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Precisava de vinho. Muito vinho. Pegou no jarro com ambas as mãos e levou-o aos lábios. O vinho correu, rubro. Pela goela abaixo, pelo queixo abaixo. Pingou-lhe da barba e ensopou o colchão de penas. À luz das velas parecia tão escuro como o vinho que envenenou Joffrey. Quando acabou, atirou o jarro vazio para o lado e desceu da cama, meio rolando, meio cambaleando, procurando um penico às apalpadelas. Não encontrou nenhum. O seu estômago deu uma volta e deu por si de joelhos vomitando no tapete, naquele maravilhoso e grosso tapete de Myr, tão reconfortante como mentiras.

A moça gritou, aflita. Vão culpá-la por isto, compreendeu Tyrion, envergonhado.

— Corta-me a cabeça e leva-a para Porto Real — pediu-lhe. — A minha irmã fará de você uma senhora e nunca mais ninguém a chicoteará. — Ela também não compreendeu aquilo, por isso, abriu-lhe as pernas, gatinhou para o meio delas e tomou-a outra vez. Pelo menos isso ela conseguia entender.

Depois, o vinho acabou e ele também, pelo que fez uma bola com a roupa da menina e atirou-a para junto da porta. Ela entendeu a sugestão e fugiu, deixando-o só na escuridão, afundando-se mais no colchão de penas. Estou bêbado que nem um cacho. Não se atrevia a fechar os olhos, com medo de adormecer. Por trás do véu do sonho, as Mágoas estavam à sua espera. Degraus de pedra subindo sem fim, íngremes e escorregadios e traiçoeiros, e em algum lugar no topo estava o Senhor Amortalhado. Não quero encontrar-me com o Senhor Amortalhado. Tyrion voltou a enfiar-se desajeitadamente na roupa, e foi às apalpadelas até à escada. Griff vai esfolar-me. Bem, e porque não? Se alguma vez um anão mereceu uma esfoladela, fui eu.

Ao meio da escada perdeu o apoio num pé. Sem saber como, conseguiu amparar a queda com as mãos e transformá-la numa pirueta desastrada e ruidosa. As rameiras na sala lá em baixo ergueram os olhos, espantadas, quando ele aterrou na base da escada. Tyrion levantou-se com uma cambalhota e dirigiu-lhes uma mesura.

— Sou mais ágil quando estou bêbado. — Virou-se para o proprietário. — Temo que tenha estragado o seu tapete. A menina não tem culpa. Deixe-me pagar. — Puxou por um punhado de moedas e atirou-as ao homem.

— Duende — disse uma voz profunda atrás de si.

Ao canto da sala, um homem estava sentado num charco de sombras, com uma puta contorcendo sobre suas coxas. Não vi aquela moça. Se tivesse visto, tinha-a levado para cima em vez das sardas. Era mais jovem do que as outras, magra e bonita, com longo cabelo prateado. Lisena, se calhar. .. mas o homem cujo colo enchia era dos Sete Reinos. Corpulento e de ombros largos, com quarenta anos, pelo menos, talvez mais velho. Metade da sua cabeça era calva, mas uma barba curta e rarefeita cobria-lhe as faces e o queixo, e pelos cresciam-lhe densos nos braços, brotando-lhe mesmo dos nós dos dedos.

Tyrion não gostou do ar do homem. Gostou ainda menos do grande urso negro no seu sobretudo. Lã. Ele está vestido de lãy com esse calor. Quem, se não um cavaleiro, seria um doido assim tão varrido?

— Que agradável ouvir o idioma comum tão longe de casa — obri- gou-se a dizer — mas temo que me tenha se confundido. O meu nome é Hugor Hill. Posso pagar-lhe uma taça de vinho, meu amigo?

— Já bebi o suficiente. — O cavaleiro empurrou a sua rameira para o lado e pôs-se de pé. O cinturão da espada estava pendurado de um cabide ao seu lado. Despendurou-o e puxou pela arma. Aço murmurou contra couro. As rameiras estavam observando com avidez, com a luz das velas brilhando-lhes nos olhos. O proprietário desaparecera. — É meu, Hugor.

Tyrion não seria mais capaz de fugir do que de vencê-lo em combate. Bêbado como estava, nem sequer podia ter a esperança de vencê-lo em esperteza. Abriu as mãos.

— E o que é que pretende fazer comigo?

— Entrega-lo — disse o cavaleiro — à rainha.

DAENERYS

Galazza Galare chegou à Grande Pirâmide acompanhada por uma dúzia de Graças Brancas, meninas de nascimento nobre que eram ainda novas demais para terem servido o seu ano nos jardins do prazer do templo. Faziam um bonito retrato, a velha orgulhosa toda vestida de verde rodeada pelas menininhas de vestidos e véus brancos, couraçadas com a sua inocência.

A rainha deu-lhes boas-vindas calorosas, após o que chamou Missandei para se assegurar de que as meninas eram alimentadas e entretidas enquanto partilhava um jantar em privado com a Graça Verde.

Os cozinheiros tinham-lhes preparado uma magnífica refeição de carneiro com mel, aromatizado por menta esmagada e servido com os pequenos figos verdes de que tanto gostava. Dois dos reféns preferidos de Dany serviram a comida e mantiveram as taças cheias; uma menina com olhos de corça chamada Qezza e um rapaz magricela chamado Grazhar. Eram irmão e irmã, e primos da Graça Verde, a qual os cumprimentou com beijos quando entrou a passos largos e lhes perguntou se se tinham portado bem.

— São muito queridos, os dois — assegurou-lhe Dany. — Qezza às vezes canta para mim. Tem uma voz adorável. E Sor Barristan tem andado instruindo Grazhar e os outros rapazes nas técnicas da cavalaria ocidental.

— Eles são do meu sangue — disse a Graça Verde enquanto Qezza lhe enchia a taça com um escuro vinho tinto. — É bom saber que agradaram a Vossa Radiância. Espero poder fazer o mesmo. — O cabelo da velha era branco e a sua pele tão fina como pergaminho, mas os anos não lhe tinham feito perder a vivacidade dos olhos. Eram tão verdes como as suas vestes; olhos tristes, cheios de sabedoria. — Se me perdoar por dizê-lo, Vossa Radiância parece... fatigada. Tem dormido?

Dany só com dificuldade evitou rir.

— Mal. Na noite passada três galés qartenas subiram o Skahazadhan a coberto da escuridão. Os Homens da Mãe dispararam enxames de setas incendiárias contra as suas velas e atiraram potes de piche ardendo para os seus conveses, mas as galés passaram depressa e não sofreram danos duradouros. Os qartenos pretendem nos fechar o rio como fecharam a baía. E já não estão sozinhos. Três galés de Nova Ghis se juntaram a eles, bem como uma carraca de Tolos. — Os Tolossinos tinham respondido ao seu pedido de aliança proclamando-a uma rameira e exigindo que devolvesse Meereen aos Grandes Mestres da cidade. Até isso era preferível à resposta de Mantarys, que chegou numa caravana, numa arca de cedro. Lá dentro encontrou as cabeças dos seus três emissários, em vinagre. — Talvez os seus deuses possam nos ajudar. Pedi-lhes para enviarem uma ventania e varrerem as galés da baía.

— Rezarei e farei sacrifícios. Talvez os deuses de Ghis me ouçam. — Galazza Galare bebericou do vinho, mas os olhos não abandonaram Dany. — Tempestades enfurecem-se tanto no interior das muralhas como no exterior. Morreram mais libertos ontem à noite, ou pelo menos foi o que me foi dito.

— Três. — Dizê-lo deixou-lhe um sabor amargo na boca. — Os covardes assaltaram umas tecedeiras, libertas que não tinham feito mal a ninguém. Tudo o que fizeram foi produzir coisas belas. Tenho uma tapeçaria que me deram pendurada por cima da minha cama. Os Filhos da Harpia quebraram-lhes o tear e violaram-nas antes de lhes cortarem as goelas.

— Foi o que ouvimos dizer. E no entanto Vossa Radiância encontrou a coragem de responder à carnificina com misericórdia. Não fez mal a nenhuma das nobres crianças que tem como reféns.

— Ainda não, é verdade. — Dany ganhou amizade pelos jovens que tinha a cargo. Alguns eram tímidos, alguns ousados, alguns doces, alguns carrancudos, mas todos eram inocentes. — Se matar os meus copeiros, quem me servirá o vinho e o jantar? — disse, tentando tratar a questão com leveza.