O seu último inimigo foi um nortenho com um machado, um homem grande, careca e barbudo, vestido com um Camisa de cota de malha remendada e enferrujada que só podia querer dizer que era um chefe ou um capitão. Não ficou satisfeito por descobrir-se combatendo uma mulher.
— Puta! — rugia de todas as vezes que a golpeava, umedecendo-lhe a cara com cuspe. — Puta! Puta!
Asha queria gritar-lhe de volta, mas tinha a garganta tão seca que não podia fazer mais do que grunhir. O machado dele estava-lhe fazendo tremer o escudo, fazendo estalar a madeira quando o brandia para baixo, arrancando longas lascas claras quando o puxava de volta. Em breve, Asha teria apenas um emaranhado de acendalhas no braço. Recuou e libertou-se do escudo arruinado e depois recuou um pouco mais e dançou para a esquerda e para a direita e de novo para a esquerda, a fim de evitar o machado que caía sobre ela.
E então, as suas costas colidiram com força com uma árvore, e deixou de conseguir dançar. O lobo ergueu o machado acima da cabeça para lhe abrir a cabeça em duas. Asha tentou deslizar para a esquerda, mas os pés estavam emaranhados numas raízes, encurralando-a. Torceu-se, perdeu o equilíbrio, e a cabeça do machado esmagou-se contra a sua têmpora com um grito de aço a bater em aço. O mundo ficou vermelho e negro e de novo vermelho. Dor estalou-lhe na pele como um relâmpago e muito ao longe ouviu o seu nortenho dizer:
— Sua puta de merda — enquanto erguia o machado para o golpe que acabaria com ela.
Soou uma trombeta.
Isto está errado, pensou. Não há trombetas nos salões aquáticos do Deus Afogado. Sob as vagas, os bacalhaus saúdam o seu senhor soprando em conchas.
Sonhou com corações vermelhos ardendo e com um veado negro numa floresta dourada, com chamas jorrando das suas hastes.
TYRION
Quando chegaram a Volantis, o céu estava purpúreo a oeste e negro a leste, e as estrelas começavam a surgir. As mesmas estrelas de Westeros, refletiu Tyrion Lannister.
Podia ter obtido disso algum conforto, se não estivesse amarrado como um ganso e atado firmemente a uma sela. Já desistira de se contorcer. Os nós que o prendiam estavam muito apertados. Em vez disso, pusera-se flácido como um saco de farinha. A poupar as forças, dizia a si próprio, embora não pudesse explicar para quê.
Volantis fechava os portões ao escurecer, e os guardas no portão norte estavam resmungando impacientemente com os retardatários. Juntaram-se à fila atrás de uma carroça carregada de limas e laranjas. Os guardas deixaram a carroça passar acenando-lhe com os archotes, mas examinaram melhor o grande ândalo no seu cavalo de guerra com a espada longa e a sua cota de malha. Foi chamado um capitão. Enquanto ele e o cavaleiro trocavam algumas palavras em volanteno, um dos guardas descalçou a manopla provida de garras para dar uma esfregadela à cabeça de Tyrion.
— Estou cheio de boa fortuna — disse-lhe o anão. — Corta-me as amarras, amigo, e tratarei de que seja bem recompensado.
O seu captor ouviu-o.
— Poupa as suas mentiras para aqueles que falam a sua língua, Duende — disse, quando os volantenos os mandaram passar.
Em seguida, puseram-se de novo em movimento, atravessando o portão e passando por baixo das enormes muralhas da cidade.
— Você fala a minha língua. Posso desencaminha-lo com promessas, ou está decidido a comprar uma senhoria com a minha cabeça?
— Eu era um senhor, por direito de nascença. Não quero títulos vazios.
— Isso é tudo o que é provável que obtenha da minha querida irmã.
— E eu que tinha ouvido dizer que um Lannister paga sempre as suas dívidas.
— Oh, cada dinheiro... mas nunca um tostão a mais, senhor. Obterá a refeição que negociar, mas não trará molho de gratidão, e no fim de contas não lhe nutrirá.
— Pode ser que eu só queira ver-te pagar pelos seus crimes. O assassino de parentes é maldito aos olhos dos deuses e dos homens.
— Os deuses são cegos. E os homens só veem o que querem ver.
— Eu vejo-te com bastante clareza, Duende. — Algo negro esgueirou-se para o tom do cavaleiro. — Fiz coisas de que não me orgulho, coisas que trouxeram a vergonha à minha casa e ao nome do meu pai... mas matar o próprio pai? Como é possível que algum homem faça tal coisa?
— Dê-me uma besta e baixe as calças que eu te mostro. — De bom grado.
— Julga que isto é uma brincadeira?
— Julgo que a vida é uma brincadeira. A sua, a minha, a de toda a gente.
No interior das muralhas da cidade passaram por sedes de guildas, mercados e banhos públicos. Fontanários esparrinhavam e cantavam no centro de vastas praças, onde os homens se sentavam em mesas de pedra, movendo peças de cyvasse e bebendo vinho de copos de vidro, altos e estreitos, enquanto escravos acendiam ornamentadas lanternas para manter a escuridão afastada. Palmeiras e cedros cresciam ao longo da estrada empedrada, e monumentos erguiam-se em todas as encruzilhadas. O anão reparou que a muitas das estátuas faltavam cabeças, mas mesmo sem cabeças ainda conseguiam parecer imponentes no ocaso purpúreo.
À medida que o cavalo de batalha foi caminhando para sul ao longo do rio, as lojas foram-se tornando menores e pobres, e as árvores ao longo da rua transformaram-se numa fileira de tocos. O empedrado cedeu lugar a relva sob os cascos do cavalo, e depois a lama mole e úmida da cor dos dejetos de um bebê. As pequenas pontes sobre os riachos que alimentavam o Roine rangiam de forma alarmante sob o peso deles. Onde um forte um dia dominara o rio encontrava-se agora um portão quebrado, escancarado como a boca desdentada de um velho. Vislumbravam-se cabras espreitando por cima dos baluartes.
Velha Volantis, primeira filha de Valíria, matutou o anão. Orgulhosa Volantis, rainha do Roine e senhora do Mar do Verão, lar de nobres senhores e adoráveis senhoras do mais antigo dos sangues. E deixemos de lado as matilhas de crianças nuas que corriam as vielas gritando em vozes estridentes, ou os espadachins à porta das tabernas afagando os cabos das espadas, ou os escravos de costas dobradas e caras tatuadas que corriam por todo o lado como baratas. Poderosa Volantisy a mais grandiosa e populosa das Nove Cidades Livres. Antigas guerras tinham despovoado boa parte da cidade, porém, e grandes áreas de Volantis tinham começado a afundar-se de novo na lama sobre a qual se erguiam. Bela Volantisy cidade de fontanários e flores. Mas metade dos fontanários estavam secos, metade das piscinas estavam estaladas e estagnadas. Trepadeiras em flor projetavam gavinhas de cada rachadura nas paredes ou pavimentos, e jovens árvores tinham criado raízes nas paredes de lojas abandonadas ou de templos sem telhados.
E depois havia o cheiro. Pairava no ar quente e úmido, forte, fétido, penetrante. Há nele peixe e flores, e também alguma bosta de elefante. Algo doce e algo terroso e algo morto e podre.
— Esta cidade cheira como uma velha rameira — anunciou Tyrion. — Como uma desmazelada de carnes descaídas que tivesse ensopado as partes pudendas em perfume para afogar o fedor entre as pernas. Não que esteja me queixando. Com rameiras, as novas cheiram muito melhor, mas as velhas conhecem mais truques.