— Rand não está doido — respondeu ela, sem pensar. Então Mat não estava tentando fugir. Era uma surpresa agradável. O rapaz não parecia acreditar em responsabilidade. Mas havia sofrimento e preocupação em sua voz. Mat nunca demonstrava preocupação, pelo menos não na frente de alguém. — Eu não sei as respostas, Mat — disse, com gentileza. — Talvez Moiraine…
— Não! — Ele deu um salto e se levantou. — Nada de Aes Sedai! Quer dizer… Você é diferente. Eu conheço você, você não é… Elas não ensinaram nada na Torre, algum truque ou coisa assim, alguma coisa que possa servir?
— Ah, Mat, eu lamento. Eu lamento muito.
A risada dele a fez lembrar-se da infância dos dois. Mat sempre ria quando tinha as grandes expectativas frustradas.
— Ah, bem, acho que não importa. Ainda seria um conselho da Torre, mesmo que de segunda mão. Não se ofenda.
Mat sempre reclamava horrores por uma farpa no dedo, mas tratava uma perna quebrada como se não fosse nada demais.
— Pode ser que haja um jeito — começou Egwene, com cautela. — Se Moiraine concordar. Talvez ela concorde.
— Moiraine! Você não ouviu uma palavra do que eu disse? A última coisa que quero é Moiraine se intrometendo. Que jeito?
Mat sempre fora impulsivo. Mas não queria mais do que ela própria: saber. Se ele ao menos demonstrasse um pouco de cautela e bom senso, para variar. Uma nobre tairena que passava, com tranças escuras enroladas na cabeça e ombros desnudos acima do linho amarelo, dobrou de leve o joelho, encarando os dois sem expressão. Ela caminhava depressa, as costas rijas. Egwene a observou até que ela saísse do alcance de sua voz e os dois estivessem sozinhos. A menos que os jardineiros, trinta pés abaixo, contassem. Mat a encarava, na expectativa.
No fim, ela contou a ele sobre o ter’angreal, o batente de porta retorcido que revelava respostas do outro lado. Enfatizou os riscos, as consequências das perguntas tolas e das respostas relativas à Sombra, perigos que talvez nem as Aes Sedai conhecessem. Ela estava mais do que lisonjeada por Mat tê-la procurado, mas o rapaz precisava demonstrar um pouco de bom senso.
— Lembre-se disso, Mat. Perguntas frívolas podem acabar matando. Então, se o usar, vai precisar agir com seriedade pela primeira vez na vida. E não pode perguntar nada relativo à Sombra.
Ele escutara com crescente incredulidade. Quando Egwene terminou, o rapaz exclamou:
— Três perguntas? Você entra como Bili, eu suponho, passa uma noite lá e volta dez anos depois com uma bolsa cheia de dinheiro que não esvazia nunca e um…
— Pela primeira vez na vida, Matrim Cauthon — retrucou ela, irritada —, pare de bancar o idiota. Você sabe muito bem que ter’angreal não são histórias. Precisa tomar cuidado com os perigos. Talvez as respostas que procura estejam dentro desse, mas você não pode fazer nada sem a autorização de Moiraine. Tem que me prometer isso, ou juro que arranco você de lá como uma truta encordoada. Sabe que eu consigo.
Ele bufou alto.
— Eu seria idiota se tentasse, mesmo com a autorização de Moiraine. Entrar em uma droga de um ter’angreal? Eu quero ter menos a ver com o Poder, não mais. Pode ir desistindo dessa ideia.
— É o único jeito que eu conheço, Mat.
— Não para mim, para mim não é — respondeu o rapaz, com firmeza. — Ficar sem solução ainda é melhor do que isso.
Apesar do tom de Mat, Egwene sentiu vontade de abraçá-lo. Só que ele faria alguma piadinha às suas custas e tentaria lhe dar um beliscão. Ele sempre fora incorrigível, desde o dia em que nasceu. Mesmo assim, fora até lá pedir ajuda.
— Eu lamento, Mat. O que é que você vai fazer?
— Ah, acho que jogar cartas. Se alguém quiser jogar comigo. Jogar pedras com Thom. Dados nas tavernas. Ainda posso ir até a cidade, pelo menos. — Ele fixou o olhar em uma serviçal mais adiante, uma garota esbelta e de olhos escuros, quase da idade deles. — Vou arrumar alguma coisa para passar o tempo.
Egwene sentiu a mão coçar com a vontade de dar um tapa no rapaz, mas em vez disso disse, cautelosa:
— Mat, você não está mesmo pensando em ir embora, está?
— Se eu estivesse, você contaria a Moiraine? — Ele ergueu a mão para impedi-la se responder. — Bom, não tem necessidade. Eu já disse que não vou. Não posso fingir que não queria, mas não vou embora. Está bom para você? — Ele franziu o cenho, pensativo. — Egwene, já sentiu vontade de voltar para casa? Já desejou que nada disso tivesse acontecido?
Era uma pergunta surpreendente, vinda dele, mas ela sabia a resposta.
— Não. Mesmo com tudo isso, não. E você?
— Eu seria um idiota, não seria? — Mat deu risada. — Eu gosto é de cidades, e esta aqui basta, por enquanto. Esta basta. Egwene, você não vai contar a Moiraine sobre isso, vai? Sobre eu vir pedir conselhos, e tudo o mais?
— Por que eu não deveria? — perguntou a jovem, desconfiada. Afinal de contas, era de Mat que estavam falando.
O rapaz deu de ombros, encabulado.
— Tenho mantido mais distância dela do que de… de qualquer forma, eu a tenho evitado, principalmente quando ela resolve vasculhar a minha cabeça. Pode pensar que estou amolecendo. Não conte a ela, está bem?
— Não conto — disse Egwene — se você me prometer que não vai chegar perto daquele ter’angreal sem a permissão dela. Eu não devia nem ter falado disso com você.
— Eu prometo. — Mat escancarou um sorriso. — Só vou chegar perto daquele treco se a minha vida estiver dependendo dele. — O rapaz concluiu a frase com uma seriedade zombeteira.
Egwene balançou a cabeça. Por mais que todo o resto mudasse, Mat jamais mudaria.
9
Decisões
Três dias se passaram, quentes e úmidos, parecendo consumir a força até dos tairenos. A cidade caminhava a passos lentos, letárgicos, até a vida na Pedra parecia rastejar. Serviçais trabalhavam quase que dormindo. A majhere puxava as tranças enroladas em frustração, mas nem mesmo ela conseguia arrumar energia para dar cascudos e puxar orelhas. Defensores da Pedra afundavam em seus postos como velas meio derretidas, e os oficiais demonstravam mais interesse em beber vinho frio do que em fazer as rondas. Os Grão-lordes passavam muito tempo em seus aposentos, dormindo durante a parte mais quente do dia, e uns poucos haviam deixado a Pedra e rumado para as terras relativamente frescas do leste, nas encostas da Espinha do Mundo. Estranhamente, apenas os estrangeiros, que sentiam mais calor do que todos, esforçavam-se para seguir com suas vidas, talvez até mais do que de costume. Para eles, a violência do calor não chegava nem perto do peso das horas que corriam.
Mat logo descobriu que estivera certo a respeito dos jovens lordes que viram as cartas tentarem matá-lo. Eles não apenas o evitavam, também tinham espalhado a notícia entre os amigos, uma notícia por vezes aumentada. Todos na Pedra com duas moedas de prata na mão apenas davam desculpas mais do que esfarrapadas enquanto se afastavam. Os boatos se espalharam para além dos fidalgotes. Mais de uma serviçal que apreciava um chamego agora o dispensava, e duas disseram, incomodadas, terem ouvido dizer que era perigoso ficar a sós com ele. Perrin parecia enrolado nos próprios problemas, e Thom evaporava em um passe de mágica. Mat não tinha ideia do que ocupava o menestrel, mas quase nunca conseguia encontrá-lo, nem de dia nem de noite. Moiraine, a única pessoa que Mat desejava que o ignorasse, parecia presente a cada curva que ele fazia, sempre apenas de passagem, cruzando um corredor ao longe. Mas seus olhos encontravam os dele todas as vezes, encarando-o não só como se soubesse o que o rapaz pensava e o que queria, mas também como se soubesse que o convenceria a mudar de ideia e fazer exatamente o que ela queria. Nada daquilo fazia diferença em relação a uma coisa: ele sempre conseguia arrumar desculpas para adiar a partida por mais um dia. Na sua opinião, não prometera a Egwene que ficaria. Mas acabava ficando.