— Imaculados e também dragões. — Dick Straw deu uma olhadinha ao céu, como se pensasse que a mera menção a dragões podia ser suficiente para fazê-los cair sobre a companhia. — Mantenham as espadas afiadas, rapazes, que vamos ter um combate a sério em breve.
Um combate a sério, pensou Sapo. As palavras ficaram-lhe atravessadas no papo. O combate à sombra das muralhas de Astapor parecera-lhe bastante a sério, embora soubesse que os mercenários pensavam de outro modo.
— Aquilo foi um massacre, não uma batalha — ouvira-se o bardo guerreiro Denzo D'han declarar depois. Denzo era um capitão, e veterano de uma centena de batalhas. A experiência de Sapo limitava-se aos pátios de treinos e aos terrenos de torneios, portanto não lhe parecia que lhe coubesse contestar o veredito de um guerreiro tão experiente.
Mas pareceu uma batalha logo quando começou. Lernbrou-se de como o estômago lhe apertou quando foi acordado com um pontapé, à alvorada, com o grandalhão erguendo-se acima dele.
— Para dentro da armadura, dorminhoco — trovejou. — O Carniceiro vem nos dar batalha. A pé, a menos que queira ser a carne dele.
— O Rei Carniceiro está morto — protestou Sapo com sonolência. Era essa a história que todos tinham ouvido ao saírem dos navios que os tinham trazido até ali de Velha Volantis. Um segundo Rei Cleon tomou a coroa e morreu também, supostamente, e agora os astapori eram governados por uma rameira e por um barbeiro louco, cujos seguidores andavam lutando uns com os outros pelo controle da cidade.
— Talvez tenham mentido — replicou o grandalhão. — Ou então este é outro carniceiro qualquer. Pode ser o primeiro retornando aos gritos da tumba para matar uns quantos yunkaitas. Não interessa pra nada, Sapo. Enfia-se na armadura. — Na tenda dormiam dez homens e todos estavam já de pé por aquela hora, enfiando-se em calças e em botas pondo longos brigões de cota de malha sobre os ombros, afivelando placas de peito, apertando correias em manoplas ou braçais, agarrando em elmos, escudos e cinturões da espada. Gerris, rápido como sempre, foi o primeiro a ficar totalmente equipado, com o Arch logo atrás. Juntos ajudaram Quentyn a envergar a sua armadura.
A trezentos metros de distância, os novos Imaculados de Astapor tinharn jorrado dos portões, formando em fileiras à sombra das arruinadas muralhas de tijolo vermelho da sua cidade, com a luz da aurora reluzindo nos seus capacetes de bronze com espigões e nas pontas das suas longas lanças.
Os três dorneses saíram juntos da tenda para irem se juntar aos combatentes que corriam para as linhas de cavalos. Batalha. Quentyn treinou com lança, espada e escudo desde que teve idade suficiente para caminhar, mas isso agora não queria dizer nada. Guerreiro, dê-me coragem, rezou Sapo, enquanto tambores batiam à distância, BUM bum BUM bum BUM bum. O grandalhão indicou-lhe o Rei Carniceiro, sentado rígido e alto em cima de um cavalo couraçado com uma armadura de escamas de cobre que relampejavam brilhantemente ao sol da manhã. Lembrava-se de Gerris deslizando para perto logo antes de a luta começar.
— Fique junto de Arch, aconteça o que acontecer. Lembra-se, é o único de nós que pode ficar com a menina. — Por aquela hora, os astapori já avançavam.
Morto ou vivo, o Rei Carniceiro apanhou na mesma os Sábios Mestres de surpresa. Os yunkaitas ainda andavam correndo de um lado para o outro enfiados em tokars esvoaçantes, tentando organizar os seus soldados escravos semitreinados em algo que se assemelhasse a ordem, quando as lanças dos Imaculados lhes trespassaram com estrondo as linhas de cerco. Se não fossem os aliados e os desprezados soldados contratados, podiam perfeitamente ter sido derrotados, mas os Aventados e a Companhia do Gato puseram-se a cavalo em minutos, e caíram trovejando sobre os flancos dos astapori enquanto uma legião de Nova Ghis avançava através do acampamento yunkaita, vinda do outro lado, e enfrentava os Imaculados lança contra lança e escudo contra escudo.
O resto foi carnificina, mas daquela vez foi o Rei Carniceiro a estar do lado errado do cutelo. Foi Caggo quem finalmente o abateu, ultrapassando os protetores do rei no seu monstruoso cavalo de batalha e abrindo Cleon, o Grande, do ombro à cintura com um golpe do seu curvo arakh valiriano. Sapo não o viu, mas aqueles que viram afirmavam que a armadura de cobre de Cleon se rasgou como seda, e de dentro saiu um fedor horrível e uma centena de vermes contorcendo-se. Cleon afinal estava morto. Os desesperados astapori tinham-no tirado da tumba, tinham-no enfiado numa armadura e tinham-no atado a um cavalo, na esperança de dar coragem aos seus Imaculados.
A queda do Cleon morto pôs fim a isso. Os novos Imaculados jogaram fora as lanças e os escudos e fugiram, apenas para irem encontrar os portões de Astapor fechados atrás deles. Sapo fez a sua parte no massacre que se seguiu, atropelando os assustados eunucos com os outros Aventados. Cavalgou bem junto da anca do grandalhão, golpeando à esquerda e à direita enquanto a cunha penetrava nos Imaculados como a ponta de uma lança. Quando saíram pelo outro lado, o Príncipe Esfarrapado os fez dar meia volta e levou-os a mergulhar outra vez nas fileiras. Fora só no regresso que Sapo olhou bem para as caras que estavam por baixo dos capacetes de bronze com espigão e percebeu de que a maioria não era mais velha do que ele. Rapazes verdes gritando pelas mães, pensou, mas matou-os na mesma. Quando abandonou o campo de batalha tinha a espada vermelha de sangue escorrendo e o braço tão cansado que quase não conseguia erguê-lo.
E, no entanto, aquilo não foi um verdadeiro combate, pensou. O verdadeiro combate estará conosco em breve, e temos de partir antes de ele chegar; senão daremos por nós combatendo do lado errado.
Naquela noite, os Aventados montaram o acampamento junto à costa da Baía dos Escravos. Sapo ficou com o primeiro turno de vigia e foi-lhe ordenado que guardasse as linhas de cavalos. Gerris foi lá falar com ele logo depois do pôr-do-sol, enquanto uma meia Lua brilhava nas águas.
— O grandalhão também devia estar aqui — disse Quentyn.
— Ele foi à procura do Velho Bill Bone para perder o resto da sua prata — disse Gerris. — Deixe-o fora disso. Ele fará o que nós dissermos, embora não vá gostar muito disso.
— Pois não. — Havia muito naquilo de que o próprio Quentyn não gostava. Viajar num navio superlotado, atirado de um lado para o outro pelo vento e pelo mar, comendo pão duro repleto de gorgulhos e bebendo negro rum de marinheiro até perder os sentidos, dormindo em pilhas de palha mofada com o fedor de estranhos nas narinas... tudo isso já esperava quando pôs a sua marca naquele pedaço de pergaminho em Volantis, prometendo ao Príncipe Esfarrapado a sua espada e serviço durante um ano. Havia que suportar dificuldades, aquilo de que são feitas todas as aventuras.
Mas o que tinha de acontecer em seguida era clara traição. Os yunkaitas tinham-nos trazido de Velha Volantis para combater pela Cidade Amarela, mas agora os dorneses pretendiam virar as casacas e passarem para o outro lado. Isso também significava abandonar os seus novos irmãos-de-armas. Os Aventados não eram o tipo de companheiros que Quentyn teria escolhido, mas atravessou o mar com eles, partilhou a sua comida e bebida, combateu ao seu lado, trocou histórias com os poucos cuja fala entendia. E se todas as suas histórias eram mentiras, bem, esse era o preço da passagem para Meereen.