Naquela noite não conseguiu dormir; passou-a desassossegadamente às voltas na cama. Até chegou ao ponto de chamar Irri, na esperança de que as suas carícias pudessem facilitar-lhe o caminho até o descanso, mas passado pouco tempo afastou a menina dothraki. Irri era doce, suave e solícita, mas não era Daario.
Que fiz eu? pensou, aninhada na cama vazia. Esperei tanto tempo pelo regresso dele, e mandei-o embora.
— Ele me transformaria num monstro — sussurrou — numa rainha carniceira. — Mas depois pensou no distante Drogon e nos dragões que estavam no fosso. Também há sangue nas minhas mãos e no meu coração. Não somos assim tão diferentes, eu e Daario. Somos ambos monstros.
O SENHOR PERDIDO
Não devia demorar tanto tempo, disse Griff a si próprio enquanto percorria o convés da Tímida Donzela. Teriam perdido Haldon como haviam perdido Tyrion Lannister? Poderiam os volantenos tê-lo capturado? Eu devia ter mandado o Campopato com ele. Haldon, sozinho, não era digno de confiança; demonstrou em Selhorys quando deixou o anão fugir.
A Tímida Donzela estava amarrada numa das seções mais miseráveis da longa e caótica zona ribeirinha, entre um barco de varejo adernado que não abandonava o cais há anos e a barcaça dos saltimbancos pintada de cores vivas. Os saltimbancos eram um grupo ruidoso e animado, sempre citando discursos uns aos outros e mais frequentemente bêbados do que sóbrios.
O dia estava quente e grudento, como todos os dias tinham estado desde que haviam deixado as Mágoas para trás. Um feroz sol meridional massacrava a repleta zona ribeirinha de Volon Therys, mas o calor era a última e a menor das preocupações de Griff. A Companhia Dourada estava acampada três milhas ao sul da cidade, bem ao norte de onde os esperava, e o Triarca Malaquo veio para norte com cinco mil soldados a pé e mil a cavalo para lhes impedir o avanço até à estrada do delta. Daenerys Targaryen continuava a um mundo de distância, e Tyrion Lannister... bem, podia estar praticamente em qualquer local. Se os deuses fossem bons, a cabeça cortada do Lannister estaria por aquela hora no meio da viagem de regresso a Porto Real, mas era mais provável que o anão estivesse são e inteiro em algum lugar ali perto, bêbado que nem um cacho e a congeminar alguma nova infâmia.
— Onde, com os sete infernos, está Haldon? — queixou-se Griff à Senhora Lemore. — Quanto tempo demorará comprar três cavalos?
Ela encolheu os ombros.
— Senhor, não seria mais seguro deixar o rapaz aqui a bordo do barco?
— Mais seguro, sim. Mais sensato, não. Ele já é um homem feito, e esta é a estrada que nasceu para percorrer. — Griff não tinha paciência para aquelas ninharias. Estava farto de se esconder, farto de esperar, farto de cautelas. Não tenho tempo suficiente para cautelas.
— Nos esforçamos o máximo possível para manter o Príncipe Aegon escondido durante todos esses anos — fez-lhe lembrar Lemore. — Chegará o momento de ele lavar o cabelo e declarar-se, bem sei, mas esse momento não é agora. Não a um acampamento de mercenários.
— Se Harry Strickland lhe quiser fazer mal, escondê-lo na Tímida Donzela não o protegerá. O Strickland tem dez mil espadas às suas ordens. Nós temos Pato. Aegon é tudo o que podia desejar-se num príncipe. Eles têm de ver isso, o Strickland e os outros. Aqueles são os seus homens.
— Os seus, porque foram comprados e pagos. Dez mil estranhos armados, mais sequazes e seguidoras de acampamentos. Basta um para levar a todos à ruína. Se a cabeça de Hugor valia honras de lorde, quanto pagará Cersei Lannister pelo legítimo herdeiro do Trono de Ferro? Não conhece aqueles homens, senhor. Passaram-se doze anos desde a última vez que acompanhou a Companhia Dourada, e o seu velho amigo está morto.
O Coração Negro. Myles Toyne esteve tão cheio de vida da última vez que Griff se despediu dele que era difícil aceitar que ele se foi. Um crânio dourado no topo de um poste, e Harry Sem-Abrigo Strickland no seu lugar. Não faltava razão a Lemore, bem o sabia. Independentemente de quem tivessem sido os seus pais e avôs em Westeros antes do exílio, os homens da Companhia Dourada eram agora mercenários, e não se podia confiar em nenhum mercenário. Mas mesmo assim...
Na noite anterior tinha voltado a sonhar com o Septo de Pedra. Sozinho, de espada na mão, correu de casa em casa, derrubando portas, correndo por escadas acima, saltando de telhado em telhado, enquanto os ouvidos ressoavam com o som de sinos distantes. Profundas ressonâncias de bronze e harmonias de prata estrondeavam no seu crânio, uma cacofonia enlouquecedora de ruído que se ia tornando cada vez mais forte até lhe parecer que a cabeça ia explodir.
Dezessete anos tinham chegado e partido desde a Batalha dos Sinos, mas o som de sinos repicando ainda lhe dava um nó nas tripas. Outros podiam afirmar que o reino ficou perdido quando o Príncipe Rhaegar caíra perante o martelo de guerra de Robert no Tridente, mas a Batalha do Tridente nunca teria sido travada se o grifo tivesse conseguido matar o veado ali no Septo de Pedra. Os sinos repicaram por todos nós naquele dia. Por Aerys e pela sua rainha, por Elia de Dome e a sua filhinha, por todos os homens leais e mulheres honestas nos Sete Reinos. E pelo meu príncipe prateado.
— O plano era só revelar o Príncipe Aegon quando alcançássemos a Rainha Daenerys — estava Lemore dizendo.
— Isso foi quando acreditávamos que a menina vinha para oeste. A nossa rainha do dragão fez esse plano em cinzas, e graças àquele palerma gordo em Pentos agarramos a dragoa pela cauda e queimamos os dedos até ao osso.
— Não se podia esperar que Illyrio soubesse que a menina decidiria ficar na Baía dos Escravos.
— Tal como ele não sabia que o Rei Pedinte morreria novo, ou que Khal Drogo o seguiria para a sepultura. Muito pouco do que o gordo previu acabou por acontecer. — Griff baseu no cabo da sua espada com uma mão enluvada. — Levei anos dançando ao som das flautas do gordo, Lemore. O que lucramos com isso? O príncipe é um homem feito. O tempo dele está...
— Griff— gritou Yandry ruidosamente, por cima do clamor do sino dos saltimbancos. — É Haldon.
E era mesmo. O Semimeistre parecia cheio de calor e desarranjado enquanto abria caminho ao longo da zona ribeirinha até ao início do pontão. Suor deixara círculos escuros debaixo dos braços da sua túnica de linho claro, e ele mostrava na longa cara a mesma expressão amarga que teve em Selhorys, quando regressou à Tímida Donzela para confessar que o anão desapareceu. Mas trazia três cavalos pela arreata, e só isso importava.
— Traga o rapaz — disse Griff a Lemore. — Certifica-se de que está pronto.
— Às ordens — respondeu ela, pouco contente.
Assim seja. Ganhara amizade por Lemore, mas isso não queria dizer que precisasse da sua aprovação. A tarefa dela foi instruir o príncipe nas doutrinas da Fé, e isso ela fez. Contudo, nenhuma quantidade de orações o poria no Trono de Ferro. Essa era a tarefa de Griff. Falhou uma vez ao Príncipe Rhaegar. Não falharia ao seu filho, pelo menos enquanto restasse vida no seu corpo.
Os cavalos de Haldon não lhe agradaram.
— Esses foram os melhores que encontrou? — protestou com o Semimeistre.
— Foram — disse Haldon, em tom de irritação — e é melhor que não pergunte o que nos custaram. Com os dothraki do outro lado do rio, metade da população de Volon Therys decidiu que preferia estar noutro lugar, de modo que carne de cavalo se torna mais cara todos os dias.