Deveríamos fazer archotes — sugeriu Tris.
— Fogo fará os nortenhos cair sobre nós. — Asha soltou uma praga na surdina, perguntando-se abandonar o castelo teria sido um erro. Não. Se tivéssemos ficado e lutado, podíamos estar todos mortos por esta hora. Mas andar aos tropeções na escuridão também não seria. Estas árvores nos matarão, se puderem. Tirou o elmo e puxou para trás o cabelo ensopado em suor. — O Sol nascerá dentro de algumas horas. Paramos aqui, e descansamos até ao romper do dia.
Parar mostrou ser fácil; o descanso chegou com dificuldade. Ninguém dormiu, nem mesmo o Dale Pendedelas, um remador que se tornara conhecido por adormecer entre remadas. Alguns dos homens partilharam um odre do vinho de maçã de Galbart Glover, passando-o de mão em mão. Aqueles que tinham trazido comida partilharam-na com os que não o haviam feito. Os cavaleiros alimentaram os cavalos e deram-lhes de beber. O seu primo Quenton Greyjoy mandou três homens subir às árvores, para procurar qualquer sinais de archotes na floresta. Cromm afiou o machado e Qarl, o Donzel, a espada. Os cavalos mastigaram erva morta e castanha e ervas daninhas. A filha ruiva de Hagen pegou na mão de Tris Botley para levá-lo para as árvores. Quando ele a recusou, foi com Harl Seis-Dedos.
Bem gostaria de poder fazer o mesmo. Seria bom perder-se nos braços de Qarl uma última vez. Asha tinha uma sensação ruim na barriga. Alguma vez voltaria a sentir o convés do Vento Negro por baixo dos seus pés? E se sentisse, para onde rumaria com ele? As ilhas me estão fechadas, a menos que queira dobrar os joelhos e abrir as pernas e aguentar os abraços de Erik Ferreiro, e não é provável que algum porto em Westeros acolha a filha da lula gigante. Podia tornar-se mercadora, como Tris parecia querer, ou então dirigir-se para os Degraus e juntar-se lá aos piratas. Ou...
— Envio a cada um de vocês um bocado de príncipe — murmurou.
Qarl fez um sorriso.
— Preferia ter um bocado de ti — sussurrou — o doce bocado que está...
Algo voou dos arbustos para ir aterrar com um ruído surdo entre eles, saltando e ressaltando. A coisa era redonda, escura e úmida, com longos cabelos que lançavam chicotadas enquanto rolava. Quando parou entre as raízes de um carvalho, o Linguatriste disse:
— Rolfe, o Anão, já não é tão alto como foi um dia. — Metade dos homens de Asha já estava de pé a essa altura, estendendo as mãos para escudos, lanças e machados. Eles também não acenderam archotes, teve Asha tempo para pensar, e conhecem esta floresta melhor do que nós algum dia poderíamos conhecer. Depois as árvores entraram em erupção a toda a volta, e os nortenhos jorraram delas aos uivos. Lobos, pensou, eles uivam como o raio dos lobos. O grito de guerra do Norte. Os seus nascidos no ferro gritaram-lhes de volta e o combate teve início.
Nunca nenhum cantor faria uma canção sobre aquela batalha. Nunca nenhum meistre escreveria um relato para um dos amados livros do Leitor. Nenhum estandarte voou, nenhum corno de guerra gemeu, nenhum grande senhor reuniu os homens à sua volta para ouvirem as suas últimas palavras ressonantes. Combateram na escuridão que antecedia a aurora, sombra contra sombra, tropeçando em raízes e pedras, com lama e folhas putrefatas debaixo dos pés. Os nascidos no ferro estavam vestidos de cota de malha e couro manchado pelo sal, os nortenhos de peles e ramos de pinheiro. A Lua e as estrelas desciam os olhos para o combate, filtrando a sua luz pálida no emaranhado de ramos nus que se retorciam por cima das cabeças dos homens.
O primeiro homem a vir ao encontro de Asha Greyjoy morreu a seus pés com o machado de arremesso dela espetado entre os olhos. Isso deu-lhe suficiente folga para enfiar o escudo no braço.
— A mim! — gritou, mas Asha não poderia ter dito com certeza se estava gritando aos seus homens ou aos inimigos. Um nortenho com um machado ergueu-se na sua frente, brandindo a arma com ambas as mãos enquanto uivava numa fúria inarticulada. Asha ergueu o escudo para bloquear o golpe, após o que se aproximou para espetá-lo com o punhal. Os uivos do homem tomaram outro tom quando ele caiu. Asha girou sobre si, descobriu outro lobo atrás de si, e golpeou-o na testa por baixo do elmo. O golpe que ele dera apanhou-a abaixo do peito, mas a cota de malha defletiu-o, de modo que ela lhe enfiou a ponta do punhal na garganta e deixou-o a afogar-se no próprio sangue. Uma mão pegou-lhe no cabelo mas, curto como este era, o homem não conseguiu agarrar suficientemente bem para a obrigar a virar a cabeça. Asha atirou-lhe o calcanhar contra o peito do pé, e soltou-se quando ele gritou de dor. Quando se virou, o homem estava caído e morrendo, ainda agarrado a uma mecha do seu cabelo. Qarl estava em cima dele, com a espada pingando e o luar brilhando-lhe nos olhos.
O Linguatriste ia contando os nortenhos à medida que os matava, gritando "Quatro" quando um caiu e "Cinco" um segundo mais tarde. Os cavalos berravam e escoiceavam e rolavam os olhos de terror, enlouquecidos pela carnificina e pelo sangue... todos menos o grande garanhão ruão de Tris Botley. Tris subira para a sela e a sua montaria estava empinando e girando enquanto ele golpeava em volta com a espada. Talvez lhe deva dois ou três beijos antes de a noite acabar, pensou Asha.
— Sete — gritou Linguatriste, mas a seu lado Lorren Longaxe es- tatelou-se com uma perna torcida debaixo de si e as sombras continuaram a vir, gritando e restolhando. Estamos combatendo arbustos, pensou Asha enquanto matava um homem que tinha em si mais folhas do que a maior parte das árvores em redor. Isso a fez rir. A gargalhada atraiu mais lobos para ela, e também os matou, perguntando-se deveria dar início a uma contagem sua. Sou uma mulher casada, e aqui está o meu bebê de peito. Enterrou o punhal no peito de um nortenho, através de pele, lã e couro fervido. A cara dele estava tão próxima da dela que sentia o fedor amargo do seu hálito, e a mão do homem subira-lhe à garganta. Asha sentiu ferro a raspar em osso quando a ponta do punhal deslizou sobre uma costela. Depois, o homem estremeceu e morreu. Quando o largou estava tão fraca que quase caiu em cima dele.
Mais tarde, viu-se costas contra costas com Qarl, escutando os gemidos e pragas a toda a sua volta, ouvindo os homens corajosos que gatinhavam pelas sombras chorando pelas mães. Um arbusto arremeseu contra ela com uma lança suficientemente longa para lhe atravessar a barriga e também as costas de Qarl, prendendo-os um ao outro enquanto morriam. Antes isso do que morrer sozinha, pensou, mas o primo Quenton matou o lanceiro antes de chegar a ela. Um segundo mais tarde, outro arbusto matou Quenton, enfiando-Ihe um machado na base do crânio, por trás.
Atrás dela, o Linguatriste gritou:
— Nove e malditos sejam todos. — A filha de Hagen saltou nua de debaixo das árvores com dois lobos em sua perseguição. Asha soltou um machado de arremesso e o fez voar, rodopiando, para apanhar um deles nas costas. Quando o homem caiu, a filha de Hagen tropeçou e caiu de joelhos e agarrou na espada dele, atravessou o segundo homem e depois voltou a erguer-se, manchada de sangue e de lama, com o longo cabelo ruivo solto, e mergulhou na luta.
Em Algum lugar, nos avanços e recuos da batalha, Asha perdeu Qarl, perdeu Tris, perdeu-os todos. O seu punhal também se fora, bem como todos os machados de arremesso; em vez deles, tinha uma espada na mão, uma espada curta com uma lâmina larga e espessa, quase como o cutelo de um magarefe. Nem para salvar a vida saberia dizer onde a arranjara. Doía-lhe o braço, a boca sabia-lhe a sangue, tinha as pernas tremendo, e colunas da luz pálida da aurora estavam caindo por entre as árvores. Passou-se assim tanto tempo? Há quanto tempo estamos lutando?