— Nove — disse Daario — mas uma dúzia das Longas Lanças decidiram que preferiam ser Corvos Tormentosos a cadáveres, portanto tivemos um lucro de três. Disse-lhes que viveriam mais tempo combatendo com os seus dragões do que contra eles, e viram a sabedoria nas minhas palavras.
Aquilo a deixou desconfiada.
— Podem estar espionando para Yunkai.
— São estúpidos demais para serem espiões. Não os conhece.
— E você também não. Confia neles?
— Confio em todos os meus homens. Só até ao alcance do meu cuspe. — Cuspiu uma semente, e sorriu das suspeitas dela. — Quer que lhe traga as cabeças deles? Trarei, se me ordenar. Um é careca, dois têm tranças e um pinta a barba de quatro cores diferentes. Que espião usaria uma barba assim?, pergunto-lhe. O fundibulário consegue acertar com uma pedra no olho de um mosquito a quarenta passos, e o feio tem jeito para os cavalos, mas se a minha rainha disser que eles têm de morrer...
— Não disse isso. Eu só... assegure-se de que os mantém debaixo de seus olhos, é só isso. — Sentiu-se pateta dizendo aquilo. Sentia-se sempre um pouco pateta quando estava com Daario. Desajeitada, ameninada e de raciocínio lento. O que pensará ele de mim? Mudou de assunto. — Os Homens Ovelha vão nos mandar comida?
— Cereais descerão o Skahazadhan em barcaças, minha rainha, e outros bens em caravanas através do Khyzai.
— O Skahazadhan não. O rio está fechado para nós. Os mares também. Deve ter visto os navios na baía. Os qartenos afugentaram um terço da nossa frota de pesca e capturaram outro terço. Os outros estão muito assustados para saírem do porto. O pouco comércio que ainda tínhamos foi impedido.
Daario jogou fora o caroço da pera.
— Os qartenos têm leite nas veias. Deixe-os ver os seus dragões, e fugirão.
Dany não queria falar dos dragões. Continuavam vindo agricultores à sua corte com ossos queimados, queixando-se de ovelhas em falta, apesar de Drogon não ter regressado à cidade. Alguns relatavam tê-lo visto ao norte do rio, sobre a erva do mar dothraki. No fosso, Viserion partiu uma das correntes que o prendiam; ele e Rhaegal tornavam-se mais selvagens a cada dia que passava. Os Imaculados tinham-lhe dito que uma vez as portas de ferro tinham brilhado, vermelhas de tão quentes, e ninguém se atreveu a tocar-lhes durante um dia.
— Astapor também está sob cerco.
— Isso já sabia. Uma das Longas Lanças viveu o suficiente para nos dizer que os homens andavam comendo uns aos outros na Cidade Vermelha. Disse que a vez de Meereen chegaria em breve, por isso cortei-lhe a língua e dei-a a comer a um cão amarelo. Nenhum cão come a língua de um mentiroso. Quando o cão amarelo comeu a dele, soube que tinha dito a verdade.
— Também tenho guerra dentro da cidade. — Falou-lhe dos Filhos da Harpia e das Feras de Bronze, de sangue nos tijolos. — Tenho inimigos a toda a minha volta, dentro da cidade e fora dela.
— Ataque — disse ele de imediato. — Um homem rodeado de inimigos não se pode defender. Se tentar, o machado cai-lhe sobre as costas enquanto está parando a espada. Não. Quando se é confrontado com tantos inimigos, há que escolher o mais fraco, matá-lo, atropelá-lo e fugir.
— Para onde devo eu fugir?
— Para dentro da minha cama. Para dentro dos meus braços. Para dentro do meu coração. — Os cabos do arakh e do estilete de Daario tinham sido esculpidos com a forma de mulheres douradas, nuas e libertinas. Roçou nelas os polegares de uma maneira que era notavelmente obscena, e fez um sorriso perverso.
Dany sentiu sangue subindo-lhe pela cara. Era quase como se ele a estivesse acariciando. Me julgaria também libertina se o puxasse para a cama? Ele a fazia desejar ser a sua libertina. Nunca devia encontrar-me com ele sozinha. É muito perigoso tê-lo junto de mim.
— A Graça Verde diz que tenho de arranjar um rei ghiscariota — disse, corada. — Insiste que me case com o nobre Hizdahr zo Loraq.
— Esse? — Daario soltou uma gargalhada. — E porque não o Verme Cinzento, se deseja um eunuco na sua cama? Deseja um rei?
Desejo você.
— Desejo a paz. Dei a Hizdahr noventa dias para pôr fim aos assassinatos. Se o fizer, tomo-o como marido.
— Tome a mim como marido. Eu farei em nove dias.
Sabe que não posso fazer isso, quase disse ela.
— Está combatendo sombras quando devia estar combatendo os homens que as lançam — prosseguiu Daario. — O que eu digo é: mate a todos e fique com os seus tesouros. Sussurre a ordem, e o seu Daario fará com as cabeças deles uma pilha mais alta do que essa pirâmide.
— Se eu soubesse quem eles são...
— Zhak, Pahl e Merreq. Eles e todos os outros. Os Grandes Mestres. Quem mais poderiam ser?
Ele é tão ousado como sedento de sangue.
— Não temos provas de que isso é obra deles. Quer que eu massacre os meus próprios súditos?
— Os seus súditos de bom grado massacrariam a você.
O homem passou tanto tempo longe que Dany quase esqueceu o que ele era. Lembrou a si própria que mercenários eram traiçoeiros por natureza. Inconstante, infiel, brutal. Ele nunca será mais do que é. Nunca será matéria-prima para um rei.
— As pirâmides são fortes — explicou. — Só poderíamos tomá-las a grande custo. No momento em que atacarmos uma, as outras se revoltarão contra nós.
— Então tire-os das pirâmides sob algum pretexto. Um casamento pode servir. Porque não? Prometa a sua mão a Hizdahr e todos os Grandes Mestres virão vê-la casar. Quando se reunirem no Templo das Graças, deixe-nos à solta entre eles.
Dany ficou horrorizada. Ele é um monstro. Um monstro galante, mas um monstro na mesma.
— Me toma pelo Rei Carniceiro?
— Antes ser o carniceiro do que a carne. Todos os reis são carniceiros. As rainhas serão assim tão diferentes?
— Essa rainha é.
Daario encolheu os ombros.
— A maioria das rainhas não tem utilidade nenhuma além de aquecer a cama de um rei qualquer e pôr pra fora filhos para ele. Se for esse o tipo de rainha que quer ser, é melhor que se case com Hizdahr.
A ira de Dany relampejou.
— Esqueceu quem eu sou?
— Não. Você se esqueceu?
Viserys teria mandado cortar-lhe a cabeça por esta insolência.
— Sou do sangue do dragão. Não se arrogue a me dar lições. — Quando Dany se pôs em pé, a pele de leão deslizou-lhe de cima dos ombros e caiu no chão. — Deixe-me.
Daario fez-lhe uma larga mesura.
— Vivo para obedecer.
Depois de ele se ir embora, Dany chamou Sor Barristan de volta.
— Quero os Corvos Tormentosos outra vez em campo.
— Vossa Graça? Eles acabaram de regressar...
— Quero-os longe. Eles que patrulhem os territórios yunkaitas e deem proteção a qualquer caravana que atravesse o Passo de Khyzai. De hoje em diante, Daario fará os seus relatórios a você. Conceda-lhe todas as honrarias que lhe sejam devidas e assegure-se de que os seus homens sejam bem pagos, mas por nenhum motivo o deixe vir à minha presença.
— Será como diz, Vossa Graça.