A tenda do capitão-general era feita de pano de ouro e estava rodeada por um anel de piques rematados por crânios dourados. Um dos crânios era maior do que os outros, grotescamente malformado. Por baixo estava um segundo, que não era maior do que um punho de criança. Maelys, o Monstruoso, e o seu irmão sem nome. Os outros crânios tinham uma mesmice, apesar de vários terem sido rachados e estilhaçados pelos golpes que os tinham matado e de um ostentar dentes aguçados, pontiagudos.
— Qual deles é o Myles? — deu Griff por si perguntando.
— Ali. Na ponta. — Flowers apontou. — Espera. Eu vou lhe anunciar. — Enfiou-se dentro da tenda, deixando Griff contemplando o crânio dourado do seu velho amigo. Em vida, Sor Myles Toyne tinha sido feio como o pecado. O seu famoso antepassado, o escuro e fogoso Terrence Toyne, sobre o qual os cantores cantavam, teve uma cara tão bela que nem a amante do rei conseguiu resistir-lhe, mas Myles foi possuído por orelhas de cântaro, um queixo torto, e o maior nariz que Jon Connington viu na vida. Quando sorria, porém, nada disso importava. Os seus homens tinham-no chamado "Coração Negro", devido ao símbolo no seu escudo. Myles adorara o nome e tudo aquilo que ele sugeria.
— Um capitão-general deve ser temido, tanto pelos amigos como pelos inimigos — confessou uma vez. — Se os homens me julgarem cruel, tanto melhor. — A verdade era outra. Soldado até o osso, Toyne era feroz mas sempre justo, um pai para os seus homens, e sempre generoso com o senhor exilado Jon Connington.
A morte roubou-lhe as orelhas, o nariz e todo o calor. O sorriso permanecia, transformado num reluzente esgar de ouro. Todos os crânios sorriam, até o de Açamargo no alto pique central. Que tem ele que o faça sorrir? Morreu derrotado e sozinho, um homem quebrado numa terra estranha. Sor Aegor Rivers era famoso por ter ordenado aos seus homens, no leito de morte, para lhe limparem o crânio de carne, fervendo-o, para o mergulharem em ouro e para o levarem à sua frente quando atravessassem o mar para reconquistar Westeros. Os seus sucessores tinham-lhe seguido o exemplo.
Jon Connington podia ter sido um desses sucessores, se o seu exílio tivesse corrido de outra forma. Passou cinco anos com a companhia, subindo nas fileiras até um lugar de honra à direita de Toyne. Se tivesse ficado poderia perfeitamente ter sido para ele e não para Harry Strickland que os homens se teriam virado depois de Myles morrer. Mas Griff não se arrependia do caminho que escolheu. Quando eu regressara Westeros não será como crânio no topo de um poste.
Flowers saiu da tenda.
— Entre.
Os oficiais superiores da Companhia Dourada levantaram-se de bancos e cadeiras de acampar quando eles entraram. Velhos amigos cumprimentaram Griff com sorrisos e abraços, os novos homens com mais formalidade. Nem todos estão tão contentes por nos ver como gostariam de me levar a crer. Detectou facas por trás de alguns dos sorrisos. Até muito recentemente, a maioria julgou que o Lorde Jon Connington estava em segurança na sua tumba, e não havia dúvida de que muitos sentiam que esse era um belo local para ele, um homem que podia roubar aos seus irmãos de armas. Griff poderia ter sentido o mesmo se estivesse no lugar deles.
Sor Franklyn fez as apresentações. Alguns dos capitães mercenários ostentavam nomes bastardos, tal como Flowers; Rivers, Hill, Stone. Outros reivindicavam nomes que tinham em tempos agigantado nas histórias dos Sete Reinos; Griff contou dois Strongs, três Peakes, um Mudd, um Mandrake, um Lothston, um par de Coles. Sabia que nem todos eram genuínos. Nas companhias livres um homem podia chamar a si próprio tudo o que quisesse. Qualquer que fossem os nomes, os mercenários mostravam um rude esplendor. Tal como muitos no seu ofício, mantinham as riquezas materiais sobre as suas pessoas; espadas cravejadas de jóias, armaduras com embutidos, pesados torques e sedas finas estavam em grande evidência, e cada homem ali presente usava um resgate de lorde em braçadeiras de ouro. Cada braçadeira significava um ano de serviço com a Companhia Dourada. Marq Mandrake, cuja cara marcada pelas bexigas tinha um buraco numa bochecha onde uma marca de escravo foi queimada, usava também uma corrente de crânios de ouro.
Nem todos os capitães tinham sangue de Westeros. O Balaq Preto, um ilhéu do verão de cabelo branco com uma pele negra como fuligem, comandava os arqueiros da companhia, como nos dias do Coração Negro. Usava um manto de penas, verde e cor de laranja, magnífico de contemplar. O volanteno cadavérico, Gorys Edoryen, substituiu Strickland como tesoureiro. Uma pele de leopardo envolvia-lhe um ombro, e cabelos tão vermelhos como sangue caíam-lhe até os ombros em caracóis oleados, embora a barba pontiaguda fosse preta. O chefe de espionagem era novo para Griff; um liseno chamado Lysono Maar, com olhos lilases, cabelo louro esbranquiçado e lábios que teriam sido a inveja de uma rameira. À primeira vista, Griff quase o confundiu com uma mulher. Tinha as unhas pintadas de púrpura, e dos lóbulos das orelhas pingavam pérolas e ametistas.
Fantasmas e mentirosos, pensou Griff, enquanto examinava as caras deles. Restos de guerras esquecidas, causas perdidas, rebeliões falhas, uma irmandade dos falhados e dos caídos, dos desgraçados e dos deserdados. É este o meu exército. É esta a nossa melhor esperança.
Virou-se para Harry Strickland.
Harry Sem Abrigo pouco se parecia com um guerreiro. Robusto, com uma grande cabeça redonda, brandos olhos cinzentos e um cabelo raleado que ele penteava para o lado a fim de esconder um ponto calvo, Strickland estava sentado numa cadeira de acampar ensopando os pés numa bacia de água salgada.
— Me perdoará se não me levanto — disse, em jeito de saudação. — A nossa marcha foi cansativa, e os meus pés são propensos a ganhar bolhas. É uma maldição.
Ê um sinal de fraqueza. Soa como uma velha. Os Strickland faziam parte da Companhia Dourada desde a sua fundação, depois do bisavô de Harry ter perdido as terras quando se ergueu em armas com o Dragão Negro durante a primeira Rebelião Blackfyre.
— Dourado há quatro gerações — gabava-se Harry, como se quatro gerações de exílio e derrota fossem algo de que se orgulhar.
— Posso fazer-lhe um unguento para isso — disse Haldon — e há certos sais minerais que lhe endurecerão a pele.
— É bondade da sua parte. — Strickland chamou o escudeiro com um gesto. — Watkyn, vinho para os nossos amigos.
— Obrigado, mas não — disse Griff. — Nós beberemos água.
— Como preferir. — O capitão-general ergueu um sorriso para o príncipe. — E esse deve ser o seu filho.
Será que ele sabe? perguntou Griff a si próprio. Quanto lhe disse Myles? Varys foi bem claro quanto à necessidade de segredo. Os planos que ele e Illyrio tinham feito com o Coração Negro tinham sido conhecidos apenas deles. O resto da companhia foi deixada na ignorância. O que não sabiam não podiam deixar escapar.
Esse tempo terminou, porém.
— Nenhum homem poderia pedir um filho mais meritório — disse Griff — mas o rapaz não é do meu sangue e o seu nome não é Griff. Senhores, apresento-lhes Aegon Targaryen, filho primogênito de Rhaegar, Príncipe de Pedra do Dragão, e da Princesa Elia de Dorne... em breve, com a sua ajuda, Aegon, o Sexto do Seu Nome, Rei dos Ândalos, dos Roinares e dos Primeiros Homens e Senhor dos Sete Reinos.
Silêncio recebeu o seu anúncio. Alguém pigarreou. Um dos Cole voltou a encher a taça com vinho tirado do jarro. Gorys Edoryen brincou com um dos seus caracóis espiralados, e murmurou qualquer coisa numa língua que Griff não conhecia. Laswell Peake tossiu, Mandrake e Lothston trocaram um olhar. Eles sabem, compreendeu então Griff. Sempre souberam. Virou-se para Harry Strickland.