— Sua terra está em guerra com Arad Doman — disse Egeanin, em um tom quase de irritação. — Por que você serve os pratos típicos do seu inimigo?
Rendra deu de ombros, fazendo um bico de desagrado por detrás do véu; naquele dia a mulher usava o tom de vermelho mais claro possível, e contas da mesma cor nas tranças finas, que faziam uns estalidos quando ela mexia a cabeça.
— É a mais nova moda. Quatro dias atrás o Jardim das Brisas de Prata começou com isso, e agora todos os fregueses pedem comida domanesa. Acho que talvez seja para conquistar a culinária domanesa, já que não conseguimos conquistar os domaneses. Talvez em Bandar Eban eles comam o cordeiro com o molho de mel e as maçãs em calda, sim? Daqui a mais quatro dias, pode ser que seja outra coisa. A moda hoje em dia muda rápido, e se alguém começar a incitar o povo contra isso… — Ela deu de ombros outra vez.
— Você acha que vai haver mais motins? — perguntou Elayne. — Por conta do tipo de comida que as estalagens estão servindo?
— Elas estão indóceis, as ruas — afirmou Rendra, gesticulando de um jeito fatalista. — Quem é que sabe o que vai atiçar esse povo outra vez? O alvoroço de anteontem, ele veio de um boato de que Maracru tinha se declarado em favor do Dragão Renascido, ou talvez sucumbido aos Devotos do Dragão, ou talvez aos rebeldes. Como, exatamente, parece que fez pouca diferença, mas aí a multidão ataca o povo de Maracru? Não. Eles saem se atacando pelas ruas, puxando gente das carruagens, depois incendeiam o Grande Salão da Assembleia. Talvez chegue a notícia de que o exército ganhou ou perdeu uma batalha, e o povo se rebele contra quem serve comida domanesa. Ou talvez incendeie armazéns no cais de Calpene. Quem é que sabe?
— A ordem foi-se embora — resmungou Egeanin, encaixando as sursas com firmeza entre os dedos da mão direita. Pela expressão em seu rosto, poderiam ser adagas que ela usaria para golpear a comida nas tigelas. Um pedaço de carne caiu das sursas de Nynaeve bem próximo à boca; rosnando, ela o pegou do colo, dando uma batidinha na seda cor de creme com o guardanapo.
— Aah, ordem — comentou Rendra, com uma risada. — Eu me lembro da ordem. Talvez retorne algum dia, sim? Alguns pensavam que a Panarca Amathera colocaria a Guarda Civil de volta aos seus afazeres, mas, se eu fosse ela, com a lembrança do povo brigando do lado de fora da minha investidura… os Filhos da Luz, eles mataram muitos dos desordeiros. Talvez isso seja indício de que não vai haver outro motim, mas talvez signifique que o próximo motim, ele vai ser duas vezes maior, ou dez vezes. Eu acho que eu, também, manteria a Guarda e os Filhos bem perto de mim. Mas isso não é conversa para perturbar o jantar. — Examinando a mesa, a mulher assentiu para si mesma, as contas nas trancinhas chacoalhando. Ao virar-se para a porta, ela parou, com um sorriso singelo. — É moda comer a comida domanesa com as sursas, e é claro que a gente segue a moda. Mas… não tem ninguém aqui para ver além de vocês mesmas, não é? Se por acaso desejarem as colheres e os garfos, estão debaixo do guardanapo. — Ela apontou para a bandeja na extremidade da mesa. — Aproveitem.
Nynaeve e Egeanin esperaram até que a porta se fechasse atrás da estalajadeira, depois sorriram uma para a outra e agarraram a bandeja, com uma afobação decidida e indecorosa. Elayne conseguiu alcançar os talheres primeiro; nenhuma das outras tivera de comer depressa, nos poucos minutos entre as tarefas e as aulas de uma noviça.
— Até que é bem gostoso — disse Egeanin, na primeira garfada cheia —, quando a gente consegue colocar na boca. — Nynaeve riu com ela.
Nos sete dias desde que encontraram a mulher de cabelos escuros, olhos azuis penetrantes e fala arrastada, as duas passaram a gostar dela. Era um refresco da tagarelice de Rendra a respeito de cabelos, roupas e tons de pele, ou das olhadelas do povo nas ruas que parecia que degolaria as duas em troca de um cobre. Era a quarta visita dela desde aquele primeiro encontro, e Elayne havia gostado de todas. Egeanin tinha uma franqueza e um ar de independência que ela admirava. A mulher podia ser apenas uma pequena negociante de tudo o que lhe cruzasse o caminho, mas seria capaz de desafiar Gareth Bryne dizendo o que lhe vinha à mente e não se curvando diante de ninguém.
Ainda assim, Elayne preferia que as visitas não fossem tão frequentes. Ou pelo menos que ela e Nynaeve não tivessem passado tanto tempo no Jardim das Três Ameixeiras, à disposição de Egeanin. No entanto, os motins quase constantes desde a investidura de Amathera praticamente impossibilitaram a circulação pela cidade, apesar da proteção dos marujos durões de Domon. Até Nynaeve havia admitido, depois que as duas chegaram ao ponto de precisar fugir de uma chuva de pedras do tamanho de punhos. Thom ainda prometia encontrar uma carruagem e parelha para elas, mas Elayne não estava muito confiante de que o homem estivesse procurando com afinco. Tanto ele quanto Juilin pareciam insuportavelmente satisfeitos em ver as duas presas dentro da estalagem. Eles voltam machucados e sangrando e não querem que a gente dê nem sequer uma topada com o dedão, pensou ela, irônica. Por que os homens sempre achavam que era correto manter as mulheres mais seguras do que mantinham a si mesmos? Por que consideravam os ferimentos deles menos importantes?
Pelo sabor da carne, ela imaginou que Thom encontraria na cozinha os cavalos que procurava. A ideia de comer cavalos lhe deu um embrulho no estômago. Ela escolheu uma tigela que continha apenas vegetais, pedacinhos de cogumelos escuros, pimentões e um tipo de broto com folhas verdes em um molho claro e de sabor forte.
— O que vamos conversar hoje? — perguntou Nynaeve a Egeanin. — Você já fez quase todas as perguntas que eu posso imaginar. — De qualquer modo, todas para as quais elas tinham resposta. — Se quiser saber mais sobre Aes Sedai, vai ter de ir para a Torre e virar noviça.
Egeanin se encolheu inconscientemente, como fazia ao ouvir qualquer palavra que a ligasse ao Poder. Por um instante, a mulher revirou o conteúdo de uma das tigelinhas, encarando-a de cenho franzido.
— Vocês não fizeram nenhum esforço real — disse ela, devagar — para esconder de mim que estão à procura de alguém. Mulheres. Sem querer me intrometer nos seus planos, gostaria de saber… — Ela parou de falar ao ouvir uma batida na porta.
Bayle Domon entrou a passos firmes, sem esperar, com uma satisfação lúgubre lutando com o desconforto em seu rosto redondo.
— Eu encontrei as mulheres — começou ele, então levou um susto ao ver Egeanin. — Você!
Surpreendentemente, Egeanin deu um salto, derrubando a cadeira, e golpeou Domon com o punho cerrado, quase mais ligeira do que um piscar de olhos. Domon conseguiu dar um jeito de agarrar o pulso da mulher com a mão grande e torceu-o — houve um instante em que os dois pareciam tentar enganchar o tornozelo um do outro com o pé; Egeanin tentou golpeá-lo na garganta e acabou caindo de cara no chão, a bota de Domon em seu ombro e o braço alavancado bem para o alto, contra o joelho dele. Apesar disso, conseguiu soltar a faca de cintura.
Elayne soltou fluxos de Ar ao redor dos dois antes que ela mesma percebesse que havia abraçado saidar, imobilizando-os.
— O que significa isso? — indagou, no tom mais gélido possível.
— Como o senhor ousa, Mestre Domon? — A voz de Nynaeve era igualmente fria. — Solte a mulher! — Em um tom mais terno e preocupado, acrescentou: — Egeanin, por que foi que você tentou bater nele? Eu já disse para soltá-la, Domon!
— Ele não consegue, Nynaeve. — Elayne desejava muito que a outra pudesse pelo menos enxergar com clareza os fluxos sem estar irritada. Ela realmente tentou bater nele antes. — Egeanin, por quê?
A mulher de cabelos escuros ficou ali parada, os olhos fechados e a boca contraída. Ela agarrava a faca com tanta força que as juntas de seus dedos estavam brancas.