A observação deveria ter feito Elayne sorrir, mas não fez.
— Era para isso tudo ser diferente. — Suspirou. — Pensei que fosse encontrar um homem, passaria a conhecê-lo ao longo de meses ou anos, e aos poucos perceberia que o amo. Sempre pensei que seria assim. Eu mal conheço Rand. Não falei com ele mais de meia dúzia de vezes em um ano. Mas soube que o amava cinco minutos depois de pôr os olhos nele. — O que era estúpido. Mas era verdade, e ela não se importava que fosse estúpido. Diria o mesmo diante da mãe e de Lini. Bem, talvez não de Lini, que tinha uma forma drástica de lidar com a estupidez, e parecia pensar que Elayne ainda tinha dez anos. — Porém, dada a situação atual, eu não tenho sequer o direito de ficar irritada com ele. Ou com Berelain. — Mas estava. Eu queria estapear a cara dele até os ouvidos ficarem estalando durante um ano! Queria encher aquela mulher de varadas até metê-la no navio de volta para Mayene! Mas não tinha esse direito, o que tornava tudo pior. Um tom lamentoso e irritante dominou sua voz: — O que é que eu posso fazer? Ele nunca nem reparou em mim.
— Em Dois Rios — começou Egwene, devagar — quando uma mulher deseja mostrar a um homem que está interessada, põe flores nos cabelos dele no Bel Tine ou no Dia do Sol. Ou borda uma camisa de festival para ele durante um dia qualquer. Ou faz questão de tirar apenas ele para dançar. — Elayne lançou a ela um olhar incrédulo, e Egwene se apressou em acrescentar: — Não estou sugerindo que você borde uma camisa, mas existem formas de revelar os seus sentimentos.
— O povo de Mayene acredita em falar as coisas abertamente. — A voz de Elayne parecia frágil. — Talvez seja o melhor caminho. Pelo menos ele vai saber como eu me sinto. Pelo menos terei algum direito de…
Ela agarrou o vinho com especiarias e o virou na boca, jogando a cabeça para trás. Falar abertamente? Como uma assanhada de Mayene!? Pousou o cálice vazio de volta no pequeno descanso, respirou fundo e murmurou:
— O que será que a minha mãe vai dizer?
— O mais importante — disse Nynaeve, com delicadeza — é o que você vai fazer quando tivermos que ir embora. Seja para Tanchico, para a Torre ou para qualquer outro lugar, teremos que partir. O que é que vai fazer se logo depois de se declarar a ele tiver de deixá-lo? E se ele pedir para você ficar? E se você quiser ficar?
— Eu vou embora. — Não houve hesitação na resposta de Elayne, mas um toque de rispidez. Aquela pergunta não era necessária. — Se eu devo aceitá-lo como Dragão Renascido, ele deve aceitar que sou o que sou, e que tenho obrigações. Quero ser Aes Sedai, Nynaeve. Isso não é uma diversão passageira. Assim como a tarefa que temos de cumprir. Acha mesmo que eu abandonaria você e Egwene?
Egwene se apressou a assegurá-la de que o pensamento jamais passara por sua cabeça. Nynaeve fez o mesmo, mas devagar o bastante para acreditar na própria mentira.
Elayne olhou para uma, depois para a outra.
— Na verdade, temi que vocês fossem me dizer que eu era uma idiota, choramingando por causa de uma coisa dessas enquanto temos a Ajah Negra com que nos preocupar.
Um leve tremeluzir dos olhos de Egwene revelou que o pensamento lhe ocorrera, mas Nynaeve respondeu:
— Rand não é o único que pode morrer ano que vem, ou mês que vem. Nós também podemos. Os tempos não são mais o que eram, e também não podemos ser o que éramos. Se você ficar sentada sonhando com o que deseja, talvez não chegue a ter seu sonho realizado antes do túmulo.
Era uma espécie de apoio meio frio, mas Elayne assentiu. Ela não estava sendo boba. Se pelo menos a questão da Ajah Negra pudesse ser decidida com tanta facilidade. Pressionou o cálice vazio na testa, para sentir o gelo. O que deviam fazer?
7
Brincando com fogo
Na manhã seguinte, assim que o sol despontou no horizonte, Egwene se apresentou à porta dos aposentos de Rand, acompanhada de uma Elayne que se arrastava. A Filha-herdeira usava um vestido de seda de mangas compridas, azul-claro, cortado à moda tairena e puxado para baixo depois de um breve debate. Um colar de safiras, intensas como o céu da manhã, e um cordão trançado nos cachos louro-avermelhados ressaltavam o azul de seus olhos. Apesar do calor úmido, Egwene usava nos ombros um cachecol liso, vermelho vivo, da largura de um xale. Aviendha emprestara o cachecol e as safiras. Surpreendentemente, a Aiel possuía uma ampla coleção desse tipo de coisas.
Apesar de saber que os guardas Aiel estavam ali, Egwene levou um susto quando eles se levantaram, deslizando, elegantes e com rapidez espantosa. Elayne deixou escapar um pequeno arquejo, mas logo os encarou com o olhar majestoso que sabia fazer tão bem. Parecia não exercer efeito algum sobre aqueles homens de peles curtidas. Os seis eram Shae’en M’taal, Cães de Pedra, e pareciam relaxados para Aiel, o que significava que pareciam olhar para todos os cantos, prontos a se mover em qualquer direção.
Egwene se empertigou, imitando Elayne — desejava poder fazer aquilo tão bem quanto a Filha-herdeira — e anunciou:
— Eu… nós… queremos ver como estão as feridas do Lorde Dragão.
A observação era claramente tola, caso os homens soubessem qualquer coisa sobre Curas, mas era pouco provável. Poucas pessoas sabiam, e os Aiel decerto tinham menos conhecimento do que a maioria. Não tinha intenção de informar o motivo para estarem ali — já bastava que as tomassem por Aes Sedai — mas, quando os Aiel quase saltaram do chão de mármore negro, aquilo de repente pareceu uma boa ideia. Não que os homens estivessem fazendo qualquer movimento para impedir as duas, claro que não. No entanto, eram todos tão altos, de feições tão empedernidas, e levavam as lanças curtas e os arcos de chifre como se usá-los fosse tão natural quanto respirar, até mais fácil. Com aqueles olhos claros a encará-la com tanta atenção, era fácil demais lembrar-se das histórias sobre os Aiel de véus negros, desprovidos de compaixão ou misericórdia, da Guerra dos Aiel e de homens como aqueles, que haviam derrotado até o último exército enviado para combatê-los, que só retornaram ao Deserto depois de lutar contra as nações aliadas por três dias e noites sangrentos, sem parar, diante de Tar Valon. Ela quase abraçou saidar.
Gaul, o líder dos Cães de Pedra, assentiu, olhando para ela e Elayne com certo respeito. Era um belo homem, meio maltratado pelo tempo, um pouco mais velho que Nynaeve, de olhos verdes, claros como pedras polidas, e cílios longos, tão escuros que pareciam delinear os olhos de preto.
— Podem estar incomodando. Ele acordou mal-humorado. — Gaul abriu um sorriso, apenas um lampejo dos dentes brancos, como se compreendesse o mau humor de um ferido. — Já acossou um grupo desses Grão-lordes e empurrou um deles para fora do quarto. Como era mesmo o nome?
— Torean — respondeu outro homem, ainda mais alto.
Carregava de forma quase displicente um arco curvo e curto, com uma flecha encaixada. Os olhos cinza pousaram nas duas mulheres por um instante, depois voltaram a examinar as colunas da antessala.
— Torean — concordou Gaul. — Pensei que o homem fosse deslizar até essas belas estátuas… — Ele apontou a lança para o círculo de Defensores, parados em uma postura rígida. — Mas parou umas três passadas antes. Perdi um bom reposteiro taireno para Mangin, todo de gaviões em fios de ouro. — O homem mais alto abriu um sorriso breve e contido.
Egwene piscou os olhos ao visualizar Rand arremessando um Grão-lorde pelo chão. O amigo nunca fora violento, muito pelo contrário. Será que estava mudado? Ela tinha andado muito ocupada com Joiya e Amico, e ele, muito ocupado com Moiraine, Lan e os Grão-lordes para que os dois se falassem mais do que de passagem, trocassem algumas palavras aqui e ali sobre como o festival do Bel Tine deveria ter sido aquele ano ou como seria o Dia do Sol. Tudo fora tão breve. Será que ele estava mudado?