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— Eu sei que ela passou a infância no exílio, empobrecida, vivendo de sonhos e planos, fugindo de uma cidade para a seguinte, sempre com medo, nunca em segurança, sem amigos além de um irmão que era, segundo todos os relatos, meio louco... um irmão que vendeu a sua virgindade aos dothraki em troca da promessa de um exército. Eu sei que em algum lugar, na erva, os dragões eclodiram, e ela também. Sei que é orgulhosa. Como não o ser? O que mais lhe resta a não ser o orgulho? Sei que é forte. Como não o ser? Os dothraki desprezam a fraqueza. Se Daenerys tivesse sido fraca, teria perecido com Viserys. Sei que é feroz. Astapor, Yunkai e Meereen são suficiente prova disso. Atravessou as pradarias e o deserto vermelho, sobreviveu a assassinos e conspirações e terríveis feitiçarias, chorou por um irmão, um marido e um filho, espezinhou as cidades dos escravagistas, fazendo-as em poeira sob os seus graciosos pés calçados de sandálias. Ora, como julga você que essa rainha reagirá quando lhe aparecer de tigela de pedinte na mão e disser: "Bom dia para você, tiazinha. Sou o seu sobrinho Aegon, regressado dos mortos. Tenho estado a vida inteira escondido num barco de varejo, mas agora lavei a tinta azul do cabelo e gostaria de ficar com um dragão, se faz favor... e oh, já referi que a minha pretensão ao Trono de Ferro é mais forte do que a sua?

A boca de Aegon torceu-se em fúria.

— Eu não irei falar com a minha tia como pedinte. Irei falar com ela como parente, com um exército.

— Um pqueno exército. — Pronto, isso deixou-o bem zangado. O anão não conseguiu evitar pensar em Joffrey. Tenho um dom para enfurecer príncipes. — A Rainha Daenerys tem um grande, e não o arranjou graças a você. — Tyrion moveu os besteiros.

— Diga o que quiser. Ela será minha noiva, Lorde Connington tratará disso. Confio tanto nele como se fosse do meu próprio sangue.

— Talvez devesse ser você o bobo no meu lugar. Não confie em ninguém, meu príncipe. Nem no seu meistre sem corrente, nem no seu falso pai, nem no galante Pato ou na adorável Lemore ou nestes outros belos amigos que o cultivou desde a semente. Acima de tudo, não confie no queijeiro, nem na Aranha, nem nessa rainhazinha dos dragões com quem pretende casar. Toda essa desconfiança o amargará o estômago e o manterá acordado à noite, é certo, mas antes isso do que o longo sono que não termina. — O anão atravessou uma cordilheira com o dragão negro. — Mas que sei eu? O seu falso pai é um grande senhor, e eu sou só um macaquinho retorcido. Mesmo assim, eu faria as coisas de outra forma.

Aquilo chamou a atenção do rapaz.

— De outra forma como?

— Se fosse você? Iria para oeste em vez de ir para leste. Desembarcaria em Dorne e içaria os meus estandartes. Os Sete Reinos nunca estarão mais maduros para a conquista do que estão neste momento. Um rei rapaz ocupa o Trono de Ferro. O norte está num caos, as terras fluviais numa devastação, um rebelde controla Ponta Tempestade e Pedra do Dragão. Quando o inverno chegar, o reino passará fome. E quem resta para lidar com tudo isto, quem governa o reizinho que governa os Sete Reinos? Ora, a minha querida irmãzinha. Não há mais ninguém. O meu irmão Jaime tem sede de batalha, não de poder. Fugiu de todas as hipóteses de governar que teve. O meu tio Kevan daria um regente razoável, se alguém o empurrasse para tal dever, mas nunca tentaria alcançá-lo. Os deuses esculpiram-no para ser um seguidor, não um líder. — Bem, os deuses e o senhor meu pai. — Mace Tyrell agarraria de bom grado no cetro, mas não é provável que a minha família se afaste e o dê. E toda a gente odeia Stannis. Quem é que resta? Ora, só Cersei. Westeros está dilacerado e a sangrar, e não duvido de que neste mesmo momento a minha querida irmã esteja ligando as feridas... com sal. Cersei é tão gentil como o Rei Maegor, tão altruísta como Aegon, o Indigno, tão sensata como Aerys, o Louco. Nunca esquece uma afronta, real ou imaginária. Confunde cautela com covardia e divergência com desafio. E é gananciosa. Tem ânsia de poder, de honra, de amor. O reinado de Tommen está sustentado por todas as alianças que o senhor meu pai construiu tão cuidadosamente, mas ela irá destruí-las a todas, bem depressa. Desembarque e içe os estandartes, e os homens convergirão para a sua causa. Grandes e pequenos senhores, e também plebeus. Mas não espere muito, meu príncipe. O momento não durará. A maré que os ergue agora depressa irá baixar. Assegure-se de chegar a Westeros antes de a minha irmã cair e alguém mais competente tomar o seu lugar.

— Mas — disse o Príncipe Aegon — sem Daenerys e os seus dragões, como podemos esperar ganhar?

— Você não precisa de ganhar — disse-lhe Tyrion. — Tudo o que precisa de fazer é içar os estandartes, reunir os apoiantes e aguentar até Daenerys chegar para juntar as suas forças às suas.

— Disse que ela podia não me querer.

— Talvez tenha exagerado. Ela pode ter pena de você quando lhes for suplicar a sua mão. — O anão encolheu os ombros. — Quer apostar o seu trono contra os caprichos de uma mulher? Mas se for para Westeros... ah, então será um rebelde, não um pedinte. Ousado, destemido, um verdadeiro rebento da Casa Targaryen, a seguir os passos de Aegon, o Conquistador. Um dragão. Eu já te disse que conheço a nossa rainhazinha. Ela que ouça dizer que o filho assassinado do irmão Rhaegar ainda está vivo, que este corajoso rapaz ergueu de novo em Westeros o estandarte do dragão dos seus antepassados e reivindica o Trono de Ferro para a Casa Targaryen, acossado por todos os lados... e voará para junto de você tão depressa como o vento e a água consigam levá-la. É o último da sua linhagem, e essa Mãe de Dragões, esta Quebradora de Correntes, é acima de tudo uma salvadora. A menina que decidiu afogar as cidades dos escravagistas em sangue para não deixar estranhos acorrentados dificilmente poderá abandonar o filho do irmão na sua hora de perigo. E quando chegar a Westeros e se encontrar com você pela primeira vez, se encontrarão como iguais, homem e mulher, não rei e suplicante. Como poderá ela evitar ama-lo então?, pergunto. — Sorrindo, pegou no dragão, o fez voar pelo tabuleiro fora. — Espero que Vossa Graça me perdoe. O seu rei está encurralado. Morte em quatro jogadas.

O príncipe fitou o tabuleiro.

— O meu dragão...

— ... está longe demais para o salvar. Devia tê-lo deslocado para o centro da batalha.

— Mas você disse...

— Menti. Não confie em ninguém. E mantenha o dragão por perto.

O Jovem Griff pôs-se em pé de um salto e pontapeou o tabuleiro. Voaram peças de cyvasse em todas as direções, saltando e rolando pelo convés da Tímida Donzela.

— Apanhe-as — ordenou o rapaz.

Ele afinal pode ser mesmo um Targaryen.

—Se aprouver a Vossa Graça. — Tyrion pôs-se de quatro e engatinhou pelo convés afora, juntando as peças.

Já era perto do ocaso quando Yandry e Ysilla regressaram à Tímida Donzela. Um carregador trotava logo atrás, empurrando um carrinho de mão carregado com uma grande pilha de provisões; sal e farinha, manteiga batida fresca, fatias de bacon embrulhadas em linho, sacos de laranjas, maçãs e peras. Yandry trazia um barril de vinho ao ombro, enquanto Ysilla atirara um lúcio sobre o seu. O peixe era tão grande como Tyrion.

Quando viu o anão em pé no fim da prancha de embarque, Ysilla parou tão de chofre que Yandry foi colidir com ela, e o lúcio quase lhe deslizou das costas para dentro do rio. O Pato ajudou-a a salvá-lo. Ysilla fitou Tyrion com fúria e fez um peculiar gesto de apunhalar com três dos seus dedos. Um gesto para afastar o mal.