Devia ter ido eu. Depois de Selhorys, achava difícil depositar em Haldon a mesma confiança que anteriormente. Ele deixou que o anão o intrujasse com aquela língua prolixa que tem. Deixou-o entrar num bordel sozinho enquanto ele esperava na praça como um cretino. O encarregado do bordel insistiu que o homenzinho foi levado na ponta de uma espada, mas Griff ainda não estava bem certo de acreditar nisso. O Duende era suficientemente inteligente para ter planejado a sua própria fuga. Aquele captor bêbado de que as rameiras falavam podia ter sido um capanga qualquer a seu soldo. Eu partilho as culpas. Depois do anão se ter interposto entre Aegon e o homem de pedra baixei a guarda. Devia ter-lhe cortado a goela da primeira vez que lhe pus a vista em cima.
— Servirão suficientemente bem, suponho — disse a Haldon. — O acampamento está só a três milhas para sul. — A Tímida Donzela teria lá chegado mais depressa, mas preferia deixar Harry Strickland na ignorância sobre onde ele e o príncipe tinham estado. E também não lhe agradava a perspetiva de chapinhar pelos baixios para subir uma margem lamacenta. Esse tipo de entrada podia servir para um mercenário e o seu filho, mas não para um grande senhor e o seu príncipe.
Quando o rapaz saiu da cabine com Lemore a seu lado, Griff exa- minou-o cuidadosamente, da cabeça aos pés. O príncipe usava espada e punhal, botas pretas polidas até reluzirem, um manto preto forrado de seda vermelha de sangue. Com o cabelo lavado e cortado e pintado de fresco com um azul profundo e escuro, os seus olhos também pareciam azuis. À garganta usava três enormes rubis de corte quadrado num fio de ferro preto, um presente do magíster Illyrio. Vermelho e negro. Cores dos dragões. Aquilo era bom.
— Parece um príncipe como deve ser — disse ao rapaz. — O seu pai ficaria orgulhoso se pudesse vê-lo.
O Jovem Griff passou com os dedos pelo cabelo.
— Estou farto desta tinta azul. Devíamos tê-la lavado.
— Em breve. — Griff também ficaria contente por regressar às suas cores verdadeiras, embora o seu cabelo, outrora ruivo, tivesse se tornado grisalho. Deu uma palmada no ombro do rapaz. — Vamos? O seu exército espera a sua chegada.
— Gosto de como isso soa. O meu exército. — Um sorriso relampejou-lhe na cara, depois desapareceu. — Mas será que espera? Eles são mercenários. Yollo avisou-me para não confiar em ninguém.
— Há nisso sabedoria — admitiu Griff. Podia ter sido diferente se o Coração Negro ainda comandasse, mas Myles Toyne estava morto há quatro anos, e o Harry Sem Abrigo Strickland era de um tipo diferente de homem. Contudo, não queria dizer isso ao rapaz. Aquele anão já plantou dúvidas suficientes na sua jovem cabeça. — Nem todos os homens são o que parecem, e um príncipe, em especial, tem bons motivos para ser cauteloso... mas se seguir até muito longe por essa estrada, a desconfiança pode envenenar-lhe, torna-lo amargo e temeroso. — O Rei Aerys era assim. No fim, até Rhaegar o viu com bastante clareza. — Faria melhor em percorrer um caminho intermediario. Deixa que os homens conquistem a sua confiança com serviços leais... mas quando o fizerem, seja generoso e sincero.
O rapaz acenou com a cabeça.
— Me lembrarei.
Entregaram ao príncipe o melhor dos três cavalos, um grande castrado cinzento tão claro que era quase branco. Griff e Haldon seguiram a seu lado em montarias piores. A estrada dirigia-se a sul sob as altas muralhas brancas de Volon Therys ao longo de uma boa meia milha. Depois deixaram a vila para trás, seguindo o curso sinuoso do Roine através de bosques de salgueiros e campos de papoulas, passando por um grande moinho de madeira cujas velas rangiam como velhos ossos enquanto giravam.
Encontraram a Companhia Dourada junto ao rio quando o Sol já baixava ao poente. Era um acampamento que até Arthur Dayne teria aprovado; compacto, ordenado, defensável. Uma profunda vala tinha sido cavada à sua volta, com estacas aguçadas lá dentro. As tendas erguiam-se em fileiras com largas avenidas entre elas. As latrinas tinham sido colocadas junto ao rio, para que a corrente levasse os dejetos. As linhas de cavalos ficavam a norte, e atrás delas duas dúzias de elefantes pastavam junto à água, arrancando caniços com as trombas. Griff passou os olhos pelos grandes animais com aprovação. Não há um cavalo de batalha em toda Westeros que se aguente contra eles.
Altos estandartes de batalha de pano de ouro esvoaçavam no topo de majestosos mastros ao longo dos perímetros do acampamento. Por baixo, sentinelas armadas e couraçadas faziam as suas rondas com lanças e bestas, observando todas as abordagens. Griff temeu que a companhia pudesse ter-se tornado negligente sob o comando de Harry Strickland, que sempre pareceu mais preocupado em fazer amigos do que em impor a disciplina, mas parecia que a sua preocupação foi mal dirigida.
Ao portão, Haldon disse qualquer coisa ao sargento dos guardas, e foi enviado um estafeta à procura de um capitão. Quando apareceu, era precisamente tão feio como da última vez que Griff pôs nele os olhos. Um matulão de grande barriga e desajeitado, o mercenário tinha uma cara marcada, entrecruzada por velhas cicatrizes. A orelha direita tinha o aspecto de ter sido roída por um cão e a esquerda não estava lá.
— Fizeram de você um capitão, Flowers? — disse Griff. — Julgava que a Companhia Dourada tinha critérios.
— É pior que isso, meu maricão — disse Franklyn Flowers. — Também me armaram cavaleiro. — Agarrou em Griff pelo antebraço, puxou-o para um abraço de esmagar ossos. — Tem um ar horrível, mesmo para um homem que está morto há uma dúzia de anos. Com que então cabelo azul? Quando Harry disse que tinha aparecido quase me caguei todo. E Haldon, meu coninhas gelado, também é bom ve-lo. Ainda tem esse pau enfiado pelo cu acima? — virou-se para o Jovem Griff. — E este há de ser...
— O meu escudeiro. Rapaz, este é Franklyn Flowers.
O príncipe cumprimentou-o com um aceno.
— Flowers é um nome de bastardo. Você é da Campina.
— Sim. A minha mãe era lavadeira em Solar de Cidra até que um dos filhos do senhor a violou. Me transforma assim numa espécie de Fossoway da maçã castanha, segundo eu vejo as coisas. — Flowers indicou-lhes com um gesto para atravessarem o portão. — Venha comigo. Strickland chamou todos os oficiais à sua tenda. Conselho de guerra. Os sacanas dos volantenos estão chacoalhando as lanças e exigindo saber quais são as nossas intenções.
Os homens da Companhia Dourada estavam à porta das suas tendas, jogando os dados, bebendo e enxotando moscas. Griff perguntou a si próprio quantos deles saberiam quem ele era. Bem poucos. Doze anos é muito tempo. Até os homens que o tinham acompanhado poderiam não reconhecer o senhor exilado Jon Connington da fogosa barba ruiva na cara enrugada e escanhoada e no cabelo pintado de azul do mercenário Griff. No que tocava à maior parte deles, Connington matou-se de beber em Lys depois de ter sido afastado da companhia em desgraça por ter roubado da arca de guerra. A vergonha da mentira ainda lhe roía as tripas, mas Varys insistiu que era necessária.
— Não queremos canções sobre o galante exilado — disse o eunuco com um risinho sufocado, naquela sua voz afetada. — Aqueles que morrem mortes heróicas são lembrados por muito tempo, ladrões, bêbados e covardes são esquecidos depressa.
Que sabe um eunuco sobre a honra de um homem? Griff aceitou o plano do eunuco pelo bem do rapaz, mas isso não queria dizer que gostasse dele. Permiti que viva o suficiente para ver o rapaz sentado no Trono de Ferro, e Varys pagará por aquela desfeita, e por tantas outras coisas. Depois veremos quem é depressa esquecido.