Os três dorneses deram vivas com todos os outros. O silêncio teria chamado a atenção. Mas quando os Aventados avançaram para norte ao longo da estrada costeira, logo atrás do Barba Sangrenta e da Companhia do Gato, Sapo pôs-se ao lado do Gerrold Dornês.
— Em breve — disse, no idioma comum de Westeros. Havia outros westerosianos na companhia, mas não eram muitos e não estavam por perto. — Precisamos fazê-lo em breve.
— Aqui não — avisou Gerris, com um sorriso vazio de saltimbanco. — Conversamos sobre isso esta noite quando acamparmos.
Eram cem léguas de Astapor a Yunkai pela velha estrada costeira ghiscariota, e mais cinquenta de Yunkai a Meereen. As companhias livres, bem montadas, podiam chegar a Yunkai em seis dias de dura cavalgada, ou em oito a um ritmo mais brando. As legiões de Velha Ghis levariam uma vez e meia esse tempo, marchando a pé, e os yunkaitas e os seus soldados escravos...
— Com os generais que têm é um espanto que não marchem para o mar — disse Feijões.
Aos yunkaitas não faltavam comandantes. Um velho herói chamado Yurkhaz zo Yunzak detinha o comando supremo, embora os homens dos Aventados só o vislumbrassem à distância, a ir e vir num palanquim tão gigantesco que precisava de quarenta escravos para transportá-lo.
Mas não podiam evitar ver os seus subordinados. Os fidalgos yunkaitas andavam por todo lado, como baratas. Metade deles parecia chamar-se Ghazdan, Grazdan, Mazdhan ou Ghaznak; distinguir um nome ghiscari de outro era uma arte que poucos dos Aventados tinham dominado, portanto, atribuíam-lhes nomes trocistas de sua própria invenção.
O primeiro entre eles era o Baleia Amarela, um homem obscenamente gordo que usava sempre tokars de seda amarela com debruns dourados. Pesado demais até para estar em pé sem ajuda, não conseguia reter água, por isso cheirava sempre a mijo, um fedor tão penetrante que nem mesmo perfumes fortes logravam ocultá-lo. Mas dizia-se que ele era o homem mais rico de Yunkai, e tinha uma paixão por aberrações; os seus escravos incluíam um rapaz com as pernas e os cascos de uma cabra, uma mulher barbuda, um monstro de duas cabeças de Mantarys e um hermafrodita que lhe aquecia a cama à noite.
— Caralho e boceta ao mesmo tempo — disse-lhes Dick Straw. — Baleia também era dono de um gigante, gostava de vê-lo foder as escravas. Depois morreu. Ouvi dizer que Baleia dá um saco de ouro por um novo.
Depois havia a General Menina, que andava por aí montada num cavalo branco de crina vermelha e comandava uma centena de robustos soldados escravos que foi ela própria a criar e a treinar, todos eles jovens, esguios, repletos de músculos e nus, à parte as tangas, os mantos amarelos e longos escudos de bronze com embutidos eróticos. A dona não podia ter mais de dezesseis anos e julgava-se a Daenerys Targaryen de Yunkai.
O Pombinho não era propriamente um anão, mas podia passar por um com luz fraca. No entanto, pavoneava-se por todo o lado como se fosse um gigante, com as suas perninhas rechonchudas bem abertas e o peitinho rechonchudo inchado. Os seus soldados eram os mais altos que qualquer dos membros dos Aventados viu na vida; o mais baixo tinha dois metros e dez, o mais alto aproximava-se dos dois metros e quarenta. Todos tinham caras e pernas longas, e as andas acrescentadas às pernas das suas ornamentadas armaduras tornavam-nos ainda mais altos. Escamas esmaltadas de rosa cobriam-lhes os torsos; nas cabeças estavam empoleirados elmos alongados, com bicos pontiagudos de aço e uma crista de oscilantes penas cor-de-rosa. Cada homem usava uma longa espada curva à cintura, e todos traziam na mão lanças tão altas como eles, com lâminas em forma de folha em ambas as extremidades.
— Pombinho cria-os — informou-os Dick Straw. — Compra escravos altos vindos de todo o mundo, acasala os homens com as mulheres, e fica com os descendentes mais altos para as Garças. Tem esperança de um dia poder dispensar as andas.
— Algumas sessões no potro podem acelerar o processo — sugeriu o grandalhão.
Gerris Drinkwater riu.
— Um grupo temível. Nada me assusta mais do que homens de andas com escamas e penas cor-de-rosa. Se um viesse atrás de mim, ria-me tanto que podia largar-me da bexiga.
— Há quem diga que as garças são majestosas — disse o Velho Bill
Bone.
— Só se o seu rei comer rãs em pé numa perna só.
— As garças são covardes — interveio o grandalhão. — Houve uma vez em que eu, Drinque e Cletus estavamos caçando, e deparamos com umas garças andando pelos baixios, a banquetearem-se com girinos e peixes pequenos. Eram bonitas de se ver, sim, mas depois um falcão passou-lhes por cima, e levantaram todas voo como se tivessem visto um dragão. Levantaram tanto vento que me derrubaram do cavalo, mas Cletus encaixou uma seta na corda e abaseu uma. Tinha gosto de pato, mas com menos gordura.
Até o Pombinho e as suas Garças empalideciam ao lado da loucura dos irmãos que os mercenários chamavam os Senhores dos Tinidos. Da última vez que os soldados escravos de Yunkai tinham enfrentado os Imaculados da rainha dos dragões, tinham quebrado e fugido. Os Senhores dos Tinidos haviam concebido um estratagema para prevenir tal coisa; acorrentaram as suas tropas em grupos de dez, pulso com pulso e tornozelo com tornozelo.
— Nenhum dos pobres sacanas pode fugir a não ser que todos eles fujam — explicou Dick Straw, rindo. — E se fugirem todos, não correrão lá muito depressa.
— E também não marcham lá muito depressa, raios os partam — observou Feijões. — Consegue-se ouvi-los tinindo a dez léguas de distância.
Havia mais, quase tão loucos ou mais ainda; Lorde Bochechas de Baloiço, Conquistador Bêbado, Domador, Cara de Pudim, Coelho, Quadrigueiro, Herói Perfumado. Alguns tinham vinte soldados, alguns duzentos ou dois mil, todos escravos que tinham treinado e equipado pessoalmente. Todos eles eram ricos, todos eram arrogantes, e todos eram capitães e comandantes e não respondiam perante ninguém além de Yurkhaz zo Yunzak, todos desdenhavam meros mercenários e eram dados a questiúnculas sobre precedências que eram tão infindáveis como incompreensíveis.
No tempo de que os Aventados precisaram de cavalgar três milhas, os yunkaitas ficaram duas milhas e meia para trás.
— Uma matilha de idiotas amarelos e malcheirosos — protestou Feijões. — Ainda não conseguiram perceber porque foi que os Corvos Tormentosos e os Segundos Filhos se passaram para a rainha dos dragões.
— Por ouro, acham eles — disse Livros. — Porque julga você que nos estão pagando tão bem?
— O ouro é bom, mas a vida é melhor — disse Feijões. — Em Astapor estivemos dançando com aleijados. Quer enfrentar verdadeiros Imaculados com aquele bando ao nosso lado?
— Combatemos Imaculados em Astapor — disse o grandalhão.
— Eu disse verdadeiros Imaculados. Cortar os tomates de um rapazinho qualquer com um cutelo de carniceiro e entregar-lhe um chapéu pontiagudo não faz dele Imaculado. Aquela rainha dos dragões tem o artigo verdadeiro, do tipo que não quebra e foge quando você larga um peido mais ou menos na direção deles.