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— Percebe o que ele está dizendo? — perguntou a Haldon no idioma comum.

— Percebia, se não tivesse um anão tagarelando ao ouvido.

— Eu não tagarelo. — Tyrion cruzou os braços e olhou para trás, estudando as caras dos homens e mulheres que tinham parado para ouvir. Virasse para onde se virasse, via tatuagens. Escravos. Quatro de cada cinco são escravos.

— O sacerdote está pedindo aos volantenos para partirem para a guerra — disse-lhe o Semimeistre — mas do lado certo, como soldados do Senhor da Luz, do R'hllor que fez o sol e as estrelas e combate eternamente contra a escuridão. Nyessos e Malaquo viraram costas à luz, diz ele, de corações escurecidos pelas harpias amarelas do leste. Diz...

— Dragões. Entendi essa palavra. Ele disse dragões.

— Sim. Os dragões chegaram para levá-la à glória.

— A Daenerys?

Haldon confirmou:

— Benerro passou palavra desde Volantis. A chegada dela é a concretização de uma antiga profecia. De fumo e sal nasceu ela para refazer o mundo. É Azor Ahai regressada... e o seu triunfo sobre as trevas trará um verão que nunca terminará... a própria morte dobrará o joelho e todos os que morrerem combatendo pela sua causa renascerão...

— Tenho de renascer neste corpo? — perguntou Tyrion. A multidão estava tornando-se mais densa. Conseguia senti-la comprimindo-se à volta deles. — Quem é Benerro?

Haldon ergueu uma sobrancelha.

— Alto Sacerdote do templo vermelho em Volantis. Chama da Verdade, Luz da Sabedoria, Primeiro Servo do Senhor da Luz, Escravo de Mor.

O único sacerdote vermelho que Tyrion conheceu era Thoros de Myr, o estróina corpulento, jovial e manchado de vinho que rondava a corte de Robert, emborrachando-se com as melhores colheitas do rei e incendiando a espada para as lutas corpo-a-corpo.

— Dê-me sacerdotes que sejam gordos, corruptos e cínicos — disse a Haldon — do tipo que gosta de se sentar em suaves almofadas de cetim, mordiscar doces e vigarizar rapazinhos. São os que acreditam em deus que provocam sarilhos.

— Pode ser que possamos usar este sarilho para nosso benefício. Sei onde poderemos encontrar respostas. — Haldon levou-os para lá do herói sem cabeça até onde uma grande estalagem de pedra se virava para a praça. A carapaça encristada de uma imensa tartaruga pendia por cima da sua porta, pintada de cores garridas. Lá dentro, cem velas vermelhas e pouco luminosas ardiam como estrelas distantes. O ar estava aromatizado com cheiro a carne assada e especiarias e uma escrava com uma tartaruga numa bochecha estava servindo vinho verde claro.

Haldon parou à porta.

— Ali. Aqueles dois.

No nicho estavam sentados dois homens por cima de uma mesa de cyvasse esculpida em pedra, observando as peças à luz de uma vela vermelha. Um era magro e macilento, com um cabelo negro em rarefação e um nariz estreito como uma lâmina. O outro tinha ombros largos e uma barriga redonda, com caracóis que lhe caíam para lá do colarinho. Nenhum se dignou a erguer o olhar do jogo até Haldon puxar por uma cadeira entre eles e dizer:

— O meu anão joga melhor cyvasse do que vocês dois em conjunto.

O maior dos homens ergueu os olhos para fitar os intrusos com desagrado, e disse qualquer coisa na língua da Velha Volantis, depressa demais para Tyrion ter esperança de entender. O mais magro recostou-se na cadeira.

— Ele está à venda? — perguntou, no idioma comum de Westeros. — O circo de aberrações do triarca precisa de um anão jogador de cyvasse.

— Yollo não é escravo.

— Que pena — o magro mudou a posição de um elefante de ónix.

Do outro lado da mesa de cyvasse, o homem por trás do exército de alabastro espetou os lábios com desaprovação. Moveu a cavalaria pesada.

— Um deslize — disse Tyrion. Já agora, podia desempenhar o seu papel.

— Exatamente — disse o magro. Respondeu com a sua própria cavalaria pesada. Seguiu-se uma confusão de jogadas rápidas, até que por fim o magro sorriu e disse: — Morte, meu amigo.

O homem olhou furioso o tabuleiro, após o que se levantou e grunhiu qualquer coisa na sua língua. O oponente riu.

— Vá lá. O anão não fede assim tanto. — Indicou a Tyrion a cadeira vazia. — Upa para cima, homenzinho. Põe a prata na mesa, e veremos quão bem joga o jogo.

Qual jogo?, podia ter perguntado Tyrion. Subiu para a cadeira.

— Jogo melhor de barriga cheia e com um copo de vinho à mão. — O magro virou-se prestavelmente e gritou à escrava para lhes trazer comida e bebida.

Haldon disse:

— O nobre Qavo Nogarys é o oficial da alfândega aqui em Selhorys. Nem uma vez o derrotei no cyvasse.

Tyrion compreendeu.

— Eu talvez tenha mais sorte. — Abriu a bolsa e empilhou moedas de prata ao lado do tabuleiro, uma em cima da outra até que Qavo, finalmente, sorriu.

Enquanto ambos dispunham as peças por trás do anteparo do cyvasse, Haldon disse:

— Que novidades há de jusante? Haverá guerra?

Qavo encolheu os ombros.

— Os yunkaitas querem que haja. Chamam a si próprios Sábios Mestres. Não posso falar da sua sabedoria, mas não lhes falta astúcia. O emissário veio falar conosco com arcas de ouro, pedras preciosas e duzentos escravos, núbeis moças e rapazes de pele lisa treinados no caminho dos sete suspiros. Disseram-me que as suas festas são memoráveis e os subornos são sumtuosos.

— Os yunkaitas compraram os seus triarcas?

— Só Nyessos. — Qavo removeu o anteparo e estudou a disposição do exército de Tyrion. — Malaquo pode ser velho e desdentado, mas continua a ser um tigre, e Doniphos não será reeleito como triarca. A cidade tem sede de guerra.

— Por quê? — perguntou Tyrion. — Meereen fica a longas léguas por mar. Como foi que esta doce rainha criança ofendeu a Velha Volantis?

— Doce? — Qavo riu. — Se metade das histórias que chegam da Baía dos Escravos forem verdadeiras, esta criança é um monstro. Eles dizem que é sedenta de sangue, que aqueles que se lhe opõem são empalados em estacas para morrer uma morte prolongada. Dizem que é uma feiticeira que alimenta os seus dragões com a carne de bebês recém-nascidos, uma perjura que troça dos deuses, quebra tréguas, ameaça emissários e vira-se contra aqueles que a serviram lealmente. Dizem que a sua luxúria não pode ser saciada, que acasala com homens, mulheres, eunucos, até cães e crianças, e que desgraças acontecem aos amantes que não têm sucesso em satisfazê-la. Entrega o corpo aos homens para prender as suas almas em servidão.

Ohy que bom, pensou Tyrion. Se me entregar o corpo, que a minha alma lhe faça bom proveito, apesar de pequena e deformada.

— Eles dizem — disse Haldon. — Com eles quer dizer os escravagistas, os exilados que ela expulsou de Astapor e Meereen. Meras calúnias.

— As melhores calúnias são temperadas com verdade — sugeriu Qavo — mas o verdadeiro pecado da menina é impossível de negar. Esta criança arrogante resolveu que haveria de esmagar o comércio de escravos, mas esse tráfico nunca esteve confinado à Baía dos Escravos. Fazia parte do mar de comércio que abrangia o mundo, e a rainha do dragão tornou a água turva. Por trás da Muralha Negra, senhores de sangue antigo dormem mal, atentos ao som dos seus criados de cozinha afiando as suas longas facas. São escravos que cultivam a nossa comida, limpam as nossas ruas, ensinam os nossos jovens. Protegem as nossas muralhas, remam nas nossas galés, combatem nas nossas batalhas. E agora, quando olham para leste, veem esta jovem rainha brilhando de longe, esta quebradora de correntes. O Sangue Antigo não pode tolerar isso. Os pobres também a odeiam. Até o mais vil dos pedintes está acima de um escravo. Essa rainha do dragão quer roubar-lhes essa consolação.