Naquela noite, os murmúrios pareciam mais sonoros do que antes. Uma torrente de folhas mortas e castanhas, disse Asha a si própria, ramos nus a ranger ao vento. Afastou-se da janela, afastando-se da floresta. Preciso de voltar a ter um convés debaixo dos pés. Ou, à falta disso, alguma comida na barriga.
O luar estava suficientemente brilhante para encontrar a roupa. Vestiu espessas calças pretas, uma túnica acolchoada e um justilho de couro verde coberto de placas sobrepostas de aço. Deixando Qarl com os seus sonhos, desceu a escada exterior da torre, fazendo ranger os degraus sob os pés descalços. Um dos homens que estava de sentinela nas muralhas viu-a fazer a descida e ergueu a lança na sua direção. Asha respondeu-lhe com um assobio. Enquanto atravessava o pátio interior até às cozinhas, os cães de Galbart Glover puseram-se a ladrar. Ótimo, pensou. Vão submergir o som das árvores.
Estava cortando uma cunha de queijo amarelo de uma rodela tão grande como uma roda de carroça quando Tris Botley entrou na cozinha, envolto num grosso manto de pele.
— Minha rainha.
— Não goze comigo.
— Você irá sempre governar o meu coração. Nenhuma quantidade de palermas gritando numa assembleia de homens livres pode alterar isso.
O que vou fazer com este rapaz? Asha não podia duvidar da devoção dele. Não só se apresentara como seu campeão na colina de Nagga e gritara o seu nome, como até atravessara o mar para se juntar a ela depois, abandonando rei, família e lar. Não que se tenha atrevido a desafiar Euron na sua cara. Quando o Olho de Corvo levara a frota para o mar, Tris deixara-se simplesmente ficar para trás, só mudando de rumo quando perdera de vista os outros navios. Mas mesmo isso requeria uma certa coragem; nunca mais poderia regressar às ilhas.
— Queijo? — perguntou-lhe. — Também há presunto e mostarda.
— Não é comida que eu quero, senhora. Sabe disso. — Tris deixara crescer uma espessa barba castanha em Bosque Profundo. Afirmava que o ajudava a manter a cara quente. — Vi-a da torre de vigia.
— Se está de turno, o que estás você fazendo aqui?
— Cromm está lá em cima, com Hagen, o Corno. De quantos olhos precisamos para ver folhas restolhar ao luar? Temos de conversar.
— Outra vez? — suspirou. — Conhece a filha de Hagen, a do cabelo ruivo. Conduz um navio tão bem como qualquer homem, e tem uma cara bonita. Dezessete anos, e a vi a olhar para você.
— Não quero a filha de Hagen. — Quase tocou-a, antes de pensar melhor. — Asha, é tempo de partir. Fosso Cailin era a única coisa retendo a maré. Se permanecermos aqui, os nortenhos nos matarão a todos, sabe disso.
— Quer que eu fuja?
— Quero que viva. Amo-a.
Não, pensou ela, amas uma donzela inocente que vive apenas na sua cabeça, uma criança assustada necessitada da sua proteção.
— Eu não te amo — disse, sem rodeios — e não fujo.
— O que há aqui para você agarrar com tanta força além de pinheiros, lama e inimigos? Temos os nossos navios. Parta comigo, e arranjaremos novas vidas no mar.
— Como piratas? — era quase tentador. Deixar os lobos recuperar as suas florestas sombrias e voltar a conquistar o mar aberto.
— Como mercadores — insistiu ele. — Viajaremos para leste como o Olho de Corvo fez, mas regressaremos com sedas e especiarias em vez de um chifre de dragão. Uma viagem ao Mar de Jade e ficaremos ricos como deuses. Podemos arranjar uma mansão em Vilavelha ou em alguma das Cidades Livres.
— Você, eu e Qarl? — Viu-o estremecer quando mencionou o nome de Qarl. — A filha de Hagen talvez goste de percorrer o Mar de Jade contigo. Eu continuo a ser a filha da lula gigante. O meu lugar é...
— ... Onde? Não podemos voltar às ilhas. A menos que pretenda submeter-se ao senhor seu esposo.
Asha tentou imaginar-se na cama com Erik Ferreiro, esmagada sob o seu volume, sofrendo os seus abraços. Antes ele do que o Remador Vermelho ou o Lucas Mão-Esquerda Codd. O Quebra-Bigornas tinha sido em tempos um gigante trovejante, de terrível força e feroz lealdade, e totalmente desprovido de medo. Pode não ser assim tão mal. É provável que ele morra da primeira vez que tente cumprir o seu dever de marido. Isso a transformaria na viúva de Erik em vez de mulher de Erik, o que podia ser melhor ou bastante pior, dependendo dos netos dele. E do meu tio. No fim, todos os ventos me sopram outra vez para Euron.
— Tenho reféns, em Harlaw — fez notar ao rapaz. — E ainda há a Ponta do Dragão Marinho... se não posso ficar com o reino do meu pai, porque não arranjar um meu? — a Ponta do Dragão Marinho nem sempre foi tão escassamente povoada como era agora. Ainda se encontravam velhas ruínas entre os seus montes e pauis, os restos de antigas fortalezas dos Primeiros Homens. Nos lugares elevados havia círculos de represeiros deixados pelos filhos da floresta.
— Está agarrar-se à Ponta do Dragão Marinho como um homem a afogar-se se agarra a um destroço. O que tem o Dragão Marinho que alguém queira? Não há minas, não há ouro, não há prata, nem sequer há estanho ou ferro. A terra é muito úmida para trigo ou milho.
Não planejo plantar trigo ou milho.
— O que há lá? Eu digo-lhe. Duas longas linhas de costa, uma centena de angras escondidas, lontras nos lagos, salmão nos rios, mexilhões ao longo da costa, colônias de focas ao largo, grandes pinheiros para construir navios.
— E quem construirá esses navios, minha rainha? Onde irá Vossa Graça encontrar súditos para o seu reino, se os nortenhos nos deixarem ficar com ele? Ou será que pretende governar um reino de focas e lontras?
Ela soltou uma gargalhada triste.
— Lontras talvez sejam mais fáceis de governar do que homens, admito. E as focas são mais espertas. Não, pode ser que tenha razão. A minha melhor opção talvez ainda seja regressar a Pyke. Há em Harlaw quem acolheria bem o meu regresso. Em Pyke também. E Euron não conquistou amigos em Blacktyde quando matou o Lorde Baelor. Podia encontrar o meu tio Aeron, revoltar as ilhas. — Ninguém viu o Cabelo-Molhado desde a assembleia de homens livres, mas os seus Afogados afirmavam que estava escondido em Grande Wyk e que avançaria em breve para fazer cair a ira do Deus Afogado sobre o Olho de Corvo e os seus lacaios.
— O Quebra-Bigornas também anda à procura do Cabelo-Molhado. Anda caçando os Afogados. O Beron Cego Blacktyde foi capturado e interrogado. Até à Velha Gaivota Cinzenta foram dadas grilhetas. Como irá você encontrar o sacerdote se todos os homens de Euron não conseguem?
— Ele é do meu sangue. Irmão do meu pai. — Era uma resposta débil, e Asha sabia.
— Sabe o que eu penso?
— Estou prestes a ficar sabendo, suspeito.
— Penso que Cabelo-Molhado está morto. Penso que o Olho de Corvo lhe rasgou a goela. A busca do Ferreiro é só para nos levar a crer que o sacerdote escapou. Euron tem medo de ser visto como assassino de parentes.
— Nunca deixe o meu tio lhe ouvir dizer isso. Se disser ao Olho de Corvo que tem medo de matar parentes, ele assassinará um dos seus próprios filhos só para provar que não tens razão. — Asha estava sentindo-se quase sóbria por aquela hora. Tristifer Botley tinha aquele efeito sobre ela.