Não é aquilo em que chamaria honroso, avisou Gerris lá na Casa dos Mercadores.
— Daenerys pode já estar a meio caminho de Yunkai agora, com um exército atrás — disse Quentyn enquanto caminhavam por entre os cavalos.
— Pode estar — disse Gerris — mas não está. Já antes ouvimos dessas conversas. Os astapori estavam convencidos de que Daenerys vinha para sul com os seus dragões para quebrar o cerco. Ela não veio, e não virá agora.
— Não podemos saber isso, pelo menos não podemos ter certeza. Temos de escapulir antes de acabarmos combatendo a mulher que eu fui enviado para cortejar.
— Espera até Yunkai. — Gerris indicou as colinas com um gesto. — Estas terras pertencem aos yunkaitas. Não é provável que alguém queira alimentar ou dar abrigo a três desertores. Ao norte de Yunkai é terra de ninguém.
Ele não se enganava. Mesmo assim, Quentyn sentiu-se inquieto.
— O grandalhão fez muitos amigos. Sabe que o plano sempre foi escapulirmos e alcançarmos Daenerys, mas não se sentirá bem por abandonarmos os homens com quem combaseu. Se esperarmos muito, vai parecer que estamos a abandoná-los na véspera da batalha. Ele nunca fará isso. Conhece-o tão bem como eu.
— É deserção, façamos quando o fizermos — argumentou Gerris — e o Príncipe Esfarrapado vê desertores com maus olhos. Vai mandar caçadores atrás de nós, e os Sete nos protejam se nos apanharem. Se tivermos sorte, cortam-nos só um pé para terem a certeza de que nunca mais fugimos. Se não tivermos sorte, dão-nos à Linda Meris.
Aquela última ideia fez Quentyn vacilar. A Linda Meris assustava-o. Uma mulher de Westeros, mas mais alta do que ele, só um pouco abaixo do metro e oitenta. Após vinte anos entre as companhias livres nada havia nela de lindo, por dentro ou por fora.
Gerris pegou-lhe no braço.
— Espere. Mais alguns dias, só isso. Atravessamos metade do mundo, seja paciente durante mais algumas léguas. Em algum lugar ao norte de Yunkai, chegará a nossa oportunidade.
— Se assim o diz — disse Sapo em tom de dúvida...
... Mas por uma vez os deuses estavam à escuta, e a oportunidade deles chegou muito mais cedo do que isso.
Foi dois dias mais tarde. Hugh Hungerford refreou o cavalo junto da fogueira deles e disse:
— Dornês. Querem-no na tenda de comando.
— Qual de nós? — perguntou Gerris. — Somos todos dorneses.
— Então é todos. — Amargo e sombrio, com uma mão estropiada, Hungerford foi durante algum tempo o tesoureiro da companhia até que o Príncipe Esfarrapado o apanhou roubando dos cofres e removeu três dos seus dedos. Agora era só um sargento.
O que pode ser isto? Até àquele momento, Sapo não fazia a mínima ideia de que o comandante soubesse que estava vivo. Hungerford já se foi embora, contudo, portanto não havia tempo para perguntas. Tudo o que podiam fazer era ir buscar o grandalhão e apresentarem-se conforme ordenado.
— Não admita nada e estejam preparados para lutar — disse Quentyn aos amigos.
— Eu estou sempre preparado para lutar — disse o grandalhão.
O grande pavilhão de lona cinzenta em que o Príncipe Esfarrapado gostava de chamar o seu castelo de tela estava repleto de gente quando os dorneses chegaram. Quentyn precisou apenas de um momento para perceber de que a maior parte dos homens ali reunidos provinham dos Sete Reinos, ou se gabavam de possuir sangue de Westeros. Exilados ou filhos de exilados. Dick Straw afirmava que havia três vintenas de homens de Westeros na companhia; um bom terço deles encontrava-se ali, incluindo o próprio Dick, Hugh Hungerford, a Linda Meris e o louro Lewis Lanster, o melhor arqueiro da companhia.
Denzo D'han também se encontrava lá, com Caggo, enorme, ao seu lado. Os homens andavam agora lhe chamando "Caggo Mata-Cadáveres," embora não na sua frente; era rápido a se enfurecer, e aquela sua espada curva e negra era tão perigosa como o seu dono. Havia centenas de espadas longas valirianas no mundo, mas só uma mancheia de arakhs valirianos. Nem Caggo nem D'han eram de Westeros, mas ambos eram capitães, e ocupavam posições elevadas na estima do Príncipe Esfarrapado. O braço direito dele e o esquerdo. Prepara-se alguma coisa de grande.
Foi o próprio Príncipe Esfarrapado que falou.
— Chegaram ordens de Yurkhaz — disse. — Os astapori que ainda sobrevivem saíram engatinhando das suas tocas, ao que parece. Nada resta em Astapor além de cadáveres, portanto, estão jorrando para o campo, às centenas, talvez aos milhares, todos esfomeados e doentes. Os yunkaitas não os querem perto da sua Cidade Amarela. Foram-nos dadas ordens para os caçarmos e afastarmos, para os empurrarmos de volta para Astapor ou para norte, para Meereen. Se a rainha dos dragões quiser acolhê-los, que lhe façam bom proveito. Metade deles tem a fluxão sangrenta, e mesmo os saudáveis são bocas a alimentar.
— Yunkai fica mais perto do que Meereen — objetou Hugh Hungerford. — E se eles não quiserem ser afastados, senhor?
— É por isso que você têm espadas e lanças, Hugh. Embora arcos talvez lhe servisse melhor. Fique bem longe dos que mostram sinais da fluxão. Vou mandar metade das nossas forças para as colinas. Cinquenta patrulhas, de vinte cavaleiros cada. Barba Sangrenta tem as mesmas ordens, e os Gatos também vão estar em campo.
Olhares cruzados percorreram os homens, e alguns resmungaram em surdina. Embora os Aventados e a Companhia do Gato estivessem ambos sob contrato com Yunkai, um ano antes, nas Terras Disputadas, tinham estado em lados opostos das linhas de batalha, e ainda continuava existindo inimizade. Barba Sangrenta, o selvagem comandante dos Gatos, era um trovejante gigante com um feroz apetite para o massacre que não fazia segredo do seu desdém por “velhos grisalhos em farrapos”.
Dick Straw pigarreou.
— Com a sua licença, mas nós aqui nascemos todos nos Sete Reinos. O senhor nunca tinha dividido a companhia por sangue ou por língua. Por quê mandar o nosso grupo junto?
— Justa questão. Vocês devem cavalgar para leste, penetrando profundamente nas colinas, e depois dar uma volta larga em torno de Yunkai, dirigindo-se para Meereen. Se encontrarem alguns astapori, empurre-os para norte ou mate-os... mas fiquem sabendo que não é esse o objetivo da sua missão. Para lá da Cidade Amarela é provável que encontre as patrulhas da rainha dos dragões. Segundos Filhos ou Corvos Tormentosos. Ambos servirão. Passem para o lado deles.
— Passarmos para o lado deles? — disse o cavaleiro bastardo, Sor Orson Stone. — Quer que viremos os mantos?
— Quero — disse o Príncipe Esfarrapado.
Quentyn Martell quase soltou uma gargalhada. Os deuses são loucos.
Os westerosianos mexeram-se, constrangidos. Alguns fitaram as taças de vinho, como se esperassem encontrar aí alguma sabedoria. Hugh Hungerford franziu as sobrancelhas.
— Acha que a Rainha Daenerys nos acolherá...
— Acho.
— ... Mas se acolher o que fazemos? Somos espiões? Assassinos? Emissários? Está pensando em mudar de lado?
Caggo franziu a carranca.
— Essa decisão cabe ao príncipe, Hungerford. A sua parte é fazer o que lhe é dito.
— Sempre. — Hungerford ergueu a mão de dois dedos.
— Sejamos francos — disse Denzo D'han, o bardo guerreiro. — Os yunkaitas não inspiram confiança. Seja qual for o resultado dessa guerra, os Aventados devem obter parte dos despojos da vitória. O nosso príncipe é sensato em manter todas as estradas abertas.