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— Quantos resistirão, Rhuarc? Ou se oporão a mim? Você arriscou um palpite, mas nunca disse com certeza.

— Não dá para ter certeza — respondeu o chefe de clã, com o cachimbo na boca. — Quando você mostrar os Dragões, eles o reconhecerão. Não há como imitar os Dragões de Rhuidean. — Os olhos de Moiraine teriam se movido? — É de você que as profecias falam. Vou apoiá-lo, e Bruan sem dúvida também, assim como Dhearic, dos Aiel Reyn. Os outros…? Sevanna, esposa de Suladric, levará os Shaido, já que o clã não tem chefe. Ela é jovem para ser a senhora do teto de um forte, e sem dúvida não está nada satisfeita em passar a ter apenas um teto, e não um forte inteiro, quando no substituto de Suladric for escolhido. E Sevanna é astuta e indigna de confiança, como qualquer Shaido que já nasceu. Mas, mesmo que ela não cause problemas, você sabe que Couladin vai causar. Ele age como chefe de clã, e pode ser que alguns Shaido acabem seguindo o tolo, mesmo que ele não adentre Rhuidean. Os Shaido são idiotas o bastante para uma coisa dessas. Han, dos Tomanelle, pode ir para qualquer direção. Ele é o tipo de homem de pavio curto, difícil de conhecer e de lidar, e…

Rhuarc parou de falar quando Lian murmurou, baixinho:

— Tem algum outro tipo?

Rand imaginou que não fosse para o chefe de clã escutar. Amys escondeu um sorriso por trás da mão, e a esposa-irmã enterrou o rosto inocentemente na caneca de vinho.

— Como eu estava dizendo — continuou Rhuarc, olhando resignado para as esposas — não dá para ter certeza. A maioria vai seguir você. Talvez todo mundo. Talvez até os Shaido. Esperamos três mil anos pelo homem que tem a marca de dois Dragões. Quando você mostrar os braços, ninguém vai duvidar de que foi enviado para nos unir. — E para destruí-los. Mas o Aiel não mencionou essa parte. — A questão é como eles vão decidir reagir. — Ele bateu com o fornilho do cachimbo nos dentes, pensativo. — Você não vai mudar de ideia e vestir o cadin’sor?

— E mostrar o que a eles, Rhuarc? Um falso Aiel? É melhor vestir Mat de Aiel. — Mat engasgou com o próprio cachimbo. — Não vou fingir. Eu sou o que sou, e eles vão ter que me aceitar como eu sou. — Rand ergueu os punhos, e as mangas do casaco caíram e revelaram as cabeças de crinas douradas logo acima das costas das mãos. — Isso aqui prova quem eu sou. Se não for suficiente, nada mais será.

— Onde você pretende “guiar as lanças outra vez para a guerra”? — perguntou Moiraine, de repente.

Mat engasgou de novo, agarrando o cachimbo e encarando a mulher. Os olhos escuros da Aes Sedai já não estavam mais semicerrados.

Rand cerrou os punhos até estalar as juntas. Tentar ser esperto com ela era perigoso, já devia ter aprendido isso havia muito tempo. A mulher recordava cada palavra que ouvia, arquivava, recuperava e examinava até entender exatamente o significado.

Ele se levantou devagar. Todos o observavam. Egwene parecia ainda mais preocupada do que Mat, mas os Aiel apenas assistiam. Falar de guerra não os incomodava. Rhuarc parecia… pronto. E o rosto de Moiraine guardava uma calma fria.

— Se vocês me dão licença — disse — eu vou caminhar um pouco.

Aviendha ficou de joelhos, e Egwene se levantou, mas nenhuma das duas foi atrás dele.

50

Armadilhas

Fora da casa, no caminho pavimentado de pedras entre a casa de tijolos amarelos e a horta da plataforma, Rand parou para observar o cânion abaixo, mas não via muita coisa além das sombras do fim de tarde que subiam aos poucos pelo chão. Se pelo menos pudesse confiar que Moiraine não o entregaria à Torre em uma coleira… Não tinha dúvidas de que ela seria capaz disso, e sem usar o Poder uma única vez, caso ele desse a menor brecha. A mulher conseguiria fazer um touro a entrar na toca de um rato sem que o animal sequer percebesse. Poderia ser útil. Luz, sou tão ruim quanto ela. Usar os Aiel. Usar Moiraine. Se pelo menos eu pudesse confiar nela.

Foi andando em direção à entrada do cânion, descendo todos as ladeiras que levavam até lá. Eram caminhos estreitos, pavimentados de pedras pequenas, os mais íngremes com degraus entalhados. O ecoar de martelos em diversas ferrarias soava familiar. Nem todas as construções eram casas. Por uma porta aberta, viu diversas mulheres trabalhando em teares, e, por outra, uma prateira pendurando os martelinhos e goivas. Por uma terceira, um homem diante de uma roda de oleiro, com as mãos no barro e fornos quente de olaria atrás. Homens e meninos, exceto pelos muito jovens, usavam o cadin’sor, uma faca pequena de cintura ou lâmina nenhuma, às vezes uma shoufa sem o véu preto amarrado. Ainda assim, ao observar um ferreiro pôr o cabo na lança para a qual acabara de preparar uma lâmina de um pé de comprimento, Rand não teve dúvidas de que o homem seria capaz de utilizar a arma com tanta agilidade quanto a fabricara.

Os caminhos não estavam cheios, mas havia bastante gente transitando. Crianças gargalhavam, correndo e brincando, as garotinhas menores carregavam tanto bonecas quanto lanças de brinquedo. Gai’shain levavam enormes jarros de barro na cabeça ou podavam os jardins, em geral sob o comando de uma criança de dez ou doze anos. Homens e mulheres seguiam com suas vidas, nada muito diferente das coisas que talvez fizessem em Campo de Emond, como varrer a soleira da porta de casa ou consertar uma parede. As crianças mal olhavam para ele, apesar do casaco vermelho e das botas de sola grossa, e os gai’shain eram tão discretos que ficava difícil dizer se o notavam ou não. No entanto, os artesãos e os combatentes, homens e mulheres adultos, o encaravam com ares de especulação, com uma pontada de dúvida e expectativa.

Garotos muito jovens corriam descalços, vestidos em robes bastante parecidos com os dos gai’shain, mas no tom marrom acinzentado do cadin’sor, em vez de brancos. As meninas mais novas também corriam descalças para lá e para cá, em vestidinhos curtos que às vezes não chegavam a cobrir os joelhos. Uma coisa nas meninas lhe chamou a atenção: as que tinham menos de doze anos, mais ou menos, usavam os cabelos em duas tranças amarradas com fitas de cores vivas, uma sobre cada orelha. Exatamente como as que Egwene usara. Só podia ser coincidência. Ela devia ter desfeito as tranças porque as Sábias contaram a ela que era assim que as menininhas Aiel usavam os cabelos. De todo modo, era uma bobagem pensar a respeito. Ele agora tinha uma mulher com quem lidar. Aviendha.

Na base do cânion, os mascates estavam engajados em negociações animadas com a multidão de Aiel que fervilhava ao redor dos carroções com coberturas de lona. Pelo menos os condutores estavam. Keille, com um xale de renda azul preso aos pentes de marfim, barganhava com firmeza em um tom de voz alto. Kadere estava sentado em um barril virado para baixo, à sombra do carroção branco. Usava um casaco cor-de-creme e não parava de secar o suor do rosto, sem fazer qualquer esforço para vender. Olhou para Rand e fez menção de se levantar, mas afundou de volta no barril. Isendre não estava em qualquer canto à vista, mas, para surpresa de Rand, Natael estava por lá, o manto coberto de retalhos atraindo uma tropa de crianças e alguns adultos. Aparentemente, o encanto de uma nova e maior audiência o afastara dos Shaido. Ou talvez Keille apenas não o quisesse fora de vista. Por mais absorta que estivesse na negociação, a mulher ainda encontrava tempo de franzir o cenho para o menestrel.

Rand evitou os carroções. Ao perguntar aos Aiel, descobriu aonde os Jindo tinham ido: cada um para o teto de sua sociedade, ali nas Pedras Frias. O Teto das Donzelas ficava na metade do caminho até a muralha leste do cânion, um lugar ainda bastante iluminado. Era um retângulo de pedra cinza encimado por um jardim, sem dúvida maior por dentro do que parecia por fora. Não que desse para ver o interior. Um par de Donzelas acocoradas ao lado da porta, portando lanças e broquéis, barrou sua entrada, achando muito engraçado e escandaloso que um homem desejasse entrar, mas uma delas concordou em repassar seu pedido.