— Minha querida senhora — murmurou ele depois, numa voz ainda empastelada pelo sono. — Minha querida rainha.
Não, pensou Asha, eu não sou rainha nenhuma nem nunca serei.
— Volte a dormir. — Beijou-lhe a cara, atravessou descalça o quarto de Galbart Glover e abriu as janelas. A Lua estava quase cheia, a noite tão límpida que conseguia ver as montanhas, os seus picos coroados de neve. Frias, ermas e inóspitas, mas belas ao luar. Os cumes reluziam, pálidos e denteados como uma fileira de dentes aguçados. Os sopés e os picos mais baixos estavam perdidos na sombra.
O mar estava mais próximo, apenas a cinco léguas para norte, mas Asha não conseguia vê-lo. Havia muitas colinas no caminho. E árvores, tantas árvores. Os nortenhos chamavam à floresta mata dos lobos.
Na maioria das noites conseguia ouvir os lobos, a chamarem-se uns aos outros na escuridão. Um oceano de folhas. Bom seria se fosse um oceano de água.
Bosque Profundo podia ficar mais perto do mar do que Winterfell, mas ainda ficava longe demais para o seu gosto. O ar cheirava a pinheiros em vez de sal. A nordeste daquelas sombrias montanhas cinzentas ficava a Muralha, onde Stannis Baratheon içara os seus estandartes. O inimigo do meu inimigo é meu amigo, diziam os homens, mas o outro lado dessa moeda era: o inimigo do meu amigo é meu inimigo. Os nascidos no ferro eram os inimigos dos senhores nortenhos de que aquele pretendente Baratheon necessitava desesperadamente. Podia oferecer-lhe o meu belo e jovem corpo, pensou, afastando uma madeixa dos olhos, mas Stannis era casado e ela também, e ele e os nascidos no ferro eram velhos inimigos. Durante a primeira rebelião do pai, Stannis esmagara a Frota de Ferro ao largo da Ilha Bela e subjugara Grande Wyk em nome do irmão.
As muralhas cobertas de musgo de Bosque Profundo cercavam uma colina larga e arredondada com um cume achatado, coroado por um cavernoso palácio com uma torre de vigia numa das pontas, erguendo-se quinze metros acima da colina. Por baixo da colina ficava o cercado exterior com os seus estábulos, cercado para cavalos, ferreiro, poço e curral, defendido por uma profunda vala, um dique inclinado de terra e uma paliçada de troncos de árvore. As defesas exteriores formavam uma oval, seguindo os contornos do terreno. Havia dois portões, cada um protegido por um par de torres quadradas de madeira, e com passadiços ao longo do perímetro. No lado sul do castelo, o musgo crescia denso em cima da paliçada e trepava até metade da altura das torres. Para leste e oeste havia campos vazios. Cevada e centeio cresciam aí quando Asha capturara o castelo, apenas para serem esmagados sob o seu ataque. Uma série de duras geadas tinha matado as colheitas que haviam plantado depois, deixando apenas lama e cinzas e caules murchos e apodrecidos.
Era um castelo antigo, mas não um castelo forte. Ela capturara-o aos Glover, e o Bastardo de Bolton o capturará dela. Mas não a esfolaria. Asha Greyjoy não tencionava ser capturada viva. Morreria como vivera, de machado na mão e com uma gargalhada nos lábios.
O senhor seu pai dera-lhe trinta dracares para capturar Bosque Profundo. Restavam quatro, contando com o seu Vento Negro, e um deles pertencia a Tris Botley, que se juntara a ela quando todos os seus outros homens estavam fugindo. Não. Isto não é justo. Eles velejaram para casa para prestar fidelidade ao seu rei. Se alguém fugiu, fui eu. A memória ainda a envergonhava.
— Vá — instigara o Leitor, enquanto os capitães carregavam com o seu tio Euron pela colina de Nagga abaixo a fim de lhe pôr na cabeça a coroa de madeira trazida pelo mar.
— Diz o corvo ao melro. Venha comigo. Preciso de você para recrutar os homens de Harlaw. — Nessa altura pretendia lutar.
— Os homens de Harlaw estão aqui. Aqueles que contam. Alguns estavam gritando o nome de Euron. Não vou pôr Harlaw contra Harlaw.
— Euron é louco. E perigoso. Aquele corno do inferno...
— Eu ouvi-o. Vai, Asha. Depois de Euron ser coroado, irá à sua procura. Não se atreva a deixar que o seu olho caia sobre você.
— Se eu resistir com os meus outros tios...
— ... Morrerão proscritos, com todas as mãos contra vocês. Quando pôs o seu nome à consideração dos capitães, submeseu-se ao seu julgamento. Não pode se revoltar agora contra esse julgamento. Só por uma vez foi derrubada a escolha de uma assembleia de homens livres. Lê Haereg.
Só Rodrik, o Leitor, falaria de um livro antigo qualquer quando as suas vidas se equilibravam no gume de uma espada.
— Se você vai ficar, eu também ficarei.
— Não seja palerma. Esta noite Euron mostra ao mundo o seu olho sorridente, mas ao chegar a manhã... Asha, você é filha de Balon, e a sua pretensão ao trono é mais forte do que a dele. Enquanto respirar, continua sendo um perigo para ele. Se ficar será morta, ou casada com o Remador Vermelho. Não sei o que seria pior. Vai. Nunca voltará a ter uma oportunidade.
Asha dera o Vento Negro à costa do outro lado da ilha, precisamente para tal eventualidade. Velha Wyk não era grande. Podia estar a bordo do seu navio antes de o Sol nascer, a caminho de Harlaw antes de Euron perceber que ela desaparecera. Mas hesitara, até que o tio dissera:
— Faça pelo amor que sente por mim, filha. Não me obrigue a lhe ver morrer.
Portanto ela partira. Primeiro para Dez Torres, para dizer adeus à mãe.
— Pode passar-se muito tempo até que eu regresse — prevenira Asha. A Senhora Alannys não compreendera.
— Onde está o Theon? — perguntara. — Onde está o meu bebezinho? — a Senhora Gwynesse só quisera saber quando regressaria o Lorde Rodrik.
— Sou sete anos mais velha do que ele. Dez Torres devia ser meu.
Asha ainda estava em Dez Torres embarcando provisões quando lhe chegaram notícias do seu casamento.
— A minha sobrinha desobediente precisa de ser domada — constava que o Olho de Corvo dissera — e eu conheço o homem capaz de domá-la. — Casara-a com Erik Ferreiro e nomeara o Quebra-Bigornas para governar as Ilhas de Ferro enquanto ele perseguia dragões. Erik foi um grande homem nos seus tempos, um destemido saqueador que podia se gabar de ter velejado com o avô do avô dela, o mesmo Dagon Greyjoy em honra do qual Dagon, o Bêbado, fora batizado. As velhas da Ilha Bela ainda assustavam os netos com histórias sobre Lorde Dagon e os seus homens. Feri o orgulho de Erik na assembleia dos homens livres, refletiu Asha. Não é provável que ele o esqueça.
Tinha de prestar ao tio a justa homenagem. De uma penada, Euron transformara um rival em apoiante e afastara Asha enquanto ameaça. E desfrutou também de uma bela gargalhada. Tris Botley dizia que o Olho de Corvo usara uma foca para representá-la no casamento.
— Espero que Erik não tenha insistido numa consumação — dissera ela.
Não posso ir para casa, pensou, mas não me atrevo a ficar aqui muito mais tempo. A quietude da floresta a enervava. Asha passara a vida em ilhas e em navios. O mar nunca estava em silêncio. O som das vagas batendo numa costa rochosa estava-lhe no sangue, mas não havia vagas em Bosque Profundo... só as árvores, as infindáveis árvores, pinheiros marciais e árvores sentinela, faias, freixos e antigos carvalhos, castanheiros e pau-ferro e abetos. O som que as árvores faziam era mais suave do que o mar, e ela só o ouvia quando o vento soprava; então, os suspiros pareciam vir de todos os lados, como se as árvores estivessem murmurando umas com as outras em alguma língua que Asha não conseguia compreender.