— Ah pode? — Dany estudou-lhe os olhos. — Porque haveriam os Filhos da Harpia de pousar as facas por você? É um deles?
— Não.
— Me diria se fosse?
Ele riu.
— Não.
— O Tolarrapada tem maneiras de descobrir a verdade.
— Não duvido de que Skahaz depressa me levaria a confessar. Um dia com ele, e eu seria um dos Filhos da Harpia. Dois dias, e seria a Harpia. Três, e descobriria que também matei o seu pai, lá nos Reinos do Poente, quando era ainda rapaz. Depois ele me empala numa estaca e você pode me ver morrer... mas depois disso as mortes continuarão. — Hizdahr inclinou-se para mais perto. — Ou então pode casar comigo e deixar-me tentar pôr-lhes fim.
— Porque você iria querer me ajudar? Pela coroa?
— Uma coroa seria bastante agradável, não vou negar. Mas é mais do que isso. Será assim tão estranho que eu queira proteger o meu povo como você protege os seus libertos? Meereen não pode passar por outra guerra, Radiância.
Aquela era uma boa resposta, e uma resposta honesta.
— Eu nunca desejei a guerra. Derrotei os yunkaitas uma vez, e pou- pei-lhes a cidade quando podia tê-la saqueado. Me recusei a me juntar ao Rei Cleon quando marchou contra eles. Mesmo agora, com Astapor cercada, não intervenho. E Qarth... nunca fiz qualquer mal aos qartenos...
— Intencionalmente não, é verdade, mas Qarth é uma cidade de mercadores, e eles adoram o tinir das moedas de prata, o reluzir do ouro amarelo. Quando esmagou o comércio de escravos, o golpe foi sentido de Westeros a Asshai. Qarth depende dos seus escravos. O mesmo acontece com Tolos, Nova Ghis, Lys, Tyrosh, Volantis... a lista é longa, minha rainha.
— Eles que venham. Em mim encontrarão um inimigo mais duro do que Cleon. Antes morrer lutando do que devolver os meus filhos à servidão.
— Pode haver outra opção. Os yunkaitas podem ser convencidos a permitir que os seus libertos permaneçam livres, creio, se Vossa Reverência concordar que a Cidade Amarela pode treinar e vender escravos sem ser molestada deste dia em diante. Não é necessário que corra mais sangue.
— Exceto o sangue desses escravos que os yunkaitas irão treinar e vender — disse Dany, mas apesar disso reconheceu a verdade nas palavras dele. Pode ser que esse seja o melhor fim que podemos esperar. — Não disses que me ama.
— Direi, se aprouver a Vossa Radiância.
— Essa não é a resposta de um homem apaixonado.
— O que é o amor? Desejo? Nenhum homem com todos os seus órgãos poderá olha-la sem a desejar, Daenerys. Mas não é por isso que eu quero casar com você. Antes de chegar, Meereen estava morrendo. Os nossos governantes eram velhos com picas enrugadas e velhas cujas ratas pregueadas eram secas como poeira. Sentavam-se no topo das suas pirâmides bebendo vinho de alperce e falavam das glórias do Velho Império enquanto os séculos passavam por eles e os próprios tijolos da cidade ruíam à sua volta. O costume e a cautela tinham-nos presos com mãos de ferro, até que nos despertou com fogo e sangue. Um novo tempo chegou, e novas coisas são possíveis. Case comigo.
Não é difícil olhá-lo, disse Dany a si própria, e tem uma língua de rei.
— Beije-me — ordenou.
Ele voltou a pegar-lhe na mão, e beijou-lhe os dedos.
— Assim não. Beije-me como se eu fosse sua esposa.
Hidzahr pegou-lhe nos ombros tão ternamente como se ela fosse uma ave bebê. Inclinando-se para a frente, encostou os lábios aos seus.
O beijo dele foi ligeiro, seco e rápido. Dany não sentiu qualquer arrebatamento.
— Deverei... voltar a beija-la? — perguntou ele quando terminou.
— Não. — No terraço, na lagoa de banhos, os peixinhos mordisca- vam-lhe as pernas enquanto se molhava. Até eles beijavam com mais fervor do que Hizdahr zo Loraq. — Eu não o amo.
Hizdahr encolheu os ombros.
— Isso pode vir, com o tempo. É sabido que por vezes acontece dessa forma.
Com a gente não, pensou ela. Não enquanto Daario estiver tão próximo. É ele que desejo, não você.
— Um dia vou querer regressar a Westeros, para reivindicar os Sete Reinos que foram do meu pai.
— Um dia todos os homens têm de morrer, mas não serve de nada passar a vida pensando na morte. Prefiro aceitar cada dia conforme vier.
Dany fechou as mãos uma na outra.
— Palavras são vento, mesmo palavras como amor e paz. Ponho mais confiança nos atos. Nos meus Sete Reinos, os cavaleiros partem em demandas para se mostrarem merecedores da donzela que amam. Procuram espadas mágicas, arcas de ouro, coroas roubadas do tesouro de um dragão.
Hizdahr arqueou uma sobrancelha.
— Os únicos dragões que conheço são seus, e espadas mágicas são ainda mais escassas. De bom grado lhe trarei anéis e coroas e arcas de ouro, se for esse o seu desejo.
— O meu desejo é a paz. Diga que pode me ajudar a pôr fim à carnificina noturna nas minhas ruas. Eu digo: faça-o. Ponha fim a esta guerra de sombras, senhor. É essa a sua demanda. Dê-me noventa dias e noventa noites sem um assassinato, e eu saberei que é merecedor de um trono. Pode fazer isso?
Hizdahr pareceu pensativo.
— Noventa dias e noventa noites sem um cadáver, e no nonagésimo primeiro casamos?
— Talvez — disse Dany, com um olhar recatado. — Embora as menininhas às vezes se mostrem volúveis. Posso ainda vir a querer uma espada mágica.
Hizdahr riu.
— Então também a obterá, Radiância. Os seus desejos são as minhas ordens. É melhor dizer ao seu senescal para começar a fazer preparativos para o nosso casamento.
— Nada agradaria mais ao nobre Reznak. — Se Meereen soubesse que havia um casamento em perspetiva, podia bastar isso para lhe dar algumas noites de descanso, mesmo se os esforços de Hizdahr não dessem em nada. O Tolarrapada não ficará contente comigo, mas Reznak mo Reznak dançará de alegria. Dany não sabia qual das duas coisas a preocupava mais. Precisava de Skahaz e das Feras de Bronze, e acabou por desconfiar de todos os conselhos de Reznak. Cuidado com o senescal perfumado. Terá Reznak feito causa comum com Hizdahr e com a Graça Verde, preparando alguma armadilha para me enredar?
Assim que Hizdahr zo Loraq se despediu dela, Sor Barristan apareceu atrás de si com o seu longo manto branco. Anos de serviço na Guarda Real tinham ensinado ao cavaleiro branco a permanecer discreto enquanto ela estava recebendo, mas nunca estava longe. Ele sabe, viu ela de imediato, e desaprova. As rugas em volta da boca do cavaleiro tinham-se aprofundado.
— Então — disse-lhe — parece que talvez volte a me casar. Está contente por mim, sor?
— Se for essa a sua ordem, Vossa Graça.
— Hizdahr não é o marido que teria escolhido para mim.
— Não me cabe escolher o seu marido.
— Pois não — concordou — mas é importante para mim que compreenda. O meu povo sangra. Morre. Uma rainha não pertence a si, mas ao reino. Casamento ou carnificina, são estas as minhas opções. Um casamento ou uma guerra.