos muros, ajeitando os panos de seda. Na verdade, não queria outro vestido, mas como poderia recusar quando Laras enfiara uma bolsa de prata em suas mãos e a mandara usar na compra da tal seda que a mulher robusta tinha visto? Alegava ser bem da cor que ressaltaria o tom de pele de “Elmindreda”. Se ela queria ou não ter seu tom de pele ressaltado não importava tanto quanto preservar a boa vontade de Laras.