Nynaeve resmungou sozinha, talvez decepcionada por não ver a Aes Sedai tropeçar nas próprias palavras.
— Isso nos põe exatamente onde estávamos — suspirou Egwene. — Sem saber qual das duas está mentindo ou se ambas estão.
— Interroguem as duas de novo, se quiserem — disse Moiraine. — Vocês têm até a hora em que elas entrarem no navio, embora eu duvide muito de que qualquer uma delas vá mudar o discurso. Meu conselho é que se concentrem em Tanchico. Se Joiya estiver falando a verdade, serão necessários Aes Sedai e Guardiões para vigiar Mazrim Taim, não apenas vocês três. Mandei um aviso à Amyrlin por pombo-correio quando ouvi a história de Joiya pela primeira vez. Na verdade, enviei três pombos, para garantir que um chegará à Torre.
— Que gentileza sua nos manter informadas — murmurou Elayne, com frieza. A mulher fazia mesmo o que queria. O fato de as três estarem apenas fingindo serem Aes Sedai plenas não era motivo para que Moiraine as deixasse de fora. A Amyrlin enviara elas três à caça da Ajah Negra.
Moiraine inclinou a cabeça em um movimento ligeiro, como se aceitasse de verdade o agradecimento.
— Não há de quê. Lembrem-se de que vocês são os sabujos que a Amyrlin mandou atrás da Ajah Negra. — O leve sorriso ao notar o susto de Elayne revelava que ela sabia exatamente o que a jovem acabara de pensar. — A decisão em relação ao caminho a seguir deve partir de vocês. E vocês também já deixaram isso claro para mim — acrescentou, secamente. — Confio que será uma decisão mais fácil do que a minha. E confio também que vocês três dormirão bem o sono que ainda restar antes de o dia nascer. Tenham uma boa noite.
— Essa mulher… — resmungou Elayne, depois que a porta bateu atrás da Aes Sedai. — Tem horas que sinto vontade de estrangulá-la.
Ela desabou em uma das cadeiras diante da mesa e pôs-se a encarar as mãos sobre o colo.
Nynaeve deu um grunhido, talvez em concordância, enquanto andava até uma mesa estreita na parede oposta, onde havia cálices de prata e jarros de especiarias ao lado de dois cântaros. Um deles, cheio de vinho, estava dentro de um vaso de gelo já quase todo derretido, trazido da Espinha do Mundo embalado em baús de serragem. Gelo no verão, para refrescar as bebidas dos Grão-senhores. Elayne mal podia imaginar tal coisa.
— Uma bebida gelada antes de dormir fará muito bem a todas nós — disse Nynaeve, ocupando-se do vinho, da água e das especiarias.
Elayne ergueu a cabeça quando Egwene tomou uma cadeira a seu lado.
— Você estava falando a verdade, Egwene? Em relação a Rand? — Egwene assentiu, e Elayne suspirou. — Você se lembra do que Min costumava dizer? Todas as piadas sobre dividi-lo? Às vezes eu me pergunto se isso não foi alguma visão que ela não quis nos contar. Achava que ela queria dizer que nós duas o amávamos, e sabia disso. Mas você tinha direito a ele, e eu não sabia o que fazer. Ainda não sei. Egwene, ele ama você.
— Ele vai ter que ficar a par da situação — respondeu Egwene, com firmeza. — Quando eu me casar, vai ser porque quero, não só porque um homem espera que eu o ame. Serei delicada com ele, Elayne, mas, antes de eu terminar, ele saberá que está livre. Quer queira ou não. Minha mãe diz que os homens são diferentes de nós. Ela diz que nós queremos estar apaixonadas, mas só por aquele que escolhemos, enquanto um homem precisa estar apaixonado, mas amará a primeira mulher que envolver seu coração.
— Isso é tudo muito bonito — disse Elayne, com a voz tensa — mas Berelain foi aos aposentos dele.
Egwene fungou com desdém.
— Seja lá o que Berelain pretende, ela não vai manter o foco em um homem por tempo suficiente para fazer com que ele a ame. Dois dias atrás estava lançando olhares para Rhuarc. Daqui a dois estará sorrindo para algum outro. Ela é como Else Grinwell. Vocês lembram? A noviça que passava o tempo inteiro nos pátios de treinamento batendo os cílios para os Guardiões?
— Ela não estava só batendo os cílios no quarto dele a uma hora dessas. Estava usando até menos do que o normal, se é que isso é possível!
— Então vai deixar que ela fique com ele?
— Não! — retrucou Elayne, feroz, e com vontade, mas, ao respirar outra vez, foi tomada pelo desespero. — Ah, Egwene, eu não sei o que fazer. Eu o amo. Quero me casar com ele. Luz! O que é que a minha mãe vai dizer? Prefiro passar uma noite na cela com Joiya do que ouvir os sermões que a minha mãe vai me passar.
Os nobres andorianos, mesmo nas famílias reais, casavam-se com plebeus com tanta frequência que já nem suscitava mais falatório, pelo menos não em Andor. No entanto, Rand não era exatamente o que se poderia chamar de plebeu comum. A mãe era bem capaz de acabar chamando Lini para arrastá-la de volta para casa pelos cabelos.
— Se Mat estiver dizendo a verdade, Morgase não está em grandes condições de dar palpites em relação a isso — disse Egwene, em um tom reconfortante. — Ou pelo menos se estiver dizendo meia verdade. Esse Lorde Gaebril, para quem sua mãe está se derretendo, nem parece a escolha de uma mulher inteligente como ela.
— Tenho certeza de que Mat exagerou — retrucou Elayne, empertigada.
A mãe dela era muito sagaz para ser feita de boba por qualquer homem. Se esse tal de Lorde Gaebril — de quem ela nunca ouvira falar antes de Mat mencioná-lo — se esse sujeito sonhava em obter poder por meio de Morgase, dentro em breve ela o poria nos trilhos.
Nynaeve levou até a mesa três cálices de vinho com especiarias com gotículas de condensação correndo pelas laterais brilhosas, todos em pequenos suportes de palha verde e dourada trançada para impedir que a umidade arruinasse o polimento da madeira.
— Então — disse, tomando uma cadeira — Elayne, você descobriu que está apaixonada por Rand, e Egwene descobriu que não está.
As duas mulheres mais jovens a olharam, boquiabertas, um par de olhos escuros e um de claros, ambos a imagem da perplexidade.
— Eu tenho olhos — disse Nynaeve, cheia de si. — E ouvidos, quando vocês não se dão ao trabalho de sussurrar. — Ela bebericou o vinho e prosseguiu, com a voz ainda mais fria: — O que pretende fazer a respeito? Se aquela desgraçada da Berelain puser as garras nele, não vai ser fácil soltá-las. Tem certeza de que quer se dar ao trabalho? Você sabe o que ele é. Sabe o que o aguarda, mesmo deixando as Profecias de lado. Loucura. Morte. Quanto tempo ele ainda tem? Um ano? Dois? Ou será que vai começar antes do fim do verão? Ele é um homem capaz de canalizar. — Ela proferiu cada palavra como ferro. — Lembre-se do que aprendeu. Lembre-se do que ele é.
Elayne ergueu a cabeça e enfrentou Nynaeve, olho no olho.
— Não importa. Talvez devesse importar, mas não importa. Talvez eu esteja sendo tola. Não ligo. Não posso comandar o meu coração, Nynaeve.
De repente, Nynaeve sorriu.
— Eu precisava ter certeza — disse, com a voz carinhosa. — Você precisa ter certeza. Já não é fácil amar um homem qualquer, mas amar este será ainda mais difícil. — Quando ela prosseguiu, o sorriso morreu. — Minha primeira pergunta ainda está sem resposta. O que pretende fazer a respeito? Berelain pode parecer suave, e decerto faz os homens acreditarem nisso! Mas não acredito que seja. Ela vai lutar pelo que quer. E é do tipo que se agarra com força a algo, mesmo que não o deseje tanto assim, apenas porque outra pessoa deseja.
— Eu queria enfiar essa mulher em um barril — resmungou Egwene, agarrando o cálice como se fosse a garganta da Primeira — e mandá-la de volta a Mayene. Bem no fundo do porão do navio.
A trança de Nynaeve balançou junto com a cabeça.
— Que ótimo, mas tente oferecer um conselho que ajude. Se não for capaz, fique em silêncio e deixe que ela decida o que fazer. — Egwene a encarou, e Nynaeve acrescentou: — Rand é problema de Elayne agora, não seu. Lembre-se, você se retirou.