— Às muralhas — disse Asha Greyjoy aos seus homens. Virou os passos para a torre de vigia, com Tris Botley logo atrás.
A torre de vigia de madeira era a coisa mais elevada daquele lado das montanhas, erguendo-se seis metros acima das maiores sentinelas e pinheiros marciais na floresta circundante.
— Ali, capitã — disse Cromm, quando ela chegou à plataforma. Asha só viu árvores e sombras, as colinas iluminadas pelo luar e os picos cobertos de neve mais atrás. Depois percebeu de que as árvores estavam se aproximando.
— O-ho — riu — aquelas cabras montesas esconderam-se com ramos de pinheiro. — A floresta estava em movimento, aproximando-se do castelo como uma lenta maré verde. Recordou-se de uma história que ouvira quando criança, sobre os filhos da floresta e as suas batalhas com os Primeiros Homens, quando os videntes verdes transformavam as árvores em guerreiros.
— Não podemos combater tantos — disse Tris Botley.
— Podemos combater tantos quantos vierem, cachorrinho — insistiu Cromm. — Quanto mais eles forem, maior será a glória. Os homens cantarão sobre nós.
Sim, mas cantarão sobre a sua coragem ou sobre a minha loucura? O mar ficava a cinco longas léguas de distância. Fariam melhor em resistir e lutar por trás das profundas valas e muralhas de madeira de Bosque Profundo? As muralhas de madeira de Bosque Profundo pouco ajudaram os Glover quando eu tomei o seu castelo, recordou. Porque haveriam de me ser mais úteis a mim?
— Ao chegar a manhã, nos banquetearemos debaixo do mar. — Cromm afagou o machado como se não conseguisse esperar.
Hagen baixou o chifre.
— Se morrermos com os pés secos, como é que encontramos o caminho até aos salões aquáticos do Deus Afogado?
— Estes bosques estão cheios de pequenos riachos — assegurou-lhe Cromm. — Todos eles levam a rios, e todos os rios ao mar.
Asha não estava pronta para morrer, não ali, ainda não.
— Um homem vivo pode encontrar o mar mais facilmente do que um morto. Os lobos que fiquem com a sua floresta sombria. Vamos nos dirigir para os navios.
Perguntou-se quem estaria no comando do inimigo. Se fosse eu, tomaria a costa e passaria os nossos dracares pelo archote antes de atacar Bosque Profundo. Mas os lobos não achariam isso fácil sem disporem de dracares seus. Asha nunca encalhava mais de metade dos seus navios. A outra metade estava em segurança no mar, com ordens para içar a vela e rumar à Ponta do Dragão Marinho se os nortenhos tomassem a costa.
— Hagen, sopra o corno e faz tremer a floresta. Tris, vista cota de malha, está na altura de por à prova essa sua linda espada. — Como viu como ele estava pálido, deu-lhe um beliscão na bochecha. — Esparrinha comigo algum sangue sobre a Lua e prometo-lhe um beijo por cada morte.
— Minha rainha — disse Tristifer — aqui temos as muralhas, mas se alcançarmos o mar e descobrirmos que os lobos conquistaram os nossos navios ou os afastaram...
— ... Morreremos — concluiu ela em tom alegre — mas pelo menos morreremos com os pés molhados. Os nascidos no ferro combatem melhor com maresia nas narinas e o som das ondas atrás de si.
Hagen soltou três curtos sopros em rápida sucessão, o sinal que enviaria os nascidos no ferro de volta para os navios. De baixo vieram gritos, o tinir de lanças e espadas, o relinchar de cavalos. Cavalos a menos e cavaleiros a menos. Asha dirigiu-se para a escada. No cercado foi encontrar Qarl, o Donzel, à espera com a sua égua cor de avelã, com o seu elmo, e com os seus machados de arremesso. Homens de ferro estavam tirando cavalos dos estábulos de Galbart Glover.
— Um aríete — gritou uma voz das muralhas. — Eles têm um aríete!
— Em que portão? — perguntou Asha enquanto montava.
— No norte! — vindo de trás das muralhas de madeira cobertas de musgo de Bosque Profundo soou o súbito som de trombetas.
Trombetas? Lobos com trombetas? Aquilo estava errado, mas Asha não tinha tempo para pensar no assunto.
— Abra o portão sul — ordenou, no instante em que o portão norte estremecia com o impacto do aríete. Puxou um machado de arremesso de cabo curto do cinturão que tinha ao ombro. — A hora da coruja fugiu, irmão. Agora chega a hora da lança, da espada, do machado. Formação. Vamos para casa.
De uma centena de gargantas saíram rugidos de "Casa/" e "Asha” Tris Botley veio a galope até junto dela num grande garanhão ruão. No cercado, os seus homens juntaram-se, erguendo escudos e lanças. Qarl, o Donzel, que nada tinha de cavaleiro, ocupou o seu lugar entre o Linguatriste e Lorren Longaxe. Estava Hagen descendo a escada da torre de vigia quando uma seta dos lobos o apanhou na barriga e o fez mergulhar de cabeça até ao chão. A filha correu para ele, chorando.
— Tragam-na — ordenou Asha. Aquele não era momento para luto. Rolfe, o Anão, puxou a menina para cima do seu cavalo, fazendo esvoaçar o seu cabelo ruivo. Asha ouviu o portão norte gemendo quando o aríete voltou a colidir com ele. Talvez vamos precisar de abrir caminho através deles, pensou quando o portão sul se escancarou na sua frente. O caminho estava livre. Por quanto tempo?
— Para fora! — Asha encostou os calcanhares aos flancos do cavalo.
Homens e montarias trotavam quando chegaram às árvores do outro lado do campo ensopado onde caules mortos de trigo de inverno apodreciam sob a Lua. Asha reteve os cavaleiros no fim da coluna, como retaguarda, a fim de manter os retardatários em movimento e se assegurar de que ninguém era deixado para trás. Grandes pinheiros marciais e velhos carvalhos nodosos fecharam-se à volta deles. Bosque Profundo tinha um nome adequado. As árvores eram enormes e escuras, de certa forma ameaçadoras. Os seus ramos entrelaçavam-se uns aos outros e rangiam a cada aragem de vento, e os ramos mais elevados arranhavam a face da Lua. Quanto mais depressa nos virmos livres disto, mais contente ficarei, pensou Asha. As árvores odeiam-nos a todos, nas profundezas dos seus corações de madeira.
Continuaram a avançar para sul-sudoeste até deixarem de ver as torres de madeira de Bosque Profundo e os sons das trombetas serem engolidos pela floresta. Os lobos têm o seu castelo de volta, pensou, talvez se contentem em deixar-nos ir.
Tris Botley aproximou-se dela a trote.
— Vamos na direção errada — disse, indicando com um gesto a Lua que espreitava através'da abóbada de ramos. — Precisamos de virar para norte, para chegarmos aos navios.
— Primeiro para oeste — insistiu Asha. — Para oeste até o Sol nascer. Depois para norte. — Virou-se para Rolfe, o Anão, e para Roggon Barba- ferrugenta, os seus melhores cavaleiros. — Batam o terreno em frente e asse- gurem-se de que o nosso caminho está livre. Não quero surpresas quando chegarmos à costa. Se encontrarem lobos, voltem para junto de mim com essa informação.
— Se tiver de ser — promeseu Roggon através da sua enorme barba ruiva.
Depois dos batedores desaparecerem entre as árvores, o resto dos nascidos no ferro reatou a marcha, mas o avanço era lento. As árvores escondiam deles a Lua e as estrelas, e o solo da floresta sob os seus pés era negro e traiçoeiro. Antes de avançarem meia milha, a égua do seu primo Quenton tropeçou numa cova e estilhaçou a pata da frente. Quenton teve de cortar a garganta ao animal para impedi-lo de gritar.