— Quando foi que lhes disseram?
O capitão-general torceu os dedos dos pés cheios de bolhas dentro de água.
— Quando chegamos ao rio. A companhia estava desassossegada, e com bons motivos. Tínhamos afastado de uma campanha fácil nas Terras Disputadas, e em troca de quê? Para podermos abafar neste calor horrível e ver as nossas moedas derreter e as nossas lâminas enferrujar, enquanto eu rejeito contratos lucrativos?
Aquela novidade pôs Griff em pele de galinha.
— Quem?
— Os yunkaítas. O emissário que enviaram para persuadir Volantis já despachou três companhias livres para a Baía dos Escravos. Quer que sejamos a quarta, e oferece o dobro do que Myr estava nos pagando, mais um escravo por cada homem da companhia, dez por cada oficial e cem donzelas de primeira categoria, todas para mim.
Maldito inferno.
— Para isso seriam necessários milhares de escravos. Onde esperam os yunkaítas encontrar tantos?
— Em Meereen. — Strickland chamou o escudeiro com um gesto. — Watkyn, uma toalha. Esta água está ficando fria e os meus dedos já se enrugaram como passas. Não, essa toalha não, a suave.
— Você disse-lhe que não — disse Griff.
— Disse-lhe que ia pensar na proposta. — Harry estremeceu quando o escudeiro lhe secou os pés com a toalha. — Cuidado com os dedos. Pensa neles como uvas de pele fina, rapaz. Quer secá-los sem os esmagar. Afaga, não esfregues. Isso, assim. — Voltou a virar-se para Griff. — Uma recusa sem cerimônia teria sido uma insensatez. Os homens teriam todo o direito de perguntar se eu tinha perdido o juízo.
— Terão trabalho para as armas bem depressa.
— Teremos? — perguntou Lysono Maar. — Presumo que saiba que a menina Targaryen não partiu para oeste.
— Ouvimos essa história em Selhorys.
— Não é história. É a simples verdade. O motivo é mais difícil de abarcar. Saquear Meereen, sim, porque não? Eu teria feito o mesmo no lugar dela. As cidades dos escravos fedem a ouro, e a conquista precisa de dinheiro. Mas por quê ficar lá? Medo? Loucura? Preguiça?
— O porquê da coisa não interessa. — Harry Strickland desenrolou um par de meias de lã às riscas. — Ela está em Meereen e nós estamos aqui, onde os volantenos vão ficando todos os dias mais descontentes com a nossa presença. Viemos buscar um rei e uma rainha que nos levassem para casa, em Westeros, mas essa menina Targaryen parece mais interessada em plantar oliveiras do que em reclamar o trono do pai. Entretanto, os inimigos dela reúnem-se. Yunkai, Nova Ghis, Tolos. Barba Sangrenta e o Príncipe Esfarrapado estarão ambos em campo contra ela... e muito em breve as frotas da Velha Volantis também cairão sobre ela. E ela o que tem? Escravos de cama com paus?
— Imaculados — disse Griff. — E dragões.
— Dragões, sim — disse o capitão-general — mas dragões jovens, pouco mais que recém-nascidos. — Strickland envolveu com cuidado as bolhas e o tornozelo com a meia. — Irão valer-lhe de quê quando todos aqueles exércitos se fecharem em volta dela como um punho?
Tristan Rivers tamborilou no joelho com os dedos.
— Mais um motivo para a alcançarmos rapidamente, digo eu. Se Daenerys não quer vir até a gente, temos de até Daenerys.
— Podemos caminhar por sobre as ondas, sor? — perguntou Lysono Maar. — Volto a dizer-lhe, não podemos chegar à rainha de prata por mar. Eu próprio me esgueirei até Volantis, disfarçado de mercador, para saber quantos navios podem estar disponíveis para nós. O porto está repleto de galés, cocas e carracas de todos os tipos e tamanhos, mas mesmo assim depressa dei por mim a me associar a contrabandistas e piratas. Temos dez mil homens na companhia, como tenho a certeza que Lorde Connington recorda dos seus tempos de serviço connosco. Quinhentos cavaleiros, cada um com três cavalos. Quinhentos escudeiros, com uma montaria por cabeça. E elefantes, não nos podemos esquecer dos elefantes. Um navio pirata não seria suficiente. Precisaríamos de uma frota pirata... e mesmo se encontrássemos alguma, chegou da Baía dos Piratas a notícia de que Meereen está sob bloqueio.
— Podíamos fingir aceitar a oferta yunkaita — instou Gorys Edoryen. — Deixar que os yunkaitas nos transportassem para leste, e depois devolver-lhes o ouro sob as muralhas de Meereen.
— Um contrato quebrado já é mácula suficiente na honra da companhia. — O Harry Sem Abrigo Strickland fez uma pausa com o pé coberto de bolhas na mão. — Deixe que lhe lembre de que foi Myles Toyne, não eu, quem pôs o selo neste pacto secreto. Eu honraria este acordo se pudesse, mas como? Parece-me claro que a menina Targaryen nunca virá para oeste. Westeros era o reino do pai. Meereen é o dela. Se conseguir quebrar os yunkaitas será a rainha da Baía dos Piratas. Se não, morrerá muito antes de podermos esperar chegar junto dela.
As palavras dele não foram surpresa para Griff. Harry Strickland sempre foi um homem agradável, melhor elaborando contratos do que desbaratando inimigos. Tinha faro para o ouro, mas se tinha ou não estômago para a batalha era outra questão.
— Há a rota por terra — sugeriu Franklyn Flowers.
— A estrada dos demônios significa a morte. Perderemos metade da companhia por deserção se tentarmos essa marcha, e enterraremos metade daqueles que restarem nas bermas da estrada. Dói-me dizê-lo, mas o Magíster Illyrio e os amigos foram insensatos em depositar tanta esperança nesta rainha criança.
Não, pensou Griff, mas foram muito insensatos em depositar esperança em você.
E então o Príncipe Aegon falou.
— Então deposite as suas esperanças em mim — disse. — Daenerys é irmã do Príncipe Rhaegar, mas eu sou filho de Rhaegar. Sou o único dragão de que precisam.
Griff pôs uma mão enluvada de preto no ombro do Príncipe Aegon.
— Dito com ousadia — disse — mas pensa no que está dizendo.
— Já pensei — insistiu o rapaz. — Porque haverei de ir correndo até minha tia como se fosse um pedinte? A minha pretensão é melhor do que a dela. Ela que venha falar comigo... em Westeros.
Franklyn Flowers riu.
— Gosto disto. Velejar para oeste, não para leste. Deixar a rainhazi- nha com as suas azeitonas e sentar o Príncipe Aegon no Trono de Ferro. O rapaz tem tomates, há que admitir.
A expressão que o capitão-general fez foi como se alguém o tivesse esbofeteado.
— O sol coagulou-lhe os miolos, Flowers? Precisamos da menina. Precisamos do casamento. Se Daenerys aceitar o nosso principezinho e o tomar como consorte, os Sete Reinos farão o mesmo. Sem ela, os senhores irão apenas rir da sua pretensão e chamar-lhe fraude e pretendente. E como é que propõe chegar a Westeros? Ouviu o Lysono. Não há navios para contratar.
Este homem tem medo de combater, compreendeu Griff. Como podem tê-lo escolhido para o lugar do Coração Negro?
— Não há navios para a Baía dos Escravos. Westeros é outra coisa. É o leste que está fechado para nós, não o mar. Não duvido de que os triarcas se sentiriam satisfeitos por nos verem pelas costas. Até poderiam nos ajudar a arranjar passagem de regresso aos Sete Reinos. Nenhuma cidade quer ter um exército à porta.